Blog

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1

Se você é filha ou filho de uma mãe narcisista, já deve ter formulado a seguinte suposição:

“Se eu aprender a lidar com a minha mãe, tornar-me mais fria e não me preocupar com o que ela diz ou faz, serei capaz de aguentá-la e não precisarei cortar o contato.”

No meu trabalho com filhas e filhos de mães narcisistas, é bastante comum encontrar clientes que mencionam isso como um de seus objetivos de terapia. Por ser uma noção tão comum e, ainda, tão errônea no contexto do relacionamento entre filhos e mães narcisistas/tóxicas, achei pertinente usar este espaço para esclarecer.

Então, vamos lá: é possível “treinar-se” para não se abalar emocionalmente com o comportamento abusivo e impróprio de uma mãe narcisista?

A resposta, na esmagadora maioria dos casos, é não. Isso se deve ao fato de que a sua mãe narcisista está no centro da sua história de trauma do desenvolvimento. Como a praticante de grande parte do abuso que você sofreu, a sua mãe narcisista é o seu gatilho número um. Para compreender a extensão do efeito que ela provoca sobre você, é vital entender o conceito de “gatilho”.

A mãe narcisista como um gatilho

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1
Um “gatilho” é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático

No contexto de qualquer tipo de trauma, seja físico, psicológico/emocional, de uma ocorrência singular ou complexo (uma série de eventos adversos), um “gatilho” (trigger, em inglês) é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático de seu passado. Para usar um exemplo bem estereotípico, o barulho de uma explosão pode tornar-se um gatilho para um soldado de guerra traumatizado. Toda a vez que houve um barulho semelhante, independente da origem e donde esteja, sente-se aterrorizado tal como quando se encontrava no campo de batalha. Este gatilho – o barulho de explosão – ativa a sua memória do trauma que, por sua vez, ativa as emoções antagônicas sentidas no momento em que ocorreu (por exemplo, medo), fazendo-o sentir-se vulnerável e indefeso, inclusive se estiver longe de qualquer perigo real.

É claro que há diferentes contextos de trauma, nos quais os gatilhos não são tão simples de serem identificados, tal como o do exemplo. No contexto de trauma complexo – a modalidade sofrida por vítimas de abuso narcisista – estes gatilhos podem ser pessoas e até emoções. A mãe narcisista, portanto, representa um supergatilho. Isso se deve ao fato de que tudo a respeito de sua pessoa, bem como o seu olhar, linguagem corporal, maneira etc. funcionam como gatilhos. Na presença de uma mãe narcisista, o filho ou filha sente-se, com grande frequência e quase automaticamente, como aquela criança vulnerável de muitos anos atrás. Portanto, todo aquele autocontrole, autoridade e autoconfiança de homem ou mulher adulto conquistado ao longo de sua experiência e longe de influência materna parece desvanecer-se na presença de sua mãe narcisista.

Este processo é tão rápido e sutil que escapa a sua consciência. Basta um comentário afetado ou uma crítica destrutiva para que as memórias e crenças do seu trauma sejam ativadas. Uma vez que você é transportada para o passado através destes gatilhos, o seu sistema límbico é ativado e as suas reações tornam-se rápidas, subjetivas, emocionais e até irracionais. Como esclareci no artigo anterior deste blog, esta área do seu cérebro, referido como o “cérebro emocional”, é onde são armazenadas as memórias do seu trauma e é, também, a região responsável por detectar ameaças e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Portanto, as suas reações, quando na presença da sua mãe, serão, na maioria das vezes, motivadas por intensas emoções antagônicas, até mesmo nas circunstâncias em que ela não estiver apresentando um comportamento que, tecnicamente, justifique a amplitude da sua reação. Lembre-se de que o seu sistema límbico é hiperativo em consequência do trauma, a probabilidade de você não se sentir inadequada na presença da pessoa que a abusou por longos e sofridos anos é quase nula. Quando você se familiariza com os aspectos neurobiológicos e entende o conceito de gatilhos, insistir em manter este relacionamento tóxico corresponde a uma atitude ingênua e incoerente.

Honrar as suas emoções é honrar você

A reação normal de um ser humano constantemente atacado verbal e fisicamente e tem a autoconfiança sistematicamente destroçada é se sentir mal e inadequado. Ninguém deve se esforçar para tolerar o abuso, seja de quem ou da natureza que for. As suas emoções, mesmo quando exageradas, são fontes de grande sabedoria, pois lhe avisam ou relembram da ameaça ao seu bem-estar. No contexto de abuso, tentar “controlá-las”, reprimi-las, ignorá-las ou normalizar o seu significado só promove ainda mais o mal-estar emocional e até a ocorrência de problemas de saúde física e mental. Logo, a melhor maneira de lidar com as suas emoções é respeitá-las e aprender com elas. Mesmo que você faça terapia e certas pessoas insistam que você “tem que” ter um relacionamento com a sua mãe, ou que cabe a você “aprender” a relevar a sua atitude abusiva e transtornada, o seu corpo ou você inteira – da cabeça aos pés – permanece o seu guia mais inteligente e humano. Está na hora de honrar a si própria e dizer não ao abuso narcisista. Se precisar de ajuda para reduzir ou cortar o contato com uma mãe narcisista, recomendo os meus livros, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

 

De que forma o trauma do desenvolvimento afeta o cérebro?

Crescer em um ambiente marcado pelo abuso tende a afetar o desenvolvimento de uma criança

Crescer em um ambiente marcado pelo abuso, seja de ordem emocional/psicológica e/ou física, tende a afetar o desenvolvimento de uma criança. Para filhos e filhas de mães narcisistas, assim como de mães tóxicas, o trauma do desenvolvimento compromete a sua capacidade de viver uma vida plena e de realizações. Isso se deve ao fato de que o estresse ao qual são submetidos quando crianças exerce um impacto negativo em seu desenvolvimento neurobiológico. Indivíduos que, durante a infância, sofreram com a negligência dos seus responsáveis e/ou foram constantemente agredidos de forma física e/ou verbal e, como consequência, estiveram sob a influência frequente de intensos sentimentos de inadequação, tais como: a solidão, o medo, a culpa e a vergonha, apresentam cérebros programados no modo “sobrevivência”.

Na prática, este constante estado de alerta permanece devido ao alto funcionamento de certas áreas do cérebro, enquanto outras se mantêm inativas ou apresentam baixa atividade. A seguir, elencam-se as consequências mais proeminentes e que foram estudadas nos exames de imagem realizados em um grande número de pesquisas científicas referente aos efeitos do trauma na infância, juntamente com os seus efeitos nas vítimas sobreviventes:

1- Alta sensibilidade do sistema límbico

O sistema límbico, composto por estruturas como o hipotálamo, o tálamo, a amígdala e o hipocampo, é considerado o “cérebro emocional”. Esta área é responsável, entre outras, por detectar ameaças ao nosso bem-estar e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Nos indivíduos cujas histórias pessoais de desenvolvimento incluem a negligência e/ou abuso, o sistema límbico (especialmente a amígdala) é hiperativo, ou seja, tende a responder muito mais fácil e rapidamente a supostas “ameaças”. No entanto, trata-se de uma reação exagerada que não reflete a realidade de forma acurada, na maioria das vezes, identifica perigos onde não existem e gerando estresse desnecessário.

Efeitos: índice elevado do hormônio do estresse – cortisol – no sangue, problemas de concentração, dificuldade de aprendizado, de manter metas, de se organizar e de regular as emoções, irritabilidade, insônia/problemas do sono, reflexo de susto exagerado, hipersensibilidade à luz e a sons, entre outros.

Uma das reclamações mais comuns de minhas clientes é que se consideram altamente reativas – ou que se abalam com grande facilidade – até quando reconhecem que as suas reações emocionais são desproporcionadas. Além disso, relatam que ao se sentirem afetadas emocionalmente, seja pela raiva ou ansiedade (em geral, causada pela preocupação excessiva), por exemplo, têm dificuldade de voltarem “ao normal” ou se desligarem destas com a agilidade de que gostariam.

2- Baixa atividade do córtex cerebral

O córtex cerebral compreende a parte do cérebro onde se originam os pensamentos analíticos e racionais, além de tratar de funções relacionadas ao aprendizado e à nossa habilidade de resolver problemas de modo objetivo. O córtex pré-frontal, em especial, é responsável pela reflexão balanceada e objetiva que permite ao indivíduo analisar e fazer planos, decisões e julgamentos baseado em comportamentos passados. Também é onde não só se avalia o próprio pensamento ou funções cognitivas (metacognição) (Fleming, Huijgen & Dolan, 2012), bem como regula os impulsos, as vontades, as compulsões e o comportamento nas interações sociais. Nas vítimas sobreviventes do trauma do desenvolvimento, a reatividade emocional é tão grande e a atividade da amígdala tão rápida e intensa, que tende a dominar o processo de interpretação de informação. Como resultado, o córtex, literalmente, “não tem chance” (Van der Kolk, 2014) de auxiliá-las a interagirem com o mundo a sua volta e com seus próprios pensamentos de uma forma equilibrada, adulta e sem a influência das crenças e emoções relacionadas ao trauma.

Efeitos: alta reatividade emocional (ex.: alta raiva e ansiedade que não diminuem com o tempo), temperamento volátil, dificuldade de criar e manter relacionamentos saudáveis e de regular as emoções, as vontades, os impulsos e os comportamentos nas interações sociais.

Este fenômeno é observado, de forma clássica, na atitude daquela cliente e filha de mãe tóxica/narcisista que, embora seja adulta, inteligente e tenha plenas condições de viver uma vida autônoma, sente-se como uma criança e totalmente pressionada pela própria inadequação. Portanto, assemelha-se ao indivíduo que primeiro age para pensar depois e, por consequência, arrepende-se seguidamente de seu próprio comportamento ou sente-se descontente com a maneira pela qual responde a situações estressantes ou que requerem uma atitude mais equilibrada e autocentrada. Quando se permite parar para pensar a respeito de si e suas opções de forma calma e centrada – tal como no ambiente da terapia – agem de maneira a, naturalmente, ativar as áreas de seu cérebro responsáveis pelo raciocínio objetivo, tal como o córtex.

Se você se identifica com os pontos mencionados, não é por ser “incompetente”, “burra”, “errada” ou “lesada”, mas porque está sofrendo com os efeitos do trauma do desenvolvimento. Estas reações não são aberrantes, mas normais considerando o contexto do abuso e da negligência ao qual foi submetida durante muito tempo. Neste sentido, o seu cérebro não é deficiente e exerceu perfeitamente o papel que deveria, ao tentar não apenas proteger os seus bem-estares físico, emocional e psicológico, assim como preservar o relacionamento com as pessoas responsáveis pela sua sobrevivência e que deveriam, em teoria, terem-na protegido e assegurado um ambiente familiar funcional e harmonioso para o seu desenvolvimento. Para lidar com os efeitos do trauma da melhor maneira possível, é vital que, em primeiro lugar, conscientize-se desta verdade.

Referências

Fleming, S. M., Huijgen, J. & Dolan, R. J. (2012). Prefrontal Contributions to Metacognition in Perceptual Decision-Making. J Neurosci. 32(18): 6117–6125. doi: 10.1523/JNEUROSCI.6489-11.2012

Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Mind, Brain and the Body in the Transformation of Trauma. London, UK: Penguin Books.

 

Tipos de abuso

Abuso é um comportamento cruel e violento intencionado a manter um indivíduo sob controle de, pelo menos, outra pessoa. Contrário ao que  se entende amplamente por abuso, compreende muito mais do que dano causado ao corpo por meio da violência física (ex. doméstica), mas inclui toda e qualquer conduta imprópria ou ato de violência que afeta os bem-estares físico, emocional, psicológico e/ou espiritual de outra pessoa. Na maioria dos casos de abuso – como o cometido por uma mãe tóxica/narcisista – o comportamento  abusivo não se limita a uma ocorrência, ocorre de forma repetitiva por um determinado período, podendo incluir grande parte ou toda a infância da vítima sobrevivente, assim como se estender à idade adulta. O abuso, no entanto, não ocorre somente no ambiente familiar, pode ser observado em todo e qualquer relacionamento. A seguir são elencados os tipos de abuso para que você entenda de que maneira acontece na prática e como pode afetá-la:

(A palavra “criança”, em muitos dos exemplos pode ser substituída por “pessoa”)

Abuso emocional/psicológico

Tipos de abuso
Culpar uma criança pelas próprias escolhas é abuso
  • Culpar a criança pelo que acontece consigo, inclusive pelas próprias escolhas
  • Provocar a criança ou fazê-la se sentir mal para servir a um fim, de forma consciente e premeditada
  • Usar o medo, a culpa e a vergonha para manipular a criança a fazer somente o que deseja através de chantagem emocional
  • Ameaçar abandonar a criança quando faz algo errado ou não se comporta como desejado
  • Travar o crescimento e desenvolvimento pessoal da criança rejeitando a sua identidade e autonomia de modo consistente e sistemático
  • Tratar a criança como um ser inferior, incompetente ou indigno de ser amado
  • Submeter a criança a grandes e constantes variações de humor, tal como testemunhar ataques de raiva frequentes
  • Ignorar, negar ou banalizar a existência de problemas de saúde mental na criança
  • Ignorar, negar ou rejeitar os limites pessoais da criança
  • Trivializar a natureza dos comportamentos abusivos, como ataques verbais e o uso indiscriminado de mentiras como se fossem aceitáveis, sem importância ou inconsequentes
  • Agir de forma passivo-agressiva fazendo a criança sentir-se inadequada de forma sofisticada e insidiosa para aliviar ou “lidar” com a própria raiva e insatisfação pessoal
  • Incesto emocional: tratar a criança como se fosse o adulto responsável pelos seus cuidados e bem-estares físico, psicológico e emocional. Buscar conselho ou compartilhar de problemas de ordem emocional com a criança, como se fosse adulta e com a incumbência de oferecer apoio emocional ao adulto.

Negligência emocional

  • Não reconhecer os sentimentos da criança, ignorá-los ou tratá-los como dispensáveis
  • Recusar-se a validar o efeito que as suas atitudes exercem no bem-estar emocional da criança
  • Não escutar a criança nem valorizar a sua expressão pessoal, assim como os sentimentos
  • Não expressar empatia pelo sofrimento ou desconforto emocional da criança
  • Incentivar, inclusive indiretamente, a repressão das emoções, sobretudo quando negativas
  • Manter-se emocionalmente distante e desinteressado dos sentimentos da criança
  • Rejeitar ou culpar a criança por sentimentos de natureza antagônica, tal como a raiva
  • Incentivar, através de exemplo de comportamento, a incongruência emocional, ou exigir que a criança pareça feliz quando se sente descontente

Negligência Física

  • Ignorar os problemas de saúde física da criança e não buscar assistência médica
  • Não fornecer abrigo ou ser capaz de manter a criança bem nutrida e/ou vestida de forma apropriada
  • Manter a criança sozinha e sem supervisão por períodos prolongados, principalmente quando ainda não tem a idade para cuidar de si
  • Tornar uma criança responsável pelos cuidados de outra(s) criança(s)
  • Forçar uma criança a prover ou contribuir financeiramente pelo seu próprio sustento (ou da família), seja através de trabalho, seja forçando-a roubar ou mendigar

Abuso Verbal

  • Intimidar e humilhar a criança com rótulos de conotação negativa, tal como “burro”, “estúpido”, “imbecil” etc.
  • Usar nomes de natureza chula e derrogatória para descrever a criança ou o seu comportamento
  • Provocar, rir ou zombar da criança
  • Ter o hábito de comparar a criança a outras pessoas
  • Ter o hábito de resmungar, importunar ou gritar com a criança

Abuso físico (violência doméstica)

  • Agredir uma criança fisicamente através de tapas, pancadas, chutes
  • Queimar ou agredir uma criança fisicamente por meio de um objeto, tal como um cinto
  • Sacudir ou empurrar a criança contra uma parede ou objeto
  • Forçar a criança a comer ou beber; ou se recusar a alimentá-la
  • Forçar a criança a se exercitar, fazer uma tarefa ou atividade física que supere a sua capacidade e disposição

Abuso sexual

  • Tocar ou acariciar as zonas erógenas e/ou órgão sexual da criança
  • Olhares impróprios, fazer “brincadeiras”, comentários ou insinuações maliciosas
  • Expor-se ou masturbar-se na frente da criança
  • Masturbação mútua com a criança
  • Ter relação sexual com a criança (vaginal, oral e/ou anal)
  • Penetrar uma criança com o uso de dedos ou objetos
  • Ejacular na criança
  • Forçar a criança a assistir filmes pornográficos, ou a fazer parte de um
  • Tirar fotos pornográficas de uma criança
  • Forçar uma criança a ter relações sexuais com outra, ou a assistir outros tendo relações sexuais
  • Forçar a criança a ter relações sexuais com animais
  • Forçar a criança a participar de jogos sexuais ou torturá-la sexualmente
  • Recusar-se a conversar com a criança a respeito de sexo, puberdade e menstruação, como se fosse algo sujo e impróprio

Abuso vicário

  • Expor a criança a abuso de qualquer natureza cometido a outrem, tal como membro da família

Abuso espiritual

  • Usar verdades espirituais, palavras ou textos religiosos para coagir, justificar comportamentos e atitudes impróprias, manipular ou cometer algum tipo de dano à criança, seja de ordem física, sexual, psicológica ou emocional
  • Conjurar uma autoridade divina ou usar da autoridade espiritual para endossar um comportamento impróprio ou forçar a criança para servir aos seus próprios interesses

Como se colocar em primeiro lugar em 2018

Como se colocar em primeiro lugar em 2018
Você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar

Dar prioridade ao próprio bem-estar não equivale a egoísmo, tampouco a narcisismo, já que uma autoestima alta é uma característica psicológica funcional e não patológica. Por mais que a sua mãe narcisista a tenha convencido do contrário ao longo de muitos anos de abuso, lavagem cerebral e um comportamento egoísta e egocêntrico, você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar. Mesmo que você seja mãe ou esteja vivendo um relacionamento amoroso, as suas necessidades, vontades e interesses têm grande relevância para a preservação de sua essência e saúde mental, bem como para garantir a sua qualidade de vida e a dos relacionamentos. Não há melhor exemplo de mãe, amiga ou parceira amorosa do que uma mulher que se valoriza como um indivíduo seguro e autônomo.

Sem dúvida, para quem foi criada em um ambiente familiar disfuncional e negligente, não se revela uma tarefa fácil concentrar-se em si, nos seus próprios problemas e objetivos. Se você está cansada de se sentir como uma atriz coadjuvante na própria vida, seguem 5 dicas de como se colocar em primeiro lugar em 2018:

1- Questione as atitudes e motivações codependentes

Colocar-se em primeiro lugar é dar atenção a si mesma de forma ativa e consciente, antes de tudo. Na prática, consiste em dizer não à codependência e sim ao amor-próprio, ou se concentrar em resolver a própria dor, assim como lidar efetivamente com os sintomas do trauma em vez de direcionar a atenção ao narcisismo da mãe, aos problemas do pai, da irmã, do irmão, dos amigos, parentes, parceiros amorosos etc., já que não são sua responsabilidade. Portanto, se a sua mãe é narcisista, não cabe a você encontrar a cura para o problema dela, pois além de não lhe pedir ajuda, não a reconhece como tal, tampouco dá valor a sua dedicação. A codependência não é uma atitude nobre, mas uma tendência comportamental masoquista e de autossabotagem baseada em estratégias de defesa e enfrentamento disfuncionais que evitam lidar com as emoções negativas fortes, tais como a tristeza e a vergonha de não ser amada pela própria mãe (e muitas vezes também pelo próprio pai e demais membros da família) através da negação, repressão, sublimação e dissociação, entre outros.

Para questionar a sua tendência codependente, monitore os pensamentos (sobretudo em relação a sua família) e, toda a vez que se flagrar tentando resgatar quem quer que seja, pergunte-se:

“Por que eu estou mais preocupada com os outros do que comigo mesma?”

“Que inseguranças e emoções negativas estou tentando mascarar através desta atitude?”

 “Quais são as minhas necessidades neste momento?”  

2- Mantenha uma atitude de tolerância zero com a culpa e a vergonha

No contexto do narcisismo materno, a culpa e a vergonha são sentimentos extremamente contraproducentes a uma autoestima saudável. É comum eu recomendar cautela aos meus clientes quando se sentem invadidos por tais sentimentos devido ao seu grande poder tóxico; entretanto, no caso de filhas de mães narcisistas, esta recomendação é redobrada. Se você tem uma mãe tóxica narcisista, recomendo muitíssimo que desconfie de pensamentos em relação a ela e à família que resultam em culpa e vergonha, pois 99,99% das vezes são incoerentes e provenientes de crenças negativas capazes de travarem o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Lide com a culpa e a vergonha como lidaria com um incêndio dentro de casa, extinguindo-as imediatamente. Para fazê-lo, pode contar com a ajuda do seu diálogo interno iniciando um questionamento racional, adulto e centrado das verdadeiras motivações de tais sentimentos, como a chantagem emocional, por exemplo. Se preciso, verbalize a sua aversão à culpa e vergonha de forma clara através da escrita ou dizendo para si mesma em voz alta: “Culpa/vergonha em alta, autoestima em baixa!” Quando você se liberta da influência da culpa e vergonha, readquire a atenção e energia necessárias para focar em si, nos seus interesses e nas suas realizações.

3- Diga não à autossabotagem

Cultivar uma “autoestima” condicional, não respeitar os próprios limites e negligenciar os sentimentos, bem como se entregar ao perfeccionismo, à crítica negativa, à codependência, à procrastinação e à imobilidade são atitudes autossabotadoras. Tudo aquilo que rejeita quem você é e cria uma distância entre você e a sua essência compromete a autorrealização, seja nos campos pessoal, acadêmico ou profissional. Se você tem o hábito de acreditar em todo e qualquer pensamento que passa pela sua cabeça – especialmente os motivados pela culpa e vergonha, que insistem em convencê-la de não ser e agir de acordo com o seu verdadeiro eu para garantir a aprovação alheia ou de que não é boa o suficiente para alcançar o que deseja – isso a torna uma vítima fácil da autossabotagem. Quebre o ciclo da ruminação e saia do seu estupor reivindicando o direito de ser você, independente do que isso signifique. Lembre-se de que se aprende muitíssimo a respeito de si mesmo por meio de todo e qualquer ato cometido de forma honesta e autêntica. Rejeite a voz derrotista do narcisismo materno, seja proveniente de sua própria cabeça ou da língua venenosa de sua mãe, dizendo não à autossabotagem e dê asas a sua criatividade e expressão pessoal.

Sentir-se bem e em harmonia consigo é possível por intermédio da expansão da autoconsciência e autoconhecimento. Para entrar o ano sentindo-se com mais autonomia, adote uma posição autoafirmativa e inovadora investindo em maneiras de pensar e agir que complementam a pessoa que é e o que deseja para a própria vida. Se ainda necessita de mais inspiração para começar a implementar mudanças positivas na própria vida, sugiro a leitura do meu novo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.  No capítulo de número 4, Os cinco As de emancipação da filha de mãe narcisista, descrevo as atitudes e comportamentos que ajudam a filha de mãe narcisista a superar problemas antigos, readquirir o controle sobre si e reconectar-se com a própria vida.

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes?

Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância. Filhos e filhas de mães narcisistas, por crescerem em um ambiente de intenso abuso, negligência e instabilidade emocional correm o risco de apresentarem dificuldades em uma ou mais áreas de seu desenvolvimento, tais como: apego, biologia, equilíbrio emocional, capacidade cognitiva e autoconfiança. Sentir-se rejeitada, ignorada e, por vezes, totalmente inadequada na presença da genitora narcisista cria um ambiente hostil e repleto de ansiedade para o crescimento e desenvolvimento sadio de qualquer criança. A incoerência do estilo “maternal” deste tipo de mãe faz com que a filha, em particular, esteja sempre em alerta a possíveis perigos, como ser atacada física ou verbalmente por quem, supostamente, deveria amá-la e protegê-la. Por conseguinte, a atenção que deveria estar voltada para o desenvolvimento de características pessoais e funções mais sofisticadas de sua psique direciona-se para as suas necessidades básicas, como a sobrevivência e autopreservação, prejudicando o desenvolvimento de sua identidade e contribuindo para a criação de uma percepção essencialmente negativa e tendenciosa de si mesma, de mundo e relacionamentos. Caso você seja filho ou filha de uma mãe narcisista, a probabilidade de que tenha sofrido com o trauma do desenvolvimento é muito alta. Para entender a maneira pela qual crescer sob a tirania de uma mãe narcisista tem o potencial de afetar a sua mente, corpo e relacionamentos seguem os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes:

1- Você não tem uma visão coerente de si mesmo

Crescer acreditando que não é digna de ser amada, é incompetente e nada do que faz é bom o suficiente compromete a nossa capacidade de desenvolver uma percepção sadia e confiante de nós mesmos. É ter a essência constante e sistematicamente negada de forma tão cruel e persistente, como se houvesse algo errado consigo. A filha de mãe narcisista cresce acreditando ser de fato “quebrada” ou “errada”, percepção prejudicial não somente a autoimagem, com também a sua identidade, pois acaba investindo ainda mais energia desperdiçada em tornar-se alguém programado somente para satisfazer a mãe narcisista, perdendo o contato com o seu verdadeiro eu para proteger-se dos ataques dela e salvaguardar este relacionamento tóxico. Já na idade adulta, tem dificuldades de realizar-se nos campos pessoal, acadêmico e/ou profissional, pois não sabe ou encontra sérias dificuldades de reconhecer quem é, do que gosta e é capaz.

2- Você se sente facilmente sobrecarregada por pensamentos e sentimentos

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes
Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância

Como o seu cérebro se desenvolveu em um ambiente hostil, adaptou-se a isso para protegê-la de ameaças ao seu bem-estar, sejam estas da natureza física ou psicológica/emocional. Filhas de mãe narcisistas são facilmente influenciadas por seus próprios pensamentos e sentimentos, sobretudo quando negativos. Dado que a sua sobrevivência, ou seja, sentir-se segura e protegida foram sempre a sua prioridade, leva-se muito a sério e confia em seus instintos muito mais do que na própria razão, como se fosse um animal selvagem sentindo-se permanentemente acuado por um predador. Por outro lado, a combinação de seu isolamento emocional, excesso de independência e visão tendenciosa faz com que seja suscetível às suas perturbações próprias emocionais e pareceres demasiado negativos os quais não revelam, necessariamente, uma fiel representação dos fatos.

3- Você tem dificuldade de regular as suas emoções

O adulto que quando criança não conta com a presença calma, tranquila e centrada de uma mãe atenciosa e consistente com as suas necessidades tem dificuldades de se equilibrar emocionalmente, já que aprendemos a regular as emoções com a ajuda do nosso genitor mais influente ou adulto responsável pelos nossos cuidados através do toque, afeição e carinho. Filhas de mãe narcisistas tendem a não conseguir equilibrar as emoções de uma forma efetiva e independente, geralmente necessitam se automedicar. Portanto, é bastante comum terem problemas de ansiedade, tal como o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT), assim como um índice de cortisol no sangue acima da média. A vida, como resultado, parece uma grande batalha para a filha de mãe narcisista, fazendo do drama, da angústia e do estresse características fixas e até “aceitáveis” de sua existência. Já que o seu “normal” é um intenso estado de alerta – seja este consciente ou não – inúmeras situações têm o potencial de desestabilizá-la emocionalmente.

4- Você tem dificuldade de criar relacionamentos seguros e estáveis

As vítimas sobreviventes de trauma do desenvolvimento tendem a apresentar dificuldades no campo dos relacionamentos, principalmente no amoroso. Visto que não possuem um adequado senso de segurança interno e externo, acham difícil confiar no outro e criar uma conexão afetiva verdadeira com as outras pessoas. Têm tanto receio de se envolverem afetiva e emocionalmente, a ponto de conscientemente se afastarem de qualquer intimidade que as exponha a uma situação de “risco”, tal como serem rejeitadas e maltratadas de novo. Como não conseguem equilibrar as emoções, tornam-se extremamente reativas e instáveis comprometendo, também, o relacionamento. Finalmente, a falta de autoconfiança e a baixa autoestima resultantes de uma percepção negativa de si mesma fazem com que se envolvam com parceiros errados, que não as respeitam e até abusam delas, repetindo o padrão de rejeição e circunstâncias hostis em que foi criada, mas por lhe ser tão familiar, cria uma falsa ilusão de apego e conexão afetiva.

5- Você evita lidar com lembranças traumáticas e dolorosas

Naturalmente, é doloroso revisitar memórias traumáticas. O nosso cérebro sabe disso e nos protege desta dor afastando e até bloqueia essas memórias. Não conseguir relembrar a infância ou se sentir desconfortável quando tenta relatar as experiências de vida com uma mãe narcisista e pai facilitador é um indicio poderoso de que tais memórias são potencialmente traumáticas. Se você não consegue produzir uma narrativa consistente com uma infância feliz e tranquila, citando um razoável número de exemplos de situações em que seus pais estiveram presentes não somente em corpo, mas também em alma para a protegerem, ajudarem-na e a apoiarem, é porque provavelmente este não foi o caso. A inconsistência de um relato de uma pessoa traumatizada pela indiferença materna e/ou paterna, por exemplo, é em si reveladora de que a visão de sua infância não corresponde à realidade dos fatos (a vítima sobrevivente de trauma do desenvolvimento defende que “não há nada de errado” com a sua infância, embora não consiga relembrar nenhum momento em que teria recebido apoio emocional de seus genitores, por exemplo).

Apesar do trauma do desenvolvimento ser um problema de saúde mental bastante complexo, frequentemente afetando o bem-estar emocional, os relacionamentos e a capacidade de realização pessoal da vítima sobrevivente, é possível de ser tratado. Uma atitude consciente e proativa em relação a sua existência, bem como seus efeitos, é por si só emancipadora. Abordar o trauma com honestidade e coragem demonstra-se fundamental para ser superado, seja buscando terapia ou implementando mudanças positivas na própria vida de modo independente. Quando se trata de trauma, a autoconsciência, o conhecimento a respeito do problema e uma atitude autônoma de recuperação do controle sobre a própria vida são indispensáveis para que se consiga curar as feridas do passado.

Terapia que ajuda x terapia que não ajuda

Devido à recente exposição do tema narcisismo materno e o aumento da conscientização em relação ao problema, há um renovado interesse na terapia por parte daqueles que se veem como uma vítima de uma mãe narcisista. Dado a dimensão do prejuízo causado por crescer e se desenvolver sob a tirania de uma mãe abusiva, torna-se natural a ideia da filha procurar apoio de uma profissional na área de saúde mental para lidar com os problemas de ordem psicológica e emocional resultantes deste relacionamento tóxico. Contudo, reunir a coragem e os recursos financeiros necessários para iniciar o tratamento psicoterápico não garante o sucesso de seu resultado. Dentre os inúmeros e-mails que recebo através do filhasdemaesnarcisistas.com.br, muitos incluem relatos de filhas de mães narcisistas que, embora tenham procurado tratamento, não se sentem melhores após terem investido tempo e dinheiro significativos. Isto ocorre porque encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado tem o potencial de tornar-se um processo difícil e até decepcionante, faz-se vital que se informe a respeito do tipo de terapia que tem a maior probabilidade de ajudá-la. Este artigo visa trazer à luz o papel que a terapeuta e o relacionamento com a cliente e, em especial, filha de mãe narcisista, exercem no sucesso ou fracasso da terapia.

O básico

Independente da abordagem terapêutica, a terapia funciona somente quando é Centrada na Pessoa, ou seja, respeita três condições básicas: a consideração positiva incondicional, empatia e congruência. Em termos práticos, isso quer dizer que a terapeuta não só aceita a cliente e suas circunstâncias sem julgá-la, bem como é capaz de se colocar no seu lugar e ver o mundo através de seus olhos com muito respeito, atitude refletida de forma inequívoca nos seus valores e comportamento. Como está ciente de que a cliente é a expert na sua própria vida, acredita nela e trabalha com ela para ajudá-la a promover a autoexploração e o conhecimento.

terapia
Encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado pode tornar-se um processo difícil

Por mais que isso pareça evidente e até inquestionável para se criar um ambiente terapêutico seguro e produtivo, este cenário não é observado em todos os contextos, especialmente quando a cliente apresenta problemas que questionam as crenças da própria terapeuta. No caso da filha de mãe narcisista, uma terapeuta que acredita tão fielmente nas intuições Mãe e Família a ponto de não conseguir questioná-las ou analisá-las sob um ângulo negativo, irá comportar-se de forma naturalmente resistente quando se deparar com uma cliente cujos problemas de ordem psicológica e emocional estejam diretamente relacionados à atitude disfuncional, negligente e abusiva de seus genitores. Esta resistência se faz óbvia em comentários, tais como: “Mas ela é sua mãe”, “Você tem que entender e aprender como lidar com a sua mãe” etc.

Esse tipo de retórica somente reproduz o ambiente familiar de antagonismo e rejeição o qual a filha de mãe narcisista foi forçada a tolerar por longos e sofridos anos. É impossível sentir-se compreendida e aceita quando a própria terapeuta é incapaz de reconhecer e honrar a sua verdade, seja qual for. Portanto, não a complementa ou fortalece, tampouco ajuda a esclarecer os seus sentimentos de inadequação, mas apenas a faz sentir-se ainda mais incongruente, isolada e solitária.

Respeitando a verdade da filha de mãe narcisista

A função da terapeuta também é auxiliar a cliente a construir um senso de realidade que faça sentido e explique a sua experiência de modo coerente. Partindo desta premissa, a terapia que ajuda a filha de mãe narcisista é aquela que aborda os eventos que compõem a sua história como fatos e não fantasia. Quando o objetivo é emancipar a cliente, auxiliá-la a entender o que aconteceu consigo sob uma perspectiva clara e objetiva torna-se indispensável. Ajudá-la a entender que o que sofreu tem nome – abuso – e que, como tal, deixou marcas profundas na sua mente e corpo – o trauma – permite que a filha de mãe narcisista consiga organizar a sua narrativa pessoal de forma lógica. Nestas circunstâncias, há um grande senso de alívio e bem-estar, em que a cliente se torna apta a, finalmente, validar a sua história e os seus sentimentos de impropriedade. Saber a verdadeira origem de sua confusão e insegurança e ter esta verdade confirmada por uma terapeuta empática é, em si só, um ato transformador.

A terapeuta que evita tocar em assuntos tabus, e que, por isso, não associa a experiência da filha de mãe narcisista com a família disfuncional às palavras “abuso” e “trauma”, priva-a de conceber a verdadeira extensão e implicância de não lidar com o seu problema de maneira franca e proativa. Ser vítima de abuso materno narcisista resulta, em sua esmagadora maioria, em trauma de ordem complexa. Os efeitos desta modalidade de trauma são sentidos não somente na infância, como também na idade adulta, frequentemente limitando a capacidade da filha de mãe narcisista de viver uma vida plena e de realizações, pois afetam o seu sistema emocional, corpo, psique e relacionamentos negativamente. A abordagem terapêutica que ajuda a filha de mãe narcisista a superar o trauma é aquela que o entende como fato e o conceitua através de uma elucidação clara e de fácil identificação. Sobretudo, trata-se de uma abordagem que reconhece os seus efeitos não como produtos de simbolismo ou uma imaginação fértil, mas como manifestações reais de um problema de saúde mental que exerce um impacto negativo na sua qualidade de vida.

Se você é filha de mãe narcisista e está pensando em buscar um tratamento, escolher uma terapeuta sensível, que entenda e respeite você, a sua história e verdadeira dimensão do seu problema é fundamental. A terapia que ignora os fatores acima falha em reproduzi-los de forma satisfatória e, portanto, revela-se como uma perda de tempo e dinheiro. Além disso, uma “profissional” que está mais preocupada em provar uma teoria e proteger valores de família absolutos e obsoletos do que reconhecer a verdade de uma cliente traumatizada e vítima de abuso tem o potencial de aliená-la e até retraumatizá-la, prejudicando-a em vez de ajudá-la. Portanto, recomendo cautela.

Quando em terapia, reflita sobre as seguintes perguntas:

  • Eu me sinto compreendida e acolhida por esta terapeuta?
  • Ela parece possuir um conhecimento atualizado e apropriado sobre o meu tipo de problema?
  • Ela aborda o que passei sob a perspectiva do abuso e trauma?
  • Eu me sinto mais esclarecida com os comentários, esclarecimentos e as interpretações desta terapeuta?

Se a resposta for sim para todas essas perguntas, há uma grande probabilidade de que a terapia será produtiva.

A maldição do filho dourado

O filho dourado é o escolhido da mãe narcisista como “favorito”. Trata-se daquela criança considerada “a melhor” de todas e, por esta razão, é protegida, favorecida e usada frequentemente como o seu instrumento de triangulação. Embora em um grande número de famílias regidas pela tirania narcisista revele-se ser extremamente fácil apontar a criança dourada, em algumas este processo não é tão óbvio. Há situações em que o papel de criança dourada não é fixo, mas passa de um filho para outro de acordo com a conveniência da mãe narcisista, pois tudo depende do seu interesse do momento e de quem seja capaz ou esteja desesperado o suficiente em sacrificar-se para atendê-lo – ao que me refiro como “leilão emocional” em meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas.

A maldição do filho dourado
Mesmo sem perceber, a criança dourada paga um preço altíssimo pelo favoritismo narcisista

Tipicamente, no entanto, a criança dourada tende a ser o filho de sexo masculino. Psicologicamente, associo esta tendência ao autodesprezo da mãe narcisista. Visto que a filha é uma extensão de si mesma e funciona como o espelho refletor de sua própria imagem, é tratada com o mesmo repúdio e ódio que a mãe narcisista cultiva pela sua própria pessoa. Se a mãe narcisista fosse capaz de amar e aceitar a si mesma ou reconhecer a filha como um indivíduo e entidade independente, essa tendência não seria tão predominante.

Independentemente do contexto ou explicação para esta atitude imatura, incoerente e disfuncional, a noção de que o favoritismo da mãe narcisista é algo benéfico para a criança dourada pode até fazer sentido em teoria, mas, na prática, revela-se seguidamente como um comportamento prejudicial ao crescimento e desenvolvimento pessoal do “escolhido”. O que se observa nas famílias disfuncionais de minhas clientes é que a esmagadora maioria dos filhos dourados que recebem tratamento especial das mães narcisistas tornam-se adultos imaturos e irresponsáveis, além de exibirem problemas sérios de autoestima, autorregulação emocional e relacionamentos. Muitos não têm ocupação, mudam de emprego com grande frequência e dependem financeiramente da mãe, embora tenham idade suficiente para se sustentarem. No lado amoroso, também não são bem-sucedidos ou têm o hábito de se envolverem em relacionamentos dramáticos e caóticos. Já como irmãos, os filhos dourados tendem a ser egoístas, frios, distantes e até agressivos fisicamente quando contrariados. Quando não são narcisistas como a mãe, também agem de forma apática e indiferente ao abuso do qual são testemunha e defendem a atitude da mãe mesmo que não seja abertamente.

Os fatos mencionados me permitem concluir que a influência direta que a mãe narcisista exerce no filho dourado também é nociva e, por vezes, tão tóxica quanto a que exerce no filho bode expiatório ou “ovelha negra”. Mesmo sem perceber, a criança dourada paga um preço altíssimo pelo favoritismo narcisista, o qual deve ser aceito até quando não é solicitado. Enquanto que o abuso e o efeito tóxico narcisista são muito mais evidentes nos demais filhos, a predileção da mãe narcisista pelo filho dourado é erroneamente concebida por todos como benéfica, pois vem disfarçada de amor materno. Somente quando o filho dourado não consegue comportar-se de forma adulta e competente é que se compreende como a educação narcisista foi falha em prepará-lo para a vida e ajudá-lo a tornar-se um indivíduo autônomo e sensato. A maldição do filho dourado é mais uma prova de que uma mãe narcisista – inclusive quando parece comportar-se como mãe – não é uma interferência saudável na vida de nenhum dos filhos.

O que esperar quando se corta o contato com a mãe narcisista

O que esperar quando se corta o contato com a mãe narcisista
Cortar o contato com a mãe narcisista, apesar de ser uma tarefa difícil, permanece como o único meio de libertar-se de sua influência tóxica

Cortar o contato com a mãe narcisista compreende uma decisão muito importante capaz de mudar radicalmente a qualidade de vida da filha de mãe narcisista. Embora soe como uma medida extrema, cortar o contato faz-se necessário nos casos de filhas de mãe narcisistas e tóxicas cujo abuso sofrido as impede de viverem a própria vida da maneira que desejam, encontrarem paz de espírito e se realizarem como mulheres adultas, autônomas e competentes. Manter o relacionamento com a mãe narcisista afeta a capacidade da filha de crescer e se desenvolver como pessoa, assim como lidar de uma vez por todas com os efeitos do trauma, tal como a ansiedade, culpa, raiva, baixa autoestima e incapacidade de sentir prazer na vida, entre outros (para uma lista completa dos efeitos do trauma psicológico e emocional, clique aqui).

Devido ao fato do transtorno de personalidade narcisista ser incurável e narcisistas nunca admitirem ter qualquer tipo de problema, o narcisismo raramente é diagnosticado, abordado de maneira responsável e com a ajuda de um profissional especializado. Portanto, quem se encontra envolvido diretamente com um/uma narcisista, como os filhos, filhas e parceiros amorosos, por exemplo, possui como única alternativa: cortar o contato definitivamente com a fonte de sua angústia. Se você está considerando esta possibilidade, mas não sabe o que esperar quando se corta contato com a mãe narcisista, é válido se preparar psicológica e emocionalmente para este grande feito, já que, como explico no meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, “narcisistas não gostam de ser rejeitados, muito menos esquecidos”.

1- Você será julgada

A nossa cultura (patriarcal, ocidental, católica) defende o respeito e dedicação cegos a pais e mães, assim como à família da qual descendemos. A sabedoria do senso comum é recheada de chavões que ilustram esta ideologia, tal como “Mãe/família é tudo”, “Mãe só tem uma” e “O sangue é mais denso que a água”. Quem ousa contestar estas “regras”, causa desconforto nos defensores do status quo, ou naqueles que organizam o seu senso de realidade ao redor de valores rígidos e absolutos que conferem um senso de controle sobre a sua vida e de outras pessoas. Tais indivíduos se sentirão não só incomodados pela sua atitude inovadora e independente, bem como pelas implicações da sua decisão. Quando você questiona tais crenças, abre o equivalente a uma “caixa de pandora”, pois inicia uma discussão – mesmo que sem intenção nenhuma – a respeito dessa veracidade e dos benefícios reais de segui-las fielmente. Como mudanças tendem a causar sentimentos de inadequação, sobretudo em pessoas inseguras e controladoras, você provavelmente será julgada de modo negativo por parentes e “amigos” com visão de mundo limitada e egoística.

2- Você terá duvidas

Como com toda decisão de peso, é perfeitamente normal sentir-se insegura após ter cortado o contato com a mãe narcisista. Lembre-se, você foi condicionada a acreditar que não é boa o suficiente para absolutamente nada e de que sem a sua mãe narcisista e a sua família disfuncional você é incapaz de conquistar algo positivo. Portanto, passará por um período de instabilidade emocional no qual se questionará se de fato tomou a decisão correta em cortar o contato com a matriarca transtornada. Este desconforto, embora difícil de tolerar, é uma reação típica de vítimas/sobreviventes de abuso pois tiveram a sua percepção corrompida ao longo de muitos anos de ataques verbais, manipulação psicológica e maltrato emocional. Nessas horas é vital relembrar-se do que motivou a sua decisão, e, se necessário, escrever uma lista contendo exemplos detalhados das inúmeras vezes em que foi torturada emocionalmente por uma mãe abusiva e negligente, assim como os efeitos físicos, psicológicos e emocionais resultantes deste relacionamento.

3- Você se sentirá acuada

A sua mãe narcisista embarcará em uma campanha difamatória contra a sua reputação assim que registrar a mensagem de que você está resoluta em cortar o contato definitivamente. Mobilizará parentes, conhecidos, amigos, ex-amigos, colegas, ex-colegas, namorado, ex-namorados, marido, ex-maridos e padres – basicamente qualquer contato disponível – como seus meninos de recados ou “macacos voadores” para persuadi-la de forma persistente e indireta a voltar atrás em sua decisão. Como nunca admite culpabilidade, pede desculpas ou perdão aberta e honestamente, usará de sua influência para denegri-la e acuá-la a se entregar ao seu controle novamente, pois perde grande parte de seu brilho sem o seu suprimento narcisista favorito. Diante de tamanha pressão, é normal que você se sinta acuada e até perseguida. Não desista. Lembre-se de que a sua saúde física, emocional e psicológica depende da sua determinação. Coragem! Com o tempo, a sua “rebeldia” se tornará história antiga ou até exemplo de sucesso pessoal.

4- Você se sentirá triste

Quando você corta o contato com a mãe narcisista dá início a um processo de luto pela mãe que nunca foi. Você finalmente registra, por meio de sua tristeza, que não tem nem nunca teve uma mãe de verdade. Essa verdade dói, e muito! Você se sentirá deprimida, sozinha e abandonada, como se fosse uma órfã. Novamente, conscientize-se de que este processo é normal e necessário para a recuperação da sua saúde física, psicológica e emocional. Embora seja um momento difícil, o período de luto não durará para sempre. Após uma média de três a seis meses sem contato com a mãe narcisista, a tendência é começar a curtir a independência e paz de espírito sem que se sinta cerceada pela culpa e vergonha. É claro que a sua vida não se tornará um mar de rosas automaticamente apenas por ter cortado contato, mas propiciará o espaço para se concentrar em si mesma e tratar os efeitos do trauma, medidas que a possibilitarão atingir um estado de congruência e contentamento pessoal até então nunca imaginado possível.

5- Você compreenderá a dimensão do problema

Sob a influência de uma mãe narcisista, a sua visão própria e de mundo se torna restrita ao seu comportamento transtornado e disfuncional. Você acredita ser seu dever de filha tolerar abuso, ser explorada e tratada como cidadã de terceira categoria, pois se vê forçada a se concentrar nos sentimentos dela, não somente por ter sido doutrinada a acreditar que são mais importantes, como também para proteger-se de sua ira. Quando se encontra finalmente sozinha e sem a sua interferência nefasta, passa a entender a extensão do prejuízo que a convivência com uma pessoa deste tipo lhe causou. Esta vítima/sobrevivente de abuso materno que possui a coragem de enfrentar a verdade narcisista, assumindo a sua realidade e cortando o contato com a origem, logo descobre a extensão do trauma que afetou a sua saúde psicológica e emocional. Quando se sente perdida, sem identidade e senso de direção, ou dominada por sentimentos antagônicos sem saber como controlá-los, percebe como grande parte da sua alma foi corrompida e o seu desenvolvimento foi retardado pelo relacionamento de dependência psicológica e emocional, forçada a manter com uma mãe egoísta e egocêntrica. Idealmente, quando este é o caso, eu recomendo a terapia como alternativa de apoio de primeira linha. Caso não disponha das condições financeiras para acessar este tipo de ajuda, é vital que invista em atitudes positivas com você mesma, como, por exemplo, buscar informação sobre o(s) seu(s) problema(s) e as maneiras saudáveis de abordá-lo(s) e resolvê-lo(s).

Cortar o contato com a mãe narcisista, apesar de ser uma tarefa difícil, permanece como o único meio de libertar-se de sua influência tóxica. Mesmo que não haja como evitar o já mencionado, tornar-se ciente dos problemas e desafios a serem enfrentados a ajudará a superar o seu desconforto emocional. Quando você entende ser normal sentir-se inadequada, insegura, triste e até impotente depois de cortar o contato com a mãe narcisista, fica mais fácil tolerar estas emoções antagônicas, já que fazem parte do repertório emocional e comportamental de filhas de mãe narcisista e demais vítimas/sobreviventes de abuso. Você não está sozinha, o que está acontecendo consigo é esperado em tais circunstâncias. Mantenha a sua cabeça erguida e fé em você mesma e no seu poder de decisão, pois é quem sabe o que é melhor para si.

A mãe narcisista e a síndrome de Peter Pan

Uma das características mais marcantes de uma mãe narcisista é não se desenvolver com o tempo. Embora seja considerada adulta o suficiente para ser mãe, exibe as mesmas crenças rígidas, incongruência emocional e comportamentos disfuncionais de quando adolescente. A imaturidade emocional e a falta de responsabilidade não são apenas características do narcisismo, como também de um “transtorno mental” chamado “síndrome de Peter Pan”. Apesar de não ser oficialmente reconhecida como tal, esta síndrome já se faz presente no vocabulário terapêutico há muitos anos, mesmo antes de ter sido popularizada pelo psicólogo Dan Kiley (1983) em seu livro The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up (A Síndrome de Peter Pan: Homens que Nunca Cresceram) e é amplamente usada para descrever o comportamento pueril e imprudente de adultos de ambos os sexos.

A mãe narcisista, assim como demais “sofredores” da síndrome de Peter Pan, recusa-se a crescer.  Apesar de não admitir, e nunca admitirá abertamente que este é o seu caso, pois na frente de plateia é o exemplo de mulher adulta e mãe experiente, comprometida e dedicada. No entanto, dentro de quatro paredes e no ambiente familiar comporta-se de forma infantil e inconsequente com os filhos e o marido/parceiro amoroso. A seguir uma lista das atitudes disfuncionais da síndrome de Peter Pan que condizem com o repertório comportamental da mãe narcisista:

Não assume responsabilidade pelos seus atos: assim como uma criança malcriada que, embora flagrada com a boca suja de chocolate, nega tê-lo comido, a mãe narcisista se isenta de toda e qualquer responsabilidade não somente de seus atos impróprios, bem como das consequências destes, mesmo quando todos têm plena ciência de que foram a principal causa do problema. Tem o hábito de mentir descadaramente e distorcer a verdade para proteger-se com tanta energia, talento artístico e falta de vergonha que acaba convencendo as pessoas. Se algo ruim acontece consigo ou com a família, “certamente” a culpa não é dela.

Não assume responsabilidades por suas obrigações de mãe: no ambiente familiar, a mãe narcisista comporta-se de forma distraída e desinteressada como se estivesse de passagem ou fosse uma visita, conhecida ou colega de quarto dos filhos e não o adulto responsável por seus cuidados. Desde os 4, 5 anos, quando já é capaz de caminhar, comunicar-se e alimentar-se sozinha, a filha de mãe narcisista aprende que não pode contar com o apoio da mãe, seja financeiro, emocional ou psicológico, ou simplesmente para ajudá-la a completar uma tarefa básica, como ajudar no dever de casa. Além disso, a mãe narcisista se aborrece profundamente quando requisitada, como se os filhos e suas necessidades fossem uma grande inconveniência ou se já fossem adultos o suficiente para viverem de modo independente. Na família regida pela tirania do ego narcisista, a regra é cada um por si e todos pela mãe narcisista.

A mãe narcisista e a síndrome de Peter Pan
A mãe narcisista, assim como demais “sofredores” da síndrome de Peter Pan, recusa-se a crescer

Não assume responsabilidades por seus próprios problemas: se tem problemas financeiros, emocionais ou de relacionamento, por exemplo, a culpa é sempre dos outros, principalmente dos filhos ou marido, como já sabemos. A mãe narcisista está sempre descontente, irritada e de mau humor não por ser incapaz de se equilibrar emocionalmente, mas porque alguém fez algo ou se comportou de determinada maneira que a magoou “profundamente”. Por ter sérios problemas de identidade e equilíbrio, precisa constantemente de atenção, apoio e consolo como uma adolescente inexperiente e perdida, agindo como a filha da própria filha e não como a sua mãe. A inversão de papeis entre filha e mãe narcisista evidencia a total incoerência da matriarca e o alto nível de toxicidade deste relacionamento disfuncional.

Ignora problemas: o escapismo é o hobby favorito da mãe narcisista, pois é deslumbrada e vive sonhando acordada com fantasias de grandiosidade. Além disso, é desinteressada e negligente com relação ao que acontece na vida dos filhos porque é egocêntrica e, portanto, valoriza apenas o que refere a si mesma. Não monitora as atividades destes ou procura saber o que estão fazendo ou como estão se sentindo por pura falta de curiosidade, entusiasmo e zelo. Quando aparecem com problemas na escola, de ordem emocional ou comportamental, por exemplo, não hesita em culpá-los por suas “falhas” de maneira cruel e abusiva, enquanto se isenta de qualquer responsabilidade em tudo relacionado ao desenvolvimento dos filhos.

Considera-se o centro do universo: dado que tudo o que concerne à mãe narcisista é mais relevante e especial, o mundo revolve ao redor de seu umbigo. É “dever” de todos entretê-la, agradá-la e apaziguá-la como se necessitasse de atenção e cuidados constantes. Como um bebê de 6 meses, tem ataques de raiva quando não consegue o que quer, ou se comporta como vítima através de muita chantagem emocional e drama. Aqueles que não priorizam os sentimentos da mãe narcisista são isolados ou punidos. Invariavelmente, os filhos crescem acreditando que é de fato a sua obrigação colocar as necessidades e vontades da mãe na frente das suas e, como consequência, tornam-se codependentes, têm dificuldade de autodefinir-se, além de não conseguirem dizer não a situações desagradáveis nem honrarem os seus limites pessoais.

É rebelde: o antagonismo da mãe narcisista é superentediante, cuja atitude de oposição assemelha-se a de um adolescente rebelde que, para confirmar a autonomia e chamar a atenção, posiciona-se de maneira contrária a dos pais. Tem o hábito de discordar do que está sendo proposto, de querer o indisponível ou manifestar gostos diferentes da maioria não por estar agindo de forma autêntica, mas por necessidade de se destacar, seja da maneira que for. Como precisa ser notada para se sentir valorizada, a sua atitude é impertinente e maçante, além de ser difícil de agradar.

Não cumpre com o que promete: lembra quando você tinha 8 anos de idade e prometia que não iria mais provocar a sua irmã só para que o seu pai parasse de castigá-la? A mãe narcisista usa a mesma tática para se esquivar de compromissos e responsabilidades, principalmente as de mãe. Concorda com tudo e promete o mundo, inclusive quando tem plena ciência de que não moverá um dedinho para que as suas promessas se materializem. Como é mentirosa e não tem escrúpulos quando o assunto é a autopreservação e o favorecimento de seus interesses, o que a mãe narcisista diz definitivamente não se escreve.

Preocupação excessiva com a aparência: a mãe narcisista é tão vaidosa, superficial e fútil como uma menina pedante e insegura de 14 anos. Enquanto possui o hábito de ignorar problemas ou descartar a importância do que acontece com os membros de sua própria família, não há nada capaz de tirar sua atenção obsessiva com a imagem. Tudo o que puder projetar uma imagem de sucesso pessoal e perfeição estética vem em primeiro lugar, como, por exemplo, seguir as tendências da moda e encontrar produtos/técnicas inovadoras para corrigir “imperfeições”. A sua atenção é facilmente atraída quando o assunto discorre sobre tais tópicos, mas logo se sente entediada com conversas que provoquem uma autorreflexão aprofundada.

Falta de autoconfiança: a mãe narcisista é viciada em aprovação e vive preocupada com que os outros pensam como uma criança que copia o estilo dos amiguinhos para sentir-se aceita pelo grupo. Como possui um grande problema de identidade e autoestima, nada a seu respeito é autêntico, por isso tudo que faz é cuidadosamente planejado para produzir uma reação positiva nos outros.  

Não tolera críticas: imagine uma menininha de 3 anos que quando alguém a chama de “feia” começa a chorar incontrolavelmente. A reação da mãe narcisista à crítica é bastante similar a este comportamento infantil. Dado que possui zero autoestima, é incrivelmente fácil magoá-la. Além disso, por ser perfeccionista, pensar em extremos e por se considerar o centro do universo, a mãe narcisista leva tudo para o nível pessoal. Assim sendo, é impraticável ter uma discussão adulta e equilibrada com uma mãe narcisista a respeito de seu comportamento sem que acabe em conflito e drama.

Referência:

Dan Kiley (1983). The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up. Ann Arbor, MI: Dodd and Mead.

O que é uma mãe abusiva?

mãe abusiva
É praticamente impossível manter um relacionamento harmonioso e funcional com uma mãe abusiva

Uma mãe abusiva é aquela que abusa da autoridade de mãe para subjugar os filhos. A mãe abusiva considera-se superior e acredita ter o direito de tratar os filhos de forma arbitrária por ser a mãe. É praticamente impossível manter um relacionamento harmonioso e funcional com uma mãe abusiva, pois não respeita nem reconhece o valor dos filhos, tal como a sua individualidade, estágio de desenvolvimento e autonomia. Se você desconfia que a sua mãe seja abusiva, seguem as características mais típicas de uma mãe abusiva para ajudá-la a identificar e desmascarar as suas atitudes impróprias:

Não respeita os limites pessoais de seus filhos: invade sua privacidade, apropria-se do que não é seu e não aceita não como resposta.

É egoísta: só pensa em si mesma e não respeita os sentimentos, interesses, opiniões e vontades dos filhos.

Agride os filhos fisicamente: sempre tem uma justificativa “plausível” para descontar a raiva por meio de violência física.

É incapaz de amar os filhos de forma genuína: o seu “amor” e afeto são inteiramente condicionais.

Agride os filhos verbalmente: possui o hábito de criticar e humilhar os filhos de maneira sórdida e cruel.

É emocionalmente negligente: ignora, invalida, banaliza e até descarta os sentimentos dos filhos.

É incongruente: comporta-se de forma inversa aos seus supostos valores e ao que afirma acreditar.

É antagonista: nunca está satisfeita. Faz questão de exibir opiniões contrárias as dos filhos, quer sempre o que não está disponível ou o inverso do que está sendo oferecido.

É manipulativa: usa de agressividade passiva, chantagem emocional, ameaças, culpa e vergonha para punir e persuadir a todos a fazerem somente o que deseja.

Domina as conversações: precisa ser o centro das atenções, não respeita a vez dos outros de falar ou expressar opiniões e tem sempre a última palavra.

Está sempre certa: nunca admite erros de atitude e comportamento e, por isso, usa os filhos como bodes expiatórios. A “verdade” é de acordo com o que acredita e não corresponde necessariamente aos fatos.

Não pede desculpas: embora comporte-se de maneira abusiva e imprópria, não assume responsabilidade por nada do que diz ou faz, tampouco pelas consequências de seus atos. É sempre vítima de uma grande injustiça.

Não confia nos próprios filhos: age de maneira estranha em relação as suas capacidades, sejam no ramo profissional ou pessoal.  Trata-os como se fossem crianças, inexperientes ou incapazes de formular um julgamento independente, adulto e centrado.

Mente descaradamente: não hesita em usar da mentira para compelir os filhos a fazerem o que deseja. Além disso, mente para se proteger e se ausentar das responsabilidades de seus atos.

Projeta as suas inseguranças e defeitos nos filhos: ataca e culpa os filhos pelas suas próprias falhas e vulnerabilidades, seja de caráter, atitude ou comportamento.

É controladora: tudo em relação à família revolve ao redor de seus interesses. Faz o que pode, direta ou indiretamente, e por meio de triangulação para restringir a autonomia e o poder de decisão dos outros envolvidos.

É hostil: tem o hábito de provocar brigas e desentendimentos através de sua atitude fria e antagonista. É muito difícil de lidar e aturar a longo prazo.

É exploradora: acredita que seja obrigação dos filhos sacrificarem-se pelo seu bem-estar. Está sempre tentando tirar proveito de uma situação.

Comporta-se de maneira infantil: exibe comportamentos equivalentes aos de uma criança como se fosse filha e não mãe dos próprios filhos.

Enquanto toda mãe narcisista é abusiva, nem toda mãe abusiva é narcisista. Se você desconfia que a sua mãe seja narcisista, mas ainda não se sente segura, verifique se os seus traços de personalidade se encaixam no perfil da mãe narcisista contido aqui. Também recomendo a leitura do meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas para um estudo longo e detalhado do narcisismo materno e seus efeitos.