3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima

3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima
A superidentificação com o papel de vítima faz com que se esqueça que tem o poder de dizer não ao abuso

É terrível, cruel e desesperador sofrer abuso da própria mãe, além de ser solitário e doloroso não contar com o apoio emocional dos responsáveis pelos próprios cuidados quando se é criança, vulnerável e dependente. Sobretudo, é injusto ter o seu desenvolvimento prejudicado e a visão de mundo corrompida por uma mãe egoísta e transtornada que nunca é devidamente considerada responsável pelo mau que causa aos filhos. Embora tudo isso seja a mais pura verdade e reflita a história dos filhos e filhas de mães narcisistas, não precisam pensarem, comportarem-se e sentirem-se como uma vítima para o resto de suas vidas. Quando este é o caso, no entanto, a superidentificação com o papel de vítima faz com que se concebam, exclusiva e excessivamente, através deste ângulo e “esqueçam” que, como adultos, são capazes e têm o poder de dizer não ao abuso e viver uma vida realizadora. Para ser relembrada da própria força e ajudá-la a pensar e agir como uma sobrevivente, destacam-se 3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima:

1- A sua motivação de vida é o “tenho que”: desde o momento em que acorda até quando volta para a cama, o seu dia-a-dia é recheado de tarefas e obrigações que “têm que” cumprir. Quase nada do que faz é tratado como uma escolha, mas como uma obrigação, já que pensa e age como se fosse impotente e uma vítima das próprias circunstâncias. Apesar da vida, por vezes, exigir sacrifício e esforço, a sua existência é regida por supostas “necessidades” que são, aparentemente, criadas fora de você ou lhe foram impostas. Aí, você indaga, “mas eu tenho que escovar os dentes todas as manhãs, da mesma forma que também tenho que trabalhar para pagar as contas, já que os meus dentes não se limpam sozinhos e o dinheiro não nasce em árvore!”. Correto, concordo. Contudo, manter os dentes limpos e as contas em dia permanecem escolhas suas. Mesmo sendo mãe e responsável por outras vidas, agir de forma responsável também é uma escolha sua (pergunte a sua mãe narcisista!). Na realidade, a maior parte do que fazemos e, de certa forma, do que acontece em nossas vidas, também é uma consequência direta ou indireta das nossas escolhas, sejam feitas de forma consciente ou não.

2- Você tem uma baixa tolerância ao desconforto: por que algumas pessoas conseguem se controlar e não comer, beber ou comprar em excesso, por exemplo, enquanto outras têm tanta dificuldade? Há inúmeras razões que explicam os diferentes comportamentos humanos, já que somos seres complexos e únicos, o que torna impossível responder esta pergunta sem conhecer o indivíduo em questão, bem como a sua história pessoal. Uma característica universal de todos os sobreviventes de abuso e demais pessoas que conseguem implementar mudanças positivas em suas vidas e libertarem-se dos hábitos que não os favorecem, no entanto, é a habilidade de tolerar o desconforto, ou “sair da zona de conforto”. Embora tenda a ser extremamente custoso para as vítimas do trauma do desenvolvimento, tais como os filhos e filhas de mães narcisistas, não adotarem comportamentos autodestrutivos e que lhes proporcionem gratificação imediata, já que exibem uma dificuldade de regulação emocional, quando se esforçam em tolerar o desconforto proveniente de dizer não, resistir à pressão e tentação, agir de forma autêntica ou se afastarem  de pessoas tóxicas, por exemplo, as recompensas pessoais tendem a ser incríveis a longo prazo. Para aqueles que desejam quebrar o ciclo do abuso e viver uma vida autônoma e realizadora, é fundamental que estejam dispostos a se sentirem mal antes de se sentirem bem.

3- Você se afunda na autopiedade: enquanto reconhece o valor de sentir pena de si mesmo, já que é essencial no período de luto, além de refletir uma atitude complacente, tolerante e empática em relação a si, não é um recurso psicológico que deva ser usado em demasia. A vítima abusa deste recurso quando o usa com grande frequência e no lugar da autoconsciência. Na prática, isso acontece quando se concentra mais em sentir-se mal do que em questionar as circunstâncias de seu infortúnio e a sua participação, direta ou indireta, no decorrer dos eventos que o ocasionaram. Desta forma, perpetua esse estado convencendo-se de que é impotente, através da recusa de analisar o papel que o pensamento e comportamento exercem na própria existência. Portanto, se você dedica grande parte do tempo a reclamar da vida, mas nunca reflete sobre a função que exerce nela ou toma responsabilidade pelos próprios atos (ou ausência destes), está agindo como uma vítima. Embora sofrer com os maus-tratos de uma família abusiva, assim como não ter o seu sofrimento validado seja uma grande injustiça, forçar-se a manter-se eternamente endividada a esta, além de ficar presa à identidade de vítima e atitude passiva enquanto aguarda ser resgatada é uma atitude de sabotagem e negligência com a própria felicidade.

Caso tenha se identificado com o relatado e deseje mudar este cenário e adotar uma mentalidade de sobrevivente, recomendo o seguinte:

1- Use o “quero” no lugar do “tenho que”: quem é o agente da própria felicidade faz, predominantemente, o que quer e não o que “deve”. Se a sua rotina está repleta de atividades que se vê forçada a fazer, mas não se identifica, está na hora de reavaliar o seu propósito. Na minha experiência, contudo, é a mentalidade de vitimização e não necessariamente a qualidade do ato em si que define o efeito que tem em você. Passe a ver o mundo como um resultado das suas escolhas e diga para si mesma: “Eu quero ir trabalhar”, “Eu quero limpar a casa”, “Eu quero estudar”, por exemplo, em vez de “tenho que”, afinal de contas, correspondem ao que escolheu para si.

2- Aumente a tolerância ao desconforto: se ainda está aqui e conquistou tudo que tem após anos de abuso narcisista, significa que é muito resiliente. Portanto, é competente e tem a capacidade de implementar mudanças positivas em sua vida, apesar das adversidades. Não desista e aprenda a tolerar o desconforto que provém de se engajar em comportamentos produtivos e funcionais que a removem da zona de conforto e a catapultam ao sucesso pessoal, como dizer não ao que e a quem lhe faz mal. Faça um investimento a longo prazo em si mesma e passe a se tratar bem e agir com a autoestima. Você é merecedora do seu amor-próprio.

3- Redirecione o foco da sua atenção para dentro e não fora de si: em vez de passar horas tentando entender porque os seus familiares, “amigos” e vizinhos não conseguem nem estão dispostos a reconhecer o mal causado a você, pense no que você pode fazer para melhorar a sua qualidade de vida e estimular o seu bem-estar e crescimento pessoal. Chegou a hora de parar de depender dos outros para sentir-se bem e dar sentido a sua vida. Liberte-se da escravidão da aprovação alheia, das garras da culpa e vergonha e retome o controle sobre o próprio corpo e destino.