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A mania de grandeza na filha de mãe narcisista: a pior e a melhor em tudo

Se você já possui certo conhecimento e experiência com o narcisismo, seja de forma direta como filho(a) de uma mãe ou pai narcisista, seja indireta como terapeuta de um(a), compreende como a mania de grandeza influencia o comportamento destes tipos de genitores. Trata-se de uma das características mais facilmente associadas ao narcisismo estereotipado ou àquele indivíduo arrogante e inseguro que usa o que é belo, caro e sofisticado, por exemplo, assim como tudo o que lhe confira poder, influência e status, tais como: títulos, aparência pessoal, sucesso profissional, financeiro e acadêmico etc. como suprimento para criar um falso senso de identidade, autoestima e bem-estar  (para um estudo mais aprofundado da mania de grandeza na mãe narcisista, recomendo a leitura do capitulo “1.7 A mania de grandeza” do meu primeiro livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas).   

A mania de grandeza na filha de mãe narcisista a pior e a melhor de tudo
Exagerar o valor de suas habilidades, aparência ou conquistas ou nutrir uma percepção pessoal negativa também é mania de grandeza

Embora a mania de grandeza e a necessidade patológica de se destacar sejam evidentes nos comportamentos narcisistas mencionados, não se limita a quem o possua, pois a mania de grandeza surge da ênfase do que é extremo e, portanto, qualquer um pode manifestá-la para exagerar a importância ou o valor de algo, seja para um nível alto ou baixo. Desta forma, tanto a filha de mãe narcisista quanto a genitora podem exibir comportamentos condizentes com a mania de grandeza quando, por exemplo, exageram o valor de suas habilidades, aparência ou conquistas ou nutrem uma percepção pessoal negativa. Em ambos os casos, o indivíduo não consegue obter um senso de bem-estar através de uma autoimagem realista e equilibrada, mas realça qualidades ou defeitos que supõe possuir para adquirir um senso de relevância e “amor-próprio” deturpados.

Isso se torna claro na sala de terapia quando os meus clientes, filhos de pais e mães tóxicos/narcisistas/abusivos/emocionalmente negligentes gravitam entre “a melhor” e “a pior” versão de si próprios no decorrer do processo de autoexploração e conhecimento ou na fase inicial de reorganização de sua narrativa pessoal. O relato do(a) cliente bem-sucedido(a) profissional e financeiramente, por exemplo, que não consegue ver-se além de seu peso e feitos incríveis de forma íntegra e centrada não se diferencia daquele(a) que quando pergunto, “Me conta algo sobre você” e define-se – exclusivamente – através de uma longa lista de eventos traumáticos, problemas catastróficos e diagnósticos terríveis. Vale lembrar que ter o sofrimento validado com empatia no contexto terapêutico é, sem dúvida, importante para lidar com os efeitos do trauma, contudo, é igualmente importante se reconhecer como filho(a) de mãe narcisista. Dessa maneira, há probabilidade do pensamento e comportamento estarem sendo guiados pela mania de grandeza herdada da educação tóxica, o que corrompe a autopercepção ao mesmo tempo em que pode impedir o indivíduo de se conceber de modo saudável e realizar-se como pessoa.        

Caso tenha se identificado, recomendo aumentar a autoconsciência e monitorar ativamente a tendência de formular uma visão própria demasiadamente tendenciosa – seja para o negativo ou positivo – como se houvesse algo de errado em ser simplesmente você, excluindo as ações extraordinárias e os superlativos. Celebre a sua humanidade através da prática de ver-se como uma mistura maravilhosa de adjetivos e cores variadas ou como uma linda pintura que, apesar de inacabada, bela e falha, exibe riqueza e complexidade únicas.    

4 comments

  1. Lucia Jardim disse:

    Me identifiquei completamente ! Antes de descobrir que era filha de mãe narcisista eu era prepotente, egoísta, porém de uma forma aparente pq no meu íntimo sempre me senti indigna, fraca, triste, sofria ataques de pânico terríveis. Hoje ainda não consegui me estruturar pq ainda vivo em cativeiro e é sempre um movimento de subir um degrau e descer dois.

  2. Srimati devi dasi disse:

    Percebi, pela terapia, como filha de mãe narcisista, essa tendência de exagerar em algumas atividades ou habilidades, ou sentir-me e agir, como a “pior das piores”.
    Estou atenta pra deixar de agir assim

  3. Ivanora Cordeiro (Ivi) disse:

    Hoje eu entendo que tudo o que acontece em minha vida é consequência de não ter uma mãe normal, que ama sua filha. A rejeição materna é uma das piores dores que um ser humano pode sentir na pele. Sei, atualmente, que fui colocada em situações perversas ao longo da minha vida, pelo maquiavelismo da minha própria mãe.
    A mania de grandeza, é um sinal que serve de alerta aos que convivem com pessoas assim. Eu sou um instrumento de manipulação dela, que não me dava valor na intimidade; mas, ao mesmo tempo, suponho que ela me exaltava para outras pessoas .
    E mesmo aos 89 anos , ela ainda manipula e consegue aliados facilmente; porque agora ela tem a idade avançada a favor dela.
    Hoje sou consciente da minha situação. O conhecimento do trauma facilita a sua independência.

  4. Dani disse:

    Sempre me senti inadequada, como se estivesse “fora do mundo”. Mesmo conquistando uma carreira e uma vida estruturada, me tornando um adulto responsável e correto, me sentia inútil, fracassada, incompetente, mirava somente meus defeitos, me auto sabotava constantemente e me criticava duramente.
    Até que uma situação difícil envolvendo meus pais, se repetiu por várias vezes, a mais recente nesta semana, e comecei a questionar o que precisava aprender com isso. Comecei a perceber um padrão, queria de todas as formas provar para os meus pais narcisistas(agora tenho consciência disso) que eu era uma pessoa de valor e merecia a atenção e o amor deles. E criava situações difíceis para mim mesma e pedia ajuda deles numa tentativa de reverter essa imagem deles, mas sempre, sem sucesso. E ao mesmo tempo, criando essas situações eu estava validando(ou honrando) aquela imagem de filha problema, ovelha negra, fracassada e incompetente que foi sendo construída desde a minha infância.
    Agora tudo está mais claro, tudo faz sentido. Até então não conhecia essa teoria do narcisismo dos pais e através dessa dor vivida, pude buscar o entendimento e a consciência e assim, me libertar dessa memória que me prendia e impedia de buscar minha felicidade e liberdade. Sei que não é do dia para noite que isso irá mudar, mas sei que estou no caminho.
    Gratidão a Michele por esse site maravilhoso e esclarecedor! Com certeza, foi um grande apoio nesse momento. Bjus!
    *Perdão pelo texto longo 🙂

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