Autor: Michele Engelke

A ilusão de conexão na família disfuncional: a “união” através da culpa

Para quem pertence a um sistema familiar disfuncional ou tóxico, é comum sentir-se impotente, sentir que não é visto, ouvido e percebido, como explico no meu novo livro Descontruíndo a família disfuncional. Enquanto pais maduros emocionalmente cultivam uma dinâmica de consciência e inclusão, monitorando, também, o próprio comportamento para que os filhos se sintam amados e respeitados; nas famílias regidas por um estilo parental negligente e até abusivo, predominam a solidão, a rejeição e o medo de abandono, mas, sobretudo, a culpa. Isso se deve ao fato de que os filhos das famílias disfuncionais são condicionados, desde pequenos, a concentrarem-se nos direitos, nas vontades, nos sentimentos e nas necessidades dos pais, algo que, com o tempo, torna-se o meio ou “moeda” que os concede acesso a alguma forma de aceitação, afeição e validação.

A ilusão de conexão na família disfuncional: a “união” através da culpa
A culpa faz com que os filhos das famílias disfuncionais sintam-se responsáveis pelos sentimentos dos pais

Quanto mais disfuncional for a família, maior a dependência dos filhos da aprovação dos pais e menor a capacidade de desenvolverem um senso próprio autêntico, autoconfiante e de honrarem os limites pessoais. Quando se tornam cientes disto, como ocorreu com Kata[i] de 24 anos, proveniente do Leste Europeu, começam a questionar as motivações de seu comportamento autossabotador. Para esta jovem cliente, ficou claro, de forma surpreendentemente rápida, que grande parte da razão de ainda investir tanto tempo e atenção em quem a tratava com desrespeito e desconsideração originara-se do senso de obrigação, de “ter que” cumprir com todas as expectativas dos pais e, assim, garantir o bem-estar deles e a união relacional. Esta incumbência, incutida na psique dela havia muitos anos, perpetuara a subjugação e, quando ousava agir de forma autônoma – questionando o seu suposto mérito universal – resultava, invariavelmente, em um excruciante sentimento de culpa.

Esta culpa presente não somente em Kata, mas em muitos filhos e filhas de pais abusivos/narcisistas/tóxicos, faz com que…

  • Digam sim quando querem dizer não, forçando-os a fazerem algo que não querem
  • Sintam-se infantilizados, impotentes, insignificantes e sem voz
  • Perpetuem um senso falso de identidade que desemboca em descontentamento pessoal inclusive fora dos relacionamentos familiares
  • Confundam o amor e a conexão emocional verdadeiras, livres e recompensadoras com os sentimentos de angústia da culpa, estendendo o processo de vitimização 

Para libertar-se da prisão da culpa e de um mindset limitado e medíocre, recomendo questionar os valores rígidos de família que corrompem a sua noção de realidade e do poder de mudar a própria vida. Se necessita de ajuda para fazer este questionamento, recomendo a leitura do meu primeiro livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e os meus cursos online A codependência e A dependência emocional.  


[i] Nome fantasia para proteger o anonimato da minha cliente

Contente-se com pouco: a autossabotagem e a mentalidade de mediocridade da família disfuncional

A insatisfação pessoal não é só um sintoma da depressão, mas também o produto de um pensamento influenciado por crenças rígidas e disfuncionais. Como explico no meu novo livro Desconstruindo a família disfuncional, o teor de flexibilidade dos valores de uma família exerce um impacto direto no desenvolvimento sadio de uma criança. No capítulo As crenças rígidas e as verdades inquestionáveis, exploro como a rigidez da mentalidade “é tudo ou nada”, em especial, corrompe a autoimagem e desemboca em insegurança pessoal, limitando a capacidade de nos conectarmos com confiança como, por exemplo, com a complexidade do eu autêntico. Os valores rígidos perpetuados pela cultura familiar disfuncional, tais como “Conectar-se com as emoções negativas é coisa de gente fraca” e “Cometer erros é sinal de incompetência”, embora não sejam evidentes nas interações comunicativas entre pais e filhos, são sentidos na carne por estes quando são condicionados a se moldarem às necessidades e expectativas dos pais não somente para se tornarem dignos do afeto deles, bem como se sentirem capazes e aceitos.

Contente-se com pouco: a autossabotagem e a mentalidade de mediocridade da família disfuncional
É comum para quem provém de uma família disfuncional sabotar o eu autêntico para manter o relacionamento com os pais

Este processo faz com que os indivíduos provenientes dos lares disfuncionais e tóxicos adotem uma atitude de autossabotagem que compromete a capacidade de viverem livre, plenamente e com realizações. Por serem submetidos à extensa manipulação e chantagem emocional durante o período de crescimento, os filhos das famílias disfuncionais criam um senso de direção deturpado, o qual se vê imerso em sentimentos de culpa, vergonha e medo de abandono. Já que quando se conformam com a visão de mundo e valores rígidos dos pais e não desenvolvem uma identidade própria são recompensados com demonstrações de afeto ou a ausência de atitudes abusivas, aprendem a associar a forma limitada de pensar e agir como algo benéfico para o relacionamento, mesmo quando se sentem inadequados e desgostosos internamente. É comum, portanto, considerarem a existência sob uma perspectiva de escassez e não de abundância, forçando-se a contentarem-se com pouco e a viverem de modo medíocre.

Na prática, a mentalidade de autossabotagem e mediocridade torna-se óbvia quando não se permitem sentirem-se bem ao adotarem uma atitude autônoma e de amor-próprio e autoaceitação incondicionais, por exemplo. Em outras palavras, em vez de sentirem-se íntegros quando…

… honram os limites pessoais independente do efeito que isso exerce no outro

… criam uma visão do eu como bom o suficiente independente de condição financeira, estado civil, profissão, aparência, título acadêmico ou profissional

…. se acreditam dignos de escolherem com quem mantêm relacionamentos, nomeadamente, concentrando-se nas pessoas maduras, empáticas e genuínas

sentem-se diminuídos e alienados por terem uma atitude autoafirmadora.

Para aprofundar o conhecimento acerca das diversas maneiras com as quais a dinâmica relacional disfuncional aprisiona a mente e compromete a conquista da felicidade e o contentamento pessoal, recomendo a leitura do Desconstruindo a família disfuncional. 

Desconstruindo a Família Disfuncional, o novo livro de Michele Engelke com 10% de desconto

O que faz uma família ser disfuncional? O que pode ser observado no comportamento de seus membros e na forma como se relacionam que a definem como tal? De que maneira crescer sem acesso ao amor incondicional dos genitores, em um ambiente estressante e sem harmonia relacional afeta o nosso desenvolvimento e habilidade de nos realizarmos, também, na idade adulta?

Desconstruindo a família disfuncional eBook Image
Chegou o novo livro de Michele Engelke sobre famílias disfuncionais

Chegou o novo livro de Michele Engelke, Desconstruindo a Família Disfuncional, nele, você irá compreender porque…

  • os valores, as atitudes e as estratégias de enfrentamento de problemas das famílias consideradas disfuncionais interferem negativamente na saúde psicológica/mental e relacional
  • tem problemas de relacionamento com a mãe, pai e/ou irmão(os) que parecem não melhorar com o tempo, a idade e a experiência
  • demonstra dificuldade de criar e manter relacionamentos saudáveis também fora do ambiente familiar
  • possui problemas de baixa autoestima e equilíbrio emocional, é codependente, sofre de dependência emocional e tem dificuldade de agir de forma madura, autoconfiante e assertiva – sobretudo com os familiares e, em especial, com os pais
  • se sente frequentemente triste, com raiva, ansioso, culpado, envergonhado, manipulado e com medo de ser rejeitado pela família se agir de forma adulta, consciente, autêntica e autônoma
  • não se sente visto, percebido tampouco ouvido pelos pais

O livro apresenta um conteúdo franco, esclarecedor, além de questionar os valores rígidos e obsoletos sobre a família, os quais servem para perpetuar a falta de funcionalidade deste sistema. Trata-se de uma ferramenta de empoderamento pessoal não somente para os filhos de mães e pais narcisistas/tóxicos/abusivos e negligentes, bem como para os demais indivíduos que desejam validar a história de disfunção familiar e os efeitos que tiveram em si, contribuindo, de modo consciente e proativo, para a expansão da consciência acerca da própria influência, inclusive, para aqueles com quem tem convívio, melhorando, portanto, a qualidade dos relacionamentos e ajudando a interromper o ciclo vicioso de disfunção.

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Boa leitura!


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Por que choro quando estou com raiva?

Os pais e demais adultos influentes na vida da criança em desenvolvimento que a punem, envergonham-na e a culpam por ter e expressar as emoções negativas contribuem, imensamente, para que esta associe a raiva, por exemplo, a uma experiência traumática. Sofrer esta rejeição é traumatizante pois exerce um impacto disfuncional na forma com que se conecta com o eu, fazendo com que se sinta insegura por possuir emoções negativas, e inadequada por não conseguir conectar com estas livremente e expressá-las de uma forma saudável enquanto se sente percebida, vista e ouvida pelos pais. Desse modo, o trauma resultante da atitude imatura e negligente dos genitores fica armazenado no corpo e extravasa em momentos de raiva – com ou sem a consciência da vítima – fazendo com que reviva os sentimentos de inadequação de sua infância na idade adulta e reaja de modo incongruente e vulnerável quando embrabecida.

Por que choro quando estou com raiva
Quando você sente raiva e começa a chorar está processando o luto da perda de conexão com o próprio corpo e outros seres humanos

Quando você sente raiva e começa a chorar, também está processando o luto da perda de conexão com o próprio corpo e outros seres humanos, bem como de identidade, autonomia, autenticidade, amor-próprio e afeto. Equivale-se, portanto, a uma grande perda de humanidade ser forçado, desde pequeno, não somente a reprimir as emoções, bem como rejeitá-las. Isso se deve ao fato de que repelir as emoções, independente da natureza – consiste em um processo de autorrejeição, já que são partes de nós. A vergonha, o medo de abandono e o luto que sente quando com raiva indicam que não foi exposta, ao longo de seu desenvolvimento, a uma atitude parental de maturidade e tolerância emocional que a possibilitariam nutrir um relacionamento livre a complacente com o que sente e, por consequência, consigo própria.

Se é como a maioria da população e foi criada por pais emocionalmente negligentes, é provável que possua uma conexão com o corpo e as emoções marcada por esta incongruência, o que perpetua o seu desconforto emocional. Se chora quando sente raiva ou ri quando está triste ou envergonhada, por exemplo, recomendo monitorar estas tendências ativamente e corrigir estes maus hábitos, preferivelmente, em tempo real. Na prática, pode tornar-se mais coerente e centrada quando honra a tristeza e a raiva que ocorrem simultaneamente, registrando a presença de ambas até que, com o tempo, consiga processar o luto por completo e restabelecer uma conexão mais íntegra com estas, especialmente com a raiva, permitindo-se senti-la sem culpa, vergonha ou medo de ser rejeitada e abandonada por ter-se dado o direito de possuí-la e expressá-la (de forma não abusiva, é claro).        

Como se proteger dos relacionamentos tóxicos: identificando a sua criptonita

Os relacionamentos que a pessoa é exposta ao longo de seu desenvolvimento funcionam como uma referência para os futuramente criados e mantidos fora do ambiente familiar. Desta forma, se você provém de uma família disfuncional ou tóxica, é fundamental que se conscientize disto caso deseje relacionar-se de forma saudável. A maioria dos filhos e filhas de mães narcisistas/tóxicas/abusivas tende a sofrer de baixa autoestima, dependência emocional e codependência, sentem-se forçados a agradar, gostar e até tolerar a companhia das outras pessoas com quem não tenham afinidade. Isso se deve, muitas vezes, ao fato de se acreditarem menos interessantes e considerarem o outro melhor e, portanto, merecedor de atenção, tempo e consideração até quando não os favorecem.       

Como se proteger dos relacionamentos tóxicos: identificando a sua criptonita
A criptonita é aquela pessoa que funciona como um gatilho de traumas passados

A maneira de se proteger de influências negativas ao bem-estar e crescimento pessoal é identificar a “criptonita”. Para quem não sabe o que isso significa, a criptonita, apesar de ser um material originário do planeta nativo de Superman, personagem dos quadrinhos, causa-lhe fraqueza quando entra em contato com ela. No contexto dos relacionamentos disfuncionais e tóxicos, uso o termo como metáfora para ilustrar aquela pessoa que, quando nos vemos expostos a sua presença – com ou sem a nossa intenção – faz-nos sentir inadequados, vulneráveis, envergonhados, inseguros, pressionados, incompetentes e/ou indignos de amor e respeito. Para quem sofreu abuso, manipulação e negligência na infância, a criptonita tende a ser aquela pessoa que funciona como um gatilho de traumas passados. Isto afeta a vítima de maneira automática inconsciente, fazendo-a sentir como uma criança desprotegida que deve diminuir-se perante o outro para não ser agredida, por exemplo, ou por se sentir responsável pelo bem-estar do outro para ser aceita e sentir-se segura.

Há muitos exemplos de criptonitas que ativam as reações emocionalmente imaturas nos filhos e filhas de mães narcisistas/tóxicas/abusivas, como as figuras de autoridade que têm o hábito de subjugar,  manipular e praticar o bullying; indivíduos controladores, com problema de raiva acumulada e que agem de forma agressiva ou passivo-agressiva; pessoas que se encontram presas à vitimização e, portanto, projetam a responsabilidade de melhorar as condições próprias no outro; filhos e filhas de famílias tóxicas que se recusam a quebrar a barreira da negação e inadequação em relação ao tratamento que recebem da própria família abusiva e, por isso, projetam a vergonha no outro (isso ocorre num esforço para manter as aparências de uma conexão emocional e afetiva inexistente); e aqueles que têm dificuldade de ouvir, acreditar e ter empatia com o próximo, entre outros.

Então, quem é a sua criptonita?      

Descubra o que é o medo de abandono

Se já é leitor ávido deste blog, está ciente de como crescer em um ambiente de estresse crônico tal como o característico de uma família tóxica e regida pela tirania narcisista tende a resultar em trauma da infância/do desenvolvimento. Além disso, tem conhecimento dos efeitos comuns deste trauma, como a hipervigilância e a codependência, por exemplo. Neste artigo, dedico o espaço a expandir o seu entendimento acerca de uma das vulnerabilidades mais comuns entre os filhos e as filhas de mães narcisistas: o medo de abandono – já que está no cerne dos problemas de relacionamento.  

Descubra o que é o medo de abandono
O medo de abandono está no cerne dos problemas de relacionamento.  

A criança em desenvolvimento necessita de amor incondicional e da presença consistente dos adultos responsáveis para formar um senso sólido de segurança interno e autoestima. Precisa, também, da influência adulta e centrada para confiar não somente em si mesma, como também nos relacionamentos humanos como uma fonte segura de apoio, equilíbrio e conexão emocional. Isso, contudo, não acontece nos contextos em que o desenvolvimento é afetado por uma mãe narcisista e abusiva e um pai facilitador e negligente. Em vez da criança associar os relacionamentos humanos como algo que favoreça o bem-estar e a saúde emocional, associa-os como uma fonte de sofrimento, inadequação e ansiedade.

O medo do abandono surge, portanto, da deficiência de tais genitores, em especial, de contribuírem para que os filhos sintam-se amados, valorizados, protegidos e equilibrados emocionalmente. O abandono emocional e afetivo vivenciados na infância desemboca em trauma e uma grande fobia a sofrerem o mesmo na idade adulta, que podem ser observados nos seguintes comportamentos e atitudes:

  • Evitar comprometer-se amorosamente
  • Hábito de terminar os relacionamentos ou afastar-se do outro quando a “fase lua de mel” é encerrada
  • Ter o hábito de encontrar defeitos nos outros ou ter expectativas altas e irrealistas em relação ao outro e seu papel no relacionamento
  • Dificuldade de confiar nos outros; acreditar que querem somente tirar-lhe proveito, manipulá-lo ou usá-lo de alguma maneira
  • Baixa autoestima, necessidade de agradar os outros, levar tudo para o lado pessoal e culpar-se por problemas ou atitudes disfuncionais dos outros
  • Tendência a criar e manter relacionamentos disfuncionais e dificuldade de terminá-los mesmo quando tem consciência de que não o favorecem
  • Sentir-se desvalorizado pelo outro e no contexto dos relacionamentos
  • Ter medo de intimidade seja emocional e/ou sexual
  • Dificuldade de saber as próprias necessidades em um relacionamento e honrar os limites pessoais
  • Medo de ficar sozinho, “pular” de um relacionamento para outro com grande facilidade
  • Agir de forma codependente e dependente emocionalmente (para estudar ambas as vulnerabilidades e aprender como superá-las, recomendo os meus cursos online A codependência e A Dependência Emocional)
  • Excesso de autonomia e ojeriza a depender dos outros de qualquer forma, inclusive quando a dependência é saudável e favorece uma conexão emocional 
  • Passar por longos períodos sem um relacionamento amoroso, ter aversão a relacionamentos mais sérios ou nunca ter tido um
  • Ter problema de raiva acumulada, depressão e/ou ansiedade

5 sinais de que está preparada para cortar o contato com a mãe narcisista

Quando a percepção de família evolui como resultado da descoberta da verdade narcisista e expande-se para muito além dos chavões do senso comum tais como “Mãe é mãe” e “Família é tudo”, por exemplo, é natural para a vítima de abuso narcisista considerar a possibilidade de cortar contato com o seu gatilho número um: a genitora tóxica. Se necessita de ajuda para avaliar se está de fato disposta a tomar esta decisão, elenco 5 sinais de que está preparada para cortar o contato com a mãe narcisista:

5 sinais de que está preparada para cortar o contato com a mãe narcisista
Você tem o direito de dizer não ao abuso

1- Você está exausta de se sentir responsável pelo modo como os outros sentem: filhos e filhas de pais tóxicos são comumente codependentes, ou seja, colocam sentimentos, vontades e interesses dos outros na frente dos seus. Se já está consciente deste fato e se esforça para mudar isto, você está com uma predisposição favorável a priorizar o próprio bem-estar e iniciar o contato zero.

2- Você está exausta de se preocupar com o que os outros pensam: enquanto o emocionalmente dependente apresenta tendência à ansiedade, coloca a atenção no outro para criar um senso de direção e sabota a própria realização pessoal no processo; o emocionalmente maduro considera a opinião do parente, amigo, vizinho, colega etc. de forma centrada, ou seja, refletindo e levando em consideração quando esta lhe favorece – na maioria das vezes.     

3- Você está ciente de que a culpa que sente faz parte do processo de distanciamento: os filhos e filhas de mães narcisistas que conseguem superar a fobia às emoções negativas e contextualizá-las de acordo com a sua história de abuso e trauma, não permitem que estas os paralisem, mas lidam com elas de forma equilibrada, vendo-as como sintomas da manipulação e chantagem emocional as quais foram expostos por longos anos.

4- Você se vê como a expert da própria vida: a sobrevivente que consegue superar os efeitos de seu trauma é aquela que tem o próprio eu como o guia mais influente e sábio. Só você realmente sabe o que é sofrer abuso de uma mãe tóxica e ser negligenciada por um pai facilitador, portanto, é a única que possui verdadeira experiência e conhecimento para saber tanto o que compromete como o que promove o seu desenvolvimento pessoal.

5- Você confia nos seus sentimentos: se já superou os efeitos de anos de gaslighting e abuso da verdade, e acredita na sabedoria do próprio corpo – o qual não é facilmente corruptível como o pensamento – e segue a sua direção com consistência e comprometimento, ciente de que não há necessidade de explicar as próprias decisões, inclusive aos familiares.

Diferente do que é defendido pelos valores rígidos da família disfuncional e tóxica, o amor é fluido e independe de laço sanguíneo, portanto, é possível, sim, ser feliz e realizar-se como pessoa quando se corta o contato com qualquer indivíduo tóxico – inclusive a própria genitora. Recomendo o meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, no qual incluo dicas práticas de como cortar o contato a mãe narcisista; caso concorde comigo e esteja disposta e revolucionar a própria vida de maneira corajosa e inovadora. Se já leu o Prisioneiras… e necessita de ajuda para processar o luto desta perda, também sugiro o meu curso online: Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica.

O legado dos pais emocionalmente ausentes: os sentimentos de solidão, rejeição e abandono

Para quem provém de uma família disfuncional tende a ser difícil, se não impossível, sentir-se devidamente visto, ouvido e percebido. Isso se deve ao fato de ter sido educado, de crescer e se desenvolver em um meio de grande negligência emocional e até abuso. Quando uma criança não tem as emoções validadas e lhe é negado expor seus interesses, vontades e limites pessoais, sente-se alienada, invisível e sem importância, como se não existisse nem tivesse valor. O trauma gerado por carregar este vazio existencial por tantos anos resulta em baixa autoestima que perdura até a idade adulta, além da dificuldade de confiar nos outros e de se sentir seguro nos seus relacionamentos.

O legado dos pais emocionalmente ausentes: os sentimentos de solidão, rejeição e abandono
Para quem tem pais emocionalmente ausentes, é difícil sentir-se devidamente visto, ouvido e percebido

Na prática, ter pais emocionalmente ausentes faz com que o filho sinta que raramente algo referente a si ou a sua vida seja importante o suficiente para merecer a atenção alheia. Como terapeuta do trauma especializada em filhos de famílias disfuncionais e tóxicas, já ouvi muitos relatos de clientes que nunca tiveram momentos relevantes de suas vidas reconhecidos e levados em consideração de forma apropriada pelos pais, seja por razões positivas ou negativas. Por forma apropriada significa dizer terem demostrado atenção genuína em tempo real e se feito presentes física direta ou indiretamente (através de meios de comunicação) e, sobretudo, mental/emocionalmente, permitindo, portanto, que os filhos se sentissem valorizados e dignos de seu amor.

Por serem egocêntricos e negligentes, além de terem um baixíssimo nível de consciência, mães narcisistas e pais facilitadores, por exemplo, têm a tendência de ignorarem, invalidarem e, inclusive, esquecerem eventos marcantes na vida dos filhos, tais como conquistas acadêmicas e profissionais, casamento, nascimento de filho, aniversários, mudança de residência/cidade/país, bem como rompimentos de relacionamento/separação/divórcio,  presença ou diagnóstico de doenças crônicas (de ordem mental ou física) perda de emprego, falecimento de cônjuge ou amigo etc. Os pais em questão se mantêm absorvidos nos próprios dilemas, dramas e necessidades enquanto negligenciam os dos filhos; são incapazes, portanto, de os apoiarem e fazer com que se sintam amados e confortados quando mais necessitam.

O legado de pais emocionalmente ausentes é observado na constante presença de fortes sentimentos de solidão, rejeição e abandono que parecem não diminuírem com o tempo, a idade e a experiência. Basta passarem por momentos difíceis para que os filhos se sintam invadidos por sentimentos de impotência, inadequação e desesperança. Se se identifica com o aqui reportado, recomendo tratar esse vazio de forma consciente e proativa, volte a atenção para o próprio eu e coloque as necessidades das emoções sentidas no corpo em primeiro lugar. Para restabelecer uma relação saudável e livre com o eu autêntico, sugiro os meus três cursos online: A codependência, A dependência emocional e Como Fazer o Luto da Mãe Narcisista de Forma Orgânica.

É normal sentir empatia pela mãe narcisista?

O abuso e a negligência sofridos por filhos e filhas de mães narcisistas, embora pareçam inimagináveis para aqueles que não ousam questionar os valores rígidos e obsoletos do senso comum, tais como “Toda a mãe ama os filhos” e “Família é tudo”, são bastante reais. Seja através dos e-mails que recebo, diariamente, através do Filhas de Mães Narcisistas ou de relatos direitos de clientes, nunca deixo de me impressionar com as histórias chocantes dos maltratos que sofrem, independente de idade, gênero, nível de escolaridade, social ou financeiro.

É normal sentir empatia pela mãe narcisista
É normal sentir empatia por uma pessoa abusiva?

Seja de natureza física, sexual, emocional/psicológica, verbal, espiritual ou até vicária, o abuso praticado por um adulto a uma criança, adolescente ou a outro adulto vulnerável consiste em um ato bárbaro, tirano e impiedoso. Sobretudo, mulher ou homem – quando comete abuso e negligencia os filhos – não é merecedor de consideração excepcional por ser mãe ou pai. Na realidade, os efeitos do trauma causados por abuso e negligência cometidos por uma mãe ou pai narcisista/tóxico é muito mais difícil de ser tratado e superado do que o cometido por um estranho. Portanto, a responsabilidade dos genitores é muito maior por causa do impacto que exerce no desenvolvimento, saúde e bem-estar dos filhos, assim como na habilidade de se tornar um adulto competente e realizar-se como pessoa.

Quando temos conhecimento disso e vemos claramente o poder nocivo do trauma familiar e os efeitos negativos não somente em nível individual, mas também coletivo, é inevitável sentirmos certo desconforto emocional e até nutrimos raiva contra os responsáveis, como a mãe narcisista. Se esse for o seu caso, gostaria de reiterar que tem todo o direito de se sentir desta forma, pois é humano e foi programado para proteger-se de ameaças ao seu bem-estar. Eu, Michele Engelke, também reajo com indignação e revolta contra qualquer pessoa abusiva que se recusa a assumir a responsabilidade pelos danos causados às suas vítimas, principalmente quando são os próprios filhos, contudo, também sou capaz de sentir empatia por tais indivíduos. Isso não é privilégio meu por ser terapeuta e, supostamente, “superior”, mas da maioria dos seres humanos, já que somos hábeis para possuir sentimentos opostos ao mesmo tempo e a nos identificarmos com o sofrimento alheio, mesmo quando desconhecemos a sua origem.

É normal e humano sentir empatia por uma pessoa abusiva, mesmo quando este sentimento provenha da vítima/sobrevivente, contudo, isso não implica, necessariamente, ação. Em outras palavras, você pode sentir empatia por sua mãe narcisista (e até pena), mas não é responsável pelo bem-estar dela ou pela suposta “cura” do problema dela. Afinal, a empatia é, em essência, a capacidade de se colocar no lugar do outro de forma abstrata,  não corresponde, portanto, à incumbência de corrigir a deficiência deste nem reparar o relacionamento, sobretudo, quando uma das partes envolvidas recusa-se a refletir sobre os comportamentos impróprios e admitir a culpa. Caso tenha dificuldade de agir empática e autonomamente não apenas com a mãe narcisista, como também com outras pessoas chaves em sua vida, recomendo muitíssimo o meu curso online A codependência.

2 grandes mitos sobre a raiva que impedem a assertividade

Aqueles que provenham de famílias tóxicas e, portanto, já sofreram abuso, possuem uma dificuldade natural de se conectarem com a raiva de forma saudável e agirem assertivamente. A assertividade – ou habilidade de nos posicionarmos com autoconfiança e fazermos valer nossos interesses e sentimentos, bem como os nossos limites pessoais – é um recurso precioso para os sobreviventes de abuso narcisista que desejam superar o trauma e viver uma vida autêntica e realizadora. Ser assertivo exige que o indivíduo se conecte com a raiva de modo maduro e centrado, respeitando-a e honrando-a sem culpa, medo e vergonha. A fim de melhorar o seu relacionamento com esta emoção tão importante e conseguir priorizar as necessidades de seu eu autêntico, elencam-se 2 grandes mitos sobre a raiva que impedem a assertividade:

2 grandes mitos sobre a raiva que impedem a assertividade
A raiva fica armazenada no corpo e pode tornar-se tóxica com o tempo

Sentir a raiva é feio: você não precisa ter uma mãe narcisista ou provir de uma família tóxica para já ter ouvido a famosa frase, “Sentir raiva da mamãe/do papai/da vovó… é feio”. Muitos de meus clientes se orgulham de “não sentir raiva”, como se isso fosse sinônimo de uma atitude educada, nobre, adulta e até sofisticada. Isso não somente é impossível, visto que são humanos e a raiva é uma expressão bastante orgânica desta humanidade, como também superprejudicial à saúde mental e dos relacionamentos. Conectar e sentir a raiva não é feio ou bonito, bom ou ruim, mas humano e essencial para nos protegermos e mantermos a nossa integridade e autoestima.   

A raiva é sempre expressa de forma tóxica: esta crença é típica de quem nunca presenciou a raiva no ambiente familiar sendo expressa de forma adulta e funcional, mas de forma agressivo-passiva ou superagressiva, ou seja, de um ou outro extremo disfuncional. A vítima de abuso narcisista, em particular, sabe muito bem o poder destruidor da agressividade tóxica – seja expressa de forma ativa (Para mais informações sobre “A ira narcisista”, recomendo a leitura do meu primeiro livro, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas) ou passiva (ofereço um estudo detalhado da agressividade passiva no meu segundo livro, Filha de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura) e nutre um receio terrível de comportar-se que nem a genitora abusiva, “perder o controle” e magoar as outras pessoas. Nós somos capazes de expressar a raiva de forma centrada e até empática, basta nos conectarmos com ela e comunicá-la de forma emocionalmente madura, como, por exemplo: “Eu entendo como se sente, mas quando você ______ (comportamento) eu me sinto _______ (emoção ou sentimento, tal como com raiva/frustrada/irritada etc.)”.

Para conseguir conectar e expressar a raiva de forma saudável e comportar-se assertivamente, revela-se fundamental começar a questionar as crenças rígidas e disfuncionais sobre as emoções “negativas” como a raiva, como fizemos acima. Vale lembrar que, por mais que não seja registrada totalmente de modo consciente, a raiva fica armazenada no corpo e pode tornar-se tóxica com o tempo, causando problemas não somente de ordem psicológica/emocional, como também física. Se quiser se tornar mais tolerante com a própria raiva, recomendo a leitura dos seguintes artigos de minha autoria:

As diferenças importantíssimas entre a responsabilidade e a culpa

Descobrir que a própria mãe tem tendências abusivas e, provavelmente, é narcisista representa um evento marcante na vida de qualquer indivíduo, independente de idade, sexo, etnia ou classe social. Isso ocorre porque fomos criados para nos conectarmos emocional e afetivamente com outros seres humanos, principalmente dos quais dependemos quando pequenos e vulneráveis para sobrevivermos, desenvolvermo-nos de modo saudável e operarmos de forma satisfatória também ao nos tornamos adultos. Portanto, quem possui, pelo menos, um genitor tóxico, tem todo o direito de buscar informações que o esclareçam sobre como esse comportamento afetou o desenvolvimento, especialmente, a sua neurobiologia, saúde emocional/psicológica, habilidade de formar e manter relacionamentos funcionais e realizar-se como pessoa.

As diferenças importantíssimas entre a responsabilidade e a culpa
Embora tenha todo o direito de investigar o seu passado, isto tende a desembocar em culpa

Embora a pessoa tenha todo o direito de investigar o seu passado e tentar compreender como os pais influenciaram a sua habilidade de perceber-se como um indivíduo competente, bom o suficiente e digno de ser amado incondicionalmente, isto tende a desembocar em culpa. Muitos de meus clientes, quando começam a desabafar a respeito do modo como foram maltratados e negligenciados pelos genitores tóxicos, citando vulnerabilidades, atitudes impróprias e até abusivas, sentem-se envergonhados de “falarem mal” deles ou “culpá-los” por seus atos. Após os relatos, tendem a despender grande energia para justificar as suas atitudes como se fossem obrigados a desculparem-se pelo seu comportamento, negligenciando as próprias emoções e os efeitos de seu trauma no processo.

Isso se deve ao fato de que a nossa cultura não reconhece as importantíssimas diferenças entre a responsabilidade e a culpa, seja por influência religiosa seja devido aos valores rígidos do senso comum. Contudo, não precisa seguir esta mentalidade simplista e conformar-se com uma atitude julgadora, pois você é um indivíduo autônomo e capaz de posicionar-se de forma diferente, com consciência, inteligência e empatia. A culpa não lhe permite conduzir-se assim, pois resulta em inadequação, hostilidade e ressentimento, enquanto atribuir responsabilidade de forma adulta e centrada – constitui um direito humano e universal de se conhecer, assim como as circunstâncias de seu desenvolvimento – consiste em um ato emancipador. Diante disso, abdique da vergonha, dependência e vitimização promovida pela cultura da culpa e chantagem emocional, torne-se verdadeiramente livre e dono de seu corpo e destino.   

O conteúdo de Filhas de Mães Narcisistas e dos livros Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e o Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura de minha autoria, tem como objetivo promover a conscientização e ajudar-lhe a organizar a sua narrativa validando a sua história, seus sentimentos e seu direito ao conhecimento. Portanto, na próxima vez que alguém disser: “Deixa isso prá lá, está no passado” ao relatar o abuso e a negligência sofridos na infância que lhe afetaram como pessoa, lembre-se de que este tipo de balela retarda o crescimento pessoal tanto do falante quanto do ouvinte, além de criar uma distância emocional e afetiva entre os dois. 

5 razões dos irmãos não ficarem do seu lado

Se for leitora assídua deste blog e já devorou o meu segundo livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura sabe como uso a minha experiência como terapeuta de filhas e filhos de mães narcisistas para ilustrar como o abuso narcisista afeta a saúde mental e os relacionamentos. Uma reclamação frequente é a dificuldade de terem o seu sofrimento reconhecido de forma íntegra pelos irmãos, algo que se torna um grande desapontamento. Para entender isso e libertar-se de outro fardo do legado narcisista, elencam-se 5 razões dos irmãos não ficarem do seu lado:

5 razões dos irmãos não ficarem do seu lado
A filha de mãe narcisista raramente tem o seu sofrimento reconhecido pelos irmãos

1- Carência de amor de mãe: mesmo que amem muito os irmãos, este amor não é páreo para a sua necessidade orgânica de sentirem-se amados e aceitos pela mãe, o que nunca se materializa de forma incondicional e genuína, já que se trata de uma narcisista. Além disso, vivem em um mundo de negação e recusam-se a enfrentar a verdade narcisista; o luto pela perda da mãe no sentido afetivo da palavra fica pendente e contribui para perpetuarem esta carência profunda.  

2- Medo, culpa e vergonha: a mãe narcisista é mestra em chantagem emocional, portanto, usa o medo, a culpa e a vergonha para manipular os filhos a sentirem-se eternamente endividados, dependentes e aprisionados a si. Desta forma, ir contra uma mãe narcisista para defender o irmão ou a irmã que ousa expor o seu comportamento abusivo e impróprio não somente requer estâmina, mas muita coragem.

3- Falta de empatia: é natural para certos filhos e filhas de mães narcisistas terem certa dificuldade de sentirem verdadeira empatia pelos outros, já que foram educados por um indivíduo extremamente egoísta e egocêntrico.  

4- Dependência emocional: como precisam que a mãe se sinta bem para nutrirem um falso senso de segurança interno, os filhos e filhas de mães narcisistas emocionalmente dependentes são incapazes de defenderem alguém de sua presença nefasta, sejam os irmãos ou, até, a si próprios.   

5- Conveniência e crença negativa “sou incompetente”: aquele irmão ou irmã condicionado a acreditar, desde criança, que não é capaz de prosperar ou conseguir administrar a própria vida sem a influência da mãe narcisista e da família tóxica, dificilmente irá desvencilhar-se desse controle e sacrificar os ganhos secundários (ajuda financeira e/ou com os filhos, acomodação grátis etc.) por você ou quem quer que seja.

Para conseguir superar ainda mais outra perda – a da validação e do apoio dos irmãos – recomendo continuar a praticar o luto e a agir de maneira adulta, centrada e emocionalmente autônoma. Lembre-se de que, apesar de sentir-se triste e com raiva da injustiça que ainda sofre, possui o dom da autoconsciência e uma incrível resiliência, os quais lhe permitem traçar uma jornada de crescimento pessoal intensa, autêntica e recompensadora.    

Você é viciada em drama?

Como filho ou filha de mãe narcisista, foi criado e se desenvolveu em um ambiente permeado de ameaças ao seu bem-estar. A longo prazo, isso tem um efeito marcante e duradouro no cérebro, particularmente na região que nos prepara para lidar com perigos, chamada sistema límbico (ou “cérebro emocional”). Para tais vítimas do estresse crônico e abuso por prolongados períodos, o sistema de alerta permanece preso no modo sobrevivência – o que pode contribuir para que se tornem “viciados no medo” ou nas sensações de euforia associadas ao efeito desta emoção no corpo.

Você é viciada em drama
O medo produz sensações de euforia que podem tornarem-se viciantes

Por mais que pareça incoerente, “sentir-se bem” ou “menos inadequado” quando com medo ou inseguro faz sentido sob uma perspectiva neurobiológica. Isso se deve ao fato de que a resposta luta ou fuga ou o medo que se origina da nossa percepção de perigo, por exemplo, aciona os receptores de adrenalina e dopamina no cérebro. A dopamina, em particular, foi conectada não apenas ao prazer, mas também aos comportamentos de recompensa, busca e evasão. A combinação desses hormônios nos faz sentir física e emocionalmente “turbinados” e produz uma sensação de euforia com o potencial, portanto, de tornar-se bastante viciante.

Esse vício no medo faz com que muitos filhos e filhas de mães narcisistas tornem-se, literalmente, viciados em drama. A seguir exemplos de como isso pode ser observado na prática:

  • A história da sua vida é facilmente resumida por um grande número de desastres e eventos adversos. A sua narrativa pessoal é, portanto, supernegativa e carregada de pessimismo e falta de objetividade.
  • Aqueles que são maduros emocionalmente, centrados, possuem uma atitude positiva e, portanto, vivem uma vida tranquila, entediam você. Embora de forma altamente inconsciente, você atrai pessoas difíceis, com problemas de saúde mental, abusivas e/ou imaturas emocionalmente ou gravita na direção destas para manter a vida repleta de altos e baixos e o medo de rejeição e abandono sempre presentes, o qual lhe é tão familiar e confere-lhe um senso de segurança deturpado.
  • O que você consome, faz e vivencia reforça o seu medo e estado de hipervigilância. Garantir que os dias sejam preenchidos com milhares de atividades, sentir-se (secretamente) orgulhosa de estar sempre ocupada, ouvir podcasts ou assistir documentários de crimes reais, ser viciada em notícias e controvérsias, recusar-se a não se envolver nas histórias de drama e participar dos processos de triangulação da família tóxica, assim como ler livros referentes a histórias de violência, abuso e trauma – sejam de natureza técnica ou biográfica – além de beber grandes quantidades de café e consumir alimentos ricos em carboidratos refinados – tais como pão branco e massa – são todos exemplos de como os viciados no drama mantêm-se “ligados”

Para reduzir a dependência no medo e manter-se em um estado equilibrado, recomendo as práticas que estimulam a ativação do córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável, entre outros, pelo controle do impulso e equilíbrio emocional. Incluir a meditação mindfulness na sua rotina, aumentar a autoconsciência através do monitoramento e questionamento dos pensamentos negativos, adotar uma dieta integral baseada em plantas, fazer exercício regularmente e reduzir drasticamente ou cortar o contato com a família tóxica, por exemplo, são algumas medidas que o ajudarão a baixar o basal do estresse e garantir um aumento na qualidade de vida e melhora em sua saúde física e psicológica/emocional.

A mania de grandeza na filha de mãe narcisista: a pior e a melhor em tudo

Se você já possui certo conhecimento e experiência com o narcisismo, seja de forma direta como filho(a) de uma mãe ou pai narcisista, seja indireta como terapeuta de um(a), compreende como a mania de grandeza influencia o comportamento destes tipos de genitores. Trata-se de uma das características mais facilmente associadas ao narcisismo estereotipado ou àquele indivíduo arrogante e inseguro que usa o que é belo, caro e sofisticado, por exemplo, assim como tudo o que lhe confira poder, influência e status, tais como: títulos, aparência pessoal, sucesso profissional, financeiro e acadêmico etc. como suprimento para criar um falso senso de identidade, autoestima e bem-estar  (para um estudo mais aprofundado da mania de grandeza na mãe narcisista, recomendo a leitura do capitulo “1.7 A mania de grandeza” do meu primeiro livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas).   

A mania de grandeza na filha de mãe narcisista a pior e a melhor de tudo
Exagerar o valor de suas habilidades, aparência ou conquistas ou nutrir uma percepção pessoal negativa também é mania de grandeza

Embora a mania de grandeza e a necessidade patológica de se destacar sejam evidentes nos comportamentos narcisistas mencionados, não se limita a quem o possua, pois a mania de grandeza surge da ênfase do que é extremo e, portanto, qualquer um pode manifestá-la para exagerar a importância ou o valor de algo, seja para um nível alto ou baixo. Desta forma, tanto a filha de mãe narcisista quanto a genitora podem exibir comportamentos condizentes com a mania de grandeza quando, por exemplo, exageram o valor de suas habilidades, aparência ou conquistas ou nutrem uma percepção pessoal negativa. Em ambos os casos, o indivíduo não consegue obter um senso de bem-estar através de uma autoimagem realista e equilibrada, mas realça qualidades ou defeitos que supõe possuir para adquirir um senso de relevância e “amor-próprio” deturpados.

Isso se torna claro na sala de terapia quando os meus clientes, filhos de pais e mães tóxicos/narcisistas/abusivos/emocionalmente negligentes gravitam entre “a melhor” e “a pior” versão de si próprios no decorrer do processo de autoexploração e conhecimento ou na fase inicial de reorganização de sua narrativa pessoal. O relato do(a) cliente bem-sucedido(a) profissional e financeiramente, por exemplo, que não consegue ver-se além de seu peso e feitos incríveis de forma íntegra e centrada não se diferencia daquele(a) que quando pergunto, “Me conta algo sobre você” e define-se – exclusivamente – através de uma longa lista de eventos traumáticos, problemas catastróficos e diagnósticos terríveis. Vale lembrar que ter o sofrimento validado com empatia no contexto terapêutico é, sem dúvida, importante para lidar com os efeitos do trauma, contudo, é igualmente importante se reconhecer como filho(a) de mãe narcisista. Dessa maneira, há probabilidade do pensamento e comportamento estarem sendo guiados pela mania de grandeza herdada da educação tóxica, o que corrompe a autopercepção ao mesmo tempo em que pode impedir o indivíduo de se conceber de modo saudável e realizar-se como pessoa.        

Caso tenha se identificado, recomendo aumentar a autoconsciência e monitorar ativamente a tendência de formular uma visão própria demasiadamente tendenciosa – seja para o negativo ou positivo – como se houvesse algo de errado em ser simplesmente você, excluindo as ações extraordinárias e os superlativos. Celebre a sua humanidade através da prática de ver-se como uma mistura maravilhosa de adjetivos e cores variadas ou como uma linda pintura que, apesar de inacabada, bela e falha, exibe riqueza e complexidade únicas.    

A sua família é tóxica? Faça o teste

Faça o teste “A sua família é tóxica?” se acredita que provenha de uma. O questionário a seguir ajudará a revelar o nível de falta de funcionalidade de sua família. Responda com “sim” ou “não”. Após completar o questionário, conte o número de respostas “sim” e leia o comentário de interpretação de pontuação.

Descubra o nível de falta de funcionalidade de sua família

1- Embora não se sinta confortável com o termo “abuso” (verbal, emocional/psicológico, físico, sexual, espiritual), consegue identificar os comportamentos da mãe e/ou do pai como característicos de quem os pratica.

2- Há muitos segredos e triangulação em sua família, a ponto de nunca saber o que é verdade ou em quem pode confiar.

3- Os seus pais têm o hábito de envolvê-la, de forma direta e consciente, nos problemas de ordem financeira, relacional e/ou emocional deles, invertendo os papéis como se você fosse a mãe.

4- Você não se sente vista tampouco ouvida por sua família, é como se os seus sentimentos, interesses e suas vontades não tivessem nenhuma importância.

5- Pelo menos um de seus pais tem o vício ou hábito de se automedicar com drogas, álcool ou comida.

6- Você nunca recebe reconhecimento genuíno por esforços e conquistas, pelo contrário, quando consegue um êxito, é tratada com indiferença, desdém ou desrespeito.

7- Os seus pais usam as suas vulnerabilidades contra você para mantê-la pequena, infantilizada e submissa.

8- A autoafirmação é um supergatilho para você. Quando necessita defender-se ou tomar decisões de forma independente e assertiva, fica ansiosa, congela, faz tudo para evitar conflitos, procrastina e/ou age de modo desnecessariamente agressivo.

9- Na presença da sua família, sente-se inferior, insegura, inautêntica, impotente, desesperançada e cansada. É como se sugassem toda a sua alegria, boa vontade, autoestima e energia de vida.

10- Dizer não ou não fazer exatamente o que os seus pais querem desemboca em brigas e desentendimentos, portanto, acredita que é melhor submeter-se a sua tirania “para não se desgastar mais”.

11- Os seus pais exigiam que trabalhasse, cuidasse de si própria, dos irmãos e/ou da casa, quando ainda não tinha idade ou maturidade para isso.

12- Nenhum momento especial da sua vida é verdadeiramente seu ou celebrado com alegria e orgulho por seus pais. Aniversários, formatura, casamento, nascimento de filho, promoção no trabalho etc. passam em branco ou são “comemorados” de forma forçada ou sem entusiasmo genuíno.

13- Os seus pais não toleram erros. Quando alguém erra, é bombardeado com crítica destrutiva ou destratado.

14- Você vive pisando em ovos ao redor de, pelo menos, um de seus pais, pois são extremamente reativos e imprevisíveis.

15- Os sentimentos mais associados à sua família são culpa (dever/obrigação), vergonha, medo/ansiedade, tristeza, raiva e impotência.

16- Você não se sente compreendida pelos irmãos ou tem sérios problemas de relacionamento com eles.

17- Se já não cortou contato com pelo menos um membro de sua família, constantemente pensa nessa possibilidade.

18- Embora o seu pai ou a sua mãe reconheça, mesmo de forma silenciosa, que o outro é tóxico e uma péssima influência para os filhos, não se posiciona com firmeza para protegê-los, pelo contrário, facilita, de modo indireto e negligente, a perpetuação dos comportamentos disfuncionais.

19- Você tem a tendência de agir de forma codependente e emocionalmente dependente nos relacionamentos e, embora seja consciente disso, tem dificuldade de sentir-se confortável ao dizer não, em acreditar e priorizar os seus sentimentos, bem como agir de forma autônoma.

20- Você possui uma tolerância baixíssima ao desconforto, portanto, fica ansiosa quando alguém não está bem a sua volta ou quando as coisas não dão certo, levando tudo para o lado pessoal.

Análise de pontuação do teste família tóxica:

1 – 5: a sua família tem traços de falta de funcionalidade

6 – 9: a sua família é disfuncional

10 – 15: a sua família é altamente disfuncional

16 – 20: a sua família é tóxica

Para um estudo aprofundado do que é uma família disfuncional e os efeitos no desenvolvimento, recomendo a leitura do meu novo livro Desconstruindo a família disfuncional

Isso também é abuso sexual: entenda o que é o abuso sexual oculto/dissimulado

Já que o índice de abuso sexual é tão alto entre filhos e filhas de mães narcisistas e suas consequências tão marcantes na sua autoimagem, autoestima e qualidade de vida sexual e nos relacionamentos a longo prazo, é pertinente usar este espaço para esclarecê-lo. Ao contrário do mantido pela população leiga, o abuso sexual é mais abrangente do que a violação sexual aberta através de toque ou relações induzidas ou forçadas, pois também ocorre de forma indireta através de comportamentos negligentes e verbalmente abusivos. Para auxiliar a sua compreensão acerca do abuso sexual oculto/dissimulado, incluo exemplos de como pode ser observado no contexto familiar disfuncional:

Abuso sexual oculto dissimulado
Não conversar com a criança sobre sexo e menstruação constitui abuso sexual oculto

Não receber educação sexual: não conversar com a criança sobre sexo e menstruação, por exemplo, constitui abuso sexual oculto, pois afeta a sua capacidade de entendimento e identificação funcional com os processos naturais de crescimento, desenvolvimento e funcionamento de seu corpo. Quem é forçado – através de muito segredo e sentimentos de inadequação – a negar a própria sexualidade como se fosse algo impróprio até para o diálogo, aprende a associar a expressão sexual com a vergonha não de uma forma saudável, mas de forma tóxica através da autorrejeição.

Abuso verbal: consiste em “falar sobre sexo de forma inapropriada” (Bradshaw, 2005). Isso pode compreender o uso frequente e indiscriminado de nomes de ordem chula ou desrespeitosa com a criança ou adolescente, tais como “puta” ou “vagabunda” quando demonstra interesse por sexo de uma forma saudável e condizente com o seu estágio de desenvolvimento, por exemplo. Condenar a masturbação e a autoexploração sexual através de comentários maldosos e insultos que comunicam a repugnância e visam envergonhar a criança também é abuso sexual oculto/dissimulado. Além disso, ter o hábito de tratar o filho com desdém por ser do sexo masculino e ter ereções e desejo sexual, afirmando que todos os homens “só pensam em sexo”, por exemplo, é um ato que compromete o desenvolvimento de uma identidade sexual saudável e sem culpa.  Fazer comentários inapropriados sobre o tamanho dos seios, vagina ou pênis da criança ou adolescente, por exemplo, ou sexualizar a união de afeto e carinho da filha com o pai ou do filho com a mãe são outros exemplos de como o abuso verbal também desemboca no sexual.

Violação de limites: pais que não trancam a porta ou agem de forma indiscreta quando estão tendo relações sexuais, por exemplo, que tem o hábito de circularem pela casa em vestimentas sexualmente provocativas ou até nus, assim como aqueles que não respeitam o direito da criança ou adolescente à privacidade em seus próprios quartos ou no banheiro, estão infringindo os limites e cometendo abuso sexual oculto (Para aprender a criar e honrar os limites pessoais, recomendo a leitura do capitulo “4.7 Entendendo e respeitando limites” do meu primeiro livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas).

Abuso sexual emocional/Incesto dissimulado: é quando o pai ou a mãe usa a criança ou adolescente como uma fonte de apoio emocional compartilhando detalhes de sua vida romântica/sexual como se estivessem conversando “de igual para igual”.  Tratar os filhos como pequenos cônjuges e usar o relacionamento para satisfazer as necessidades de conexão e intimidade emocional que deveriam ser atendidas por outro adulto também é abuso sexual oculto/dissimulado.

Portanto, é impossível manter um relacionamento íntimo e saudável consigo próprio e com um parceiro amoroso quando se sofre de vergonha crônica resultante de trauma provocado por abuso de qualquer natureza e, em especial, sexual (seja aberto ou oculto). Se se identificou com o que foi relatado, recomendo tratar a questão com a seriedade e atenção que merece e abordá-la de maneira proativa, já que pode estar afetando – de forma extremamente negativa – a sua habilidade de sentir-se confortável dentro da própria pele e no contexto de relacionamentos.

Referência:

Bradshaw, J. (2005). Healing the shame that binds you (2nd ed.). Deerfield Beach: Health Communications Inc.

Quando o sucesso é gatilho: a síndrome do impostor

Recentemente, a atitude de um cliente, filho de pais narcisistas, relembrou-me de como a síndrome do impostor é debilitante. Robert*, britânico de 35 anos, iniciou a sessão de terapia relatando, de forma bastante animada, como havia se destacado em um curso de liderança, do qual participou com os colegas da empresa de consultoria em que trabalha. Com um supersorriso, começou a descrever como haviam comentado de que, até então, não tinham percebido o quão significantes eram o seu conhecimento e experiência e entusiasmado, finalizou com o comentário: “Até o meu chefe e dono da empresa ofereceu-me um cargo fixo de liderança após o curso, foi mesmo incrível”.  Quando comecei a parabenizá-lo pelo sucesso e compartilhar de seu entusiasmo com o que havia acontecido, reparei que a sua linguagem corporal começou a mudar, os ombros caíram, os olhos ficaram brilhantes como se estivessem com lágrimas e o tom de sua voz tornou-se mais baixo e lento. O meu corpo e as emoções que sinto são grandes ferramentas no trabalho que faço, perguntei se havia algo de errado, pois captara certo desconforto da parte dele. Com a postura, então, já bastante retraída, confessou que estava se sentindo inadequado por ter falado de si próprio de modo autoconfiante e tido a sua história de sucesso validada por mim.

Quando o sucesso é gatilho: a síndrome do impostor
A síndrome do impostor é a tendência de questionar o próprio mérito e duvidar das próprias habilidades

O ataque de vergonha do Robert é típico de quem possui a síndrome do impostor. Como explico em meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, é a tendência de questionar o próprio mérito e duvidar das próprias habilidades, resultado de anos de abuso verbal e manipulação emocional por um ou demais genitores tóxicos e/ou negligentes emocionalmente. O excesso de crítica, a inveja, o desdém e a falta de interesse da mãe narcisista, por exemplo, causam grande trauma no filho ou na filha, a ponto destes associarem as conquistas e os eventos positivos em suas vidas com algo ruim com o potencial de desembocar em sentimentos de inadequação e perda. Porque a mãe narcisista tem o hábito de demonstrar grande desgosto ou ignorar, conscientemente, a performance de excelência dos filhos, assim como questionar o mérito de suas habilidades, ficam condicionados por tais experiências traumáticas a conceberem o próprio sucesso como algo vergonhoso. Foi triste observar como o momento de triunfo e glória de Robert funcionou como um gatilho para o surgimento de seu trauma da infância e afetou a sua capacidade de se sentir orgulhoso e celebrar a sua vitória sem um medo irracional da sua suposta “incompetência” ser descoberta, como se não fosse digno tanto de suas próprias qualidades como do reconhecimento destas.

Se como o Robert sente-se “nervoso” (envergonhado/inadequado e com medo/ansioso) quando alguém reconhece uma qualidade sua, faz um elogio ou expressa qualquer tipo de interesse e até entusiasmo por você e suas capacidades, recomendo analisar o problema conscientemente, pois a síndrome do impostor pode influenciar, de forma bastante negativa, a sua habilidade de realizar o seu potencial. Quando demonstra uma linguagem corporal insegura, desconfortável ou receosa de ser visto como um indivíduo adulto e competente, a probabilidade de que os outros o vejam desta forma aumenta. Enquanto que não se faz necessário sentir-se 100% confiante por dentro para emanar uma energia de autoestima por fora, é vital que mude a mentalidade de perdedor e farsante para uma de credibilidade e assertividade caso tenha como objetivo crescer e desenvolver-se, seja na área pessoal, acadêmica ou profissional. Se for filho ou filha de pais tóxicos e necessita de ajuda para agir com amor-próprio e sentir-se com mais autonomia de dentro para fora, recomendo a leitura, em especial, do capítulo final de número quatro do meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, “Os cinco ases de emancipação da filha de mãe narcisista”.

*Nome fantasia para proteger o anonimato de meu cliente

Para honrar a sua raiva

Embora seja instrumental para o nosso senso de valor e autoproteção, a raiva é uma das emoções mais incompreendidas. Crianças e mulheres, especialmente, são criticadas por possuírem-na e expressarem-na, como se a raiva nunca tivesse mérito ou aplicação na sua experiencia. É através desta emoção, contudo, que o corpo mobiliza a energia para reavermos a nossa autoestima, por exemplo, bem como respeitarmos os nossos limites ou nos defendermos, seja de forma física ou verbal. A raiva também ajuda a equilibrar a tristeza e o medo e a fazer com que reavemos o controle sobre uma situação ou até de nós mesmos. Um corpo humano, cuja raiva tenha sido condicionada a ser reprimida, torna-se vulnerável ao abuso, à negligência e a uma grande variedade de problemas de ordem física, psicológica/emocional e relacional. Apesar da conexão com a raiva ser tão fundamental para garantir o nosso bem-estar, a atitude de ignorância em relação a ela é tão grande que achei pertinente usar o meu blog para ajudar a esclarecer para desmitificá-la e humanizá-la. Este artigo, portanto, tem o intuito de honrar a sua raiva.

Para honrar a sua raiva
A conexão com a raiva é fundamental para garantir o nosso bem-estar

“Sentir raiva da mãe é feio”

Você não precisa ter uma mãe narcisista para ter ouvido esse comentário em sua infância. Se como a maioria de nós, tiver recebido uma educação rígida e que reflita uma atitude de imaturidade e negligência emocional, aprendeu, desde pequeno, a negligenciar as emoções negativas como propósito prático e, por isso, não devem ser toleradas. Também aprendeu que deve sentir-se envergonhado e culpado por possui-las, as quais só são válidas se justificadas por um argumento objetivo e se aprovadas por outras pessoas. A sua raiva, portanto, assim como tristeza, surpresa, medo, nojo e vergonha sentidos, deve ser racionalizada e aceita por terceiros para que tenha valor. Esta atitude errônea e inflexível de racionalização e consequente desumanização das emoções negativas, embora mantida por pais bem-intencionados, compromete a nossa integridade e habilidade de nos desenvolvermos de forma saudável e operarmos satisfatoriamente em todas as áreas de nossas vidas.  

“Quem expressa a raiva é fraco, descontrolado”

Embora sufocar a raiva, fazer um esforço tremendo para controlar as emoções negativas e negar a sua existência seja visto como um sinal de força e equilíbrio, negligenciar as próprias emoções é, na realidade, uma atitude imatura e impensada de quem não monitora a própria experiência, seja de forma interna ou externa, para compreender o efeito que os seus atos tem em si e nas outras pessoas. A raiva, mesmo quando reprimida pela cultura de excesso de racionalização, fica armazenada no corpo e extravasa, até de forma inconsciente, em contextos diversos. Por não ser respeitada e aceita socialmente, a raiva tende a ser a emoção negativa que sofre mais descolamento, ou seja, mecanismo de defesa que faz com que lidemos com emoções negativas através de uma pessoa ou circunstância menos ameaçadoras, ou que nos deixa mais à vontade para a sentirmos e a expressarmos. A tendência de descarregar a raiva nos filhos e agir de modo agressivo-passivo, ambos comportamentos típicos de genitores tóxicos, tais como da mãe narcisista, são exemplos clássicos de como o esforço para negá-la é infrutífero e desemboca em problemas sérios de relacionamento e, até, em abuso e trauma.

A raiva acumulada

Caso tenha sido vítima de abuso narcisista, a probabilidade que sofra de raiva acumulada é muito grande, já que se trata de um dos efeitos mais comuns do trauma do desenvolvimento. Quem sofre de raiva acumulada tende a apresentar, entre outros, os seguintes sintomas:

  • alta reatividade
  • irritabilidade, falta de paciência
  • hipervigilância
  • tristeza
  • sentir-se usado, desvalorizado, baixa autoestima
  • sarcasmo, desejo de criticar e ferir o outro com palavras, agressividade passiva
  • ver a vida como uma batalha, os outros como inimigos ou pessoas que querem se aproveitar de você ou humilhá-lo  
  • levar tudo para o lado pessoal
  • problemas do sono
  • armouring: rigidez nos músculos dos ombros, costas, pescoço e mandíbula
  • dores de cabeça
  • fadiga
  • aumento da pressão sanguínea
  • problemas gastrointestinais

Se se identifica com o dito acima, recomendo abordar o seu problema de raiva acumulada o quanto antes através de uma atitude proativa, consciente e responsável, já que tem o potencial de afetar a sua saúde, a qualidade de vida e relacionamentos de uma forma dramática. 

Você tem direito a sua raiva

Como ser humano, você tem total direito de sentir o que for. Ninguém tira este direito de você, independente do argumento (incluindo, “Mas ela é sua mãe”), já que a sua experiência subjetiva consiste em um direito universal seu. Assim como você não precisa justificar o seu valor para tê-lo, todas as suas emoções não precisam ser explicadas para que adquiram relevância e sejam honradas, basta existirem para que, automaticamente, sejam merecedoras de sua atenção. É claro que honrar a sua raiva não lhe dá permissão para abusar dos outros livremente. Se você só consegue expressar a raiva de forma polarizada e disfuncional, ou seja, reprimindo-a ou expressando-a de forma extrema, precisa reavaliar o seu estilo e aprender formas saudáveis de lidar com ela.  Aprender a comunicar a sua insatisfação de forma assertiva, não violenta e polida, revela-se essencial para quem deseja conectar-se com a raiva de maneira autêntica e produtiva.

Honrando a raiva do filho e filha de mãe narcisista

Passar anos sendo humilhado, rejeitado e ignorado por uma mãe narcisista, abusiva, egoísta e egocêntrica, enquanto se é negado o direito de sentir-se mal em relação a tudo isso, é enfurecedor. Tornar-se adulto e dar-se conta disso e, ainda, não ter o direito de validar essa raiva, mais ainda. Para encerrar com este ciclo de negligência e dependência emocional (para compreender o que é a dependência emocional e como superá-la, recomendo o meu curso online, “A dependência emocional”), é vital que comece a honrar a sua raiva neste momento e de forma autônoma, mesmo que ninguém a sua volta esteja disposto a fazê-lo. Só você tem o poder de transformar a sua vida e o relacionamento que tem com as emoções. Para beneficiar-se de uma conexão saudável com a raiva, faça dela a sua melhor amiga e aprenda a processá-la e observá-la, sem julgamento. Quando acolhe todas as partes de si, está praticando o amor-próprio de dentro para fora. Se necessita de ajuda para mudar o relacionamento com a raiva, recomendo o meu curso online “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá a reconectar com o corpo e a processar a raiva resultante de seu trauma de forma saudável.   

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