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Mês: outubro 2017

A maldição do filho dourado

O filho dourado é o escolhido da mãe narcisista como “favorito”. Trata-se daquela criança considerada “a melhor” de todas e, por esta razão, é protegida, favorecida e usada frequentemente como o seu instrumento de triangulação. Embora em um grande número de famílias regidas pela tirania narcisista revele-se ser extremamente fácil apontar a criança dourada, em algumas este processo não é tão óbvio. Há situações em que o papel de criança dourada não é fixo, mas passa de um filho para outro de acordo com a conveniência da mãe narcisista, pois tudo depende do seu interesse do momento e de quem seja capaz ou esteja desesperado o suficiente em sacrificar-se para atendê-lo – ao que me refiro como “leilão emocional” em meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas.

A maldição do filho dourado

Mesmo sem perceber, a criança dourada paga um preço altíssimo pelo favoritismo narcisista

Tipicamente, no entanto, a criança dourada tende a ser o filho de sexo masculino. Psicologicamente, associo esta tendência ao autodesprezo da mãe narcisista. Visto que a filha é uma extensão de si mesma e funciona como o espelho refletor de sua própria imagem, é tratada com o mesmo repúdio e ódio que a mãe narcisista cultiva pela sua própria pessoa. Se a mãe narcisista fosse capaz de amar e aceitar a si mesma ou reconhecer a filha como um indivíduo e entidade independente, essa tendência não seria tão predominante.

Independentemente do contexto ou explicação para esta atitude imatura, incoerente e disfuncional, a noção de que o favoritismo da mãe narcisista é algo benéfico para a criança dourada pode até fazer sentido em teoria, mas, na prática, revela-se seguidamente como um comportamento prejudicial ao crescimento e desenvolvimento pessoal do “escolhido”. O que se observa nas famílias disfuncionais de minhas clientes é que a esmagadora maioria dos filhos dourados que recebem tratamento especial das mães narcisistas tornam-se adultos imaturos e irresponsáveis, além de exibirem problemas sérios de autoestima, autorregulação emocional e relacionamentos. Muitos não têm ocupação, mudam de emprego com grande frequência e dependem financeiramente da mãe, embora tenham idade suficiente para se sustentarem. No lado amoroso, também não são bem-sucedidos ou têm o hábito de se envolverem em relacionamentos dramáticos e caóticos. Já como irmãos, os filhos dourados tendem a ser egoístas, frios, distantes e até agressivos fisicamente quando contrariados. Quando não são narcisistas como a mãe, também agem de forma apática e indiferente ao abuso do qual são testemunha e defendem a atitude da mãe mesmo que não seja abertamente.

Os fatos mencionados me permitem concluir que a influência direta que a mãe narcisista exerce no filho dourado também é nociva e, por vezes, tão tóxica quanto a que exerce no filho bode expiatório ou “ovelha negra”. Mesmo sem perceber, a criança dourada paga um preço altíssimo pelo favoritismo narcisista, o qual deve ser aceito até quando não é solicitado. Enquanto que o abuso e o efeito tóxico narcisista são muito mais evidentes nos demais filhos, a predileção da mãe narcisista pelo filho dourado é erroneamente concebida por todos como benéfica, pois vem disfarçada de amor materno. Somente quando o filho dourado não consegue comportar-se de forma adulta e competente é que se compreende como a educação narcisista foi falha em prepará-lo para a vida e ajudá-lo a tornar-se um indivíduo autônomo e sensato. A maldição do filho dourado é mais uma prova de que uma mãe narcisista – inclusive quando parece comportar-se como mãe – não é uma interferência saudável na vida de nenhum dos filhos.

Se necessita de ajuda para registrar a perda da “mãe” no sentido afetivo da palavra, recomendo o meu curso online, “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá como reconectar-se com o corpo e a fazer o luto da mãe narcisista de forma saudável.

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