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Para honrar a sua raiva

Embora seja instrumental para o nosso senso de valor e autoproteção, a raiva é uma das emoções mais incompreendidas. Crianças e mulheres, especialmente, são criticadas por possuírem-na e expressarem-na, como se a raiva nunca tivesse mérito ou aplicação na sua experiencia. É através desta emoção, contudo, que o corpo mobiliza a energia para reavermos a nossa autoestima, por exemplo, bem como respeitarmos os nossos limites ou nos defendermos, seja de forma física ou verbal. A raiva também ajuda a equilibrar a tristeza e o medo e a fazer com que reavemos o controle sobre uma situação ou até de nós mesmos. Um corpo humano, cuja raiva tenha sido condicionada a ser reprimida, torna-se vulnerável ao abuso, à negligência e a uma grande variedade de problemas de ordem física, psicológica/emocional e relacional. Apesar da conexão com a raiva ser tão fundamental para garantir o nosso bem-estar, a atitude de ignorância em relação a ela é tão grande que achei pertinente usar o meu blog para ajudar a esclarecer para desmitificá-la e humanizá-la. Este artigo, portanto, tem o intuito de honrar a sua raiva.

Para honrar a sua raiva
A conexão com a raiva é fundamental para garantir o nosso bem-estar

“Sentir raiva da mãe é feio”

Você não precisa ter uma mãe narcisista para ter ouvido esse comentário em sua infância. Se como a maioria de nós, tiver recebido uma educação rígida e que reflita uma atitude de imaturidade e negligência emocional, aprendeu, desde pequeno, a negligenciar as emoções negativas como propósito prático e, por isso, não devem ser toleradas. Também aprendeu que deve sentir-se envergonhado e culpado por possui-las, as quais só são válidas se justificadas por um argumento objetivo e se aprovadas por outras pessoas. A sua raiva, portanto, assim como tristeza, surpresa, medo, nojo e vergonha sentidos, deve ser racionalizada e aceita por terceiros para que tenha valor. Esta atitude errônea e inflexível de racionalização e consequente desumanização das emoções negativas, embora mantida por pais bem-intencionados, compromete a nossa integridade e habilidade de nos desenvolvermos de forma saudável e operarmos satisfatoriamente em todas as áreas de nossas vidas.  

“Quem expressa a raiva é fraco, descontrolado”

Embora sufocar a raiva, fazer um esforço tremendo para controlar as emoções negativas e negar a sua existência seja visto como um sinal de força e equilíbrio, negligenciar as próprias emoções é, na realidade, uma atitude imatura e impensada de quem não monitora a própria experiência, seja de forma interna ou externa, para compreender o efeito que os seus atos tem em si e nas outras pessoas. A raiva, mesmo quando reprimida pela cultura de excesso de racionalização, fica armazenada no corpo e extravasa, até de forma inconsciente, em contextos diversos. Por não ser respeitada e aceita socialmente, a raiva tende a ser a emoção negativa que sofre mais descolamento, ou seja, mecanismo de defesa que faz com que lidemos com emoções negativas através de uma pessoa ou circunstância menos ameaçadoras, ou que nos deixa mais à vontade para a sentirmos e a expressarmos. A tendência de descarregar a raiva nos filhos e agir de modo agressivo-passivo, ambos comportamentos típicos de genitores tóxicos, tais como da mãe narcisista, são exemplos clássicos de como o esforço para negá-la é infrutífero e desemboca em problemas sérios de relacionamento e, até, em abuso e trauma.

A raiva acumulada

Caso tenha sido vítima de abuso narcisista, a probabilidade que sofra de raiva acumulada é muito grande, já que se trata de um dos efeitos mais comuns do trauma do desenvolvimento. Quem sofre de raiva acumulada tende a apresentar, entre outros, os seguintes sintomas:

  • alta reatividade
  • irritabilidade, falta de paciência
  • hipervigilância
  • tristeza
  • sentir-se usado, desvalorizado, baixa autoestima
  • sarcasmo, desejo de criticar e ferir o outro com palavras, agressividade passiva
  • ver a vida como uma batalha, os outros como inimigos ou pessoas que querem se aproveitar de você ou humilhá-lo  
  • levar tudo para o lado pessoal
  • problemas do sono
  • armouring: rigidez nos músculos dos ombros, costas, pescoço e mandíbula
  • dores de cabeça
  • fadiga
  • aumento da pressão sanguínea
  • problemas gastrointestinais

Se se identifica com o dito acima, recomendo abordar o seu problema de raiva acumulada o quanto antes através de uma atitude proativa, consciente e responsável, já que tem o potencial de afetar a sua saúde, a qualidade de vida e relacionamentos de uma forma dramática. 

Você tem direito a sua raiva

Como ser humano, você tem total direito de sentir o que for. Ninguém tira este direito de você, independente do argumento (incluindo, “Mas ela é sua mãe”), já que a sua experiência subjetiva consiste em um direito universal seu. Assim como você não precisa justificar o seu valor para tê-lo, todas as suas emoções não precisam ser explicadas para que adquiram relevância e sejam honradas, basta existirem para que, automaticamente, sejam merecedoras de sua atenção. É claro que honrar a sua raiva não lhe dá permissão para abusar dos outros livremente. Se você só consegue expressar a raiva de forma polarizada e disfuncional, ou seja, reprimindo-a ou expressando-a de forma extrema, precisa reavaliar o seu estilo e aprender formas saudáveis de lidar com ela.  Aprender a comunicar a sua insatisfação de forma assertiva, não violenta e polida, revela-se essencial para quem deseja conectar-se com a raiva de maneira autêntica e produtiva.

Honrando a raiva do filho e filha de mãe narcisista

Passar anos sendo humilhado, rejeitado e ignorado por uma mãe narcisista, abusiva, egoísta e egocêntrica, enquanto se é negado o direito de sentir-se mal em relação a tudo isso, é enfurecedor. Tornar-se adulto e dar-se conta disso e, ainda, não ter o direito de validar essa raiva, mais ainda. Para encerrar com este ciclo de negligência e dependência emocional (para compreender o que é a dependência emocional e como superá-la, recomendo o meu curso online, “A dependência emocional”), é vital que comece a honrar a sua raiva neste momento e de forma autônoma, mesmo que ninguém a sua volta esteja disposto a fazê-lo. Só você tem o poder de transformar a sua vida e o relacionamento que tem com as emoções. Para beneficiar-se de uma conexão saudável com a raiva, faça dela a sua melhor amiga e aprenda a processá-la e observá-la, sem julgamento. Quando acolhe todas as partes de si, está praticando o amor-próprio de dentro para fora. Se necessita de ajuda para mudar o relacionamento com a raiva, recomendo o meu curso online “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá a reconectar com o corpo e a processar a raiva resultante de seu trauma de forma saudável.   

5 crenças rígidas de uma educação tóxica que resultam em baixa autoestima e codependência

5 crenças rígidas de uma educação tóxica que resultam em baixa autoestima e codependência

Uma educação tóxica prejudica o desenvolvimento sadio da criança

Uma educação tóxica é proveniente de um estilo parental inepto, inconsciente, imaturo, abusivo e negligente e, por esta razão, afeta prejudicialmente o desenvolvimento da criança sujeita a isto. Crescer sob tal influência interfere com a nossa capacidade de nos tornarmos adultos autoconfiantes, além de prejudicar a nossa habilidade de nos sentirmos seguros no campo dos relacionamentos.  Se você é pai ou mãe e não quer cometer os erros de seus genitores tóxicos ou deseja tornar-se mais consciente acerca da origem da sua falta de amor-próprio, elencam-se 5 crenças rígidas de uma educação tóxica que resultam em baixa autoestima e codependência:

“A criança deve comportar-se exatamente como os pais querem”

Segundo esta crença, a criança é como uma “tábula rasa”, ou seja, não tem personalidade ou conhecimento, portanto, quem sabe o que é bom para ela são, suposta e exclusivamente, os pais. Contudo, a falha dos pais de não reconhecerem a sua competência, individualidade e autonomia resulta em intensos sentimentos de insegurança pessoal na criança. Por ser forçada a ter um senso de direção para fora de si e nos sentimentos e necessidades alheias, distancia-se do próprio eu e de sua identidade, tornando-se, na idade adulta, um indivíduo inseguro e codependente.

“Os pais são superiores porque são pais”

Tal regra presume que a idade, maternidade e paternidade equivalem à maturidade, o que não é verdade, pois nem todo mundo torna-se responsável, consciente e mais inteligente com a passagem do tempo e a experiência, como é o caso de quem possui o transtorno de personalidade narcisista (para expandir o seu conhecimento acerca das características do narcisismo materno, recomendo o meu primeiro livro, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas). Quem condiciona os filhos a acreditarem a não saberem quem são ou o que seja melhor para si próprios, educa-os para se tornarem dependentes emocionalmente de outras pessoas. Além disso, esta mentalidade impede que confiem na própria percepção, competência, valor e potencial, inclusive fora do ambiente familiar.

“Se você trata a criança bem, torna-se arrogante e mimada”

Trata-se de uma crença antiquíssima e, embora supererrônea, é repetida, ainda hoje, por pais mal informados e que não compreendem a verdadeira importância de nutrir a autoestima do filho para ter um desenvolvimento saudável. É somente através do amor incondicional expressado de forma clara e consistente com as necessidades de uma criança que esta aprende a amar-se e respeitar-se. Quem cresce sentindo-se invisível e sem ser apreciado e validado pelos pais aprende que não é bom o suficiente e digno de ser amado e bem tratado. Tal individuo terá grande dificuldade de reconhecer o próprio valor sem vergonha e culpa (síndrome do impostor), autoafirmar-se e defender os próprios interesses.

“Pais dedicados são aqueles que ‘se preocupam’ com a criança”

Pais controladores e/ou ansiosos usam esta crença para manipular e projetar a ansiedade nos filhos. Vamos deixar bem claro, a ansiedade não equivale a amor. Pais que se preocupam excessivamente com o bem-estar dos filhos, ou usam isso como desculpa para justificar o controle que tentam exercer sobre estes, ou fazem por motivações obscuras e deficiências de equilíbrio emocional próprias. Não é a responsabilidade de nenhum filho fazer o que os pais querem para que se sintam melhor, já que não são responsáveis por seu bem-estar emocional. As crianças que são condicionadas a acreditarem nesta crença vivem com medo de magoarem os pais e sentem-se culpadas por problemas e sentimentos que não são seus, aspecto que está no cerne de uma atitude codependente.

“A criança é responsável pelo descontentamento dos pais em relação a ela”

Quando uma criança não corresponde às expectativas dos pais, razoáveis ou não, desapontam-nos e sofre as consequências disto, independente de terem vindo de si própria ou refletirem o seu próprio eu.  Desta forma, aprende, desde cedo, que necessita não somente antecipar, como também atender as necessidades alheias para que se sinta amada e segura em um relacionamento (codependência), pois quem é, o que quer e sente não tem valor nenhum (baixa autoestima). Segundo esta lógica, o seu valor é condicional, está fora de si e depende de sua habilidade de agradar os outros.

Se se identificou com as crenças rígidas de uma educação tóxica, acredita ter sido vítima disso e deseja superar a codependência e a baixa autoestima, sugiro o seguinte:

  • Reconheça e respeite o seu direito à autonomia, assim como o de seus filhos: todos temos direito à individualidade. Torne-se um modelo de autenticidade e autoconfiança honrando a sua liberdade pessoal e a dos outros a sua volta. Aprenda a dizer não e a aceitar as preferências alheias quando diferem da sua. Chega de dar ajuda e opinião que não são solicitadas tampouco necessárias. Para mais dicas de como superar a tendência codependente e reaver a sua autoestima, recomendo o meu curso online “A codependência”.
  • Reconheça a própria competência, assim como a de seus filhos: seja consistente e aplique na própria vida o que acredita em teoria, com muita coragem. Se acredita nas suas habilidades e de seus filhos, dê prova concreta disso permitindo que todos se tornem responsáveis tanto por suas decisões, como pelas consequências destas. Seja tolerante e permita erros. Ninguém tem de ser perfeito, já que a vida é uma jornada de aprendizado para todos nós.
  • Ame-se, bem como os seus filhos, somente por estar viva: repita para si,Eu sou suficiente”, ponto final. Você não precisa provar o seu valor para ninguém. Se necessita de mais ajuda nesta área, recomendo o meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. No capítulo de número 4, “Os cinco Ás de emancipação da filha de mãe narcisista”, exploro a autoestima e autoaceitação em profundidade e ofereço dicas práticas de como alcançá-las.    
  • Torne-se responsável por como se sente e separe o que é seu do que é do outro: passe a monitorar os seus sentimentos e comportamentos e a entender o que funciona como um gatilho para a sua ansiedade. Investigue-a e aprenda a regulá-la e a lidar com ela de forma independente.Para aprender como superar esta tendência emocionalmente dependente, recomendo o meu curso online “A dependência emocional”.

Por que sofro tanto? Entenda o que é a compulsão da repetição do trauma

Você se sente como um ímã para problemas? Seja na área pessoal/relacional, acadêmica ou profissional? Parece não conseguir levar a vida de uma forma harmoniosa e sem drama? Você atrai, com grande frequência, pessoas difíceis ou se coloca em situações que prejudicam a sua saúde emocional?

Por que sofro tanto? Entenda o que é a compulsão da repetição do trauma

Na compulsão da repetição do trauma, o cérebro da vítima fica “preso” no modo resolução

Caso tenha se identificado e tenha uma história de trauma da infância – como é o caso de filhos e filhas de mães narcisistas – pode estar sob a influência de um de seus efeitos mais marcantes: a compulsão da repetição do trauma. Neste artigo, aprenderá o que é, porque acontece e como superar esta tendência.

A compulsão da repetição do trauma

A compulsão da repetição do trauma compreende uma estratégia de defesa que faz com que a vítima “recrie e, repetidamente, reviva o trauma nas suas vidas presentes” (Levy, 1998). Na prática, esta inclinação é observada, primeiramente, na alta ocorrência de abuso de quem sofreu o trauma da infância, por exemplo. Na minha prática como conselheira do trauma e de filhos e filhas de pais tóxicos, este fato mostra-se bastante óbvio, já que o abuso e a negligência que sofreram com a mãe narcisista e o pai facilitador tendem a se repetir na idade adulta e fora do ambiente familiar. Este fenômeno é tão comum que, para a população leiga, parece ser um “vício” ou “amor” pelo drama. Embora aparentem ser atos conscientes e refletir uma escolha da vítima, são de natureza altamente involuntária, pois correspondem a estratégias de enfrentamento disfuncionais resultantes de uma tendência hipervigilante e neurobiologia alterada pelo trauma.

Mestre do seu trauma?  

Quando um evento adverso ocorre em nossas vidas, é natural despendermos grande energia para tentarmos compreendê-lo para que possamos integrá-lo, cognitivamente, além de aprendermos com a experiência para que a probabilidade de ocorrer novamente seja reduzida. Ruminar acerca do trauma também tem um efeito emocional positivo, pois nos ajuda a aceitá-lo e sentirmo-nos em paz com o ocorrido, facilitando o crescimento pós-traumático. Quem já levou um fora de um(a) namorado(a), sabe como refletir acerca do relacionamento e das possíveis razões deste desfecho tem, muitas vezes, um efeito calmante. Conversar com o(a) ex para entender o que aconteceu revela-se, em certos casos, fundamental para o processo curativo da ferida emocional. Este mecanismo é muito eficiente, pois está no centro dos nossos mecanismos de equilíbrio emocional, defesa e autopreservação. Em tais casos, tornar-se mestre do seu trauma reflete o uso de estratégias de enfrentamento saudáveis e tem um efeito produtivo na sua vida.

Em outros cenários, contudo, este mecanismo é usado de forma obstinada, inconsciente e disfuncional. No contexto de filhos e filhas de mães narcisistas, por exemplo, tende a não resultar na resolução e superação do trauma, mas na sua perpetuação. Isso se deve ao fato de que o abuso e a negligência que sofrem nas mãos de uma mãe narcisista e pai facilitador é um problema sem solução. Porque o problema não pode ser corrigido tampouco resolvido, já que ambos raramente admitem o efeito que têm sobre os filhos e melhoram a sua atitude, o cérebro da vítima fica “preso” no modo resolução, até que consiga solucioná-lo, de alguma forma. Sob a influência de tal configuração cognitiva,  tornam-se escravos cegos de tais forças e gravitam na direção de pessoas e situações que replicam as do trauma da infância, para que consigam resolvê-lo, aprender com o mesmo e reduzir a probabilidade de se repetir. No entanto, continuar a expor-se ao abuso e à negligência, repetidamente, tem o efeito contrário, não de aperfeiçoamento, mas de retraumatização, além de trazer mais desapontamentos e destruição de autoestima.

Para entender como isso funciona na prática, seguem alguns exemplos de compulsão da repetição do trauma em filhos e filhas de mães narcisistas:

  • Insistir em reparar o relacionamento com a mãe abusiva, “curá-la” de seu narcisismo ou “aprender a lidar com ela” (desenvolvendo, supostamente, uma tolerância ao abuso)
  • Ter uma história de relacionamentos disfuncionais com pessoas emocionalmente imaturas, negligentes e, até, abusivas, enquanto tenta “ajudá-las” (tendência codependente)
  • Valorizar (inconscientemente) profissões ou ambientes de trabalho que possuem ou até glamorizam uma cultura de bullying e negligência emocional
  • Forçar-se a expor-se a situações difíceis, que a façam sentir-se mal e funcionam como gatilhos de seu trauma para “aprender a lidar”

Livre de compulsão, livre de trauma  

A compulsão da repetição do trauma envolve crenças e comportamentos rígidos mantidos de forma impensada. Quando os seus atos tornam-se hábitos que raramente são questionados ou reavaliados de modo consciente, você opera em piloto automático e perde a conexão com o presente e o próprio bem-estar. Como uma marionete do seu trauma da infância, passa a vida tentando solucionar um problema sem solução, desperdiçando precioso tempo e energia de vida. Caso queira readquirir o controle sobre si própria e, finalmente, libertar-se desta compulsão, seguem 5 dicas de como erradicar a compulsão da repetição do trauma:

  • Torne-se superconsciente de suas verdadeiras motivações de vida: observe os seus pensamentos, relacionamentos e suas atitudes com a cautela de quem está em processo de cura de uma longa história de trauma e, por esta razão, apresenta uma tendência à compulsão da repetição do trauma. Traga o obscuro à superfície e analise-o com muita maturidade e objetividade, resistindo a tendência de agir somente baseado em reflexos, intuições e emoções fortes.
  • Pare de forçar-se a sofrer para, supostamente, “aprender” com o ocorrido: você não aprende somente com a dor ou com os eventos adversos de sua vida, mas, também, através de pessoas, experiências e coisas boas, bem como de forma adulta, consciente e centrada. Chega de sofrimento. Comece a praticar a autopreservação de maneira consciente e proativa.
  • Reavalie o verdadeiro papel dos seus relacionamentos e o efeito que têm em você: se o seu amigo/parceiro amoroso não respeita as suas emoções, usa o seu ouvido como penico e não mostra interesse nenhum em você, por que insiste neste relacionamento? Isso é amor ou uma reencenação do seu trauma? Reconecte-se com os sentimentos, concentre-se em quem lhe faz bem e pare de sabotar a sua felicidade.
  • Aprenda a valorizar-se: questione as crenças rígidas que não a favoreçam e fazem com que acabe sempre em ambientes e relacionamentos disfuncionais. Celebre a paz, o amor e o respeito em todas as áreas de sua vida e cultive-os nos lugares e com as pessoas certas. Se necessita de mais ajuda para atingir este objetivo, recomendo a leitura do meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.
  • Não tolere abuso, seja de quem for: pare de tentar justificar o abuso e comece a defender o seu bem-estar. Aceite quando uma pessoa é abusiva e/ou tem o hábito de ignorar as suas emoções e distancie-se dela ou mude a dinâmica do relacionamento, drasticamente. Concentre-se em pessoas que a tratam com respeito e fazem-na sentir-se vista, adulta e relevante.  O meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas contém dicas superpráticas de como cortar o contato com a mãe narcisista.

Referência:

Levy, M. S. (1998). A Helpful Way to Conceptualize and Understand Reenactments. J Psychother Pract Res 7(3): 227–235. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3330499/

6 verdades por trás das mentiras da mãe narcisista

6 verdades por trás das mentiras da mãe narcisista

A mãe narcisista usa mentiras para manipular a filha

Umas das dificuldades que as minhas clientes encontram em seu processo de recuperação do abuso narcisista é reconectarem com a própria perspectiva. Devido ao fato de terem sido criadas a base de mentira e manipulação de sua realidade e história, tendem a duvidar da própria percepção, algo que as prejudica, particularmente, no campo dos relacionamentos e quando necessitam dela para julgar o que é dito e feito, e compreender o efeito que as outras pessoas provocam nelas. Para ajudá-la a validar a sua verdade, sair do buraco da insegurança e incerteza e aumentar a autoconfiança, seguem 6 verdades por trás das mentiras da mãe narcisista:

Mentira: “Você é incapaz de amar”

Verdade: quando um filho ou filha ousa não se entregar de corpo e alma, 24 horas e 7 dias da semana ao controle, à exploração e à manipulação narcisista, é porque não “ama” a mãe. Portanto, segundo o raciocínio ilógico da matriarca narcisista, ter alta autoestima, honrar os limites, respeitar os sentimentos e agir de forma autônoma e autêntica, ou seja, com amor-próprio, seriam caraterísticas de um indivíduo incapaz de amar. Cada vez que você se permite acreditar na balela narcisista, o seu cérebro encolhe mais um pouco.

Mentira: “Você pediu para me ter como mãe”

Verdade: a ideia que você escolhe reencarnar tendo uma mãe abusiva para evoluir espiritualmente é tão absurda quanto antiga. Se você ainda não tem consciência do impacto negativo que o trauma da infância exerce na vítima, recomendo informar-se sobre os fatos neurobiológicos antes de se deixar convencer pelo lero-lero narcisista. Crescer em um ambiente familiar tóxico e de estresse crônico não favorece ninguém, mas retarda e, às vezes, até interrompe o processo de desenvolvimento saudável de uma criança. Mesmo sem entrarmos no mérito cientifico deste argumento, usar verdades espirituais para justificar os comportamentos impróprios consiste em abuso espiritual.

Mentira: “Eu me sinto assim por sua causa”

Verdade: embora não tenhamos controle de como afetamos os outros emocionalmente, já que as emoções são extremamente contagiosas, não somos responsáveis pela sua capacidade de administrá-las. Se a sua mãe narcisista sente-se descontente, com raiva e amargurada, por grande parte do tempo, é porque tem um problema de ordem emocional que precisa ser abordado. A falha de direcionar este problema e reconhecer a própria responsabilidade é sempre dela e, nunca, sua.

Mentira: “Você não faz nada certo”

Verdade: quando os pais reconhecem a competência dos filhos de forma incondicional, comunicam a mensagem que são capazes de viver uma vida autônoma e de realizações como, com quem e quando desejam. Pais controladores e inseguros, contudo, como é o caso da mãe narcisista, incentivam a dependência através de comportamentos antagonistas, como estarem sempre insatisfeitos e terem o hábito de criticaram o seu desempenho, como se fossem, de fato, superiores. Este comportamento não reflete a realidade dos fatos, mas as suas tendências abusivas e a necessidade de controle através da subjugação.

Mentira: “Você é egoísta”

Verdade: a mãe narcisista é péssima em gerenciar as emoções, não admite falhas e é mestra na arte da projeção. Quando ela projeta o seu descontentamento ou uma característica negativa própria na filha, “lida” com as emoções antagônicas e os próprios defeitos expressando-os de forma dissimulada e desonesta, culpando-a por possui-los e isentando-se de qualquer responsabilidade.

Mentira: “Quando descobrirem quem você é, será abandonada”

Verdade: esta tática consiste em fazer que acredite que há algo de errado com você, para que, então, passe a compensar pelo suposto déficit fazendo algo pelos outros (mãe narcisista), para que consiga ser amada ou se torne merecedora de seu amor. Por conseguinte, o seu valor reside não em quem é, mas no que tem a oferecer (à mãe narcisista, é claro!), uma crença que a mantém como uma eterna serviçal de suas vontades, seus sentimentos e suas necessidades.

Mentira: “Ninguém nunca vai querer você”

Verdade: a mãe narcisista usa esta mentira para que acredite que não há vida fora do domínio dela. Além disso, quando promove tais valores de baixa autoestima, ajuda a persuadi-la, através de muita lavagem cerebral, que não é boa o suficiente e digna de ser amada. Desta forma, mantém-na pequena, dependente e vulnerável, características que a fazem a vítima perfeita de sua manipulação e controle.

Uma regra que pode auxiliá-la a redobrar a sua confiança na habilidade de discernimento é reconhecer e validar – incondicionalmente – os próprios sentimentos com coragem e sem a contribuição de ninguém. É importante lembrar que validar o que sente não equivale, obrigatoriamente, a agir somente baseada neles, mas respeitá-los com tolerância. Resistir a tentação de questionar tudo o que sente e considerar as emoções negativas como portadoras de alguma sabedoria é uma superferramenta de superação dos efeitos do seu trauma, além de serem atitudes essenciais em seu processo de reconexão com a habilidade de identificar e proteger-se de perigos, pessoas tóxicas e circunstâncias que não a favorecem.

Por que as filhas de mães narcisistas atraem relacionamentos disfuncionais?

Por que as filhas de mães narcisistas atraem relacionamentos disfuncionais?

Um relacionamento é considerado disfuncional quando não fortalece a união

Um relacionamento é considerado disfuncional quando não fortalece a união, o bem-estar e o crescimento pessoal de todos os envolvidos, mas produz o efeito contrário, afetando negativamente o desenvolvimento tanto da saúde mental quanto emocional. No contexto do narcisismo materno, a importância do termo “relacionamento disfuncional” mostra-se óbvia quando a filha descobre que este não se limita ao contexto familiar, pois se aplica a quase todos os relacionamentos mantidos ao longo dos anos. É bem típico de minhas clientes quando refletem detidamente acerca da dinâmica dos seus relacionamentos, por exemplo, perceberem ter atraído um grande número de narcisistas para suas vidas. Isso não é, necessariamente, acurado, já que nem todo mundo é narcisista, mas corresponde, sim, a uma verdade: a tendência a criarem e manterem relacionamentos disfuncionais. A seguir, você descobrirá as raízes disso.

Porque vêm de uma família disfuncional: todos nós aprendemos como nos relacionar com os nossos pais e as demais pessoas influentes no período de nosso desenvolvimento, seja através de instrução direta ou observação de comportamentos. Familiar atrai familiar, independente disso nos favorecer ou complementar. Se os seus pais tinham o hábito de não validar os seus sentimentos e limites, você irá atrair e ser atraída, naturalmente, por pessoas que não os reconhecem nem os valorizam. Se você nunca teve um modelo de relacionamento funcional, fica praticamente impossível reproduzi-lo sem um esforço consciente e proativo.

Porque têm baixa autoestima: quem foi educada na base de amor condicional tem dificuldade de se considerar digna de ser amada por quem é e não pelo que possa oferecer. O abuso e a negligência também deixam marcas profundas na vítima, afetando negativamente não apenas a sua autoimagem, como também a sua capacidade de nutrir o amor e o respeito por si própria e honrar os seus limites. Devido a esta inclinação, a filha de mãe narcisista diminui-se na frente do outro, não sabe ou não consegue dizer não e tolera comportamentos impróprios, mesmo sem se dar conta, o que a torna uma presa irresistível para as pessoas difíceis, tóxicas e com tendências abusivas.

Porque são codependentes: é costume das filhas de mães narcisistas codependentes tentarem mudar e “ajudar” os outros e não a si próprias. Desta forma, comportam-se como a terapeuta ou pessoa responsável por resgatar os amigos e parceiros amorosos enquanto negligencia as próprias necessidades, tal como fez por muitos anos com a mãe narcisista e o pai facilitador. Esta característica faz com que atraiam pessoas egoístas, egocêntricas e imaturas emocionalmente, as quais não se sentem fortes o suficiente para se equilibrarem, assumirem o controle da própria vida e resolverem os próprios problemas.

Porque são dependentes emocionalmente: devido a sua dificuldade de regularem as emoções e sentirem-se bem de dentro para fora, as filhas de mães narcisistas veem os relacionamentos como fontes de direção, bem-estar e realização pessoal (“preciso de alguém para me sentir bem/inteira”, “quando os outros estão de bem comigo/ao meu redor, fico de bem comigo”, “só tenho valor/sei quem sou quando faço os outros sentirem-se bem). Portanto, atraem pessoas vulneráveis, dependentes e que não sabem como se relacionarem de forma autônoma e saudável. Vale lembrar que familiar atrai familiar.

Porque têm valores rígidos e disfuncionais: os nossos relacionamentos e as pessoas com as quais nos relacionamos refletem os nossos valores. Isso se deve ao fato de que atraímos as pessoas que compartilham e correspondem, de alguma forma, a nossa visão própria e de mundo. As filhas de mães narcisistas têm uma história longa de abuso e, com frequência, de trauma mal resolvido e, por isso, acreditam que não são dignas de ser amadas por pessoas boas e maduras. Se a sua identidade permanece atrelada ao trauma e aos valores e visões de mundo rígidas e narcisistas de seus pais, continuará atraindo as pessoas erradas.

Porque têm um baixo nível de maturidade emocional: quando crescemos aprendendo a não valorizarmos e aceitarmos todos os nossos sentimentos, sejam positivos ou negativos, temos dificuldade de conectar com esses na idade adulta. A filha de mãe narcisista que reprime os sentimentos antagônicos, em especial, e nega a sua sabedoria, por exemplo, torna-se mais suscetível a tolerar comportamentos impróprios ou até a não os reconhecer em tempo real. Quando cruza o caminho de uma pessoa imatura, abusiva e/ou com uma história de saúde mental e/ou trauma mal resolvido, por exemplo, descarta ou dissocia dos alarmes de perigo que o corpo emite para avisá-la e protegê-la de se envolver com uma pessoa tóxica. Como resultado, mantém-se aberta para os relacionamentos disfuncionais e, por fim, acaba por atrai-los.

Porque têm um problema de intimidade: as filhas de mães narcisistas, por terem uma história de trauma relacional e possuírem um estilo de apego inseguro, tendem a não se aceitarem de maneira íntegra e a se sentirem desconfortáveis dentro da própria pele e, principalmente, no campo dos relacionamentos. Isso faz com que não aceitem o lado vulnerável delas, tampouco o do potencial parceiro/parceira. No entanto, acabam atraindo pessoas intolerantes, que sofrem também de problema de intimidade e, por esta razão, não desenvolvem um relacionamento de forma aberta, madura e autêntica.

Caso tenha se identificado e deseje aprofundar o conhecimento a respeito do modo como o narcisismo materno afetou não só a sua saúde psicológica e emocional, bem como a habilidade de relacionar-se consigo e as outras pessoas, recomendo o meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. Esta leitura, além de facilitar o entendimento das circunstâncias do seu desenvolvimento que lhe afetaram, ajudará a superar o trauma e a impulsionar o seu crescimento e a sua realização pessoal.

3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima

3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima

A superidentificação com o papel de vítima faz com que se esqueça que tem o poder de dizer não ao abuso

É terrível, cruel e desesperador sofrer abuso da própria mãe, além de ser solitário e doloroso não contar com o apoio emocional dos responsáveis pelos próprios cuidados quando se é criança, vulnerável e dependente. Sobretudo, é injusto ter o seu desenvolvimento prejudicado e a visão de mundo corrompida por uma mãe egoísta e transtornada que nunca é devidamente considerada responsável pelo mau que causa aos filhos. Embora tudo isso seja a mais pura verdade e reflita a história dos filhos e filhas de mães narcisistas, não precisam pensarem, comportarem-se e sentirem-se como uma vítima para o resto de suas vidas. Quando este é o caso, no entanto, a superidentificação com o papel de vítima faz com que se concebam, exclusiva e excessivamente, através deste ângulo e “esqueçam” que, como adultos, são capazes e têm o poder de dizer não ao abuso e viver uma vida realizadora. Para ser relembrada da própria força e ajudá-la a pensar e agir como uma sobrevivente, destacam-se 3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima:

1- A sua motivação de vida é o “tenho que”: desde o momento em que acorda até quando volta para a cama, o seu dia-a-dia é recheado de tarefas e obrigações que “têm que” cumprir. Quase nada do que faz é tratado como uma escolha, mas como uma obrigação, já que pensa e age como se fosse impotente e uma vítima das próprias circunstâncias. Apesar da vida, por vezes, exigir sacrifício e esforço, a sua existência é regida por supostas “necessidades” que são, aparentemente, criadas fora de você ou lhe foram impostas. Aí, você indaga, “mas eu tenho que escovar os dentes todas as manhãs, da mesma forma que também tenho que trabalhar para pagar as contas, já que os meus dentes não se limpam sozinhos e o dinheiro não nasce em árvore!”. Correto, concordo. Contudo, manter os dentes limpos e as contas em dia permanecem escolhas suas. Mesmo sendo mãe e responsável por outras vidas, agir de forma responsável também é uma escolha sua (pergunte a sua mãe narcisista!). Na realidade, a maior parte do que fazemos e, de certa forma, do que acontece em nossas vidas, também é uma consequência direta ou indireta das nossas escolhas, sejam feitas de forma consciente ou não.

2- Você tem uma baixa tolerância ao desconforto: por que algumas pessoas conseguem se controlar e não comer, beber ou comprar em excesso, por exemplo, enquanto outras têm tanta dificuldade? Há inúmeras razões que explicam os diferentes comportamentos humanos, já que somos seres complexos e únicos, o que torna impossível responder esta pergunta sem conhecer o indivíduo em questão, bem como a sua história pessoal. Uma característica universal de todos os sobreviventes de abuso e demais pessoas que conseguem implementar mudanças positivas em suas vidas e libertarem-se dos hábitos que não os favorecem, no entanto, é a habilidade de tolerar o desconforto, ou “sair da zona de conforto”. Embora tenda a ser extremamente custoso para as vítimas do trauma do desenvolvimento, tais como os filhos e filhas de mães narcisistas, não adotarem comportamentos autodestrutivos e que lhes proporcionem gratificação imediata, já que exibem uma dificuldade de regulação emocional, quando se esforçam em tolerar o desconforto proveniente de dizer não, resistir à pressão e tentação, agir de forma autêntica ou se afastarem  de pessoas tóxicas, por exemplo, as recompensas pessoais tendem a ser incríveis a longo prazo. Para aqueles que desejam quebrar o ciclo do abuso e viver uma vida autônoma e realizadora, é fundamental que estejam dispostos a se sentirem mal antes de se sentirem bem.

3- Você se afunda na autopiedade: enquanto reconhece o valor de sentir pena de si mesmo, já que é essencial no período de luto, além de refletir uma atitude complacente, tolerante e empática em relação a si, não é um recurso psicológico que deva ser usado em demasia. A vítima abusa deste recurso quando o usa com grande frequência e no lugar da autoconsciência. Na prática, isso acontece quando se concentra mais em sentir-se mal do que em questionar as circunstâncias de seu infortúnio e a sua participação, direta ou indireta, no decorrer dos eventos que o ocasionaram. Desta forma, perpetua esse estado convencendo-se de que é impotente, através da recusa de analisar o papel que o pensamento e comportamento exercem na própria existência. Portanto, se você dedica grande parte do tempo a reclamar da vida, mas nunca reflete sobre a função que exerce nela ou toma responsabilidade pelos próprios atos (ou ausência destes), está agindo como uma vítima. Embora sofrer com os maus-tratos de uma família abusiva, assim como não ter o seu sofrimento validado seja uma grande injustiça, forçar-se a manter-se eternamente endividada a esta, além de ficar presa à identidade de vítima e atitude passiva enquanto aguarda ser resgatada é uma atitude de sabotagem e negligência com a própria felicidade.

Caso tenha se identificado com o relatado e deseje mudar este cenário e adotar uma mentalidade de sobrevivente, recomendo o seguinte:

1- Use o “quero” no lugar do “tenho que”: quem é o agente da própria felicidade faz, predominantemente, o que quer e não o que “deve”. Se a sua rotina está repleta de atividades que se vê forçada a fazer, mas não se identifica, está na hora de reavaliar o seu propósito. Na minha experiência, contudo, é a mentalidade de vitimização e não necessariamente a qualidade do ato em si que define o efeito que tem em você. Passe a ver o mundo como um resultado das suas escolhas e diga para si mesma: “Eu quero ir trabalhar”, “Eu quero limpar a casa”, “Eu quero estudar”, por exemplo, em vez de “tenho que”, afinal de contas, correspondem ao que escolheu para si.

2- Aumente a tolerância ao desconforto: se ainda está aqui e conquistou tudo que tem após anos de abuso narcisista, significa que é muito resiliente. Portanto, é competente e tem a capacidade de implementar mudanças positivas em sua vida, apesar das adversidades. Não desista e aprenda a tolerar o desconforto que provém de se engajar em comportamentos produtivos e funcionais que a removem da zona de conforto e a catapultam ao sucesso pessoal, como dizer não ao que e a quem lhe faz mal. Faça um investimento a longo prazo em si mesma e passe a se tratar bem e agir com a autoestima. Você é merecedora do seu amor-próprio.

3- Redirecione o foco da sua atenção para dentro e não fora de si: em vez de passar horas tentando entender porque os seus familiares, “amigos” e vizinhos não conseguem nem estão dispostos a reconhecer o mal causado a você, pense no que você pode fazer para melhorar a sua qualidade de vida e estimular o seu bem-estar e crescimento pessoal. Chegou a hora de parar de depender dos outros para sentir-se bem e dar sentido a sua vida. Liberte-se da escravidão da aprovação alheia, das garras da culpa e vergonha e retome o controle sobre o próprio corpo e destino.

Como administrar a hipervigilância e sair do modo luta ou fuga

Como administrar a hipervigilância e sair do modo luta ou fuga

A meditação aumenta a felicidade

Como aprendemos no artigo anterior do blog do Filhas de Mães Narcisistas, a hipervigilância, ou a visão tendenciosa ao perigo, é um dos efeitos do trauma complexo de se crescer em um ambiente de abuso e estresse tóxico. Este estado contínuo de alerta, além de interferir com a capacidade de se sentir segura e ter controle das emoções, mantém ou exacerba os sintomas dos transtornos de ansiedade, como o obsessivo compulsivo e de estresse pós-traumático (simples ou complexo), por exemplo. Se sofre de ansiedade e gostaria de resolver o problema de forma autônoma, saudável e sem depender de remédios, seguem algumas estratégias funcionais de como administrar a hipervigilância e sair do modo luta ou fuga:

Pratique a meditação regularmente: a meditação é uma superferramenta de equilíbrio emocional, principalmente para quem sofre com os pensamentos disfuncionais e a preocupação excessiva. Uma vez que você consiga introduzir o hábito de limpar a sua mente deste lixo cognitivo, ficará em uma posição privilegiada para exercer o controle sobre as emoções antagônicas. Os benefícios da meditação, no entanto, excedem o da regulação emocional, mas incluem os seguintes:

A meditação aumenta …

  • a felicidade
  • a função imunológica
  • a massa cinzenta
  • o volume de áreas relacionadas à regulação emocional, emoções positivas e autocontrole
  • a espessura cortical em áreas relacionadas à atenção
  • a conexão social e a inteligência emocional
  • o foco e a atenção

Diminui…

  • a dor
  • a Inflamação em nível celular
  • a depressão
  • a ansiedade
  • o estresse

Melhora…

  • a capacidade de regular as emoções
  • a capacidade de introspecção
  • a produtividade
  • a capacidade de multitarefa
  • a memória
  • a criatividade

Eu recomendo muitíssimo o livro do Mark Williams, Atenção Plena: Mindfulness  para quem quer se iniciar na prática da meditação, já que contém áudios de meditações guiadas e vem no formato de um programa de oito semanas, o qual foi comprovado cientificamente ser capaz de induzir mudanças positivas no cérebro.

Faça um detox das redes sociais: a sua dependência do celular como fonte de entretenimento e distração, bem como de outros aparatos eletrônicos, tais como a TV, o computador e o tablet, tem um grande potencial de resultar em sobrecarga sensorial. Esta superestimulação, a qual tem início já quando acorda e termina somente à noite, aumenta a hipervigilância e, portanto, a ansiedade, além de mantê-la presa a um mau hábito. Limite o contato com as “telas” e o acesso às redes sociais para que, conscientemente, resista à tentação e aprenda a controlar o impulso. No seu tempo livre, leia um livro, jogue ou brinque com os filhos, medite, converse com um colega, parceiro ou com o vizinho, faça um chá, dance, ouça música, faça exercício ou saia para caminhar, por exemplo, substituindo, de forma proativa, um hábito prejudicial por aqueles que favorecem a sua saúde emocional.

Reduza o consumo de alimentos ricos em carboidratos: o que você come também afeta o seu humor. O consumo de alimentos ricos em carboidratos refinados como o pão branco, batata, arroz branco, massa branca, cereais/sucrilhos, bolos, biscoitos, iogurte com açúcar e sucos, por exemplo, pode causar um desequilíbrio hormonal que resulta na produção dos hormônios do estresse, tais como o cortisol e a adrenalina. Isso explica porque muitos de nós se sentem ansiosos entre as refeições, quando se observa um declínio no nível de glicose no sangue e uma produção dos hormônios do estresse, os quais são responsáveis, também, por restaurá-lo.

Faça exercício/atividade física regularmente: caminhar, correr e fazer aula de dança, por exemplo, contribuem com a melhora de humor, pois reduzem os sintomas da depressão e ansiedade. Isso se deve ao fato de que o exercício e a atividade física aumentam a produção de endorfinas e a sensibilidade do cérebro aos hormônios serotonina (associado ao bem-estar) e norepinefrina (associado à energia), os neurotransmissores que se acredita interferirem com o humor.

Reduza drasticamente ou corte o contato com as pessoas tóxicas: uma característica universal das pessoas tóxicas é que não conseguem regular as emoções nem agirem de forma centrada e empática nos relacionamentos. A mãe narcisista não é uma exceção, pois usa os filhos como muletas emocionais, manipulando-os e abusando destes para se sentir melhor consigo própria. Desta forma, o convívio com tal pessoa irritadiça, inquieta e profundamente insatisfeita, faz com que os filhos se vejam forçados a lidar com uma descarga negativa emocional que não provém de seus próprios corpos. Infelizmente, isso não é algo que possamos controlar com facilidade, pois as emoções são extremamente contagiosas, sejam positivas ou negativas. Essa nossa capacidade de sermos diretamente afetados pelo humor do outro se deve, grandemente, ao que os neurocientistas referem-se como “mimetismo automático” (Chartrand; van Baaren, 2009), ou a imitação inconsciente ou automática da fala, movimentos, gestos, expressões faciais e olhar fixo  das pessoas com as quais interagimos. De acordo com Prochazkova e Kret (2017), “Quando as pessoas inconscientemente imitam as expressões de emoção do parceiro, elas também passam a sentir as reflexões dessas emoções” (“When people unconsciously mimic their partner’s expressions of emotion, they come to feel reflections of those emotions as well”), o que explica porque você se sente tão mal ao lado da genitora narcisista, até quando se encontra de boca fechada. Portanto, se deseja sentir-se feliz e equilibrada, é vital que se concentre nos relacionamentos funcionais e nas pessoas que a favorecem emocionalmente, limitando o contato com aquelas que não lhe fazem bem, como, por exemplo, o seu gatilho número 1, nominalmente, a mãe narcisista. Se isto lhe parece uma ideia atraente, mas não sabe como executá-la, recomendo a leitura do meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, pois contém dicas práticas de como cortar ou reduzir o contato através do “Relacionamento Light” (Prisioneiras… página 201).

Faça terapia: somente o fato de saber que tem alguém com quem conversar, que a compreende sem julgamento, é confortante, pois reduz os sentimentos de solidão, rejeição, alienação e isolamento, tão característicos das filhas de mães narcisistas. Além disso, ter um espaço seguro para desabafar, dar voz à angustia e externá-la ajuda a regulá-la, assim como as demais emoções antagônicas, tais como a raiva acumulada, tristeza e vergonha crônica, entre outros efeitos do trauma. Para ter acesso a uma lista completa dos efeitos do trauma e abordagens terapêuticas que recomendo para filhos e filhas de mães narcisistas, sugiro a leitura do Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

Para não se sentir presa no feedback loop da hipervigilância e ansiedade (hipervigilância » ansiedade » hipervigilância), monitore como se sente, assim como atitudes, hábitos, pensamentos e relacionamentos que tenham um efeito nocivo em seu equilíbrio e em sua saúde emocional. Sobretudo, para sair do modo luta ou fuga e começar a curtir a vida, saia da zona de conforto, aprenda a tolerar o desconforto e passe a agir como uma sobrevivente e agente de mudanças.

Sinais e sintomas de que está operando no modo luta ou fuga

Se é uma leitora assídua deste blog, sabe quais são os efeitos do estresse tóxico resultantes de um longo convívio com uma família disfuncional e mãe narcisista na sua mente, no seu corpo e no espírito. Um dos efeitos mais marcantes deste trauma é a hipervigilância ou um estado contínuo de alerta. Isso se deve ao fato de que, neurobiologicamente, as filhas e os filhos de mães narcisistas foram programados para estarem sempre preparados para enfrentar um eminente perigo ou ameaça ao seu bem-estar, ou seja, para lutar ou fugir de ataques, essencialmente, de sua genitora abusiva. Como este estado é extremamente prejudicial não somente a sua saúde psicológica e emocional, mas também física, segue uma lista completa dos sinais e sintomas de que está operando no modo luta ou fuga para aumentar a sua compreensão acerca do problema:

Sinais e sintomas de que está operando no modo luta ou fuga

Um dos efeitos mais marcantes do seu trauma é a hipervigilância ou um estado contínuo de alerta

  1. Você tem o hábito de imaginar catástrofes ou antecipar um resultado negativo.
  2. Você sofre de armouring ou tensão nos músculos da região dos ombros, nuca e mandíbula.
  3. Você dispõe de grande energia em agradar e sente-se insegura e até culpada quando não consegue cativar a todos.
  4. Você é impulsiva e age com base em emoções fortes, além de não ter paciência para aguardar por uma resolução mais centrada e refletir com calma acerca das alternativas.
  5. Você possui uma visão de mundo excessivamente subjetiva e tendenciosa para o negativo, portanto, quando algo não ocorre como esperado, acredita que a responsabilidade é sua ou tem a ver com você de alguma forma.
  6. Você tem dificuldade de se identificar com as emoções antagônicas em suas diversas intensidades e parece ser capaz de senti-las somente de forma excessiva, crônica ou patológica. O que é, potencialmente, uma expressão coerente e saudável de tristeza, por exemplo, torna-se “depressão”, a raiva é considerada “descontrole/loucura” e o medo, “ansiedade”.
  7. Você tem dificuldade de criar e manter relacionamentos funcionais e duradouros.
  8. Você tem medo de perder as pessoas que ama, bem como os animais de estimação, e tem pensamentos intrusivos com cenários nos quais morrem de um jeito terrível ou inesperado.
  9. Você sofre de terror noturno e demais distúrbios do sono, tal como a insônia.
  10. Quando percebe certa seriedade, insegurança, ansiedade ou frustração no comportamento de outra pessoa, prepara-se para “o pior”.
  11. Quando alguém age de forma ríspida ou não demonstra interesse por você, leva para o lado pessoal e fica ruminando sobre o ocorrido por um longo período.
  12. Você se sente vulnerável e incapaz de se autoafirmar, proteger-se e implementar mudanças positivas em sua vida.
  13. Você tem plena ciência do que não lhe agrada, mas se sente perdida em relação a si mesma e não sabe quem verdadeiramente é, do que gosta e deseja fazer da própria vida.
  14. Você fica nervosa em relação aos afazeres ou às pessoas com as quais convive, sem ao menos saber o porquê e mesmo quando tem plena competência para executá-los e de interagir socialmente de modo satisfatório.
  15. Você sente um medo terrível de forma bastante inesperada, o qual não corresponde às circunstâncias atuais.
  16. Quando recebe uma crítica construtiva ou é agredida verbalmente, sente-se pessoalmente atacada, assume uma atitude defensiva ou congela na frente do outro, tornando-se muda e desorganizada cognitivamente e sem saber o que dizer, como agir ou se defender.
  17. Você está solteira há bastante tempo e evita envolver-se emocionalmente com outra pessoa por ter sido magoada no passado e acredita que irá passar por isso novamente.
  18. No seu caso, não existe estresse bom (temporário, saudável/energizante e motivador), mas somente ruim (crônico, disfuncional/patológico e debilitante).
  19. Você está sempre irritada com alguém ou alguma coisa e tem crises de raiva com facilidade.
  20. Você é bombardeada por pensamentos intrusivos de cenários imaginários em que se vê exposta a perigos ou a ataques ao seu bem-estar e a sua autoestima.
  21. A paz, calma e harmonia são entediantes para você e só se sente verdadeiramente viva quando engaja em comportamentos excessivos, a vida é repleta de drama ou passa por momentos de altos e baixos.
  22. Você não tem vontade de ter relações sexuais com o(a) parceiro(a), consegue ter prazer no sexo ou sente que precisa forçar-se para concentrar-se no momento e conseguir curti-lo.
  23. Você se sente desconectada das pessoas a sua volta ou as considera como uma ameaça a sua autoestima e ao seu bem-estar.
  24. Quando precisa entregar um trabalho ou fazer algo que será analisado por outra pessoa, leva um longo tempo para iniciá-lo, procrastina e, quando finalmente o finaliza, revisa o que produziu mil vezes e de forma neurótica como se fosse proibido cometer erros.
  25. Você tem uma imensa dificuldade de relaxar e parece estar sempre cansada, desmotivada e sem energia até para fazer o que lhe dá prazer.
  26. Você tem problemas de relacionamento que parecem não melhorar com o tempo e a idade.
  27. Você possui um transtorno alimentar, de personalidade, ansiedade e/ou humor.
  28. Você sente uma solidão e um vazio existencial imensos que parecem não diminuir com a experiência.
  29. Você tem dificuldade de viver no presente e curtir os pequenos prazeres da vida.
  30. Você tem pensamentos de suicídio.
  31. Você se assusta com grande facilidade.
  32. Você tem asma, câncer, é diabética ou sofre de uma doença crônica inflamatória ou autoimune.
  33. Você evita ambientes novos ou o contato com as pessoas que não conhece bem, a todo o custo, assim como as interações comunicativas delicadas e que exijam uma atitude assertiva.
  34. Quando você se força ou precisa encontrar uma pessoa desagradável, fica tentando prepara-se para o evento de forma neurótica e obsessiva, como se fosse uma questão de vida ou morte.
  35. Você perde o sono com muita facilidade, seja porque tem de entregar um trabalho na faculdade, mudar de residência, fazer uma apresentação no trabalho, interagir com uma pessoa difícil/importante etc.
  36. Você tem dificuldade de concentração e sente-se facilmente distraída pelo que acontece a sua volta.
  37. Você tem o hábito de desconfiar dos outros e tentar ler a sua mente para descobrir quem são e as “verdadeiras intenções”.
  38. O seu desenvolvimento (formação de identidade, autonomia, maturidade emocional, crescimento pessoal e profissional) parece não progredir de maneira substancial com a passagem do tempo, ou se iniciou mais tarde do que a média das pessoas.
  39. Você é impaciente, reativa e sente-se frequentemente insatisfeita, envergonhada e culpada pela forma como age.
  40. Você se sente inepta intelectualmente ou acredita ter dificuldade de aprendizado, pois leva tempo para resolver os problemas e/ou memorizar e aprender coisas simples.
  41. Você se atrasa com grande frequência e tem dificuldade de se organizar e manter compromissos.
  42. Você sofre de ansiedade crônica e só consegue sentir-se bem quando come, faz compras, está sob medicação psiquiátrica tal como os antidepressivos e ansiolíticos, consome bebida alcoólica, joga, usa drogas ou exercita-se, por exemplo.
  43. Você já teve pelo menos um episódio depressivo e se vê em risco de passar por isso novamente.

Caso tenha se identificado com esses exemplos e acredita que esteja operando no modo luta ou fuga, recomendo que enderece o problema da hipervigilância através de uma atitude proativa e consciente. No próximo artigo, incluirei dicas de como administrá-la de forma natural, saudável e, sobretudo, sem a ajuda de remédios. Para ser avisada por e-mail da data de publicação deste e outros artigos publicados no Filhas de Mães Narcisistas, basta cadastrar-se na nossa Newsletter.

A cultura familiar de incesto emocional e codependência

Para quem é brasileiro ou português e provém de uma família tóxica, “ser filho” equivale a um grande peso. Este sentimento corresponde a uma cultura familiar sustentada por valores rígidos e obsoletos, os quais supervalorizam as necessidades dos pais e negligenciam as dos filhos. Tal cultura é centrada extensivamente nas emoções, carências, vontades e interesses dos genitores, além de promover uma dinâmica relacional disfuncional que nega a existência de limites pessoais e desencoraja a autonomia, seja psicológica, emocional ou, até, financeira, de todos os membros da família. Estas famílias são comumente referidas, também, como “emaranhadas” (enmeshed), pois são constituídas de relacionamentos cujos limites pessoais são bastante turvos e imprecisos, bem como os papéis de pai/mãe e filho/filha. Essa cultura difunde a visão de que os filhos encontram-se em eterno débito em relação aos pais, cultiva-se de geração em geração através de culpa, medo e vergonha, além de uma atitude abusiva de incesto emocional e de codependência.

A cultura familiar de incesto emocional e codependência

Em um relacionamento emocionalmente incestuoso, o pai e/ou mãe usa o filho para atender às necessidades que deveriam ser supridas por si mesmo ou outros adultos

Em um relacionamento emocionalmente incestuoso, o pai e/ou mãe usa o filho para atender às necessidades que deveriam ser supridas por si mesmo ou outros adultos, condicionando-o, desde pequeno, a concentrar-se no seu bem-estar e não no de si próprio. Recentemente, fui lembrada por um cliente brasileiro desta dinâmica disfuncional e que, embora muito comum, raramente é questionada. Em um momento bastante estressante e delicado financeiramente de mudança de residência, o cliente em questão foi comunicado de que a mãe havia se internado em um hospital privado para tratar um problema de saúde. Conversando ao telefone com ela, “compreendeu” que lhe era esperado que arcasse com todas as despesas hospitalares. Sentindo-se dominado por um grande sentimento de obrigação com a mãe porque cuidava dos filhos quando precisava, aceitou a incumbência sem ao menos esclarecê-la acerca de sua atual situação. Sem demonstrar o mínimo interesse sobre a sua condição atual – como lhe é de costume – a genitora aceitou a oferta do filho de boca fechada e mãos abertas. Para garantir os padrões de cuidado esperados pelos pais, o meu cliente teve de pedir um empréstimo no banco, endividando-se, ainda mais.

Nesse exemplo, fica claro que as necessidades da mãe prevalecem sobre as do filho. Fica evidente ainda que os seus sentimentos de inadequação, tais como a vergonha e o medo de ser internada em um hospital público, não foram lidados de forma honesta, aberta e autônoma, mas descarregados nas costas do filho para que os “resolvesse”. Embora o meu cliente também tenha se sentido sobrecarregado e cansado, tanto física como emocionalmente, não ocorreu aos genitores, em nenhum momento, oferecerem-no ajuda tampouco demonstrarem empatia com o período atribulado que atravessa. A lavagem cerebral a qual foi submetido desde criança e o acordo silencioso e de mérito irrefutável de que é sua obrigação não somente antecipar, mas também estar permanentemente disponível para atender as necessidades dos pais foi suficiente para que ignorasse as suas, as dos filhos e as da esposa e se sacrificasse por eles.

No relacionamento familiar codependente, os filhos também servem como garantia de que os padrões e o estilo de vida dos pais serão mantidos quando se tornarem idosos. Esta noção, bastante difundida em meu país de origem, cria um imenso problema na vida de milhões de brasileiros, especialmente, para quem é pai e mãe e se vê sobrecarregado financeiramente não somente com as necessidades da própria família, assim como de seus genitores. Neste cenário, sentem-se compelidos a “ajudar” os pais para “retribuírem” o que fizeram por si, como se a dedicação e o amor de pai e mãe fossem inteiramente condicionais e dependessem de recompensação financeira para serem validados. Em um país onde a corrupção política e o abuso são a regra e não a exceção e cujos cidadãos se veem forçados a compensar com os próprios recursos por um sistema previdenciário falho e que gera grande insegurança pessoal, não é surpreendente que a noção de que seja correto para os filhos comportarem-se como os pais dos próprios pais e isentarem-no da responsabilidade do próprio cuidado e bem-estar é apoiada, inclusive, por uma lei federal.

Portanto, no sistema de troca da família disfuncional, emocionalmente incestuosa e codependente, a bússola moral dos filhos é amplamente voltada para os estados emocionais e necessidades dos pais, já que estes são emocionalmente imaturos para lidarem com a própria inadequação e arcarem com as consequências de suas próprias escolhas e atitudes, como as que influenciam a sua segurança financeira, saúde física e qualidade de seus relacionamentos. De si, é esperado que restaure o seu equilíbrio emocional e supra as suas carências, independentemente de sua natureza. Assim sendo, um filho é considerado competente e bom o suficiente quando consegue compensar pela incapacidade dos pais de agirem de forma emocionalmente autônoma, consciente, madura e condizente com as próprias circunstências (ou sua recusa de aceitarem-nas).

Esta cultura, embora se pressuponha defender os princípios de união familiar e respeito aos idosos, sustenta uma mentalidade de sujeição, servidão, obediência e rejeição que corrompe a harmonia dos relacionamentos familiares e o crescimento e desenvolvimento pessoal de todos os envolvidos. Mesmo quando plenamente capazes, tanto física como intelectualmente, de concentrarem-se no próprio bem-estar e investirem em práticas de cuidado pessoal, tais genitores são negligentes com o corpo e a mente e modelam uma atitude de dependência que tem efeitos danosos tanto na sua saúde, autoestima e identidade, quanto nas dos filhos.

Para quem se vê como uma vítima de tal cultura familiar, é normal sentir-se abandonado, alienado, pequeno e insignificante. No meu trabalho com os filhos e filhas de famílias tóxicas torna-se claro que a cultura familiar reacionária, conservadora e de incesto emocional e codependência, tão reverenciada no Brasil e Portugal, ajuda a perpetuar a exploração e o abuso, além de desembocar, ultimamente, em problemas sérios de saúde mental e relacionamentos. Vale a pena lembrar que o respeito e a união familiar só são genuinamente observados na prática quando se originam da empatia, amor incondicional e respeito à liberdade pessoal e que, por esta razão, são mantidos de forma saudável e, sobretudo, sustentável, tanto pelos pais quanto pelos filhos.

Para um estudo avançado da codependência e dependência emocional, recomendo os meus cursos online “A codependência” e “A dependência emocional”.

Os efeitos do trauma da infância na saúde fisica – O estudo dos ACEs

Os efeitos do trauma da infância na saúde fisica - O estudo dos ACEs

O trauma da infância compromete, também, a saúde física

Um dos objetivos centrais do Filhas de Mães Narcisistas é aumentar a consciência acerca do trauma da infância e dos efeitos do estresse tóxico na criança em desenvolvimento. Se você é um leitor assíduo deste blog e já devorou o Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade para Filhas de Mães Narcisistas e o Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, está ciente dos efeitos cognitivos, comportamentais, relacionais, sexuais e espirituais de seu trauma. Para um filho ou filha de uma mãe narcisista/tóxica/abusiva que exibe um alto nível de consciência, os termos “estresse (tóxico)”, “trauma”, “família disfuncional”, “abuso” e “negligência” são-lhe bastante conhecidos. O intuito do presente artigo é ampliar o seu conhecimento em relação aos efeitos que estas experiências negativas podem ter no seu corpo, precisamente, na sua saúde física. Para que consiga atingir este objetivo e compreender a verdadeira dimensão dos efeitos do trauma da infância, é essencial familiarizar-se com o estudo dos ACEs.

O estudo dos ACEs      

O estudo dos ACEs foi uma pesquisa conduzida no final dos anos 90 por um centro de controle e prevenção de doenças nos Estados Unidos chamado Kaiser Permanente. A finalidade do estudo foi estabelecer a conexão entre as experiências adversas da infância (Adverse Childhood Experiences = ACEs) e a ocorrência de doenças a longo prazo. Elenca-se, abaixo, os exemplos centrais ao que se refere como ACEs ou experiências adversas/eventos traumáticos:

  • Abuso físico
  • Abuso sexual
  • Abuso emocional
  • Negligência física
  • Negligência emocional
  • Violência por um parceiro íntimo
  • Mãe tratada violentamente
  • Uso indevido de substâncias dentro de casa
  • Doença mental de um membro da família
  • Separação parental ou divórcio
  • Membro da família encarcerado

Cada experiência adversa ou trauma listado equivale a uma pontuação de ACE. No estudo dos ACEs, realizado com mais de 17.000 adultos, 87% dos entrevistados apresentaram uma pontuação de pelo menos um trauma/evento adverso na infância, fato que revela, inequivocamente, a natureza penetrante do trauma. Os resultados da pesquisa também determinaram que quanto maior o nível de disfunção familiar e a exposição do indivíduo em desenvolvimento a maltrato e ao estresse tóxico, maior a sua probabilidade de sofrer a longo prazo os seguintes problemas de saúde física:

  • Doenças gastrointestinais
  • Doenças cardiovasculares
  • Doenças respiratórias
  • Doenças sexualmente transmissíveis
  • Fraturas ósseas
  • Obesidade
  • Diabetes
  • Câncer

O estudou também estabeleceu que uma pontuação de 4 ou mais ACEs aumenta a probabilidade de…

  • Alcoolismo em 700%
  • Câncer em 200%
  • Doença pulmonar crônica em 390%
  • Hepatite em 240%
  • Depressão em 460%
  • Tentativa de suicídio em 220%

Já uma pontuação de 6 ou mais ACEs, reduz a expectativa de vida, em média, 20 anos (é 80 anos para os indivíduos com uma pontuação de ACEs zero) e aumenta ainda mais a probabilidade de se tentar o suicídio (3.000%).

Reiterando a relevância do estudo dos ACEs

O estudo dos ACEs destacou a relação tão elementar entre a qualidade dos relacionamentos familiares e circunstâncias de desenvolvimento de uma criança com o seu bem-estar físico e não somente o aspecto psicológico e emocional. Através das estatísticas significativas de um estudo de tal magnitude obtém-se a confirmação cientifica de um conhecimento que para a sobrevivente é bastante intuitivo, ou seja, que o abuso e a negligência, em todas as suas formas, causam um grande impacto negativo no ser humano como um todo, corpo e mente. Portanto, faz-se elementar, também para a vítima que ainda busca tanto a validação do seu trauma como o entendimento do impacto que exerce em si e no seu desenvolvimento, inteirar-se sobre os resultados do estudo dos ACEs e informar-se a respeito dos potenciais efeitos prejudiciais que as experiências adversas sofridas na infância podem causar ou já causaram na sua saúde física na idade adulta.

O aumento da consciência acerca de sua condição de vulnerabilidade pode ajudá-lo a ganhar uma renovada apreciação pelas práticas de cuidado pessoal, manutenção do bem-estar e prevenção de doenças, tais como o exercício ou atividade física, uma dieta equilibrada e o controle do consumo de álcool e alimentos ricos em açúcar, por exemplo. Sobretudo, o estudo dos ACEs reafirma a necessidade de uma mudança radical nas atitudes relacionadas ao abuso e à negligência, seja em nível micro, meso ou macrossocial, já que as implicações à saúde pública, bem como sociais e econômicas, compreende a todo nós e não somente às minorias marginalizadas, como divulgado pelo senso comum. Os indivíduos e as famílias que compõem a nossa sociedade, assim como os profissionais da saúde mental e física, escolas e instituições religiosas e governamentais envolvidos direta ou indiretamente nos contextos de abuso e negligência necessitam adotar uma atitude de respeito e apoio evidentes às vítimas/sobreviventes, a qual é comunicada sem ambiguidade e sustentada incondicionalmente.

Para calcular a sua pontuação de ACEs, responda o questionário contido aqui (disponível somente em inglês).

Fontes:

Aces too High News

Adverse Childhood Experiences Study

Center on the Developing Child Harvard University

SAMHSA Substance Abuse and Mental Health Services Administration

 

Como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019

Como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019

Os amigos verdadeiros celebram os momentos especiais e demonstram apreciação e gratidão pela amizade

Porque todos necessitamos de relacionamentos funcionais em nossas vidas para nos sentirmos realizados no campo pessoal, achei pertinente usar este espaço para incluir dicas de como criá-los e mantê-los saudáveis. Infelizmente, em um filho ou filha de mãe narcisista, este conhecimento tende a não lhe ser nato, visto ter sido criado em um ambiente tóxico de muito abuso e negligência afetiva e emocional. Devido ao fato de que provém de uma cultura familiar disfuncional, é comum perpetuar esta tendência relacional também fora deste ambiente e atrair pessoas imaturas emocionalmente e até tóxicas. Para ajudá-lo a mudar este quadro neste novo ano que se inicia e melhorar a qualidade dos seus relacionamentos, seguem 9 dicas de como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019:

1- Tenha paciência e dê tempo ao tempo. Os relacionamentos funcionais não ocorrem da noite para o dia, mas tendem a levar tempo para se tornarem sólidos. Este tipo de relacionamento possui uma dinâmica democrática e adulta, é formado por indivíduos maduros e autônomos que respeitam a liberdade pessoal, as vontades e os interesses dos outros. Nessas circunstâncias, não é não. Em vez de ficarem de cara amarrada e fazerem chantagem emocional para conseguir o que querem, são pacientes, respeitam o tempo e o espaço do outro e entendem quando o momento é inapropriado para certos encontros, planos ou atividades, ou quando é necessário encontrar um meio-termo ou chegar a um consenso que favoreça ambas as partes da melhor forma possível.

2- Lembre-se do que é ser amigo e, sobretudo, do que não cabe a este papel. Os amigos[i] verdadeiros são empáticos, compreensivos e respeitosos, além de agirem com a autoestima e autoconfiança, colocando-se primeiro, como regra, na própria vida e não depois do outro, independente do nível de intimidade que compartilhe. Enquanto que o amigo leal ajuda em momentos difíceis, não é função de nenhum amigo comportar-se como o pai, mãe ou terapeuta do outro e estar permanentemente disponível para “resgatá-lo”. Independente do tipo de apoio que se dá a um amigo, isso também não equivale a uma obrigação, mas a um ato de amor, bondade, amizade e compaixão. Vale lembrar que a ajuda só é saudável para um relacionamento quando respeita as limitações de quem a oferece, assim como é da natureza do próprio relacionamento.

3- Mantenha o respeito. A amizade verdadeira é descontraída e inclui a brincadeira, mas não compactua, de forma alguma, com o bullying e o abuso verbal. O amigo verdadeiro, mesmo quando de inteligência engenhosa e humor astucioso, sabe como regular o poder da própria língua para não intimidar ou expor o outro. Nos relacionamentos saudáveis, o humor, o riso e a piada são usados para se conectar com o outro e não para aliená-lo.

4- Exerça um alto nível de consciência e autonomia emocional. Nos relacionamentos funcionais não há codependência e dependência emocional, mas tanto você como o seu amigo exibem um alto nível de consciência sobre o próprio comportamento e estado emocional. Neste contexto, ambos estão cientes da influência que podem exercer um no outro e a forma que se afetam emocionalmente, o que os fazem mais cautelosos e honestos em relação à forma de agir, principalmente quando se sentem sob o forte domínio de sentimentos antagônicos. O amigo de verdade lida com a própria inadequação, amplamente, de modo independente e não usa o amor e a cumplicidade do outro para descarregar a raiva e se regular emocionalmente, por exemplo, de maneira aproveitadora, indolente e irresponsável, mas permanece atento – mesmo quando frustrado – do impacto que causa nele.

5- Peça desculpas. Porque amigos verdadeiros estão sujeitos, como todos nós, a cometerem erros, reconhecem quando não se comportam de forma adequada e magoam o outro, pedindo desculpas e assumindo a sua parcela de responsabilidade pelas consequências de seus atos. É pertinente relembrar que os relacionamentos funcionais, apesar de altamente respeitosos e saudáveis, são humanos, portanto, não são perfeitos.

6- Não insista em discussões desnecessárias. Por mais que nos identifiquemos com o outro e tenhamos um relacionamento harmonioso com os nossos amigos, é normal haver momentos em que os nossos pensamentos se opõem. Nos relacionamentos funcionais, “We agree to disagree”, ou concordamos em discordar, com calma e naturalidade. Isso se deve ao fato de que, em uma interação adulta, democrática e equilibrada, defender e argumentar contra uma ideia não é um ato intencionado a converter o outro ou forçá-lo a ver o mundo de certa forma, mas um exercício de socialização, reflexão e livre troca de ideias. Nestes casos, mesmo que haja desconforto resultante de um sentimento de antagonismo, deve-se lidar de maneira autônoma e sem envolver o outro, puni-lo ou isolá-lo, por exemplo, por ter visões de mundo próprias.

7- Seja verdadeiro. Quando se é aceito pelo outro, não temos medo de ser quem somos, independente do que isso signifique. Nos relacionamentos saudáveis, a autenticidade permite que nos mantenhamos verdadeiros com o nosso eu, corpo e sentimentos, isto facilita a intimidade e a realização pessoal também com outro ser humano. Mentir, inventar desculpas e fingir que é outra pessoa para agradar ou atender às expectativas de um “amigo” não reflete uma forma de se relacionar espontânea, genuína e baseada na autoestima, afeto e respeito, mas uma atitude insegura e codependente.

8- Demonstre apreciação e gratidão pela amizade. Os amigos verdadeiros mantêm viva a amizade mesmo quando distantes, cultivando-a de forma ativa e consciente. Isso ocorre quando se esforçam para manterem-se cientes do que acontece na vida do outro, por exemplo, celebram os momentos especiais e demonstram apreciação e gratidão pela amizade seja diretamente através de palavras ou indiretamente por meio de manifestações de afeto e carinho.

9- Todos responsabilizam-se pelo relacionamento. Quando um relacionamento “funciona” e favorece o indivíduo, todos os envolvidos esforçam-se para mantê-lo saudável. Nestes contextos, há um evidente entendimento sobre a complexidade dos relacionamentos humanos e uma clara intenção de dedicar-se a superar problemas, sejam de ordem individual ou coletiva. Nas situações as quais apenas um indivíduo sente-se inteiramente responsável pelo (bom) funcionamento de um relacionamento e trabalha sozinho para garantir a sua sobrevivência, esta atitude tende, na esmagadora maioria das vezes, a produzir o efeito oposto, ou a perpetuar uma dinâmica disfuncional.

Embora os relacionamentos humanos necessitem de nossa dedicação para funcionarem, quando você insiste em melhoras em um relacionamento – seja da natureza que for – mas nunca se concretizam ou são sustentadas a longo prazo é porque não são possíveis. Se já investiu meses e até anos em um relacionamento com a esperança de que mude e se torne recompensador sem nenhum sucesso significativo, está na hora de se conscientizar deste fato, parar de desperdiçar energia e buscar novas oportunidades.

[i] O termo “amigo” também pode ser substituído por “parceiro amoroso”

 

Entenda a conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual

Entenda a conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual

A insatisfação sexual é uma questão que tende a afligir as vítimas de abuso narcisista

No artigo anterior deste blog, “Como regular as emoções negativas”, sugeri técnicas simples para a regulação emocional, algo que comumente revela-se como um desafio para as filhas de mães narcisistas. No presente artigo, exploraremos outra questão que tende a afligir as vítimas de abuso narcisista e que está intrinsicamente relacionada a sua história de trauma e dificuldade de regular as emoções: a insatisfação sexual.

Embora a conexão entre o abuso sexual e o desenvolvimento dos problemas desta ordem seja-nos fácil de ser concebida, associar o trauma causado pelos abusos de natureza psicológica/emocional e a falta de satisfação sexual da vítima não é algo que exploremos com a mesma naturalidade. Comumente se observa, inclusive no ambiente terapêutico, é que a vida sexual do(a) cliente – se lidada na sala de terapia – raramente é examinada sob a perspectiva do trauma, sobretudo quando não está relacionada, essencialmente, a um histórico de abuso sexual. Enquanto que compreendemos o impacto negativo que o estupro potencialmente cause nas relações sexuais após o evento, é difícil imaginar como ser humilhado e rejeitado por uma mãe tóxica ao longo do desenvolvimento influencia a capacidade de um indivíduo de ter uma vida sexual satisfatória na idade adulta.

A verdade, nua e crua, é que independente da natureza do trauma, todos têm o potencial de causar um grande impacto na qualidade de vida da vítima, inclusive sexual. Abaixo estudaremos os principais fatores que contribuem para este cenário e expõem a conexão entre o trauma, os problemas de controle emocional e a insatisfação sexual.

Alta reatividade

Se você é um leitor assíduo dos artigos publicados no blog do Filhas de Mães Narcisistas, já está ciente de que o cérebro humano, quando exposto a contínuo estresse tal como é característico ao se crescer sob a tirania de uma mãe narcisista, apresenta duas características centrais:

  1. Alta sensibilidade do sistema límbico ou região do medo
  2. Baixa atividade do córtex cerebral ou região do pensamento analítico e objetivo

Em vista disso, a carga emocional das vítimas do trauma do desenvolvimento tende a ser demasiado pesada, pois sofrem de estresse crônico e se abalam emocionalmente com facilidade, o que torna difícil levar a vida de forma leve. Portanto, sentir-se bem, relaxada e disposta para ter relações sexuais pode equivaler-se, literalmente, a um grande esforço. Um estudo com gêmeos realizado por Harris et al. (2008) confirmou esta tendência quando demonstrou que aqueles que se descreveram como ansiosos e emocionalmente instáveis, ansiosos, ou que se perturbam com facilidade, são menos propensos a atingir o orgasmo regularmente do que aqueles que se consideraram mais estáveis emocionalmente. De fato, faz sentido concordar com Barlow et al. (2002) ao afirmarem que a ansiedade e o alto nível de estresse impedem a excitação sexual, já que divergem o foco dos estímulos sexuais.

Estilo de apego inseguro

As filhas de mãe narcisistas apresentam um estilo de apego ou vínculo inseguro no contexto relacional, ou seja, nutrem um profundo medo de confiar nas outras pessoas e serem abusadas e rejeitadas novamente. Esta inclinação, por mais que seja automática e inconsciente, cria imensas barreiras à intimidade, à saúde de sua vida sexual e ao sucesso de relacionamentos, em especial os amorosos. Quem não se sente segura também dentro da própria pele nem possui as ferramentas saudáveis para lidar com a inadequação, acaba se distanciando das emoções e do próprio corpo como uma medida (falha) de “regulação emocional”. Quando você negligencia o corpo e as emoções, a sua autoestima vai para o fundo do poço.  Nestes contextos, você se esquiva de ter relações e concentra-se exclusivamente nas necessidades do(a) parceiro(a), o que reduz ainda mais a sua satisfação sexual não somente a curto, mas também a longo prazo.

A conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual faz-se clara quando analisamos os efeitos no cérebro e corpo da vítima de forma holística. Se você está insatisfeita com a sua capacidade de regular as emoções e a qualidade da sua vida sexual, é vital que invista tempo e energia para curar as feridas do seu trauma e aprenda a controlar o estresse ativamente, já que nunca é tarde para se dedicar a medidas de melhoramento de qualidade de vida e dos relacionamentos.

Referências

Harris J.M., Cherkas L.F., Kato B.S., Heiman J.R. & Spector T.D. (2008). Normal variations in personality are associated with coital orgasmic infrequency in heterosexual women: A population-based study. Journal of Sexual Medicine, 5, 1177–1183.

Barlow, D. H., Wiegel, M. & Scepkowski, L. A. (2002). Cognitive-Affective Processes in Sexual Arousal and Sexual Dysfunction. Boston, MA: Markus and Boston University.

Como regular as emoções negativas

Uma das reclamações mais frequentes que recebo de minhas clientes é que têm dificuldade de regular as emoções antagônicas. Como cresceram em um ambiente de extrema negligência emocional, é compreensível que sejam deficientes nesta área, já que foram condicionadas, desde pequenas, a reprimirem e até a descartarem a própria inadequação para se concentrarem nas necessidades de suas mães narcisistas. Além disso, em função do seu desenvolvimento ter ocorrido em um ambiente de intenso estresse resultante do convívio com uma mãe abusiva, possuem uma alta sensibilidade do sistema límbico, o que aumenta a sua reatividade (para mais informações sobre o sistema límbico e como o trauma do desenvolvimento afeta o cérebro, clique aqui).  Em vista destes fatores, faz-se vital que aprendam como superar esta deficiência para aumentarem a sua qualidade de vida e dos relacionamentos.

Como regular as emoções negativas

As filhas de mães narcisistas têm dificuldade de regular as emoções antagônicas

Para ajudá-la a regular as emoções negativas, recomendo seguir os 5 passos abaixo descritos, na ordem sugerida:

1- Avalie o seu estado emocional e decida se precisa agir

Assim que perceber uma mudança em seu humor, aumente a consciência sobre o seu estado emocional registrando o momento mentalmente, ou seja, que não está bem. Validar a própria inadequação e atribuir-lhe a relevância que merece de forma consciente e autônoma facilita o desencadeamento do processo de regulação emocional. Logo que notar que não está se sentindo bem (estressada, com raiva etc.), pergunte-se: “Preciso fazer algo a respeito?”. O intuito desta simples pergunta é mobilizá-la para a ação, se julgar necessária. Se não sabe como avaliar se precisa tomar uma atitude, lembre-se do seguinte: a emoção negativa de maior duração é a tristeza, podendo durar até cinco dias, enquanto que a vergonha, a surpresa, o  medo, a repulsa e a irritação possuem duração menor (em média, 30 a 60 minutos (Verduyn & Lavrijsen, 2015)), portanto, se exceder esta média, provavelmente, merece a sua atenção.

2- Identifique as emoções, a primária e a secundária

Quando estudamos os processos de fluxo e regulação das emoções, percebemos que não são tão simples como parecem. A raiva ou culpa que você sente, por exemplo, pode não ser o sentimento que predomina na sua reação emocional. Segundo Lazarus (1991), o renomado psicólogo e teórico das emoções, o processo de regulação emocional é feito através de uma transição entre uma emoção primária (instantânea, desregulada) e secundária (reguladora), o que pode dificultar o nosso entendimento acerca do que estamos sentindo e porquê. Para entender este fenômeno, imagine que está dirigindo em alta velocidade, quando um motorista inconsequente corta a sua frente. Então, o que sente, raiva? Nestes casos, a raiva é a emoção secundária e não a primária, pois ocorre após o medo de perder o controle do carro e nos ajuda a regulá-lo. A raiva, neste contexto, contribui para reavermos a nossa autoestima e confiança em nós mesmos, bem como nossas habilidades. O conhecimento de que as emoções vêm em tais “ondas” pode direcioná-la de forma mais acurada para a raiz da sua inadequação, um processo que, por si só, diminuirá a sua intensidade.

3- Aja imediatamente

Quando dominada ou incomodada por uma emoção antagônica persistente, não perca tempo e faça algo a respeito, o quanto antes. Quanto mais cedo você lidar com a sua inadequação, menos prejuízo lhe causará. Há várias maneiras de lidar ativamente com as emoções antagônicas, como através de exercícios de respiração e relaxamento muscular progressivo de Jacobson. Eu sugiro muitíssimo ambos não somente como estratégias funcionais de regulação emocional, mas também como práticas regulares para o controle da hipervigilância (um dos principais sintomas do TEPT-C, Transtorno do Estresse Pós-traumático Complexo).

4- Exerça o controle cognitivo

Se deseja desenvolver a sua capacidade de autocontrole, é fundamental que trabalhe com o seu córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável, entre outros, pela metacognição e regulação de comportamentos impulsivos, tais como aqueles altamente influenciados pela raiva. Abaixo são elencadas algumas técnicas cognitivas básicas que a ajudarão a ativar esta área altamente sofisticada do seu cérebro:

  1. Redobre o seu nível de autoconsciência. Monitore os seus pensamentos, comportamentos e emoções diariamente. Registre, seja mentalmente ou com a ajuda de um diário, a maneira como os seus pensamentos influenciam o seu estado emocional e comportamento e vice-versa. Identifique, sobretudo, o tom do seu diálogo interno e os tipos de pensamentos que funcionam como gatilhos para a sua inadequação e desembocam em comportamentos disfuncionais.
  2. Questione os pensamentos negativos com a ajuda de um Relatório Diário de Pensamentos Disfuncionais (RDPD). As filhas de mães narcisistas tendem a sofrer com a autocrítica e uma grande variedade de pensamentos improdutivos, como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. Estes pensamentos disfuncionais estão no cerne de sua inadequação, já que é difícil sentir-se alegre e confiante quando se carrega uma mini mãe narcisista dento do próprio cérebro. Para calar a boca desta tirana interna e exercer mais controle sobre as emoções, recomendo completar um RDPD pelo período de no mínimo duas semanas, para aprender como questionar os pensamentos negativos que afetam o seu humor.
  3. Identifique as suas vulnerabilidades. Quando as minhas clientes não estão bem emocionalmente, os seus níveis de codependência, procrastinação e perfeccionismo, por exemplo, tendem a encontrarem-se altos. Isso se deve ao fato de que tais vulnerabilidades abrangem estratégias de enfrentamento disfuncionais para reavermos a nossa autoestima e regularmos a nossa inadequação. A questão é que não resolvem o problema a longo prazo, mas acabam por estendê-lo, portanto, ao se flagrar fazendo uso de tais táticas, abandone-as imediatamente e aplique as sugeridas neste artigo.

5- Pratique a autoaceitação

Sentir as emoções negativas faz parte de ser humano. Assim como nem toda a emoção negativa tem um propósito, é normal senti-las na grande diversidade de situações que compõe a existência. O seu sucesso em regular e até controlar as emoções também depende da sua capacidade de aceitá-las com tolerância e respeito. Mesmo quando parecer não fazerem sentido, aceite-as para que consiga aceitar a si mesmo. Indivíduos autoconfiantes, íntegros e centrados são aqueles que agem de forma emocionalmente congruente e madura e que se permitem honrar todas as emoções que constituem o repertório humano, sejam positivas ou não.

Referências

Lazarus, R. S. (1991). Progress on a cognitive-motivational-relational theory of emotion. American Psychologist, 46, 819-834.

Verduyn, P. & Lavrijsen, S. (2015). Which emotions last longest and why: The role of event importance and rumination. Motiv Emot, 39, 119–127. DOI 10.1007/s11031-014-9445-y

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão

Se você é filha de uma mãe narcisista/tóxica/abusiva, a seguinte questão já deve ter permeado a sua consciência, reiteradamente:

“Eu devo perdoar a minha mãe narcisista?”

Como qualquer decisão de peso, o perdão em relação a sua mãe narcisista precisa ser uma reflexão proveniente de sua essência e de seu momento e não uma obrigação, resultado de uma pressão sociocultural ou imposição de terceiros, é importante refletir detidamente sobre essa questão antes de tomar uma decisão precipitada. Como acredito no poder transformador do conhecimento e no livre-arbítrio, bem como da autoconsciência e do amor-próprio, este artigo é dedicado a oferecer-lhe uma nova perspectiva acerca do perdão, que valide a sua realidade de filha de mãe narcisista e história de abuso e trauma, pois o seu contexto pessoal é bem especial. Para alcançar este objetivo, abaixo seguem 5 mitos sobre o perdão:

1- “Você tem que perdoar”

Primeiramente, vale a pena enfatizar: o perdão não é uma obrigação, mas uma escolha. Ninguém é obrigado a perdoar ninguém, seja ou não parente. Perdoar (ou não perdoar) é uma experiência íntima que diz respeito somente a você. “Ter que” carrega uma obrigatoriedade que lhe rouba o direito de ser e agir de acordo com a sua essência, vontade e sentimentos. Ninguém sabe como é ser você tampouco vivencia a sua experiência, portanto, não se entregue à intimidação e ao bullying de quem não veste a sua pele. Você é livre.

2- “Perdoar é um ato que beneficia a todo mundo”

Para quem acredita neste mito, convido a fazer ao que me refiro como “o teste do perdão”. Ao terminar de ler este artigo, perdoe a sua mãe narcisista para si mesma da forma mais genuína que conseguir e registre o momento em um pedaço de papel ou em seu celular. A partir desta data, mantenha um diário por, no mínimo 30 dias, relatando como se sente. No final deste período, faça uma avaliação franca de si. Então, sente-se substancialmente renovada, aliviada, mais centrada e feliz após ter perdoado a sua mãe narcisista, ou exatamente da mesma maneira (ou pior) do que antes? Não há nada de errado com você se nada mudou, pois você não é “todo mundo”, mas um indivíduo de alta complexidade, com personalidade e sentimentos próprios.

3- “Perdoar fará com que se sinta melhor”

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão

Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional

Devido ao fato de que somos únicos em nosso jeito de ser e sentir, o perdão não é para todos, pois nem todo mundo sente-se instantaneamente bem após perdoar alguém. Além disso, o perdão que faz alguém sentir-se melhor – de forma sólida e duradora – vem no momento certo, ou seja, depois do luto. Isso é porque o perdão consiste em um processo de aceitação não somente de natureza intelectual, mas, sobretudo, emocional. Quem perdoa com “a cabeça” (racionalmente) e não com “o coração” (emocionalmente) pratica o perdão rápido demais e negligencia os estágios do luto que precedem o final (negação e isolamento, raiva, negociação e depressão), a aceitação. O luto é uma necessidade para quem perdoa, pois é um processo fundamental pelo qual se compreende e se aceita uma realidade, tanto com o corpo como com a alma. Colocar o perdão na frente do luto, ou querer perdoar a mãe narcisista sem nunca se ter permitido processar as emoções antagônicas em relação a este relacionamento disfuncional tende a não produzir resultados positivos a longo prazo.

4- “Quando se perdoa alguém, o relacionamento sempre melhora”

Se você acredita nesse mito, recomendo-lhe, mais uma vez, a fazer o meu teste do perdão. No término desta leitura ou quando tiver tempo, perdoe a sua mãe narcisista interna ou diretamente na presença dela. Após fazê-lo, registre o ocorrido e verifique consigo mesma depois de trinta dias. Como foi? O relacionamento com ela melhorou, continua igual ou pior do que antes? No Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade para Filhas de Mães Narcisistas questiono o suposto poder transformador do perdão no contexto do narcisismo materno, já que, “Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional” (Prisioneiras…, p. 203). Tendo em vista a prática da mãe narcisista e demais indivíduos abusivos usarem a vergonha e a culpa que frequentemente acompanham o perdão para nunca reconhecerem o sofrimento de suas vítimas e perpetuarem o abuso que as infringe, a probabilidade de que o perdão, sozinho, desencadeie um processo transformador deste relacionamento é, virtualmente, nula.

5- “O perdão só funciona quando é pedido ou dito diretamente para a pessoa”

Quando o perdão é uma experiência orgânica e não uma obrigatoriedade ocorre no seu tempo e é sentido de dentro para fora. Assim como os sentimentos que se originam de um estado de profunda e sincera aceitação, o perdão, quando autêntico, é uma experiência sua. Desta forma e porque está ciente disso, você não “tem que” comunicar ninguém quando (e se) o perdão materializa-se – tampouco a sua mãe narcisista – pois é algo concernente apenas a si. O perdão alardeado de modo afetado e com superioridade não corresponde a um ato equilibrado, mas à insegurança pessoal e à necessidade de aprovação.

Para quem cresceu sob a tirania e atitude transtornada e abusiva de uma mãe narcisista, o perdão não é uma novidade, mas um exercício diário de tolerância, dependência emocional, codependência e, até, sobrevivência. Contudo, afirmar que – inquestionavelmente e em todas as circunstâncias – o ato de perdoar a mãe narcisista, em si, cura as feridas do seu trauma é uma afirmativa errônea, não reflete a realidade de um grande número de filhos e filhas de mães tóxicas. Embora o perdão possa ser uma experiência genuinamente benéfica para alguns, não se trata de uma regra para todos os seres humanos nem possui a mesma relevância prática, relacional, psicológica e emocional. Caso esteja se questionando se “deve” perdoar a mãe narcisista, verifique com o seu corpo, e não somente com o seu intelecto, se verdadeiramente deseja isso. Acima de tudo, respeite o seu ritmo e honre as emoções ou quem neste momento você é.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?

Como já ouvi muitos de meus clientes usando os termos “codependência” e “dependência emocional” como se possuíssem o mesmo significado e os afetassem da mesma maneira, achei pertinente usar este espaço para esclarecer a diferença entre os dois. Visto que ambos são conceitos relevantes no contexto de abuso narcisista, mães tóxicas e relacionamentos disfuncionais e abusivos, é necessário que você aprenda a distingui-los para compreender a forma como interferem em seu desenvolvimento, sua qualidade de vida e de relacionamentos. Começaremos, então, explorando a codependência.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?

A filha de mãe narcisista toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora para sentir-se “amada” por ela

A codependência

Um indivíduo codependente é aquele que usa a dependência que os outros têm nele para se sentir amado e seguro, tanto consigo como em um relacionamento.  Um exemplo clássico de codependência é o do marido ou esposa que ignora o alcoolismo do(a) parceiro(a) ou nega que seja um problema para contentá-lo(a) e garantir a “estabilidade” do relacionamento. Análogo à filha de mãe narcisista que toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora e de seu relacionamento com ela, culpando-se por problemas que não são seus para sentir-se “amada” e aceita por ela. Logo, a filha de mãe narcisista é codependente quando usa a dependência (emocional, psicológica, financeira etc.) da mãe em si para sentir-se valorizada e manter um relacionamento “harmonioso” com esta.  A codependência, portanto, é sempre disfuncional, pois direciona o foco do indivíduo para fora de si, assim como para as estratégias de enfrentamento de problemas mal-adaptativas, retardando o seu desenvolvimento. Além disso, a codependência, como um comportamento que corrobora e facilita as atitudes impróprias de terceiros, ajuda a perpetuar os problemas de saúde mental e relacionamento e, até, o abuso.

Por esta razão, a filha de mãe narcisista, quando age de forma codependente, confunde a dedicação à mãe com os comportamentos facilitadores do narcisismo materno, tornando-os a sua fonte central de autoengrandecimento, quando não passam de um falso impulsionador de autoestima. Está sempre pensando na mãe e priorizando as suas necessidades, opiniões, vontades e seus sentimentos motivada, na maioria das vezes, por sentimentos de inadequação como a culpa, vergonha e o medo e não por amor e respeito, mas para ter um senso interno de segurança. Esta tendência, contudo, compromete a sua capacidade não só de se equilibrar emocionalmente de modo independente, bem como criar uma identidade sólida e autônoma de sua genitora. Como consequência, a codependência, uma vez que firmemente estabelecida como um comportamento que a auxilia a lidar com o estresse e com um problema sem solução ou que está além de seus poderes, tal como o narcisismo, desencadeia um processo de dependência emocional que, com o passar do tempo, torna-se um traço de personalidade e o mecanismo pelo qual a filha consegue restaurar o seu “equilíbrio” emocional e amor-próprio (Eu sou amada/me sinto bem quando os outros precisam de mim/priorizo as necessidades dos outros).

A dependência emocional

Todos necessitamos de uma conexão emocional verdadeira com outro ser humano, sobretudo com os nossos pais, para nos sentirmos seguros, amados e aptos. A criança que desenvolve um apego seguro com a mãe – ou que confia nela e neste relacionamento como uma fonte sólida de amor, proteção e bem-estar emocional – torna-se um adulto autoconfiante, capaz e autônomo emocionalmente (Bowlby, 1988). É, através desta união, que se sente segura para explorar o mundo, receber o apoio emocional de que necessita e aprende a confiar nos relacionamentos humanos e a se beneficiar destes de uma forma saudável e sem medo. Isto favorece o seu crescimento e desenvolvimento, além de enriquecer a sua experiência e contribuir para o seu sucesso tanto nos campos pessoal como profissional. Neste contexto, a dependência emocional com a mãe permite que a criança concentre-se em si, além de prepará-la para operar de maneira funcional na área dos relacionamentos. Portanto, é benéfico e produtivo precisar de alguém quando esta dependência complementa o indivíduo e não o anula, liberta-o emocionalmente e não o oprime, fortalece a sua identidade e não a sufoca.

A dependência emocional é prejudicial quando motiva a criança – como a filha de mãe narcisista – a buscar este senso de segurança exclusivamente fora de si, já que não teve esta necessidade suprida pelo relacionamento com a genitora (precisamente, no período crítico de 0 a 2 anos[i]). Este tipo de dependência é exagerada e disfuncional, pois aponta o seu senso de direção para fora de si mesma e longe de sua própria essência, sentimentos, vontades, opiniões e interesses, além de mantê-la presa a uma visão de mundo e dos relacionamentos centrada na desconfiança, no sacrifício e sentimentos de culpa, medo, vergonha e insatisfação pessoal. Este tipo de dependência faz com que você…

  • Somente sinta-se amado quando recebe a aprovação de terceiros, corresponde às expectativas dos outros ou se torna quem querem que seja
  • Somente sinta-se feliz quando faz os outros se sentirem bem
  • Somente sinta-se calmo quando diz “sim” a tudo e a todos
  • Somente sinta-se completo quando está na companhia dos outros ou de quem é importante para si
  • Somente sinta-se valorizado quando alguém necessita ou precisa de você, quando o seu mérito é reconhecido ou se sente responsável pelo bem-estar dos envolvidos nos seus relacionamentos, bem como dos relacionamentos em si
  • Somente sinta-se centrado e disposto a concentrar-se na própria vida e nos próprios projetos quando os seus relacionamentos estão indo bem, ou quando consegue racionalizar os sentimentos de inadequação conectados a estes através da culpa (“estou me sentindo mal não porque a minha mãe não me ama, mas porque fiz algo de errado”).

A codependência e dependência emocional são usadas pela família tóxica como ferramentas de manipulação e abuso, ou armadilhas psicológicas que a mantém presa neste relacionamento. Enquanto que se revela impossível sentir-se genuinamente satisfeito sem nenhum tipo de conexão emocional com outro ser humano, é impraticável realizar-se tanto individualmente como nos relacionamentos quando se é escravo destes, tais como dos comportamentos codependentes que mantém para obter um senso de autoestima, identidade e equilíbrio emocional. A melhor forma de lidar tanto com a codependência como a dependência emocional é por meio de uma atitude autoafirmativa, confiante e autônoma, honrando as emoções e os limites pessoais e exercendo o seu direito à liberdade pessoal. Se este é o seu objetivo, recomendo a leitura de meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. Para um estudo avançado dos temas “codependência” e “dependência emocional“, sugiro os meus cursos online.

Referência:

Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. New York, NY: Basic Books.

[i] Para mais informações sobre o processo de formação e estilo de apego e como influencia o desenvolvimento (“Teoria do Apego”), recomendo a leitura dos trabalhos de Jown Bowlby e Mary Ainsworth.

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

Para que você chegue à resposta desta pergunta de forma independente, adulta e respeitando a sua verdade, convido-a, primeiramente, a reflexionar sobre as seguintes questões:

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos?

Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia e outra no convívio com a família

1- Se você ou qualquer outra pessoa defender que a mãe narcisista não tem consciência dos seus atos, está afirmando que ela é insana, ou seja, não sabe distinguir entre a fantasia e a realidade. Se a mãe narcisista não conseguisse distinguir entre a fantasia e a realidade, não saberia como agir de forma tão calculada e dissimulada, tanto dentro quanto fora do ambiente familiar. Portanto, a sua aparente “doidice” ou comportamento incontrolável e impulsivo seriam óbvios para todos com quem tem contato. Esse tipo de comportamento, contudo, não corresponde ao da mãe narcisista, pois sabe como cultivar uma imagem de perfeição e viver de aparências. Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia (dedicada, educada e carinhosa) e outra no convívio com a família (negligente, abusiva e fria), o que denota possuir pleno controle das faculdades mentais e sabe com quem e onde pode se comportar de forma abusiva, sem nunca ser descoberta e considerada responsável por seu comportamento impróprio.

2- Para que a mãe narcisista consiga se sentir bem consigo mesma, precisa receber estímulo negativo daqueles com os quais se relaciona. Em outras palavras, precisa rebaixar os outros para se sentir superior (dinâmica a que me refiro como “o relacionamento gangorra” em meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura e que expõe o valor da filha como suprimento narcisista). Se a mãe narcisista não tivesse consciência de seus atos, ou de como magoa e faz a filha se sentir pequena e rejeitada, seria intelectualmente incapaz de se beneficiar destes sentimentos de inadequação ou de usar a filha ou qualquer outra pessoa como suprimento narcisista. Como resultado, os seus relacionamentos seriam funcionais e harmoniosos e não de extrema dependência emocional, como é o caso dos que mantém com todos a sua volta. Além disso, quando a filha de mãe narcisista se recusa a se submeter ao abuso com autoconfiança e cortando o contato, a matriarca narcisista sente-se desconsertada – mesmo não gostando da companhia da filha nem nutrindo nenhum amor genuíno ou respeito por ela. Diante disso, faz tudo para reaver o controle, provando, portanto, que entende a forma pela qual os seus comportamentos abusivos a conferem um senso de autoestima, identidade e “bem-estar” emocional.

3- Porque uma pessoa tem uma doença mental, tal como um transtorno de personalidade, não significa que seja abusiva. Por mais que haja um grande número de pessoas abusivas que possui uma doença mental, nem todo mundo que abusa é narcisista, por exemplo. Correlação não é causalidade. Uma doença mental ajuda a explicar o contexto do abuso, mas não o justifica. Assim como laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva, doença mental não serve de desculpa para se aproveitar do amor e da vulnerabilidade de uma criança ou adolescente, afetar o seu crescimento e desenvolvimento negativamente e comprometer, de forma irresponsável e inconsequente, com a sua qualidade de vida não apenas na infância, como também na idade adulta. Para a profissional de saúde mental que tem ampla experiência com os relacionamentos abusivos, seja de forma direta como sobrevivente ou indireta através dos relatos de suas clientes, ou uma mistura de ambos, afirmar que o abusador faz o que faz porque é, supostamente, doente mental, simplesmente “não cola”. Vale a pena lembrar que a esmagadora maioria das filhas de mães tóxicas nunca recebe a confirmação de que as suas genitoras são, de fato, narcisistas, ou que possuem qualquer outro tipo de doença mental. Por mais que o termo “narcisismo” seja elucidador, não exclui as características mais marcantes das mães abusivas/tóxicas/narcisistas: o pensamento rígido e a falta de empatia e respeito pelos limites, identidade e direito à individualidade de seus filhos.

4- Sob esta perspectiva, pode-se alegar que a mãe narcisista não sabe da extensão do mal que causa a seus filhos porque também foi abusada e maltratada pelos próprios pais e, portanto, julga a sua atitude imprópria como “normal”. Isso pode ser considerado como uma “meia verdade”, em virtude dos seguintes aspectos:

  • A mãe abusiva/tóxica/narcisista usa as mesmas táticas de negação de problemas da maioria dos indivíduos provenientes de famílias disfuncionais. Estas táticas, como escudar-se atrás de chavões do senso comum tais como “Mãe/família é tudo”, “Toda a mãe boa” e “Toda a família tem problema” invalida a realidade de abuso e a negligência de todos, inclusive a de si mesma. O trauma e o abuso são tabus não somente para quem é vítima, mas também para quem é testemunha (direta ou indireta) ou os tolera sem questionamento. Nos casos de quem foi ou é vítima de abuso e se torna, também, um abusador, o peso deste tabu aumenta e, com ele, a vergonha e a necessidade de negá-lo, até para si.
  • Nem todo mundo que é vítima de abuso, abusa. Eu conheço inúmeras vítimas sobreviventes que nunca cometeriam as atrocidades que sofreram e que se sentem extremamente abaladas e decepcionadas consigo quando agem de forma agressiva.
  • Mesmo quando a mãe abusiva/tóxica/narcisista torna-se ciente de quão nociva a sua atitude é para a autoestima e bem-estar psicológico e emocional dos filhos, continua a tratá-los de forma imprópria e a negar o impacto negativo que lhes causa, bem como qualquer tipo de responsabilidade nos problemas deste relacionamento.

É importante sabermos as razões que podem levar um ser humano a cometer atos de abuso, assim como definir o seu nível de consciência acerca destes, sobretudo quando são nossos genitores e tiveram uma influência direta em nosso desenvolvimento. A ciência acerca dos fatores que contribuem com tal crueldade e o sentimento de compreensão e empatia que seguem esta descoberta não diminuem a sua malignidade, contudo, tampouco isentam quem os comete de sua responsabilidade, ou nas sábias palavras da grande psicóloga e filosofa suíça Alice Miller (2002):

“Empathising with a child’s unhappy beginnings does not imply exoneration of the cruel acts he later commits”

(“Demostrar empatia pela infância triste de uma criança não implica a exoneração dos atos cruéis que depois comete”)

Então, no que você acredita?

 

Referência:

Miller, A. (2002). For your own good. Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence (4th ed.). New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista

A sobrevivente de sucesso é aquela que transcende o próprio trauma

Descobrir que se é filha ou filho de uma mãe narcisista representa um momento que marca não somente a história, como também a trajetória de crescimento e desenvolvimento pessoal destes indivíduos. Isso se deve ao fato de que a verdade narcisista é tão reveladora que se torna impossível ignorá-la e tocar a vida como se ela não existisse. A autoconsciência acerca do problema (narcisismo materno), seus efeitos (abuso e trauma) e implicações (cortar o contato) tende a dar origem a uma intensa mistura de sentimentos, tais como: alívio, medo, vergonha e revolta, entre outros. Sobretudo, tende a despertar na vítima uma grande vontade de mudar e reaver a sua autonomia e dignidade. Este forte desejo de viver uma existência feliz, de paz e realizações através da livre expressão de sua essência – tão castigada pelos ataques de uma mãe egoísta, controladora e invejosa – é a energia motivadora que dá início ao seu processo de libertação pessoal.

Embora a vontade de se libertar das garras de uma mãe abusiva tenda a ser voraz, nem todas as filhas de mães narcisistas conseguem retomar as rédeas da própria vida e se afastarem dessa influência nefasta. Este artigo visa explorar a diferença entre elas, ou trazer à luz as características da filha de mãe narcisista que pretende acabar com o ciclo de abuso narcisista e propulsar o seu processo de cura e sua independência psicológica e emocional.

Vítima ou sobrevivente?

A libertação pessoal da vítima de abuso narcisista, independente de sexo, é alcançada quando investe esforço e determinação em uma mudança radical de atitude. Mudar, neste contexto, exige pensar e agir como uma sobrevivente e, não mais, como uma vítima. Na prática, esta mudança pode ser observada quando a vítima substitui as suas estratégias de enfrentamento disfuncionais, como a negação e a repressão emocional por táticas mais saudáveis, autoconfiantes e maduras. Em vez de se sentir permanentemente intimidada e à mercê de sua própria inadequação a, então, sobrevivente não só é capaz de reconhecer o abuso sofrido como algo amoral, brutal e injusto, bem como validar todas as emoções antagônicas desta descoberta terrível, tais como: a tristeza, a raiva e os demais sentimentos que compreendem o luto, com honestidade e coragem. A sobrevivente não foge da própria dor e dos sentimentos de abandono e solidão que acompanham a genuína conscientização de sua perda, tampouco os normaliza ou diminui o impacto negativo que a mãe exerce sobre os seus bem-estares físico, psicológico e emocional, mas se permite registrá-los, processá-los e aprender com estes.

Devido ao fato da sobrevivente valorizar o próprio bem-estar e honrar suas emoções, cortar ou reduzir drasticamente o contato com a mãe narcisista revelam-se como as alternativas mais sensatas e responsáveis. Diferente da vítima que perpetua o processo de vitimização, insistindo em forçar uma falsa conexão afetiva com uma mãe exploradora e egoísta, a sobrevivente recusa-se a submeter-se a sua atitude errática, de forma consistente e firme, colocando a sua sanidade e qualidade de vida em primeiro lugar.

O segredo do sucesso da sobrevivente: a tolerância do desconforto emocional

Visto que se afastar da própria mãe – mesmo quando extremamente abusiva – trata-se de uma tarefa inédita nos contextos socioculturais que glorificam os valores de família rígidos e obsoletos, comportar-se como uma sobrevivente requer estâmina. Como se não bastasse esta mentalidade coletiva retrógrada, a filha de mãe narcisista também deve enfrentar a sua notória falta de autoconfiança e medo insuportável de se autoafirmar. Quando uma criança é sistematicamente atacada e rejeitada cada vez que expressa a sua identidade, vontades e interesses próprios, aprende a associar a autoafirmação com uma experiência extremamente dolorosa. No decorrer do tempo, é condicionada a fazer somente o que favorece os pais controladores e a família disfuncional, sacrificando a própria alma como se fosse algo irrelevante. Portanto, para a filha de mãe narcisista a qual foi submetida a anos de maltratos psicológicos, emocionais e físicos, dizer não a quem abusa dela resulta, naturalmente, em grande desconforto emocional.

Como se autoafirmar é um supergatilho que remete a filha de mãe narcisista a várias experiências traumáticas de seu passado, tais como desentendimentos e discussões intermináveis, aprender a tolerar o medo, a insegurança e a ansiedade, assim como os demais sentimentos de inadequação associados a uma atitude autêntica e autônoma é determinante para o sucesso de seu processo de emancipação e crescimento pós-traumático. A filha de mãe narcisista consegue superar o trauma e até prosperar nos campos pessoal e profissional, quando reconhece e aceita tais vulnerabilidades, mas não se permite ser dominada por elas. Logo, a sobrevivente de sucesso é aquela que, por estar ciente de seus gatilhos, transcende o próprio trauma resistindo à pressão de se diminuir e se fazer insignificante diante da mãe narcisista e demais familiares, ato que, apesar de sua natureza incoerente, ainda é encorajado por um grande número de indivíduos que defende as instituições “mãe” e “família” como invioláveis.

Se você está pensando ou já iniciou o processo de corte ou redução de contato com a mãe narcisista e/ou família tóxica, mas não se sente segura, lembre-se de que este desconforto é normal considerando o seu histórico de abuso e trauma. Você não foi educada para se autoafirmar e agir de acordo com a sua cabeça, mas para submeter-se a eterna tirania de sua mãe narcisista. O que você está fazendo é um ato revolucionário até para o seu próprio entendimento, logo, dê tempo a si mesma, ao seu cérebro, ao seu corpo e as suas emoções, para se acostumarem com a ideia. Todo o tipo de hábito, por mais prejudicial a sua saúde, não é fácil de ser erradicado ou substituído sem um mínimo de desconforto emocional. Se você se sente inadequada para tomar uma decisão tão adulta e independente, tal como se distanciar de uma pessoa ou pessoas que lhe faz/fazem mal, a sua inquietação é um bom sinal, pois marca a saída da sua zona de conforto e um superavanço na sua habilidade de implementar mudanças positivas na própria vida.

Você não é a sua mãe narcisista, você está tendo um flashback

Você não é a sua mãe narcisista, você está tendo um flashback

Você tem um flashback quando é lembrada de uma experiência passada

Como filha de mãe narcisista, não é fácil separar-se do abuso sofrido. Isso se deve ao fato de que o trauma do desenvolvimento influencia a sua perspectiva de mundo e autoimagem. Quando você sofre uma série de eventos adversos durante o período de crescimento e desenvolvimento, estes moldam a maneira como você interpreta a informação a sua volta. Isto ocorre porque o seu sistema límbico ou cérebro emocional torna-se hiperativo como resultado de uma longa exposição ao estresse e às ameaças ao seu senso de segurança e bem-estar, você faz senso da sua experiência sob a lente do trauma, ou seja, de forma rápida, automática, emocional, tendenciosa e subjetiva.

Na prática, isso se reflete em atitudes e estados emocionais que seguem a incidência de um flashback. Você o tem quando lembrada de uma experiência passada, seja ou não prazerosa. Os flashbacks são normalmente visuais, fazendo com que se recorde de uma imagem de um evento passado e se sinta bem ou mal, ou puramente emocionais, permitindo que sinta as emoções de uma experiência passada (normalmente traumática), mas sem conseguir identificá-la ou visualizá-la. Esta última modalidade de flashback tende a ser a razão por trás dos episódios de intensa tristeza, raiva e inadequação, por exemplo, que causam angústia nas vidas de filhas de mães narcisistas mesmo quando não haja razão aparente para justificá-la.

Os flashbacks também são responsáveis por manter a memória de sua mãe narcisista presente na sua vida, mesmo depois de ter cortado o contato. Isso acontece, pois tudo que seja semelhante a ela ou ao vivido com ela, como a sua aparência e seu comportamento, por exemplo, pode tornar-se um gatilho. Assim que uma memória em relação a ela é ativada através de um gatilho, a probabilidade de você ter um flashback, visual ou emocional, é grande. Na prática, isso acontece de várias formas, como nos exemplos:

– Você está conversando com uma amiga no telefone e, de repente, faz um comentário usando uma expressão característica de sua mãe narcisista. Ao se dar conta do que disse, sente-se desconfortável, como se fosse, novamente, a criança insegura copiando o estilo de falar da mãe fria e desinteressada em busca de aprovação.

–  Você é mãe e está tendo um dia “daqueles”. Enquanto o seu marido vegeta na frente da televisão, você tenta sem sucesso colocar a roupa no seu filho de dois anos que, na fase do “não!”, torna o processo bem mais lento do que necessário, atrasando-a para o encontro com as amigas. Não conseguindo controlar a irritação, você perde a paciência com ele “da mesma forma que a sua mãe fazia com você”. Assim que nota, sente-se dominada por um terrível sentimento de culpa e fica envergonhada como se uma pequena explosão de raiva fosse o suficiente para defini-la como uma mãe abusiva.

– Você passou um fim de semana completando uma rota gastronômica. A experiência foi incrível, mas o resultado no seu estômago, nem tanto. Indo em direção à máquina de lavar com as roupas sujas tiradas da mala da viagem, você se flagra andando com o cabelo preso em um coque e com a protuberância abdominal para fora da camiseta, tal como a sua mãe narcisista circulava dentro de casa. A projeção e visualização desta imagem lhe causa intensa náusea, como se tivesse se tornado uma com a sua mãe narcisista.

Quando você tem um flashback como os citados, a tendência é pensar em algo do tipo, “Meu Deus, eu sou que nem a minha mãe/estou me tornando a minha mãe” ou indagar, “Será que eu sou narcisista?” e sentir-se extremamente inadequada e impotente. A verdade, contudo, na esmagadora maioria dos casos,  é outra. Somente porque você está se comportando de maneira similar a sua mãe (ou se parecendo fisicamente com ela), não significa que seja ou esteja agindo como ela, mas que, provavelmente, esteja tendo um flashback. Este, por ser carregado de significado emocional, pode distorcer o seu modo de interpretar o que está acontecendo, inclusive quando o que está vivendo no presente não tem nada a ver com o passado a qual foi remetida. Portanto, é importante entender que as observações mentais resultantes de flashbacks só fazem sentido sob a perspectiva do trauma, mas não refletem, necessariamente, o momento atual nem a pessoa que realmente você é. Portanto, fique tranquila: você não é a sua mãe narcisista, você está tendo um flashback.

Para reduzir a incidência de flashbacks e lidar com os demais efeitos do trauma, recomendo buscar uma terapeuta especializada em uma das abordagens terapêuticas do trauma, tal como a EMDR. Além disso, criar um inventário dos seus gatilhos, monitorar os seus humores e criar o hábito de conectá-los às experiências recentes e à ocorrência de flashbacks correspondem a atos simples que lhe ajudam não só no senso de autocontrole e autoeficácia, bem como no autoconhecimento e no processo de autorregulação emocional.

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

O reconhecimento que você procura está dentro de você

De forma incoerente, egoísta e cruel, filhas e filhos de mães narcisistas são forçados a se sentirem culpados por se recusarem a tolerar o comportamento transtornado de suas mães narcisistas.  A mensagem que recebem dos pais facilitadores, parentes, amigos e colegas – bem como da sabedoria burra do senso comum – tende a permanecer a mesma: independente do que a sua mãe fez ou faça, nada parece ser condenável o suficiente para ser reprovado. O que ouvem, pelo contrário, é que é “seu dever” aturá-la, aplacá-la, satisfazê-la e até perdoá-la, mesmo quando esta não possui humildade nenhuma para pedir desculpas tampouco perdão pelo abuso que cometeu e ainda comete contra os próprios filhos. Não é nenhuma surpresa, portanto, que como filho ou filha de mãe narcisista, você se sinta pequeno e insignificante, além de apresentar problemas de baixa autoestima. Como conseguir se autoafirmar contra tamanha injustiça, quando é tão difícil encontrar aliados ou pessoas corajosas o suficiente para reconhecerem esta verdade?

Chegou a hora de parar de buscar confirmação externa para o seu sofrimento. O reconhecimento que você procura assim como o amor e o respeito que tanto merece estão dentro de você.  Para ajudá-lo a dar voz a você a tudo o que sente e passou nas mãos de uma mãe e família tóxicas, leia e memorize a lista abaixo para relembrá-lo de sua humanidade e valor:

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

  1. Eu tenho o direito de sentir raiva de quem abusa de mim.
  2. Eu tenho o direito de ser tratada como adulto.
  3. Eu tenho o direito de dizer não.
  4. Eu tenho o direito de cometer erros.
  5. Eu tenho o direito de cortar o contato com pessoas tóxicas, independente de quem sejam.
  6. Eu tenho o direito de viver a minha vida de acordo com a minha cabeça.
  7. Eu tenho o direito de reclamar do que não acho correto e das injustiças cometidas contra mim.
  8. Eu tenho o direito de validar a minha história e realidade.
  9. Eu tenho o direito de me proteger.
  10. Eu tenho o direito de sentir emoções antagônicas, bem como expressá-las de uma forma não abusiva.
  11. Eu tenho o direito de pedir e recusar ajuda.
  12. Eu tenho o direito a ter minha própria vontade, opinião e interesses.
  13. Eu tenho o direito de mudar a minha forma de agir e pensar.
  14. Eu tenho o direito de viver uma vida plena e de realizações.

Use e abuse desta lista para lembrar-se de que ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de abusar de você. Como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, “laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva e boçal”. Ainda que a mulher que lhe deu à luz pareça ter mais direitos do que você, não se deixe lograr por uma cultura familiar paternalista, condescendente e de superioridade que protege pais e mães negligentes e abusivos, enquanto ignora o trauma, a dor e o desespero de filhos e filhas. Você tem todo o direito ao listado acima e muito, muito mais. Faça de seus direitos a sua bandeira de amor-próprio e carregue-a consigo, permanentemente e onde estiver. Não se permita ser manipulado por chantagem emocional e pare de praticar gaslighting contra si mesmo. A melhor maneira de legitimar a sua verdade é vivendo-a de forma autêntica, autônoma e de dentro para fora, com muita coragem e determinação.

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1

Se você é filha ou filho de uma mãe narcisista, já deve ter formulado a seguinte suposição:

“Se eu aprender a lidar com a minha mãe, tornar-me mais fria e não me preocupar com o que ela diz ou faz, serei capaz de aguentá-la e não precisarei cortar o contato.”

No meu trabalho com filhas e filhos de mães narcisistas, é bastante comum encontrar clientes que mencionam isso como um de seus objetivos de terapia. Por ser uma noção tão comum e, ainda, tão errônea no contexto do relacionamento entre filhos e mães narcisistas/tóxicas, achei pertinente usar este espaço para esclarecer.

Então, vamos lá: é possível “treinar-se” para não se abalar emocionalmente com o comportamento abusivo e impróprio de uma mãe narcisista?

A resposta, na esmagadora maioria dos casos, é não. Isso se deve ao fato de que a sua mãe narcisista está no centro da sua história de trauma do desenvolvimento. Como a praticante de grande parte do abuso que você sofreu, a sua mãe narcisista é o seu gatilho número um. Para compreender a extensão do efeito que ela provoca sobre você, é vital entender o conceito de “gatilho”.

A mãe narcisista como um gatilho

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1

Um “gatilho” é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático

No contexto de qualquer tipo de trauma, seja físico, psicológico/emocional, de uma ocorrência singular ou complexo (uma série de eventos adversos), um “gatilho” (trigger, em inglês) é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático de seu passado. Para usar um exemplo bem estereotípico, o barulho de uma explosão pode tornar-se um gatilho para um soldado de guerra traumatizado. Toda a vez que houve um barulho semelhante, independente da origem e donde esteja, sente-se aterrorizado tal como quando se encontrava no campo de batalha. Este gatilho – o barulho de explosão – ativa a sua memória do trauma que, por sua vez, ativa as emoções antagônicas sentidas no momento em que ocorreu (por exemplo, medo), fazendo-o sentir-se vulnerável e indefeso, inclusive se estiver longe de qualquer perigo real.

É claro que há diferentes contextos de trauma, nos quais os gatilhos não são tão simples de serem identificados, tal como o do exemplo. No contexto de trauma complexo – a modalidade sofrida por vítimas de abuso narcisista – estes gatilhos podem ser pessoas e até emoções. A mãe narcisista, portanto, representa um supergatilho. Isso se deve ao fato de que tudo a respeito de sua pessoa, bem como o seu olhar, linguagem corporal, maneira etc. funcionam como gatilhos. Na presença de uma mãe narcisista, o filho ou filha sente-se, com grande frequência e quase automaticamente, como aquela criança vulnerável de muitos anos atrás. Portanto, todo aquele autocontrole, autoridade e autoconfiança de homem ou mulher adulto conquistado ao longo de sua experiência e longe de influência materna parece desvanecer-se na presença de sua mãe narcisista.

Este processo é tão rápido e sutil que escapa a sua consciência. Basta um comentário afetado ou uma crítica destrutiva para que as memórias e crenças do seu trauma sejam ativadas. Uma vez que você é transportada para o passado através destes gatilhos, o seu sistema límbico é ativado e as suas reações tornam-se rápidas, subjetivas, emocionais e até irracionais. Como esclareci no artigo anterior deste blog, esta área do seu cérebro, referido como o “cérebro emocional”, é onde são armazenadas as memórias do seu trauma e é, também, a região responsável por detectar ameaças e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Portanto, as suas reações, quando na presença da sua mãe, serão, na maioria das vezes, motivadas por intensas emoções antagônicas, até mesmo nas circunstâncias em que ela não estiver apresentando um comportamento que, tecnicamente, justifique a amplitude da sua reação. Lembre-se de que o seu sistema límbico é hiperativo em consequência do trauma, a probabilidade de você não se sentir inadequada na presença da pessoa que a abusou por longos e sofridos anos é quase nula. Quando você se familiariza com os aspectos neurobiológicos e entende o conceito de gatilhos, insistir em manter este relacionamento tóxico corresponde a uma atitude ingênua e incoerente.

Honrar as suas emoções é honrar você

A reação normal de um ser humano constantemente atacado verbal e fisicamente e tem a autoconfiança sistematicamente destroçada é se sentir mal e inadequado. Ninguém deve se esforçar para tolerar o abuso, seja de quem ou da natureza que for. As suas emoções, mesmo quando exageradas, são fontes de grande sabedoria, pois lhe avisam ou relembram da ameaça ao seu bem-estar. No contexto de abuso, tentar “controlá-las”, reprimi-las, ignorá-las ou normalizar o seu significado só promove ainda mais o mal-estar emocional e até a ocorrência de problemas de saúde física e mental. Logo, a melhor maneira de lidar com as suas emoções é respeitá-las e aprender com elas. Mesmo que você faça terapia e certas pessoas insistam que você “tem que” ter um relacionamento com a sua mãe, ou que cabe a você “aprender” a relevar a sua atitude abusiva e transtornada, o seu corpo ou você inteira – da cabeça aos pés – permanece o seu guia mais inteligente e humano. Está na hora de honrar a si própria e dizer não ao abuso narcisista. Se precisar de ajuda para reduzir ou cortar o contato com uma mãe narcisista, recomendo os meus livros, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

 

De que forma o trauma do desenvolvimento afeta o cérebro?

Crescer em um ambiente marcado pelo abuso tende a afetar o desenvolvimento de uma criança

Crescer em um ambiente marcado pelo abuso, seja de ordem emocional/psicológica e/ou física, tende a afetar o desenvolvimento de uma criança. Para filhos e filhas de mães narcisistas, assim como de mães tóxicas, o trauma do desenvolvimento compromete a sua capacidade de viver uma vida plena e de realizações. Isso se deve ao fato de que o estresse ao qual são submetidos quando crianças exerce um impacto negativo em seu desenvolvimento neurobiológico. Indivíduos que, durante a infância, sofreram com a negligência dos seus responsáveis e/ou foram constantemente agredidos de forma física e/ou verbal e, como consequência, estiveram sob a influência frequente de intensos sentimentos de inadequação, tais como: a solidão, o medo, a culpa e a vergonha, apresentam cérebros programados no modo “sobrevivência”.

Na prática, este constante estado de alerta permanece devido ao alto funcionamento de certas áreas do cérebro, enquanto outras se mantêm inativas ou apresentam baixa atividade. A seguir, elencam-se as consequências mais proeminentes e que foram estudadas nos exames de imagem realizados em um grande número de pesquisas científicas referente aos efeitos do trauma na infância, juntamente com os seus efeitos nas vítimas sobreviventes:

1- Alta sensibilidade do sistema límbico

O sistema límbico, composto por estruturas como o hipotálamo, o tálamo, a amígdala e o hipocampo, é considerado o “cérebro emocional”. Esta área é responsável, entre outras, por detectar ameaças ao nosso bem-estar e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Nos indivíduos cujas histórias pessoais de desenvolvimento incluem a negligência e/ou abuso, o sistema límbico (especialmente a amígdala) é hiperativo, ou seja, tende a responder muito mais fácil e rapidamente a supostas “ameaças”. No entanto, trata-se de uma reação exagerada que não reflete a realidade de forma acurada, na maioria das vezes, identifica perigos onde não existem e gerando estresse desnecessário.

Efeitos: índice elevado do hormônio do estresse – cortisol – no sangue, problemas de concentração, dificuldade de aprendizado, de manter metas, de se organizar e de regular as emoções, irritabilidade, insônia/problemas do sono, reflexo de susto exagerado, hipersensibilidade à luz e a sons, entre outros.

Uma das reclamações mais comuns de minhas clientes é que se consideram altamente reativas – ou que se abalam com grande facilidade – até quando reconhecem que as suas reações emocionais são desproporcionadas. Além disso, relatam que ao se sentirem afetadas emocionalmente, seja pela raiva ou ansiedade (em geral, causada pela preocupação excessiva), por exemplo, têm dificuldade de voltarem “ao normal” ou se desligarem destas com a agilidade de que gostariam.

2- Baixa atividade do córtex cerebral

O córtex cerebral compreende a parte do cérebro onde se originam os pensamentos analíticos e racionais, além de tratar de funções relacionadas ao aprendizado e à nossa habilidade de resolver problemas de modo objetivo. O córtex pré-frontal, em especial, é responsável pela reflexão balanceada e objetiva que permite ao indivíduo analisar e fazer planos, decisões e julgamentos baseado em comportamentos passados. Também é onde não só se avalia o próprio pensamento ou funções cognitivas (metacognição) (Fleming, Huijgen & Dolan, 2012), bem como regula os impulsos, as vontades, as compulsões e o comportamento nas interações sociais. Nas vítimas sobreviventes do trauma do desenvolvimento, a reatividade emocional é tão grande e a atividade da amígdala tão rápida e intensa, que tende a dominar o processo de interpretação de informação. Como resultado, o córtex, literalmente, “não tem chance” (Van der Kolk, 2014) de auxiliá-las a interagirem com o mundo a sua volta e com seus próprios pensamentos de uma forma equilibrada, adulta e sem a influência das crenças e emoções relacionadas ao trauma.

Efeitos: alta reatividade emocional (ex.: alta raiva e ansiedade que não diminuem com o tempo), temperamento volátil, dificuldade de criar e manter relacionamentos saudáveis e de regular as emoções, as vontades, os impulsos e os comportamentos nas interações sociais.

Este fenômeno é observado, de forma clássica, na atitude daquela cliente e filha de mãe tóxica/narcisista que, embora seja adulta, inteligente e tenha plenas condições de viver uma vida autônoma, sente-se como uma criança e totalmente pressionada pela própria inadequação. Portanto, assemelha-se ao indivíduo que primeiro age para pensar depois e, por consequência, arrepende-se seguidamente de seu próprio comportamento ou sente-se descontente com a maneira pela qual responde a situações estressantes ou que requerem uma atitude mais equilibrada e autocentrada. Quando se permite parar para pensar a respeito de si e suas opções de forma calma e centrada – tal como no ambiente da terapia – agem de maneira a, naturalmente, ativar as áreas de seu cérebro responsáveis pelo raciocínio objetivo, tal como o córtex.

Se você se identifica com os pontos mencionados, não é por ser “incompetente”, “burra”, “errada” ou “lesada”, mas porque está sofrendo com os efeitos do trauma do desenvolvimento. Estas reações não são aberrantes, mas normais considerando o contexto do abuso e da negligência ao qual foi submetida durante muito tempo. Neste sentido, o seu cérebro não é deficiente e exerceu perfeitamente o papel que deveria, ao tentar não apenas proteger os seus bem-estares físico, emocional e psicológico, assim como preservar o relacionamento com as pessoas responsáveis pela sua sobrevivência e que deveriam, em teoria, terem-na protegido e assegurado um ambiente familiar funcional e harmonioso para o seu desenvolvimento. Para lidar com os efeitos do trauma da melhor maneira possível, é vital que, em primeiro lugar, conscientize-se desta verdade.

Referências

Fleming, S. M., Huijgen, J. & Dolan, R. J. (2012). Prefrontal Contributions to Metacognition in Perceptual Decision-Making. J Neurosci. 32(18): 6117–6125. doi: 10.1523/JNEUROSCI.6489-11.2012

Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Mind, Brain and the Body in the Transformation of Trauma. London, UK: Penguin Books.

 

Tipos de abuso

Abuso é um comportamento cruel e violento intencionado a manter um indivíduo sob controle de, pelo menos, outra pessoa. Contrário ao que  se entende amplamente por abuso, compreende muito mais do que dano causado ao corpo por meio da violência física (ex. doméstica), mas inclui toda e qualquer conduta imprópria ou ato de violência que afeta os bem-estares físico, emocional, psicológico e/ou espiritual de outra pessoa. Na maioria dos casos de abuso – como o cometido por uma mãe tóxica/narcisista – o comportamento  abusivo não se limita a uma ocorrência, ocorre de forma repetitiva por um determinado período, podendo incluir grande parte ou toda a infância da vítima sobrevivente, assim como se estender à idade adulta. O abuso, no entanto, não ocorre somente no ambiente familiar, pode ser observado em todo e qualquer relacionamento. A seguir são elencados os tipos de abuso para que você entenda de que maneira acontece na prática e como pode afetá-la:

(A palavra “criança”, em muitos dos exemplos pode ser substituída por “pessoa”)

Abuso emocional/psicológico

Tipos de abuso

Culpar uma criança pelas próprias escolhas é abuso

  • Culpar a criança pelo que acontece consigo, inclusive pelas próprias escolhas
  • Provocar a criança ou fazê-la se sentir mal para servir a um fim, de forma consciente e premeditada
  • Usar o medo, a culpa e a vergonha para manipular a criança a fazer somente o que deseja através de chantagem emocional
  • Ameaçar abandonar a criança quando faz algo errado ou não se comporta como desejado
  • Travar o crescimento e desenvolvimento pessoal da criança rejeitando a sua identidade e autonomia de modo consistente e sistemático
  • Tratar a criança como um ser inferior, incompetente ou indigno de ser amado
  • Submeter a criança a grandes e constantes variações de humor, tal como testemunhar ataques de raiva frequentes
  • Ignorar, negar ou banalizar a existência de problemas de saúde mental na criança
  • Ignorar, negar ou rejeitar os limites pessoais da criança
  • Trivializar a natureza dos comportamentos abusivos, como ataques verbais e o uso indiscriminado de mentiras como se fossem aceitáveis, sem importância ou inconsequentes
  • Agir de forma passivo-agressiva fazendo a criança sentir-se inadequada de forma sofisticada e insidiosa para aliviar ou “lidar” com a própria raiva e insatisfação pessoal
  • Incesto emocional: tratar a criança como se fosse o adulto responsável pelos seus cuidados e bem-estares físico, psicológico e emocional. Buscar conselho ou compartilhar de problemas de ordem emocional com a criança, como se fosse adulta e com a incumbência de oferecer apoio emocional ao adulto.

Negligência emocional

  • Não reconhecer os sentimentos da criança, ignorá-los ou tratá-los como dispensáveis
  • Recusar-se a validar o efeito que as suas atitudes exercem no bem-estar emocional da criança
  • Não escutar a criança nem valorizar a sua expressão pessoal, assim como os sentimentos
  • Não expressar empatia pelo sofrimento ou desconforto emocional da criança
  • Incentivar, inclusive indiretamente, a repressão das emoções, sobretudo quando negativas
  • Manter-se emocionalmente distante e desinteressado dos sentimentos da criança
  • Rejeitar ou culpar a criança por sentimentos de natureza antagônica, tal como a raiva
  • Incentivar, através de exemplo de comportamento, a incongruência emocional, ou exigir que a criança pareça feliz quando se sente descontente

Negligência Física

  • Ignorar os problemas de saúde física da criança e não buscar assistência médica
  • Não fornecer abrigo ou ser capaz de manter a criança bem nutrida e/ou vestida de forma apropriada
  • Manter a criança sozinha e sem supervisão por períodos prolongados, principalmente quando ainda não tem a idade para cuidar de si
  • Tornar uma criança responsável pelos cuidados de outra(s) criança(s)
  • Forçar uma criança a prover ou contribuir financeiramente pelo seu próprio sustento (ou da família), seja através de trabalho, seja forçando-a roubar ou mendigar

Abuso Verbal

  • Intimidar e humilhar a criança com rótulos de conotação negativa, tal como “burro”, “estúpido”, “imbecil” etc.
  • Usar nomes de natureza chula e derrogatória para descrever a criança ou o seu comportamento
  • Provocar, rir ou zombar da criança
  • Ter o hábito de comparar a criança a outras pessoas
  • Ter o hábito de resmungar, importunar ou gritar com a criança

Abuso físico (violência doméstica)

  • Agredir uma criança fisicamente através de tapas, pancadas, chutes
  • Queimar ou agredir uma criança fisicamente por meio de um objeto, tal como um cinto
  • Sacudir ou empurrar a criança contra uma parede ou objeto
  • Forçar a criança a comer ou beber; ou se recusar a alimentá-la
  • Forçar a criança a se exercitar, fazer uma tarefa ou atividade física que supere a sua capacidade e disposição

Abuso sexual

  • Tocar ou acariciar as zonas erógenas e/ou órgão sexual da criança
  • Olhares impróprios, fazer “brincadeiras”, comentários ou insinuações maliciosas
  • Expor-se ou masturbar-se na frente da criança
  • Masturbação mútua com a criança
  • Ter relação sexual com a criança (vaginal, oral e/ou anal)
  • Penetrar uma criança com o uso de dedos ou objetos
  • Ejacular na criança
  • Forçar a criança a assistir filmes pornográficos, ou a fazer parte de um
  • Tirar fotos pornográficas de uma criança
  • Forçar uma criança a ter relações sexuais com outra, ou a assistir outros tendo relações sexuais
  • Forçar a criança a ter relações sexuais com animais
  • Forçar a criança a participar de jogos sexuais ou torturá-la sexualmente
  • Recusar-se a conversar com a criança a respeito de sexo, puberdade e menstruação, como se fosse algo sujo e impróprio

Abuso vicário

  • Expor a criança a abuso de qualquer natureza cometido a outrem, tal como membro da família

Abuso espiritual

  • Usar verdades espirituais, palavras ou textos religiosos para coagir, justificar comportamentos e atitudes impróprias, manipular ou cometer algum tipo de dano à criança, seja de ordem física, sexual, psicológica ou emocional
  • Conjurar uma autoridade divina ou usar da autoridade espiritual para endossar um comportamento impróprio ou forçar a criança para servir aos seus próprios interesses

Como se colocar em primeiro lugar em 2018

Como se colocar em primeiro lugar em 2018

Você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar

Dar prioridade ao próprio bem-estar não equivale a egoísmo, tampouco a narcisismo, já que uma autoestima alta é uma característica psicológica funcional e não patológica. Por mais que a sua mãe narcisista a tenha convencido do contrário ao longo de muitos anos de abuso, lavagem cerebral e um comportamento egoísta e egocêntrico, você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar. Mesmo que você seja mãe ou esteja vivendo um relacionamento amoroso, as suas necessidades, vontades e interesses têm grande relevância para a preservação de sua essência e saúde mental, bem como para garantir a sua qualidade de vida e a dos relacionamentos. Não há melhor exemplo de mãe, amiga ou parceira amorosa do que uma mulher que se valoriza como um indivíduo seguro e autônomo.

Sem dúvida, para quem foi criada em um ambiente familiar disfuncional e negligente, não se revela uma tarefa fácil concentrar-se em si, nos seus próprios problemas e objetivos. Se você está cansada de se sentir como uma atriz coadjuvante na própria vida, seguem 5 dicas de como se colocar em primeiro lugar em 2018:

1- Questione as atitudes e motivações codependentes

Colocar-se em primeiro lugar é dar atenção a si mesma de forma ativa e consciente, antes de tudo. Na prática, consiste em dizer não à codependência e sim ao amor-próprio, ou se concentrar em resolver a própria dor, assim como lidar efetivamente com os sintomas do trauma em vez de direcionar a atenção ao narcisismo da mãe, aos problemas do pai, da irmã, do irmão, dos amigos, parentes, parceiros amorosos etc., já que não são sua responsabilidade. Portanto, se a sua mãe é narcisista, não cabe a você encontrar a cura para o problema dela, pois além de não lhe pedir ajuda, não a reconhece como tal, tampouco dá valor a sua dedicação. A codependência não é uma atitude nobre, mas uma tendência comportamental masoquista e de autossabotagem baseada em estratégias de defesa e enfrentamento disfuncionais que evitam lidar com as emoções negativas fortes, tais como a tristeza e a vergonha de não ser amada pela própria mãe (e muitas vezes também pelo próprio pai e demais membros da família) através da negação, repressão, sublimação e dissociação, entre outros.

Para questionar a sua tendência codependente, monitore os pensamentos (sobretudo em relação a sua família) e, toda a vez que se flagrar tentando resgatar quem quer que seja, pergunte-se:

“Por que eu estou mais preocupada com os outros do que comigo mesma?”

“Que inseguranças e emoções negativas estou tentando mascarar através desta atitude?”

 “Quais são as minhas necessidades neste momento?”  

2- Mantenha uma atitude de tolerância zero com a culpa e a vergonha

No contexto do narcisismo materno, a culpa e a vergonha são sentimentos extremamente contraproducentes a uma autoestima saudável. É comum eu recomendar cautela aos meus clientes quando se sentem invadidos por tais sentimentos devido ao seu grande poder tóxico; entretanto, no caso de filhas de mães narcisistas, esta recomendação é redobrada. Se você tem uma mãe tóxica narcisista, recomendo muitíssimo que desconfie de pensamentos em relação a ela e à família que resultam em culpa e vergonha, pois 99,99% das vezes são incoerentes e provenientes de crenças negativas capazes de travarem o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Lide com a culpa e a vergonha como lidaria com um incêndio dentro de casa, extinguindo-as imediatamente. Para fazê-lo, pode contar com a ajuda do seu diálogo interno iniciando um questionamento racional, adulto e centrado das verdadeiras motivações de tais sentimentos, como a chantagem emocional, por exemplo. Se preciso, verbalize a sua aversão à culpa e vergonha de forma clara através da escrita ou dizendo para si mesma em voz alta: “Culpa/vergonha em alta, autoestima em baixa!” Quando você se liberta da influência da culpa e vergonha, readquire a atenção e energia necessárias para focar em si, nos seus interesses e nas suas realizações.

3- Diga não à autossabotagem

Cultivar uma “autoestima” condicional, não respeitar os próprios limites e negligenciar os sentimentos, bem como se entregar ao perfeccionismo, à crítica negativa, à codependência, à procrastinação e à imobilidade são atitudes autossabotadoras. Tudo aquilo que rejeita quem você é e cria uma distância entre você e a sua essência compromete a autorrealização, seja nos campos pessoal, acadêmico ou profissional. Se você tem o hábito de acreditar em todo e qualquer pensamento que passa pela sua cabeça – especialmente os motivados pela culpa e vergonha, que insistem em convencê-la de não ser e agir de acordo com o seu verdadeiro eu para garantir a aprovação alheia ou de que não é boa o suficiente para alcançar o que deseja – isso a torna uma vítima fácil da autossabotagem. Quebre o ciclo da ruminação e saia do seu estupor reivindicando o direito de ser você, independente do que isso signifique. Lembre-se de que se aprende muitíssimo a respeito de si mesmo por meio de todo e qualquer ato cometido de forma honesta e autêntica. Rejeite a voz derrotista do narcisismo materno, seja proveniente de sua própria cabeça ou da língua venenosa de sua mãe, dizendo não à autossabotagem e dê asas a sua criatividade e expressão pessoal.

Sentir-se bem e em harmonia consigo é possível por intermédio da expansão da autoconsciência e autoconhecimento. Para entrar o ano sentindo-se com mais autonomia, adote uma posição autoafirmativa e inovadora investindo em maneiras de pensar e agir que complementam a pessoa que é e o que deseja para a própria vida. Se ainda necessita de mais inspiração para começar a implementar mudanças positivas na própria vida, sugiro a leitura do meu novo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.  No capítulo de número 4, Os cinco As de emancipação da filha de mãe narcisista, descrevo as atitudes e comportamentos que ajudam a filha de mãe narcisista a superar problemas antigos, readquirir o controle sobre si e reconectar-se com a própria vida.

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes?

Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância. Filhos e filhas de mães narcisistas, por crescerem em um ambiente de intenso abuso, negligência e instabilidade emocional correm o risco de apresentarem dificuldades em uma ou mais áreas de seu desenvolvimento, tais como: apego, biologia, equilíbrio emocional, capacidade cognitiva e autoconfiança. Sentir-se rejeitada, ignorada e, por vezes, totalmente inadequada na presença da genitora narcisista cria um ambiente hostil e repleto de ansiedade para o crescimento e desenvolvimento sadio de qualquer criança. A incoerência do estilo “maternal” deste tipo de mãe faz com que a filha, em particular, esteja sempre em alerta a possíveis perigos, como ser atacada física ou verbalmente por quem, supostamente, deveria amá-la e protegê-la. Por conseguinte, a atenção que deveria estar voltada para o desenvolvimento de características pessoais e funções mais sofisticadas de sua psique direciona-se para as suas necessidades básicas, como a sobrevivência e autopreservação, prejudicando o desenvolvimento de sua identidade e contribuindo para a criação de uma percepção essencialmente negativa e tendenciosa de si mesma, de mundo e relacionamentos. Caso você seja filho ou filha de uma mãe narcisista, a probabilidade de que tenha sofrido com o trauma do desenvolvimento é muito alta. Para entender a maneira pela qual crescer sob a tirania de uma mãe narcisista tem o potencial de afetar a sua mente, corpo e relacionamentos seguem os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes:

1- Você não tem uma visão coerente de si mesmo

Crescer acreditando que não é digna de ser amada, é incompetente e nada do que faz é bom o suficiente compromete a nossa capacidade de desenvolver uma percepção sadia e confiante de nós mesmos. É ter a essência constante e sistematicamente negada de forma tão cruel e persistente, como se houvesse algo errado consigo. A filha de mãe narcisista cresce acreditando ser de fato “quebrada” ou “errada”, percepção prejudicial não somente a autoimagem, com também a sua identidade, pois acaba investindo ainda mais energia desperdiçada em tornar-se alguém programado somente para satisfazer a mãe narcisista, perdendo o contato com o seu verdadeiro eu para proteger-se dos ataques dela e salvaguardar este relacionamento tóxico. Já na idade adulta, tem dificuldades de realizar-se nos campos pessoal, acadêmico e/ou profissional, pois não sabe ou encontra sérias dificuldades de reconhecer quem é, do que gosta e é capaz.

2- Você se sente facilmente sobrecarregada por pensamentos e sentimentos

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes

Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância

Como o seu cérebro se desenvolveu em um ambiente hostil, adaptou-se a isso para protegê-la de ameaças ao seu bem-estar, sejam estas da natureza física ou psicológica/emocional. Filhas de mãe narcisistas são facilmente influenciadas por seus próprios pensamentos e sentimentos, sobretudo quando negativos. Dado que a sua sobrevivência, ou seja, sentir-se segura e protegida foram sempre a sua prioridade, leva-se muito a sério e confia em seus instintos muito mais do que na própria razão, como se fosse um animal selvagem sentindo-se permanentemente acuado por um predador. Por outro lado, a combinação de seu isolamento emocional, excesso de independência e visão tendenciosa faz com que seja suscetível às suas perturbações próprias emocionais e pareceres demasiado negativos os quais não revelam, necessariamente, uma fiel representação dos fatos.

3- Você tem dificuldade de regular as suas emoções

O adulto que quando criança não conta com a presença calma, tranquila e centrada de uma mãe atenciosa e consistente com as suas necessidades tem dificuldades de se equilibrar emocionalmente, já que aprendemos a regular as emoções com a ajuda do nosso genitor mais influente ou adulto responsável pelos nossos cuidados através do toque, afeição e carinho. Filhas de mãe narcisistas tendem a não conseguir equilibrar as emoções de uma forma efetiva e independente, geralmente necessitam se automedicar. Portanto, é bastante comum terem problemas de ansiedade, tal como o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT), assim como um índice de cortisol no sangue acima da média. A vida, como resultado, parece uma grande batalha para a filha de mãe narcisista, fazendo do drama, da angústia e do estresse características fixas e até “aceitáveis” de sua existência. Já que o seu “normal” é um intenso estado de alerta – seja este consciente ou não – inúmeras situações têm o potencial de desestabilizá-la emocionalmente.

4- Você tem dificuldade de criar relacionamentos seguros e estáveis

As vítimas sobreviventes de trauma do desenvolvimento tendem a apresentar dificuldades no campo dos relacionamentos, principalmente no amoroso. Visto que não possuem um adequado senso de segurança interno e externo, acham difícil confiar no outro e criar uma conexão afetiva verdadeira com as outras pessoas. Têm tanto receio de se envolverem afetiva e emocionalmente, a ponto de conscientemente se afastarem de qualquer intimidade que as exponha a uma situação de “risco”, tal como serem rejeitadas e maltratadas de novo. Como não conseguem equilibrar as emoções, tornam-se extremamente reativas e instáveis comprometendo, também, o relacionamento. Finalmente, a falta de autoconfiança e a baixa autoestima resultantes de uma percepção negativa de si mesma fazem com que se envolvam com parceiros errados, que não as respeitam e até abusam delas, repetindo o padrão de rejeição e circunstâncias hostis em que foi criada, mas por lhe ser tão familiar, cria uma falsa ilusão de apego e conexão afetiva.

5- Você evita lidar com lembranças traumáticas e dolorosas

Naturalmente, é doloroso revisitar memórias traumáticas. O nosso cérebro sabe disso e nos protege desta dor afastando e até bloqueia essas memórias. Não conseguir relembrar a infância ou se sentir desconfortável quando tenta relatar as experiências de vida com uma mãe narcisista e pai facilitador é um indicio poderoso de que tais memórias são potencialmente traumáticas. Se você não consegue produzir uma narrativa consistente com uma infância feliz e tranquila, citando um razoável número de exemplos de situações em que seus pais estiveram presentes não somente em corpo, mas também em alma para a protegerem, ajudarem-na e a apoiarem, é porque provavelmente este não foi o caso. A inconsistência de um relato de uma pessoa traumatizada pela indiferença materna e/ou paterna, por exemplo, é em si reveladora de que a visão de sua infância não corresponde à realidade dos fatos (a vítima sobrevivente de trauma do desenvolvimento defende que “não há nada de errado” com a sua infância, embora não consiga relembrar nenhum momento em que teria recebido apoio emocional de seus genitores, por exemplo).

Apesar do trauma do desenvolvimento ser um problema de saúde mental bastante complexo, frequentemente afetando o bem-estar emocional, os relacionamentos e a capacidade de realização pessoal da vítima sobrevivente, é possível de ser tratado. Uma atitude consciente e proativa em relação a sua existência, bem como seus efeitos, é por si só emancipadora. Abordar o trauma com honestidade e coragem demonstra-se fundamental para ser superado, seja buscando terapia ou implementando mudanças positivas na própria vida de modo independente. Quando se trata de trauma, a autoconsciência, o conhecimento a respeito do problema e uma atitude autônoma de recuperação do controle sobre a própria vida são indispensáveis para que se consiga curar as feridas do passado.

Terapia que ajuda x terapia que não ajuda

Devido à recente exposição do tema narcisismo materno e o aumento da conscientização em relação ao problema, há um renovado interesse na terapia por parte daqueles que se veem como uma vítima de uma mãe narcisista. Dado a dimensão do prejuízo causado por crescer e se desenvolver sob a tirania de uma mãe abusiva, torna-se natural a ideia da filha procurar apoio de uma profissional na área de saúde mental para lidar com os problemas de ordem psicológica e emocional resultantes deste relacionamento tóxico. Contudo, reunir a coragem e os recursos financeiros necessários para iniciar o tratamento psicoterápico não garante o sucesso de seu resultado. Dentre os inúmeros e-mails que recebo através do filhasdemaesnarcisistas.com.br, muitos incluem relatos de filhas de mães narcisistas que, embora tenham procurado tratamento, não se sentem melhores após terem investido tempo e dinheiro significativos. Isto ocorre porque encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado tem o potencial de tornar-se um processo difícil e até decepcionante, faz-se vital que se informe a respeito do tipo de terapia que tem a maior probabilidade de ajudá-la. Este artigo visa trazer à luz o papel que a terapeuta e o relacionamento com a cliente e, em especial, filha de mãe narcisista, exercem no sucesso ou fracasso da terapia.

O básico

Independente da abordagem terapêutica, a terapia funciona somente quando é Centrada na Pessoa, ou seja, respeita três condições básicas: a consideração positiva incondicional, empatia e congruência. Em termos práticos, isso quer dizer que a terapeuta não só aceita a cliente e suas circunstâncias sem julgá-la, bem como é capaz de se colocar no seu lugar e ver o mundo através de seus olhos com muito respeito, atitude refletida de forma inequívoca nos seus valores e comportamento. Como está ciente de que a cliente é a expert na sua própria vida, acredita nela e trabalha com ela para ajudá-la a promover a autoexploração e o conhecimento.

terapia

Encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado pode tornar-se um processo difícil

Por mais que isso pareça evidente e até inquestionável para se criar um ambiente terapêutico seguro e produtivo, este cenário não é observado em todos os contextos, especialmente quando a cliente apresenta problemas que questionam as crenças da própria terapeuta. No caso da filha de mãe narcisista, uma terapeuta que acredita tão fielmente nas intuições Mãe e Família a ponto de não conseguir questioná-las ou analisá-las sob um ângulo negativo, irá comportar-se de forma naturalmente resistente quando se deparar com uma cliente cujos problemas de ordem psicológica e emocional estejam diretamente relacionados à atitude disfuncional, negligente e abusiva de seus genitores. Esta resistência se faz óbvia em comentários, tais como: “Mas ela é sua mãe”, “Você tem que entender e aprender como lidar com a sua mãe” etc.

Esse tipo de retórica somente reproduz o ambiente familiar de antagonismo e rejeição o qual a filha de mãe narcisista foi forçada a tolerar por longos e sofridos anos. É impossível sentir-se compreendida e aceita quando a própria terapeuta é incapaz de reconhecer e honrar a sua verdade, seja qual for. Portanto, não a complementa ou fortalece, tampouco ajuda a esclarecer os seus sentimentos de inadequação, mas apenas a faz sentir-se ainda mais incongruente, isolada e solitária.

Respeitando a verdade da filha de mãe narcisista

A função da terapeuta também é auxiliar a cliente a construir um senso de realidade que faça sentido e explique a sua experiência de modo coerente. Partindo desta premissa, a terapia que ajuda a filha de mãe narcisista é aquela que aborda os eventos que compõem a sua história como fatos e não fantasia. Quando o objetivo é emancipar a cliente, auxiliá-la a entender o que aconteceu consigo sob uma perspectiva clara e objetiva torna-se indispensável. Ajudá-la a entender que o que sofreu tem nome – abuso – e que, como tal, deixou marcas profundas na sua mente e corpo – o trauma – permite que a filha de mãe narcisista consiga organizar a sua narrativa pessoal de forma lógica. Nestas circunstâncias, há um grande senso de alívio e bem-estar, em que a cliente se torna apta a, finalmente, validar a sua história e os seus sentimentos de impropriedade. Saber a verdadeira origem de sua confusão e insegurança e ter esta verdade confirmada por uma terapeuta empática é, em si só, um ato transformador.

A terapeuta que evita tocar em assuntos tabus, e que, por isso, não associa a experiência da filha de mãe narcisista com a família disfuncional às palavras “abuso” e “trauma”, priva-a de conceber a verdadeira extensão e implicância de não lidar com o seu problema de maneira franca e proativa. Ser vítima de abuso materno narcisista resulta, em sua esmagadora maioria, em trauma de ordem complexa. Os efeitos desta modalidade de trauma são sentidos não somente na infância, como também na idade adulta, frequentemente limitando a capacidade da filha de mãe narcisista de viver uma vida plena e de realizações, pois afetam o seu sistema emocional, corpo, psique e relacionamentos negativamente. A abordagem terapêutica que ajuda a filha de mãe narcisista a superar o trauma é aquela que o entende como fato e o conceitua através de uma elucidação clara e de fácil identificação. Sobretudo, trata-se de uma abordagem que reconhece os seus efeitos não como produtos de simbolismo ou uma imaginação fértil, mas como manifestações reais de um problema de saúde mental que exerce um impacto negativo na sua qualidade de vida.

Se você é filha de mãe narcisista e está pensando em buscar um tratamento, escolher uma terapeuta sensível, que entenda e respeite você, a sua história e verdadeira dimensão do seu problema é fundamental. A terapia que ignora os fatores acima falha em reproduzi-los de forma satisfatória e, portanto, revela-se como uma perda de tempo e dinheiro. Além disso, uma “profissional” que está mais preocupada em provar uma teoria e proteger valores de família absolutos e obsoletos do que reconhecer a verdade de uma cliente traumatizada e vítima de abuso tem o potencial de aliená-la e até retraumatizá-la, prejudicando-a em vez de ajudá-la. Portanto, recomendo cautela.

Quando em terapia, reflita sobre as seguintes perguntas:

  • Eu me sinto compreendida e acolhida por esta terapeuta?
  • Ela parece possuir um conhecimento atualizado e apropriado sobre o meu tipo de problema?
  • Ela aborda o que passei sob a perspectiva do abuso e trauma?
  • Eu me sinto mais esclarecida com os comentários, esclarecimentos e as interpretações desta terapeuta?

Se a resposta for sim para todas essas perguntas, há uma grande probabilidade de que a terapia será produtiva.

A maldição do filho dourado

O filho dourado é o escolhido da mãe narcisista como “favorito”. Trata-se daquela criança considerada “a melhor” de todas e, por esta razão, é protegida, favorecida e usada frequentemente como o seu instrumento de triangulação. Embora em um grande número de famílias regidas pela tirania narcisista revele-se ser extremamente fácil apontar a criança dourada, em algumas este processo não é tão óbvio. Há situações em que o papel de criança dourada não é fixo, mas passa de um filho para outro de acordo com a conveniência da mãe narcisista, pois tudo depende do seu interesse do momento e de quem seja capaz ou esteja desesperado o suficiente em sacrificar-se para atendê-lo – ao que me refiro como “leilão emocional” em meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas.

A maldição do filho dourado

Mesmo sem perceber, a criança dourada paga um preço altíssimo pelo favoritismo narcisista

Tipicamente, no entanto, a criança dourada tende a ser o filho de sexo masculino. Psicologicamente, associo esta tendência ao autodesprezo da mãe narcisista. Visto que a filha é uma extensão de si mesma e funciona como o espelho refletor de sua própria imagem, é tratada com o mesmo repúdio e ódio que a mãe narcisista cultiva pela sua própria pessoa. Se a mãe narcisista fosse capaz de amar e aceitar a si mesma ou reconhecer a filha como um indivíduo e entidade independente, essa tendência não seria tão predominante.

Independentemente do contexto ou explicação para esta atitude imatura, incoerente e disfuncional, a noção de que o favoritismo da mãe narcisista é algo benéfico para a criança dourada pode até fazer sentido em teoria, mas, na prática, revela-se seguidamente como um comportamento prejudicial ao crescimento e desenvolvimento pessoal do “escolhido”. O que se observa nas famílias disfuncionais de minhas clientes é que a esmagadora maioria dos filhos dourados que recebem tratamento especial das mães narcisistas tornam-se adultos imaturos e irresponsáveis, além de exibirem problemas sérios de autoestima, autorregulação emocional e relacionamentos. Muitos não têm ocupação, mudam de emprego com grande frequência e dependem financeiramente da mãe, embora tenham idade suficiente para se sustentarem. No lado amoroso, também não são bem-sucedidos ou têm o hábito de se envolverem em relacionamentos dramáticos e caóticos. Já como irmãos, os filhos dourados tendem a ser egoístas, frios, distantes e até agressivos fisicamente quando contrariados. Quando não são narcisistas como a mãe, também agem de forma apática e indiferente ao abuso do qual são testemunha e defendem a atitude da mãe mesmo que não seja abertamente.

Os fatos mencionados me permitem concluir que a influência direta que a mãe narcisista exerce no filho dourado também é nociva e, por vezes, tão tóxica quanto a que exerce no filho bode expiatório ou “ovelha negra”. Mesmo sem perceber, a criança dourada paga um preço altíssimo pelo favoritismo narcisista, o qual deve ser aceito até quando não é solicitado. Enquanto que o abuso e o efeito tóxico narcisista são muito mais evidentes nos demais filhos, a predileção da mãe narcisista pelo filho dourado é erroneamente concebida por todos como benéfica, pois vem disfarçada de amor materno. Somente quando o filho dourado não consegue comportar-se de forma adulta e competente é que se compreende como a educação narcisista foi falha em prepará-lo para a vida e ajudá-lo a tornar-se um indivíduo autônomo e sensato. A maldição do filho dourado é mais uma prova de que uma mãe narcisista – inclusive quando parece comportar-se como mãe – não é uma interferência saudável na vida de nenhum dos filhos.

Se necessita de ajuda para registrar a perda da “mãe” no sentido afetivo da palavra, recomendo o meu curso online, “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá como reconectar-se com o corpo e a fazer o luto da mãe narcisista de forma saudável.

O que esperar quando se corta o contato com a mãe narcisista

O que esperar quando se corta o contato com a mãe narcisista

Cortar o contato com a mãe narcisista, apesar de ser uma tarefa difícil, permanece como o único meio de libertar-se de sua influência tóxica

Cortar o contato com a mãe narcisista compreende uma decisão muito importante capaz de mudar radicalmente a qualidade de vida da filha de mãe narcisista. Embora soe como uma medida extrema, cortar o contato faz-se necessário nos casos de filhas de mãe narcisistas e tóxicas cujo abuso sofrido as impede de viverem a própria vida da maneira que desejam, encontrarem paz de espírito e se realizarem como mulheres adultas, autônomas e competentes. Manter o relacionamento com a mãe narcisista afeta a capacidade da filha de crescer e se desenvolver como pessoa, assim como lidar de uma vez por todas com os efeitos do trauma, tal como a ansiedade, culpa, raiva, baixa autoestima e incapacidade de sentir prazer na vida, entre outros (para uma lista completa dos efeitos do trauma psicológico e emocional, clique aqui).

Devido ao fato do transtorno de personalidade narcisista ser incurável e narcisistas nunca admitirem ter qualquer tipo de problema, o narcisismo raramente é diagnosticado, abordado de maneira responsável e com a ajuda de um profissional especializado. Portanto, quem se encontra envolvido diretamente com um/uma narcisista, como os filhos, filhas e parceiros amorosos, por exemplo, possui como única alternativa: cortar o contato definitivamente com a fonte de sua angústia. Se você está considerando esta possibilidade, mas não sabe o que esperar quando se corta contato com a mãe narcisista, é válido se preparar psicológica e emocionalmente para este grande feito, já que, como explico no meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, “narcisistas não gostam de ser rejeitados, muito menos esquecidos”.

1- Você será julgada

A nossa cultura (patriarcal, ocidental, católica) defende o respeito e dedicação cegos a pais e mães, assim como à família da qual descendemos. A sabedoria do senso comum é recheada de chavões que ilustram esta ideologia, tal como “Mãe/família é tudo”, “Mãe só tem uma” e “O sangue é mais denso que a água”. Quem ousa contestar estas “regras”, causa desconforto nos defensores do status quo, ou naqueles que organizam o seu senso de realidade ao redor de valores rígidos e absolutos que conferem um senso de controle sobre a sua vida e de outras pessoas. Tais indivíduos se sentirão não só incomodados pela sua atitude inovadora e independente, bem como pelas implicações da sua decisão. Quando você questiona tais crenças, abre o equivalente a uma “caixa de pandora”, pois inicia uma discussão – mesmo que sem intenção nenhuma – a respeito dessa veracidade e dos benefícios reais de segui-las fielmente. Como mudanças tendem a causar sentimentos de inadequação, sobretudo em pessoas inseguras e controladoras, você provavelmente será julgada de modo negativo por parentes e “amigos” com visão de mundo limitada e egoística.

2- Você terá duvidas

Como com toda decisão de peso, é perfeitamente normal sentir-se insegura após ter cortado o contato com a mãe narcisista. Lembre-se, você foi condicionada a acreditar que não é boa o suficiente para absolutamente nada e de que sem a sua mãe narcisista e a sua família disfuncional você é incapaz de conquistar algo positivo. Portanto, passará por um período de instabilidade emocional no qual se questionará se de fato tomou a decisão correta em cortar o contato com a matriarca transtornada. Este desconforto, embora difícil de tolerar, é uma reação típica de vítimas/sobreviventes de abuso pois tiveram a sua percepção corrompida ao longo de muitos anos de ataques verbais, manipulação psicológica e maltrato emocional. Nessas horas é vital relembrar-se do que motivou a sua decisão, e, se necessário, escrever uma lista contendo exemplos detalhados das inúmeras vezes em que foi torturada emocionalmente por uma mãe abusiva e negligente, assim como os efeitos físicos, psicológicos e emocionais resultantes deste relacionamento.

3- Você se sentirá acuada

A sua mãe narcisista embarcará em uma campanha difamatória contra a sua reputação assim que registrar a mensagem de que você está resoluta em cortar o contato definitivamente. Mobilizará parentes, conhecidos, amigos, ex-amigos, colegas, ex-colegas, namorado, ex-namorados, marido, ex-maridos e padres – basicamente qualquer contato disponível – como seus meninos de recados ou “macacos voadores” para persuadi-la de forma persistente e indireta a voltar atrás em sua decisão. Como nunca admite culpabilidade, pede desculpas ou perdão aberta e honestamente, usará de sua influência para denegri-la e acuá-la a se entregar ao seu controle novamente, pois perde grande parte de seu brilho sem o seu suprimento narcisista favorito. Diante de tamanha pressão, é normal que você se sinta acuada e até perseguida. Não desista. Lembre-se de que a sua saúde física, emocional e psicológica depende da sua determinação. Coragem! Com o tempo, a sua “rebeldia” se tornará história antiga ou até exemplo de sucesso pessoal.

4- Você se sentirá triste

Quando você corta o contato com a mãe narcisista dá início a um processo de luto pela mãe que nunca foi. Você finalmente registra, por meio de sua tristeza, que não tem nem nunca teve uma mãe de verdade. Essa verdade dói, e muito! Você se sentirá deprimida, sozinha e abandonada, como se fosse uma órfã. Novamente, conscientize-se de que este processo é normal e necessário para a recuperação da sua saúde física, psicológica e emocional. Embora seja um momento difícil, o período de luto não durará para sempre. Após uma média de três a seis meses sem contato com a mãe narcisista, a tendência é começar a curtir a independência e paz de espírito sem que se sinta cerceada pela culpa e vergonha. É claro que a sua vida não se tornará um mar de rosas automaticamente apenas por ter cortado contato, mas propiciará o espaço para se concentrar em si mesma e tratar os efeitos do trauma, medidas que a possibilitarão atingir um estado de congruência e contentamento pessoal até então nunca imaginado possível.

5- Você compreenderá a dimensão do problema

Sob a influência de uma mãe narcisista, a sua visão própria e de mundo se torna restrita ao seu comportamento transtornado e disfuncional. Você acredita ser seu dever de filha tolerar abuso, ser explorada e tratada como cidadã de terceira categoria, pois se vê forçada a se concentrar nos sentimentos dela, não somente por ter sido doutrinada a acreditar que são mais importantes, como também para proteger-se de sua ira. Quando se encontra finalmente sozinha e sem a sua interferência nefasta, passa a entender a extensão do prejuízo que a convivência com uma pessoa deste tipo lhe causou. Esta vítima/sobrevivente de abuso materno que possui a coragem de enfrentar a verdade narcisista, assumindo a sua realidade e cortando o contato com a origem, logo descobre a extensão do trauma que afetou a sua saúde psicológica e emocional. Quando se sente perdida, sem identidade e senso de direção, ou dominada por sentimentos antagônicos sem saber como controlá-los, percebe como grande parte da sua alma foi corrompida e o seu desenvolvimento foi retardado pelo relacionamento de dependência psicológica e emocional, forçada a manter com uma mãe egoísta e egocêntrica. Idealmente, quando este é o caso, eu recomendo a terapia como alternativa de apoio de primeira linha. Caso não disponha das condições financeiras para acessar este tipo de ajuda, é vital que invista em atitudes positivas com você mesma, como, por exemplo, buscar informação sobre o(s) seu(s) problema(s) e as maneiras saudáveis de abordá-lo(s) e resolvê-lo(s).

Cortar o contato com a mãe narcisista, apesar de ser uma tarefa difícil, permanece como o único meio de libertar-se de sua influência tóxica. Mesmo que não haja como evitar o já mencionado, tornar-se ciente dos problemas e desafios a serem enfrentados a ajudará a superar o seu desconforto emocional. Quando você entende ser normal sentir-se inadequada, insegura, triste e até impotente depois de cortar o contato com a mãe narcisista, fica mais fácil tolerar estas emoções antagônicas, já que fazem parte do repertório emocional e comportamental de filhas de mãe narcisista e demais vítimas/sobreviventes de abuso. Você não está sozinha, o que está acontecendo consigo é esperado em tais circunstâncias. Mantenha a sua cabeça erguida e fé em você mesma e no seu poder de decisão, pois é quem sabe o que é melhor para si.

A mãe narcisista e a síndrome de Peter Pan

Uma das características mais marcantes de uma mãe narcisista é não se desenvolver com o tempo. Embora seja considerada adulta o suficiente para ser mãe, exibe as mesmas crenças rígidas, incongruência emocional e comportamentos disfuncionais de quando adolescente. A imaturidade emocional e a falta de responsabilidade não são apenas características do narcisismo, como também de um “transtorno mental” chamado “síndrome de Peter Pan”. Apesar de não ser oficialmente reconhecida como tal, esta síndrome já se faz presente no vocabulário terapêutico há muitos anos, mesmo antes de ter sido popularizada pelo psicólogo Dan Kiley (1983) em seu livro The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up (A Síndrome de Peter Pan: Homens que Nunca Cresceram) e é amplamente usada para descrever o comportamento pueril e imprudente de adultos de ambos os sexos.

A mãe narcisista, assim como demais “sofredores” da síndrome de Peter Pan, recusa-se a crescer.  Apesar de não admitir, e nunca admitirá abertamente que este é o seu caso, pois na frente de plateia é o exemplo de mulher adulta e mãe experiente, comprometida e dedicada. No entanto, dentro de quatro paredes e no ambiente familiar comporta-se de forma infantil e inconsequente com os filhos e o marido/parceiro amoroso. A seguir uma lista das atitudes disfuncionais da síndrome de Peter Pan que condizem com o repertório comportamental da mãe narcisista:

Não assume responsabilidade pelos seus atos: assim como uma criança malcriada que, embora flagrada com a boca suja de chocolate, nega tê-lo comido, a mãe narcisista se isenta de toda e qualquer responsabilidade não somente de seus atos impróprios, bem como das consequências destes, mesmo quando todos têm plena ciência de que foram a principal causa do problema. Tem o hábito de mentir descadaramente e distorcer a verdade para proteger-se com tanta energia, talento artístico e falta de vergonha que acaba convencendo as pessoas. Se algo ruim acontece consigo ou com a família, “certamente” a culpa não é dela.

Não assume responsabilidades por suas obrigações de mãe: no ambiente familiar, a mãe narcisista comporta-se de forma distraída e desinteressada como se estivesse de passagem ou fosse uma visita, conhecida ou colega de quarto dos filhos e não o adulto responsável por seus cuidados. Desde os 4, 5 anos, quando já é capaz de caminhar, comunicar-se e alimentar-se sozinha, a filha de mãe narcisista aprende que não pode contar com o apoio da mãe, seja financeiro, emocional ou psicológico, ou simplesmente para ajudá-la a completar uma tarefa básica, como ajudar no dever de casa. Além disso, a mãe narcisista se aborrece profundamente quando requisitada, como se os filhos e suas necessidades fossem uma grande inconveniência ou se já fossem adultos o suficiente para viverem de modo independente. Na família regida pela tirania do ego narcisista, a regra é cada um por si e todos pela mãe narcisista.

A mãe narcisista e a síndrome de Peter Pan

A mãe narcisista, assim como demais “sofredores” da síndrome de Peter Pan, recusa-se a crescer

Não assume responsabilidades por seus próprios problemas: se tem problemas financeiros, emocionais ou de relacionamento, por exemplo, a culpa é sempre dos outros, principalmente dos filhos ou marido, como já sabemos. A mãe narcisista está sempre descontente, irritada e de mau humor não por ser incapaz de se equilibrar emocionalmente, mas porque alguém fez algo ou se comportou de determinada maneira que a magoou “profundamente”. Por ter sérios problemas de identidade e equilíbrio, precisa constantemente de atenção, apoio e consolo como uma adolescente inexperiente e perdida, agindo como a filha da própria filha e não como a sua mãe. A inversão de papeis entre filha e mãe narcisista evidencia a total incoerência da matriarca e o alto nível de toxicidade deste relacionamento disfuncional.

Ignora problemas: o escapismo é o hobby favorito da mãe narcisista, pois é deslumbrada e vive sonhando acordada com fantasias de grandiosidade. Além disso, é desinteressada e negligente com relação ao que acontece na vida dos filhos porque é egocêntrica e, portanto, valoriza apenas o que refere a si mesma. Não monitora as atividades destes ou procura saber o que estão fazendo ou como estão se sentindo por pura falta de curiosidade, entusiasmo e zelo. Quando aparecem com problemas na escola, de ordem emocional ou comportamental, por exemplo, não hesita em culpá-los por suas “falhas” de maneira cruel e abusiva, enquanto se isenta de qualquer responsabilidade em tudo relacionado ao desenvolvimento dos filhos.

Considera-se o centro do universo: dado que tudo o que concerne à mãe narcisista é mais relevante e especial, o mundo revolve ao redor de seu umbigo. É “dever” de todos entretê-la, agradá-la e apaziguá-la como se necessitasse de atenção e cuidados constantes. Como um bebê de 6 meses, tem ataques de raiva quando não consegue o que quer, ou se comporta como vítima através de muita chantagem emocional e drama. Aqueles que não priorizam os sentimentos da mãe narcisista são isolados ou punidos. Invariavelmente, os filhos crescem acreditando que é de fato a sua obrigação colocar as necessidades e vontades da mãe na frente das suas e, como consequência, tornam-se codependentes, têm dificuldade de autodefinir-se, além de não conseguirem dizer não a situações desagradáveis nem honrarem os seus limites pessoais.

É rebelde: o antagonismo da mãe narcisista é superentediante, cuja atitude de oposição assemelha-se a de um adolescente rebelde que, para confirmar a autonomia e chamar a atenção, posiciona-se de maneira contrária a dos pais. Tem o hábito de discordar do que está sendo proposto, de querer o indisponível ou manifestar gostos diferentes da maioria não por estar agindo de forma autêntica, mas por necessidade de se destacar, seja da maneira que for. Como precisa ser notada para se sentir valorizada, a sua atitude é impertinente e maçante, além de ser difícil de agradar.

Não cumpre com o que promete: lembra quando você tinha 8 anos de idade e prometia que não iria mais provocar a sua irmã só para que o seu pai parasse de castigá-la? A mãe narcisista usa a mesma tática para se esquivar de compromissos e responsabilidades, principalmente as de mãe. Concorda com tudo e promete o mundo, inclusive quando tem plena ciência de que não moverá um dedinho para que as suas promessas se materializem. Como é mentirosa e não tem escrúpulos quando o assunto é a autopreservação e o favorecimento de seus interesses, o que a mãe narcisista diz definitivamente não se escreve.

Preocupação excessiva com a aparência: a mãe narcisista é tão vaidosa, superficial e fútil como uma menina pedante e insegura de 14 anos. Enquanto possui o hábito de ignorar problemas ou descartar a importância do que acontece com os membros de sua própria família, não há nada capaz de tirar sua atenção obsessiva com a imagem. Tudo o que puder projetar uma imagem de sucesso pessoal e perfeição estética vem em primeiro lugar, como, por exemplo, seguir as tendências da moda e encontrar produtos/técnicas inovadoras para corrigir “imperfeições”. A sua atenção é facilmente atraída quando o assunto discorre sobre tais tópicos, mas logo se sente entediada com conversas que provoquem uma autorreflexão aprofundada.

Falta de autoconfiança: a mãe narcisista é viciada em aprovação e vive preocupada com que os outros pensam como uma criança que copia o estilo dos amiguinhos para sentir-se aceita pelo grupo. Como possui um grande problema de identidade e autoestima, nada a seu respeito é autêntico, por isso tudo que faz é cuidadosamente planejado para produzir uma reação positiva nos outros.  

Não tolera críticas: imagine uma menininha de 3 anos que quando alguém a chama de “feia” começa a chorar incontrolavelmente. A reação da mãe narcisista à crítica é bastante similar a este comportamento infantil. Dado que possui zero autoestima, é incrivelmente fácil magoá-la. Além disso, por ser perfeccionista, pensar em extremos e por se considerar o centro do universo, a mãe narcisista leva tudo para o nível pessoal. Assim sendo, é impraticável ter uma discussão adulta e equilibrada com uma mãe narcisista a respeito de seu comportamento sem que acabe em conflito e drama.

Referência:

Dan Kiley (1983). The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up. Ann Arbor, MI: Dodd and Mead.

O que é uma mãe abusiva?

mãe abusiva

É praticamente impossível manter um relacionamento harmonioso e funcional com uma mãe abusiva

Uma mãe abusiva é aquela que abusa da autoridade de mãe para subjugar os filhos. A mãe abusiva considera-se superior e acredita ter o direito de tratar os filhos de forma arbitrária por ser a mãe. É praticamente impossível manter um relacionamento harmonioso e funcional com uma mãe abusiva, pois não respeita nem reconhece o valor dos filhos, tal como a sua individualidade, estágio de desenvolvimento e autonomia. Se você desconfia que a sua mãe seja abusiva, seguem as características mais típicas de uma mãe abusiva para ajudá-la a identificar e desmascarar as suas atitudes impróprias:

Não respeita os limites pessoais de seus filhos: invade sua privacidade, apropria-se do que não é seu e não aceita não como resposta.

É egoísta: só pensa em si mesma e não respeita os sentimentos, interesses, opiniões e vontades dos filhos.

Agride os filhos fisicamente: sempre tem uma justificativa “plausível” para descontar a raiva por meio de violência física.

É incapaz de amar os filhos de forma genuína: o seu “amor” e afeto são inteiramente condicionais.

Agride os filhos verbalmente: possui o hábito de criticar e humilhar os filhos de maneira sórdida e cruel.

É emocionalmente negligente: ignora, invalida, banaliza e até descarta os sentimentos dos filhos.

É incongruente: comporta-se de forma inversa aos seus supostos valores e ao que afirma acreditar.

É antagonista: nunca está satisfeita. Faz questão de exibir opiniões contrárias as dos filhos, quer sempre o que não está disponível ou o inverso do que está sendo oferecido.

É manipulativa: usa de agressividade passiva, chantagem emocional, ameaças, culpa e vergonha para punir e persuadir a todos a fazerem somente o que deseja.

Domina as conversações: precisa ser o centro das atenções, não respeita a vez dos outros de falar ou expressar opiniões e tem sempre a última palavra.

Está sempre certa: nunca admite erros de atitude e comportamento e, por isso, usa os filhos como bodes expiatórios. A “verdade” é de acordo com o que acredita e não corresponde necessariamente aos fatos.

Não pede desculpas: embora comporte-se de maneira abusiva e imprópria, não assume responsabilidade por nada do que diz ou faz, tampouco pelas consequências de seus atos. É sempre vítima de uma grande injustiça.

Não confia nos próprios filhos: age de maneira estranha em relação as suas capacidades, sejam no ramo profissional ou pessoal.  Trata-os como se fossem crianças, inexperientes ou incapazes de formular um julgamento independente, adulto e centrado.

Mente descaradamente: não hesita em usar da mentira para compelir os filhos a fazerem o que deseja. Além disso, mente para se proteger e se ausentar das responsabilidades de seus atos.

Projeta as suas inseguranças e defeitos nos filhos: ataca e culpa os filhos pelas suas próprias falhas e vulnerabilidades, seja de caráter, atitude ou comportamento.

É controladora: tudo em relação à família revolve ao redor de seus interesses. Faz o que pode, direta ou indiretamente, e por meio de triangulação para restringir a autonomia e o poder de decisão dos outros envolvidos.

É hostil: tem o hábito de provocar brigas e desentendimentos através de sua atitude fria e antagonista. É muito difícil de lidar e aturar a longo prazo.

É exploradora: acredita que seja obrigação dos filhos sacrificarem-se pelo seu bem-estar. Está sempre tentando tirar proveito de uma situação.

Comporta-se de maneira infantil: exibe comportamentos equivalentes aos de uma criança como se fosse filha e não mãe dos próprios filhos.

Enquanto toda mãe narcisista é abusiva, nem toda mãe abusiva é narcisista. Se você desconfia que a sua mãe seja narcisista, mas ainda não se sente segura, verifique se os seus traços de personalidade se encaixam no perfil da mãe narcisista contido aqui. Também recomendo a leitura do meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas para um estudo longo e detalhado do narcisismo materno e seus efeitos. Para um estudo avançado sobre os temas abuso e mãe abusiva, recomendo o meu curso online “O abuso e a negligência”. Neste curso, ofereço uma análise aprofundada das características da pessoa abusiva, exploro os sinais de abuso e negligência na filha de mãe narcisista e sugiro dicas para como lidar com o abuso e a negligência.

Como fazer o luto da mãe narcisista

fazer o luto da mãe narcisista

O luto faz parte da sua cura emocional

Você descobriu que a sua mãe é narcisista por meio de pesquisas na internet, já leu todos os artigos do filhasdemaesnarcisistas.com.br e o livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e se tornou membro do grupo Apoio para Filhas de Mães Narcisistas, mas ainda se sente desolada em sua dor. Embora o seu intelecto compreenda perfeitamente que a sua mãe não é e nunca foi uma mãe de verdade, emocionalmente está sendo difícil lidar com esta perda. Como entender, tanto intelectual como emocionalmente, que a conexão biológica que você possui com a mulher que lhe deu à luz nunca se tornará afetiva e harmoniosa de fato? De que forma você poderá ajudar-se a aceitar esta verdade para que consiga viver uma vida de realizações e, principalmente, sem culpa?

Descobrir que a mãe é narcisista, ou seja, que você nunca será capaz de ser amada e respeitada pela própria mãe, equivale a uma imensa perda. Ter de se desfazer da fantasia do relacionamento afetivo com “a mãe bondosa e amorosa que ama os filhos igual e incondicionalmente” é doloroso. A filha de mãe narcisista que tem a coragem de enfrentar o que me refiro como “a verdade narcisista” sofre muito. Finalmente aceitar que o relacionamento com a própria mãe é uma farsa e que foi mantida estes anos todos não pelo amor e carinho associados com os relacionamentos normais entre mães e filhas, mas por intermédio de abuso, atitudes intolerantes e chantagem emocional  requer estamina. Devido à relevância deste evento, torna-se vital para a filha de mãe narcisista dedicar a mesma atenção ao luto da perda da mãe que nunca foi como se estivesse perdendo uma mãe de verdade. Para ajudá-la a lidar com este momento tão delicado e especial em sua vida, seguem seis dicas de como fazer o luto da mãe narcisista:

Processe a perda da mãe narcisista por completo

Vivenciar o luto da mãe narcisista não ocorre da noite para o dia, por isso, dê um tempo a si mesma para processar esta perda por completo. Segundo Elisabeth Kübler-Ross (1998), psiquiatra norte-americana e criadora do modelo dos cinco estágios do luto (negação e isolamento, raiva, negociação, depressão e aceitação), só conseguimos superar a dor de uma perda quando aprendemos a lidar com os sentimentos provocados por ela. Reprimir a sua angústia como se não tivesse propósito não fará com que ela simplesmente desapareça. O luto faz parte da sua cura emocional, portanto, sem luto não haverá bem-estar emocional. Você pode até adiar o momento de processar esta perda, mas nunca será capaz de evitar o processo por inteiro. No dia em que você menos esperar, aqueles sentimentos antagônicos que você se esforçou tanto em reprimir tomarão conta de você, desestabilizando-a por completo independentemente de onde e com quem você esteja. Abra o seu coração para a sua dor e lhe dê voz, seja conversando com uma amiga ou terapeuta empática, paciente e compreensiva; ou através da escrita, registrando o que você vê, pensa e sente. O luto tende a ser considerado normal na comunidade terapêutica quando não excede o período de um ano.

Permita-se sentir tristeza e raiva

Todas as nossas emoções têm seus papéis e implicações. A tristeza e a raiva são tão importantes para o nosso equilíbrio emocional quando a alegria e a felicidade. Eu não posso corrigir algo se não sou capaz de detectar o erro. No processo do luto, a tristeza e a raiva são emoções valiosas que a ajudam a processar a sua perda não somente no nível emocional, como também nos níveis psicológico e espiritual. Filhas de mãe narcisistas que não se permitem chorar e ficarem brabas quando fazem o luto da mãe narcisista tem mais dificuldades de se livrarem da culpa. Eu sei que uma cliente ainda não fez por completo o luto da mãe narcisista quando ainda se sente culpada por tudo de errado que acontece no seu relacionamento com a mãe. Se você não se dá tempo suficiente nem se permite realmente entender através do seu sofrimento que a sua mãe nunca teve nem terá uma conexão afetiva genuína com você, você se sentirá eternamente culpada toda a vez que o amor dela não se materializar. Ou você aceita que a sua mãe é narcisista e, portanto, é incapaz de amá-la, ou passará o resto da sua vida se martirizando por uma deficiência que não é sua.

Reveja crenças absolutas

Se você ainda acredita nas regras “Família é tudo” e “Toda mãe ama seus filhos”, o seu luto nunca será completo. Crenças inflexíveis e irrealistas deste tipo a mantêm presa à fantasia de que a sua mãe narcisista é uma mãe de verdade, que algum dia o seu relacionamento com ela melhorará e que você é incapaz de ser feliz sem a influência de uma mãe abusiva e família disfuncional. Tais ideias simplistas somente favorecem a culpa que você carrega. Família não é tudo, pois o amor independe de laço sanguíneo. Sobretudo, uma mãe narcisista e abusiva incapaz de amar, inclusive a si mesma. Se você está cansada de viver uma ilusão e deseja de fato fazer o luto da mãe narcisista por completo está na hora de reestruturar as suas crenças. Seja honesta consigo mesma, reconheça a complexidade da sua situação e abra o seu coração para a verdade narcisista.

Valorize os relacionamentos fora do ambiente familiar

Sentir-se confortável em expressar a sua tristeza e descontentamento com os membros de uma família disfuncional ou esperar que entendam o seu sofrimento tende a revelar-se como uma grande perda de tempo. Se a sua mãe é narcisista a sua família é disfuncional, ou seja, não funciona de maneira a contribuir com o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Qualquer tentativa sua de curar as suas feridas e evoluir emocionalmente provavelmente será rejeitada por eles, pois tendem a ser tão imaturos emocionalmente quanto a mãe ou a esposa/ex-mulher. Para que não se sinta envergonhada e ainda mais culpada por estar tentando processar esta perda de forma honesta e aberta, quando necessitar de companhia para compartilhar a sua dor recorra a amigos compreensivos e empáticos que aceitam a sua situação sem tentar “resolvê-la”, mas que toleram e respeitam o seu desconforto emocional sem insistir em diminui-lo a todos os custos.

Faça terapia

Fazer o luto da mãe narcisista é uma tarefa difícil. Filhas de mães narcisista costumam sentir-se imensamente solitárias e perdidas em sua dor, a ponto de acreditarem que não têm a quem recorrer para lidar com o próprio sofrimento de forma produtiva. Ninguém nos prepara para o luto ou para reconhecer a irracionalidade dos próprios pais. “Falar mal da mãe”, conversar a respeito de eventos traumáticos ou perdas emocionais ocorridas no ambiente familiar ainda é um assunto tabu. A tendência generalizada é evitar o tema, reagir de forma estoica e normalizar o sofrimento do outro com chavões do senso comum, atitudes e mensagens positivas demasiado rígidas que só tendem a invalidar a importância do luto e os sentimentos antagônicos que os acompanha. Eu recomendo muitíssimo a terapia para filhas de mãe narcisistas que precisam de apoio emocional para enfrentar os desafios desta etapa em suas jornadas. Uma terapeuta com experiência no tratamento do trauma, mães tóxicas e/ou relacionamentos disfuncionais pode auxiliá-la neste momento tão especial, fazendo com que se sinta aceita e em paz consigo mesma.

Aprenda a viver com a perda

Ninguém vem ao mundo como filha de mãe narcisista por opção, com certeza não foi uma escolha sua. Embora não seja capaz de apontar a mãe ideal, tenta lidar com a destruição do que para você sempre foi um grande sonho. Quando, enfim, você conseguir aceitar esta perda, encontre um lugar em seu coração para este vazio. Nas situações em que se sentir um pouquinho triste ou inadequada por não ter uma mãe verdadeira, permita-se acessá-lo, já que este buraquinho também faz parte de você. Conforte-se por ter tido a coragem de viver uma vida autêntica e celebre a pessoa que você é, inteira, afinal todos somos imperfeitos e vulneráveis.

Se necessita de ajuda para registrar a perda da “mãe” no sentido afetivo da palavra, recomendo o meu curso online, “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá como reconectar-se com o corpo e fazer o luto da mãe narcisista de forma saudável.

Referencia:

Kübler-Ross, E. (1998). Sobre a morte e o morrer (8ª Ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes.

Vivendo de aparências: a mãe de Facebook

A mãe de Facebook

A mãe narcisista usa o Facebook para se autopromover

Para quem vive de aparências, o Facebook é uma excelente ferramenta de propaganda. Em apenas um clique, é possível divulgar uma imagem idealizada de perfeição e sucesso pessoal. A mãe narcisista, mesmo que não entenda muito de informática, sabe muito bem como usar os meios de comunicação e socialização da internet para o autobenefício. Já que precisa alimentar a imagem de mãe perfeita e dedicada perante os outros, usa e abusa das redes sociais para este propósito. Em sua eterna campanha de autoengrandecimento, tem o hábito de recorrer ao ambiente virtual para promover as suas supostas qualidades pessoais, assim como alardear a sua “dedicação” maternal. Para quem não conhece ou se recusa a enxergar a verdadeira face narcisista por detrás de todo este teatro, a sua mãe narcisista, ou aquela que aparece nos sites de relacionamento, é o retrato – literalmente –  de figura materna atenciosa e devota aos filhos. A “mãe de Facebook” é aquela mãe narcisista/de mentira que usa a plataforma mais popular das redes sociais como veículo de manipulação das opiniões de parentes e amigos.

A imagem que a mãe narcisista se esmera tanto em projetar no Facebook é inversa da real, como em um espelho. Enquanto a mãe de Facebook é afetuosa e não poupa elogios às conquistas dos filhos, a mãe narcisista, entre quatro paredes e longe de plateia, é fria, rígida e tende a ignorar, rejeitar ou até invalidar tudo de bom que eles alcançam. A discrepância é tão grande que faz com que a filha se sinta invadida por uma mistura de sentimentos antagônicos tal como a raiva quando se depara com tamanha aberração. É exasperante ter de presenciar tamanha falsidade, seja direta ou indiretamente. Minhas clientes costumam relatar o efeito emocional massacrante de serem incluídas, mesmo sem desejo, no universo de mentiras das mães narcisistas. Inclusive quando conseguem cortar o contato definitivamente ou reduzir a influência que têm em suas vidas, sentem-se profundamente impotentes em relação ao seu comportamento transtornado, incoerente e desonesto que, infelizmente, é perpetuado livremente pela internet.

Vale relembrar que narcisista odeia perder o controle ou ser ignorado pelos outros. Se você está tentando diminuir ou cessar de vez o contato com a sua mãe narcisista para resgatar o controle de sua própria vida, a probabilidade é de que esta redobre o investimento de tempo e energia a fim de persuadir a todos de que está sendo tratada injustamente por uma filha egoísta e insensível para que você se sinta culpada e envergonhada dessa decisão e volte correndo para o papel de filha submissa e serviçal de seu ego gigantesco. Quanto maior for o seu comprometimento com a sua liberdade pessoal, maior será o esforço de sua mãe narcisista para reaver o controle sobre você. A personagem “mãe de Facebook” entra em cena precisamente nos momentos em que a mãe narcisista se sente vulnerável, intimidada e fragilizada pela atitude adulta, autônoma e autoconfiante da filha. Apesar de causar desgosto e raiva, a aparição da mãe de Facebook marca uma mudança dramaticamente positiva na dinâmica do relacionamento da mãe narcisista com a filha, em que a força e determinação da segunda começam a superar o poder das artimanhas e a pressuposta autoridade e superioridade da primeira.

Se você tem Facebook e ainda não bloqueou a sua mãe narcisista, recomendo muito fazê-lo. Se você a bloqueou, mas continua a receber notícias de suas publicações malucas por intermédio de parentes e amigos inconvenientes, está na hora de reforçar os seus limites pessoais. Deixe bem claro a todos, de forma polida e educada, que não tem interesse nenhum em saber o que a sua mãe narcisista anda comentando a seu respeito. Somente porque alguém tem intimidade com você, não significa que possa dizer e fazer o que quiser independentemente do impacto que seus atos tenham em você. Há várias maneiras adultas e delicadas de se dizer não a alguém, como “Tio/tia/vó/vô/primo/prima…, eu gosto muito de você e gostaria muito de bater um papo gostoso, mas sem envolver a minha mãe de forma nenhuma, direta ou indiretamente. Se você insistir, vou me sentir obrigada a desligar o telefone, o que eu sinceramente não quero fazer. Vamos mudar de assunto?” Não tolere desrespeito. Quem se recusar a respeitar o seu pedido pode ficar falando sozinho, pois você tem todo o direito de se recusar a ouvir a ladainha de quem for. Com o tempo, a sua persistência e autoconfiança comunicarão a mensagem de que não é mais uma criança indefesa e manipulável e que suas vontades também devem ser respeitadas.

5 atitudes típicas de pais facilitadores do narcisismo materno

Assim como “por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”, por trás de uma mãe narcisista há sempre um pai facilitador do narcisismo materno. Mesmo que o relacionamento entre os pais já tenha acabado, a influência paterna representa um elemento essencial para a perpetuação do abuso narcisista que a mãe inflige ou infligiu aos filhos. Neste caso, o pai é considerado como “facilitador”, pois a dinâmica disfuncional de seu relacionamento com a mulher o impede de proteger os filhos contra essa influência nefasta. Isso se deve ao fato de que para criar um falso senso de harmonia com a esposa, o pai deve submeter-se completamente ao seu domínio. Como não corresponder às exigências do ego gigantesco narcisista tem grande potencial de colocar o seu relacionamento amoroso em risco, o pai acaba se tornando um agente coadjuvante do narcisismo materno, propiciando, ainda que indiretamente, que as vontades egoístas e a personalidade transtornada da esposa reinem absolutas no ambiente familiar.

Para ajudá-la a validar o seu sofrimento e identificar as maneiras com as quais o seu pai favorece ou favoreceu o narcisismo de sua mãe, seguem 5 atitudes típicas de pais facilitadores do narcisismo materno:

1- Venera a mãe narcisista

Ter um relacionamento com um narcisista só é possível por meio da anulação total da autonomia e individualidade, já que se equivale à pratica de um culto religioso. O marido aprende já no início do relacionamento que deve adorar e adular a parceira constantemente. É seu papel reverenciar as suas infinitas “qualidades” e relembrar a todos de seus “talentos” e “capacidades”.  A mãe narcisista, de acordo com a opinião do pai é, entre outros, inteligente, charmosa e merecedora de tratamento especial. Ao permitir-se convencer-se da suposta superioridade de sua parceira, o pai torna-se um dos aliados mais poderosos da matriarca ajudando-a a manipular a todos a acreditarem que é de fato seu dever servi-la.

2- Tem medo da mãe narcisista

pais facilitadores do narcisismo materno

A influência paterna representa um elemento essencial para a perpetuação do abuso narcisista

O pai facilitador está sempre pisando em ovos ao redor da mãe narcisista. Assim como a filha, vive com um receio profundo de contrariar a narcisista, pois o seu humor se altera radicalmente e com grande facilidade. Evita reconhecer as falhas e comportamentos impróprios da esposa para não desestabilizá-la emocionalmente, pois conhece o poder destruidor de sua ira. Além disso, recusa-se a reconhecer a existência de problemas familiares a fim de se autopreservar, já que tem plena ciência de onde se originam e das duras consequências de admiti-los abertamente.

3- Toma o lado da mãe narcisista

O pai facilitador – como todo acessório narcisista – é usado com sucesso no processo de triangulação. A mãe narcisista faz uso da chantagem emocional para manipular o marido a servir somente a seus interesses e costuma unir-se com ele contra o seu inimigo “em comum”, ou seja, os filhos que se opõem a segui-la. Por estar sempre carente da atenção e afeto da esposa, o pai facilitador se entrega ao charme narcisista para se sentir aceito e “amado” por ela, alimentando, como resultado, a desunião e a falta de funcionalidade familiar.

4-  Defende a mãe narcisista

Embora instintivamente saiba que o comportamento da esposa não é correto, o pai facilitador sempre tem uma justificativa para essa atitude transtornada. Sua preocupação central consiste não só em manter o relacionamento, bem como um falso senso de harmonia familiar e, por isso, protege a integridade da mãe narcisista colocando a culpa nos filhos. Como regra geral, se a mãe está de mau humor, irritada ou insatisfeita é porque os filhos fizeram algo de errado.

5- Minimiza o impacto negativo da mãe narcisista

O pai facilitador possui o hábito de se recusar a entender a gravidade da situação familiar até que algo muito ruim aconteça. Tende a normalizar o efeito nocivo da atitude narcisista da mãe no desenvolvimento e bem-estar psicológico e emocional de seus filhos com chavões do senso comum do tipo “ser mãe não é fácil”, diminuindo o valor de sua própria autoridade e aumentando o sentimento de impotência de todos. Acredita que quanto maior a sua capacidade de acobertar a irracionalidade da esposa com panos quentes, melhor será a sua chance de reduzir conflitos e garantir um mínimo de coesão entre os membros de sua família disfuncional.

Só há uma possibilidade do relacionamento entre o seu pai e a sua mãe narcisista não acabar em divórcio: o marido deve tornar-se escravo do ego gigantesco da esposa, funcionando como pai facilitador do narcisismo materno. Se o seu pai tem um problema de baixa autoestima – fato muito comum a parceiros e parceiras de narcisistas – há uma probabilidade muito grande de acreditar que não é digno de ser amado. Como não consegue amar-se incondicionalmente, nutre a crença negativa de que “para ter o direito” de ser amado pela mulher narcisista deve sacrificar-se de alguma forma. Essa dinâmica precede a sua existência de filha de mãe narcisista e pai facilitador, portanto, não cabe a você tentar resolver o problema deles, mas é vital que se concentre em seus próprios objetivos renunciando participar desta constelação narcisista e distanciando-se, definitivamente, dessa influência tóxica.

2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista

Como se não bastasse ser vítima de abuso, a filha de mãe narcisista também tem de lidar com a indiferença daqueles que se recusam a reconhecer a legitimidade de seu sofrimento. Tentar fazer com que os outros entendam a gravidade de sua situação ou a intensidade do impacto que o comportamento irracional da mãe narcisista exerce em você e na sua família revela-se, muitas vezes, algo infrutífero. São raras as situações em que se sentem de fato compreendidas, pois a tendência quase universal é de que suas experiências sejam completamente invalidadas assim que são compartilhadas com uma ou demais pessoas.

Essa descrença não se deve somente à falta de conhecimento acerca dos transtornos de personalidade, mães e pais tóxicos e/ou famílias disfuncionais, como também corresponde a uma atitude intolerante regida por crenças rígidas, incoerentes, que falham significativamente em explicar o comportamento humano de maneira holística, realista e objetiva. A seguir 2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista para que você se proteja contra a ignorância alheia:

1- Coisas ruins acontecem a pessoas más

2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista

O sofrimento da filha de mãe narcisista é raramente validado

A crença de que o mundo é justo, ou seja, de que coisas ruins só acontecem a pessoas más, é uma das mais simplistas, errôneas e infantis da cultura ocidental. A nossa inclinação natural é de acreditarmos cegamente na suposta bondade universal de todos os seres humanos, sobretudo quando têm trabalho, um nível educacional razoável e parecem cumprir fielmente com a lei. Surpreendemo-nos profundamente quando um vizinho de alto nível social é escoltado para dentro de um carro de polícia por ter tentado matar a mulher a pancadas na noite anterior. Mesmo em face da complexidade e irracionalidade humana, ainda tentamos encontrar justificativas para comportamentos impróprios a fim de que se encaixem na nossa visão fixa de realidade subjetiva (“este tipo de coisa não acontece no meu bairro”). Concluímos, então, que a suposta vítima deve ter contribuído, de alguma forma, para o seu infeliz destino; se esta interpretação se mostra improvável, passamos a questionar ou normalizar a extensão de seu sofrimento.

Da mesma forma, indagamos, “Como uma mãe que trabalha, paga as suas contas em dia e exibe tão boa aparência é capaz de tratar a filha de forma tão brutal?”. Se a filha de mãe narcisista é maltratada pela matriarca é porque fez algo para merecer tal tratamento ou está dramatizando a situação. Ou um ou outro para se encaixar perfeitamente na minha visão de mundo e não abalar os fundamentos da harmonia que me esforço tanto em manter entre a minha perspectiva e experiência. Alimentar a ilusão de que a vida é justa e recompensa o bom comportamento me permite me sentir seguro e bem a respeito de mim mesmo, além de dar significado a minha existência (“nada de ruim acontece/acontecerá comigo, pois sou uma boa pessoa”).

2- Os seres humanos são mestres de seus próprios destinos

Outra crença falsa que promove uma ideia utópica de que somos capazes de exercer total controle sobre nossas vidas. Além disso, ajuda a disseminar uma noção rígida e desumana de perfeição e equilíbrio em todos os contextos, excluindo vulnerabilidades como se não fizessem parte da nossa constituição ou contribuíssem para definir a nossa história.  Como resultado, vítimas de injustiça, assim como sofredores de abuso e trauma são rapidamente esquecidos, considerados incompetentes, fracos e/ou merecedores de seu destino, visto que, supostamente, falharam em influenciar os eventos de sua vida de maneira positiva.

A filha de mãe narcisista que dá voz a seu sofrimento tende a ser repreendida, excluída ou julgada negativamente por ser um inconveniente lembrete da fragilidade e maldade humana. Aceitar a realidade de milhões de crianças, homens e mulheres ao redor do mundo que são ou foram abusados psicológica, emocional e/ou fisicamente por sua própria mãe ou pai corrompe a nossa imagem e desestabiliza o nosso senso de falso equilíbrio e o controle sobre nós mesmos.

Questionar as crenças que suportam a ideia de que vivemos em um mundo justo e somos inerentemente bons e infalíveis significa aceitar as nossas vulnerabilidades e a incerteza contida na existência humana. Tal processo requer um nível de amor-próprio, honestidade e maturidade altos para se materializar. Na próxima vez em que alguém duvidar de seu sofrimento ou tentar invalidar a sua história, lembre-se disso e, ao invés de se sentir diminuída, cumprimente-se por ter a coragem e a força interior de enfrentar a sua angústia e seus medos, face a face.

O que é uma mãe tóxica?

O termo “pais tóxicos” foi popularizado pela terapeuta norte-americana Susan Forward em seu best-seller internacional Toxic Parents, lançado no final dos anos oitenta.  Desde a sua publicação, o termo “toxic parent” ou “pai/mãe tóxico” tem sido amplamente usado como jargão psicoterápico para ilustrar um tipo de pai ou mãe deficiente e cujo comportamento exerce um impacto negativo significativo no desenvolvimento da criança. Como se fosse exposta a uma fonte insidiosa de veneno por um período prolongado, após anos sob a influência direta de um pai ou mãe tóxica, o filho ou filha acaba desenvolvendo problemas psicológicos e emocionais sérios como a depressão crônica, a falta de autoestima e amor-próprio, a dificuldade de estabelecer e manter relacionamentos e limites pessoais saudáveis e de se realizar no campo profissional, assim como transtornos de ansiedade, tal como o de estresse pós-traumático.

A seguir uma lista de exemplos de mães tóxicas para facilitar o seu entendimento sobre o termo:

Mãe inadequada/negligente: concentra-se exclusivamente em seus próprios problemas e faz os filhos responsáveis por seu bem-estar, tratando-os como adultos e não como crianças. O relacionamento entre mãe e filho/filha é marcado pela inversão de papéis em que o segundo age como pai ou mãe da primeira. Os sentimentos e carências dos filhos são ignorados, além dos interesses pessoais destes serem sistematicamente descartados.

Mãe controladora: usa de chantagem emocional para manipular o(a) filho/filha através da culpa e vergonha para conseguir o que quer em todas as situações. Além disso, faz uso de seu título de mãe/adulto responsável para justificar a sua atitude dominadora e sua obsessão em fazer com que todos sigam suas ordens, recomendações, “conselhos” ou “ajuda”, mesmo quando não requisitados ou incoerentes. O relacionamento é marcado pela desigualdade e invalidação da autonomia e dos limites pessoais dos filhos.

Mãe alcoólatra e/ou dependente de drogas: seu comportamento é errático e o humor incontrolável. Não dispõe de tempo ou energia para cuidar das necessidades básicas dos filhos e cumprir com os deveres de mãe e adulto responsável por seu bem-estar, seja físico ou psicológico/emocional. O relacionamento é marcado pela codependência, insegurança e períodos de altos e baixos.

Mãe que abusa do(a) filho/filha verbalmente: usa de palavras duras, criticas destrutivas, sarcasmo e agressividade passiva para desmoralizar, invalidar, ridicularizar e rejeitar os filhos para tirar-lhes o senso de identidade, autonomia, individualidade e autoconfiança. O relacionamento é marcado pela desarmonia, por discussões e desentendimentos constantes.

Mãe que abusa do(a) filho/filha fisicamente: é incapaz de controlar a sua frustação, descontentamento pessoal e raiva descontando-os com toda a força nos filhos por meio de agressão física, sempre os culpa por seus humores e atitude descontrolada. O relacionamento, portanto, é marcado pela instabilidade e governado pelo medo e ansiedade.

Mãe que abusa do(a) filho/filha sexualmente: é incapaz de controlar seus impulsos físicos e usa da confiança e pureza destes para servir aos seus interesses egoístas e desejos aberrantes. O relacionamento é marcado pelo medo, pela culpa e vergonha. A criança tem sua autoconfiança, limites pessoais e senso de autoimagem destruídos por esta relação incestuosa.

Embora nem todas as mães tóxicas sejam narcisistas, toda a mãe narcisista é tóxica, podendo exibir mais do que um ou até todos os comportamentos listados. Mesmo que você não tenha certeza de que sua mãe possua um transtorno de personalidade como o narcisismo, se vocês têm problemas sérios de relacionamento, a probabilidade de que ela seja, no mínimo, tóxica é muito grande. Para que você supere o legado deste relacionamento e restaure a sua saúde mental, eu recomendo um tratamento psicoterápico.

Referência:

Forward, S. (1989). Toxic Parents. New York, NY: Bantam Books.

O que é uma mãe tóxica

A mãe tóxica exerce um impacto negativo no desenvolvimento da criança

20 comportamentos de quem pratica o abuso psicológico/emocional

20 comportamentos de quem pratica o abuso psicológico/emocional

Aprenda como identificar atitudes abusivas

Por ser tão nocivo quanto o abuso de ordem física (ex.: abuso sexual, agressão física, violência doméstica), é extremamente importante que filhas de mães narcisistas entendam como o abuso psicológico/emocional ocorre na prática. Embora seja frequentemente ignorado e incompreendido devido a sua natureza abstrata e insidiosa, o abuso do tipo psicológico/emocional deixa marcas profundas em suas vítimas. É comum os sofredores deste tipo de abuso desenvolverem problemas crônicos de ansiedade, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), assim como a depressão e a baixa autoestima. O primeiro passo para se proteger contra o abuso psicológico/emocional é saber reconhecê-lo no dia-a-dia, pois, no contexto do narcisismo, ocorre – em sua esmagadora maioria – dentro de quatro paredes, no ambiente familiar e longe de plateia.  Para que você aprenda como identificar atitudes abusivas e reforce o seu poder de julgamento, seguem 20 comportamentos de quem pratica o abuso psicológico/emocional:

1- Usa de palavras duras e recriminadoras para fazer com que o outro se sinta pequeno, inadequado e/ou rejeitado enquanto se sente superior e de bem consigo mesmo.

2- Faz chantagem emocional para manipular os outros provocando-lhes vergonha e culpa para conseguir o que quer – sempre.

3- Recusa-se a reconhecer os limites pessoais dos outros para fazer somente o que favorece a si mesmo.

4- Embora seja afável na frente de outras pessoas para passar uma imagem de controle e maturidade, dentro de quatro paredes toma atitudes extremas, infantis e abusivas.

5- Faz promessas que nunca se tornam realidade – consciente de que não tem intenção alguma de cumpri-las – somente para isentar-se temporariamente de certas responsabilidades.

6- Invalida e/ou ignora sentimentos antagônicos nas outras pessoas quando resultantes de seus atos para que os erros e a falta de caráter não sejam reconhecidos.

7- Ignora a individualidade das outras pessoas e impõe vontades, gostos e preferências independente do impacto negativo causado nas autoestimas destas, para que somente seus interesses sejam atendidos.

8- Desconta as frustações pessoais nos outros e os culpa por suas falhas e, desse modo, exime-se de qualquer responsabilidade.

9- Usa da bondade, inocência e amor incondicional daqueles que dependem de si ou com quem tenha um relacionamento afetivo para manipulá-los a fazer somente o que beneficia a si próprio.

10- Trivializa a natureza dos comportamentos abusivos, como ataques verbais e o uso indiscriminado de mentiras como se fossem aceitáveis, sem importância ou inconsequentes.

11- Faz com que os outros se sintam isolados afetivamente, ignorando-lhes os estados psicológicos e emocionais para que se concentrem apenas em suas carências individuais.

12- Não reconhece a validade das ideias e opiniões dos outros – mesmo quando tem plena ciência de serem de fato úteis – para que somente seus pensamentos sejam considerados relevantes.

13- Mascara a frustração, a inveja ou o descontentamento pessoal por meio do sarcasmo, comentários afetados ou de duplo significado para atacar os outros de maneira não evidente, desestabilizando-os por completo para sentir-se superior e no controle (agressividade passiva e bullying).

14- Tem um ataque de nervos ou alimenta uma ira profunda quando as suas vontades não são atendidas para que todos se vejam forçados a fazer somente o que deseja.

15- Mente descaradamente e nega o que diz para que a sua atitude nunca seja julgada, mantendo uma posição privilegiada e evitando ser questionada.

16-  Usa títulos ou denominações de laços afetivo ou sanguíneo (pai, mãe, marido, esposa, filho, filha, namorado(a), chefe, parente, amigo(a), professor(a), padre etc.)  para justificar comportamentos abusivos, como se isso conferisse ao indivíduo o livre direito de agir de forma imprópria.

17- Não concede ao outro a oportunidade de expressar sentimentos ou pensamentos para se manter no centro das atenções.

18- Apropria-se de bens materiais e/ou financeiros sem consultar ou considerar as opiniões dos diretamente envolvidos para exercer controle absoluto sobre estes.

19- Trata o outro como uma extensão de si mesmo e critica ou rejeita tudo que confere a esta pessoa um senso de identidade própria, autonomia e individualidade para que esta se sinta eternamente inferior, subjugada e dependente.

20- Recusa-se a conversar com os outros e mantém-se em silêncio quando suas vontades não são atendidas para fazê-los se sentirem impotentes e compeli-los a se conformarem com os seus desejos e suas expectativas para serem aceitos.

Como filha de mãe narcisista, você cresceu e se desenvolveu em um ambiente familiar disfuncional e turbulento, característico dos contextos de abuso psicológico/emocional. Enfrentar esta verdade demanda coragem, reconhecê-la requer ação. A melhor maneira de lidar com o abuso, seja da natureza que for, é reduzir ou cortar definitivamente o contato com quem o pratica, ou seja, a sua mãe narcisista – a principal fonte supridora de estresse e descontentamento em sua vida. Para ajudá-la a libertar-se desta influência, eu recomendo o meu livro, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas. Para um estudo avançado sobre os temas abuso e mãe abusiva, recomendo o meu curso online, “O abuso e a negligência”. Neste curso, ofereço uma análise aprofundada das características da pessoa abusiva, exploro os sinais de abuso e negligência na filha de mãe narcisista e sugiro dicas para como lidar com o abuso e a negligência.

5 táticas narcisistas para manter a ilusão da família perfeita

Para que a mãe narcisista passe a imagem de perfeição em todos os setores de sua vida, faz-se vital que brilhe também no seu papel de mãe. Vale destacar o termo “papel”, visto que a maternidade, para a narcisista, não passa de uma encenação desprovida de qualquer significado afetivo. Ainda que a união e a funcionalidade do sistema familiar estejam longe de refletirem a verdadeira prioridade da matriarca narcisista, esta nunca se abstém de dedicar grande energia em criar e manter a ilusão da família perfeita, para que tudo, absolutamente tudo referente a sua pessoa exale uma aura de excelência irrefutável.

As filhas de mães narcisistas, assim como qualquer membro da constelação narcisista, comumente demonstram-se cientes, mesmo que não abertamente, de que fazem parte de um sistema familiar caótico, incoerente e disfuncional. Também sabem, por intuição e desde pequenas que, em vez de sentirem-se incluídas e valorizadas por este suposto núcleo, sentem-se eternamente rejeitadas pela total falta de afeto de quem supostamente as ama de maneira genuína e incondicional. Se você está cansada de funcionar como atriz coadjuvante em mais uma pantomina narcisista, mas ainda se sente receosa de confiar em sua intuição, aqui estão as dicas que você estava esperando.

Seguem 5 táticas narcisistas para manter a ilusão da família perfeita:

1- Segredos

Embora o convívio com a narcisista revele-se extremamente difícil e seja marcado por desentendimentos, os únicos que têm conhecimento do que realmente ocorre debaixo do teto narcisista são os diretamente envolvidos. Diante de outras pessoas, no entanto, a mãe narcisista representa o retrato ideal de mãe amável e dedicada, pois nada pode danificar sua imagem de sucesso pessoal. Tudo que considera abaixo de seu patamar altíssimo de qualidade, como histórias complicadas de laços familiares (filhos de relacionamentos passados com os quais não tem intimidade alguma; parentes com doença mental, alcoólatras ou considerados “bastardos” (não reconhecidos); infidelidade; escândalos de ordem financeira, como problemas de herança ou monopólio indevido/roubo de dinheiro etc.) são cuidadosamente protegidas da curiosidade alheia. Informação que só sirva para “sujar o seu nome”, segundo a visão da mãe narcisista, não é compartilhada nem com quem convive diretamente, como filhos e parceiro amoroso.

2- Negligência emocional

Para que a mãe narcisista mantenha a falsa pretensa de que sua família é “perfeitamente normal”, qualquer sentimento que não a favoreça ou complemente esta ideia é ignorado ou invalidado por completo. Sentimentos antagônicos intensos como a ansiedade, insatisfação e a raiva, por exemplo, tendem a ser desconsiderados ou minimizados, pois se reconhecidos comprometem a validade da autoridade e soberania narcisista. Por meio de chavões do tipo “Homem não chora”, “Não adianta chorar”, “Eu só quero o melhor pra você” ou “É feio ter raiva da própria mãe”, a mãe narcisista move o foco do sofrimento dos filhos para longe de si mesma, distanciando-se da raiz de seus problemas. Quanto menor seu envolvimento com o estado emocional de quem a rodeia, menor sua responsabilidade para com este. Melhor se torna o quadro da família exemplar, aquele formado exclusivamente por membros “felizes” e “realizados” e sem qualquer “anormalidade” (tal como transtornos de personalidade ou outra doença mental como a depressão ou transtornos de ansiedade, dificuldade de aprendizado ou concentração etc.).

5 táticas narcisistas para manter a ilusão da família perfeita

A mãe narcisista faz o que pode para manter a ilusão da família perfeita

3- Negação de problemas

Apesar dos filhos sentirem-se rejeitados, sofrerem com a negligência afetiva e emocional ou acabem por apresentar problemas de desenvolvimento como resultado direto de sua nefasta influência, a mãe narcisista nunca admite nenhuma responsabilidade por qualquer tipo de problema relacionado a sua família. Se algo acontece de errado, a culpa com certeza não é dela. Sempre há uma explicação coerente e plausível para justificar a “incapacidade” de seus familiares. Evidentemente a justificativa é orquestrada para eximi-la – sempre – de qualquer dano causado a outrem. Se os filhos sofrem com a depressão ou ansiedade, desenvolvem vícios ou não conseguem se realizar pessoal, acadêmica ou profissionalmente é porque são de fato “fracos”. Quando se sente ameaçada, faz livre uso de lugares-comuns para ilustrar seus “comportamentos impróprios”, tal como “Eles nunca me ouvem” ou “Adolescente é difícil”, assim como pérolas do tipo “Eu nunca me comportei assim com meus pais”.  A mensagem é invariavelmente a mesma: “Tô fora!”.

4-Triangulação

Caso um drama familiar assuma proporções negativas que excedam a capacidade de acobertamento da mãe narcisista, a triangulação torna-se sua arma de contra-ataque. Para continuar a emanar a aparência de mãe perfeita da família perfeita, a mãe narcisista coloca uns membros contra os outros, mas a favor dela. A triangulação consiste, portanto, em uma tática astuta e sofisticada que usa da carência afetiva de filhos ou parceiros amorosos contra si mesmos para que, como já sabemos, a narcisista preserve seu status privilegiado. Nesta batalha contra o inimigo da “harmonia” familiar narcisista, vale tudo. Seja a combinação que for, mãe narcisista e filha contra filho, mãe narcisista e marido contra filhos ou mãe narcisista e filhos contra marido, a mãe narcisista se mantém vencedora enquanto aquele que ousa ameaçar a glória de seu reinado, pela razão que for, é excluído do ciclo de ouro materno.

5- Aparências

O teatro narcisista desconhece limites. Com a finalidade de destacar o mérito de sua posição e difundir seu suposto sucesso no âmbito familiar, a mãe narcisista usa seus dotes artísticos para veicular a figura de ícone maternal. Quando em público é inusitadamente afável e atenta às necessidades dos filhos e até “se emociona” em momentos de celebração de suas conquistas. Esta atitude, obviamente, é programada não só para causar um efeito marcante nos espectadores, bem como para alardear as habilidades dos filhos e aniquilar a “concorrência”, o que nunca acontece quando longe de plateia. O caráter inescrupuloso combinado com a vaidade e a arrogância da mãe narcisista tornam-se desconcertantes para os filhos, expostos, desde pequenos, a uma realidade repleta de contradições. Mas como o que sentem não é considerado importante, resignam-se a sua irracionalidade conformando-se com as expectativas da mãe transtornada, ou seja, comportam-se de forma irrepreensível inclusive quando se sentem destruídos emocionalmente. Tudo, é claro, em nome das aparências.

Pertencer a uma família regida pela tirania narcisista não precisa equivaler a uma sentença de prisão. Você tem todo o direito de quebrar o vínculo com relacionamentos familiares tóxicos. Para saber como dar um fim ao ciclo do abuso narcisista, eu recomendo muito o meu livro, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas. Para ler mais a respeito do meu livro, clique aqui

É normal não amar a própria mãe?

Refletindo a respeito do narcisismo e do abuso sofrido, sentindo-se repleta de raiva de sua mãe, você conclui que o amor que, até então, nutria não existe mais. Sentindo-se inadequada e culpada pela escassez de afeto por quem a pôs no mundo, você se pergunta: “É normal não amar a própria mãe?

A resposta, decerto, é um grande e rotundo “SIM!”.

Quando bebê, você é programada para amar a mãe ou o adulto responsável por seus cuidados. Nos primeiros anos de vida, o amor que você sente por quem cuida é automático, pois consiste em um fator biológico. Este amor de natureza orgânica assegura o seu desenvolvimento e o sucesso de nossa espécie, já que nascemos totalmente frágeis e vulneráveis a um grande número de perigos e, precisamos, portanto, do cuidado e da proteção de um adulto.

Ao longo de nosso crescimento, passamos por vários estágios de desenvolvimento e aprendizado. Devido à influência de nossa cultura, religião e sabedoria popular, o significado do conceito “mãe”, como muitos outros, torna-se rígido. Você passa a acreditar que “mãe” significa “amor”.

Logo, na sua cabeça…

MÃE = AMOR

Esse conhecimento é adquirido e sedimentado de forma arbitrária. Questionar a validade desta crença em um país predominantemente católico como o Brasil, é como cuspir na cara da Virgem Maria. Mesmo que isto não reflita a sua realidade, você, no entanto, fica proibida de contrariar esta premissa, pois de uma mãe só se espera o bem. Toda mãe ama seus filhos, portanto, é seu dever honrá-la.

Crescer com esta falsa verdade tem um impacto de peso na saúde psicológica e emocional da filha de mãe narcisista. A contrariedade entre teoria e prática é tão grande, que acaba por se sentir como uma eterna farsa. Com a sua essência altamente abalada por não se encaixar no molde, a filha de mãe narcisista chega à idade adulta com um grande ponto de interrogação estampado na sua autoestima:

Por que a minha mãe não me ama?

O que há de errado comigo?

Por que ela me trata tão mal, me rejeita e me ataca verbalmente, quando tudo o que faço é amá-la e tratá-la bem?

O que eu fiz para merecer isso?

É normal não amar a própria mãe?

Não sentir amor por uma mãe narcisista e abusiva é perfeitamente normal

Estas e muitas outras perguntas nunca são respondidas e você amadurece sentindo-se insegura e perdida. Com o passar do tempo, a sua angústia se cristaliza transformando-se em uma permanente ansiedade que, por sua vez, torna-se uma característica fixa de sua personalidade.

Um belo dia você se dá de cara com a verdade narcisista. Você descobre que o problema da sua mãe tem nome: transtorno de personalidade narcisista. Tudo começa a fazer sentido e fica difícil de ignorar os fatos: não há nada de errado com você, mas há algo de muito errado com a sua mãe. A sua mãe é diferente.

No caso dela…

MÃE NARCISISTA ˃ AMOR

…ou seja, quanto mais narcisista menor a capacidade dela de nutrir amor genuíno por você.

Você se dá conta de que o suposto “amor” que até então mantinha vocês pretensamente unidas não passa de uma ilusão. Você compreende que este amor de mentira é como uma avenida de mão única na qual você passa a vida caminhando, sempre em frente na direção de sua mãe narcisista sem nunca alcançá-la.

Como você não é mais uma criança inexperiente e despreparada, enfim, compreende que alimentar este amor de mentira está lhe deixando doente. Por outro lado, você se sente forte e madura o suficiente para confrontar a noção de que laço sanguíneo se iguala a amor. Você entende que não é só porque ela a pôs no mundo que de fato a queira, respeite ou ame.

Pouco a pouco, você começa a restaurar a sua dignidade. Movida por uma intensa raiva de ter sido tão traída e injustiçada por tudo e por todos – tanto por quem a devia ter protegido, como por uma cultura absolutista e matriarcal que glorifica o papel da mãe enquanto negligencia o bem-estar da criança, promovendo a pressuposta superioridade da primeira, inadvertidamente e em todos os contextos familiares, criando as condições perfeitas para a prática e a manutenção do abuso.

Devido ao fato de você ter o mínimo de amor-próprio, você refuta a validade de uma dedicação cega. Das profundezas de uma autoestima destroçada, você se reergue. É neste preciso momento de reivindicação de sua própria alma que você reconhece que o “amor” antes sentido desvaneceu-se. “É normal não amar a própria mãe?”, você pergunta.

A resposta, é claro, é um grande, rotundo “SIM!”.

Se necessita de ajuda para registrar a perda da “mãe” no sentido afetivo da palavra, recomendo o meu curso online, “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá como reconectar-se com o corpo e a fazer o luto da mãe narcisista de forma saudável.

O verdadeiro significado do antagonismo da mãe narcisista

Denise[i], 20 anos, uma de minhas clientes e filha de mãe narcisista, conta como o ego incansável da mãe é fonte de eterna chateação:

“A minha está sempre me enchendo o saco para fazer coisas pra ela. Ela não me pede um favor como uma pessoa normal e de forma delicada, é sempre “Eu preciso que você faça isso pra mim”, como se eu fosse sua assistente de plantão. Nunca pede “Por favor” ou diz “Obrigada” de forma genuína, é como se fosse minha obrigação servi-la. Se eu digo “Não” pela razão que for, ela fica “p” da vida, faz o maior escândalo, fica braba pelo resto do dia e se recusa a falar comigo. A minha mãe tem um hábito superinfantil de se comportar como criança mimada cada vez que suas vontades não são atendidas.  

Até recentemente, custava-me recusar um “pedido” dela, sobretudo na frente dos outros. Mas algo mudou. Há dois dias atrás, eu e o Edu (namorado de Denise) estávamos comendo algo na cozinha quando ela já entrou dizendo, “Eu preciso que você fale com aquela sua amiga sobre o desconto que ela prometeu na estética do pai dela, pois precisando pintar e cortar o meu cabelo urgente”. Como eu já estava quase saindo e tinha planos para o resto do dia, falei pra ela que iria ligar pra minha amiga no outro dia à noite”. A minha mãe, indignada, disparou “Obrigada!” e saiu da cozinha toda apressada como se eu tivesse me recusado de salvá-la de um iminente enforcamento.

O verdadeiro significado do antagonismo da mãe narcisista

A intransigência da mãe narcisista é difícil de aturar

Em vez de ficar me sentindo culpada e mudar meus planos só para agradá-la, eu resisti. Não sei o que deu em mim e na frente do Edu eu respondi, mais “p” da vida do que ela, “Obrigada, por quê? Se você tem tanta urgência que não pode esperar um dia por um telefonema, pega o telefone e liga você!”, ela, então, rebateu com “ bem, já ouvi” (a minha mãe se comunica através de mensagens enigmáticas, se você não conhece o estilo narcisista, “ bem, já ouvi” quer dizer “ bem, insignificância, entendi que você está ‘tentando’ se autoafirmar”).

Eu achei o máximo o que eu fiz, fiquei tão orgulhosa! Pela primeira vez consegui mostrar pra ela que tenho coragem de dizer não também na frente dos outros. O Edu adorou o meu entusiasmo, pois conhece muito bem a sogra que tem!

No outro dia, eu liguei pra minha amiga e meio sem graça pedi aquele bendito desconto pra minha mãe (eu não gosto de pedir favores). Com o telefone na mão, fui atrás da minha mãe para, então, marcar um horário. A minha mãe me disse que não precisava mais, pois já tinha marcado horário com outro cabelereiro e, é claro, sem me avisar. Eu fiquei com a maior cara de idiota quando descobri e tive de inventar uma estória furada pra minha amiga pra justificar o porquê de ter ligado pra pedir algo de que não preciso. Como sempre, a minha mãe venceu, não somente me fez passar vergonha, mas também deixou bem claro que faz o que quer, na hora que quer.”

Conversando com a Denise a respeito do ocorrido em uma de nossas sessões de terapia, ela rapidamente reconheceu a extensão do papel que o antagonismo exerce na dinâmica de seu relacionamento com sua mãe narcisista. Denise compreendeu que a intransigência da mãe não se trata apenas de uma demonstração de poder (“Aqui quem manda não é você, sou eu. Se você não me obedecer, será punida”), como também um dos veículos narcisistas mais eficientes de invalidação da autonomia e dos limites pessoais de seus objetos de manipulação psicológica. Ao ignorar por completo o desejo da filha, a mãe narcisista ignora a pessoa inteira, fazendo com que esta se sinta destituída de sua própria individualidade, maturidade, identidade, livre-arbítrio e poder de decisão. O antagonismo da mãe narcisista é castrador. É usado, principalmente, para submeter a filha à tirania de seu ego, fazendo-a sentir-se impotente e como se estivesse perpetuamente subjugada a uma suposta força maior. Ver a filha perdida e com a autoconfiança destroçada, como foi o caso no relato de Denise, proporciona a mãe narcisista certa aura de superioridade, sentimento do qual depende para criar uma falsa ilusão de autoestima.

“O que fazer?”, pergunta a filha de mãe narcisista.

Se você convive cotidianamente com uma mãe narcisista e ainda não tem condições de alçar voo solo pela razão que for, passe a colocar o foco da sua atenção nela e não em você. Enquanto ela age de maneira inflexível e obstinada, analise seu comportamento mentalmente fazendo referência à longa lista de atitudes transtornadas narcisistas. Reafirme a sua posição e não ceda a chantagens emocionais, afinal, como dizem os norte-americanos: We don’t negotiate with terrorists (Nós não negociamos com terroristas). Aprenda a colocar os seus limites em prática dizendo “Não!” e reitere as suas vontades pelo número de vezes que se fizer necessário (para dicas de como dizer não a sua mãe narcisista, clique aqui). Embora a sua mãe não mude a tendência antagonista por sua causa, você se sentirá muito mais adulta, autoconfiante e livre.

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15 mantras para reduzir o efeito da culpa

15 mantras para reduzir o efeito da culpa

Mantras podem ajudá-la a reduzir o efeito corrosivo da culpa

Toda filha de mãe narcisista eventualmente sente-se oprimida pela culpa. Isso se deve ao fato de que a mãe narcisista usa e abusa da culpa para manipular a filha, desde pequena até a idade adulta. Por ser um sentimento tão familiar e automático, a culpa acaba tornando-se um fardo que a filha de mãe narcisista carrega ao longo de seu desenvolvimento, limitando seu crescimento pessoal e a sua capacidade de sentir-se adulta, realizada e no controle de si mesma. A culpa não somente rouba a filha de mãe narcisista de sua autonomia, mas corrompe seus limites pessoais, fazendo-a sentir-se perdida e completamente a mercê do ego narcisista.

Por ser um sentimento extremamente tóxico e nocivo a sua autoestima, como filha de mãe narcisista faz-se vital monitorar e identificar a presença da culpa para então contextualiza-la na sua experiência com o narcisismo materno. Os “mantras” – ou palavras/frases usadas de forma repetitiva para induzir um estado de paz interior – são ferramentas cognitivas poderosas para ajudá-la a alcançar este objetivo, ou seja, a colocar a culpa “no seu lugar” e restringir o impacto danoso que provoca na sua autoestima.

Seguem 15 mantras para reduzir o efeito da culpa em você: 

“Este sentimento é uma herança do narcisismo, portanto, não é acurado”

“Eu priorizo o meu bem-estar emocional e não a culpa”

“Culpa em baixa, autoestima em alta”

“Quem manda aqui sou eu e não a culpa”

“Xô, culpa! Eu me amo!”

“Eu sei o que é melhor para mim, não a culpa”

“O passado pertence ao passado”

“Eu tenho direito a dizer não”

“Eu não respondo à chantagem emocional”

“A culpa não é benvinda”

“A culpa é um convite ao auto boicote”

“Eu não me permito ser manipulada pela culpa”

“Sai, culpa! Eu não saboto a minha felicidade”

“Quando a motivação é culpa o resultado é insatisfação”

“A culpa não me favorece”

Eu recomendo muito se você sofre com a culpa que se torne alerta de seu poder de destruição. Faça a sua prioridade aumentar a sua consciência do valor de seu diálogo interno e questione a “sabedoria” cega da culpa em toda e qualquer situação em que a mesma tentar influencia-la. Não se iluda, a culpa não é sua amiga tampouco a voz da verdade. Só porque você manteve um relacionamento de muitos anos com ela não significa que é um sentimento benéfico. Valorize o seu amor-próprio acima de tudo e busque na sua essência as respostas que está procurando.

Como dizer não a sua mãe narcisista

Como dizer não a sua mãe narcisista

Dizer não a uma mãe narcisista requer estâmina e determinação

Se você acha difícil dizer não a sua mãe narcisista, você não está sozinha. Narcisistas se recusam a respeitar os limites pessoais e acreditam que aqueles com quem convivem devem comportar-se como serviçais de seu ego gigantesco. Em vista disso, dizer não a uma narcisista requer estâmina e determinação. Como é imprescindível que você aprenda a dizer não para proteger seus limites pessoais assim como sua autoestima, individualidade e autonomia, seguem 6 estratégias para ajudá-la a dizer não a sua mãe narcisista.

Como dizer não a sua mãe narcisista:

1- Diga “não” de formas variadas

Negar uma oferta, convite ou pedido de ajuda, por exemplo, não precisa ser feito de maneira ríspida. Há várias formas de se recusar a fazer algo que não se deseja objetivamente e com polidez. Um tom centrado e imparcial comunica convicção e uma atitude adulta. Se você não sabe o que dizer quando pressionada por sua mãe narcisista e a se conformar com o que ela estiver propondo, as frases abaixo podem ajudá-la:

“Não estou com vontade”

“Não estou disposta”

“Isso não é o que planejei para mim”

“Isso não é o que eu quero”

“Não é isso que eu quero para mim”

“Prefiro seguir o/a(s) meu/minha(s) plano(s)/vontade(s)/sentimento(s)”

“Não é minha prioridade”

“Este não é o meu estilo”

“Não está nos meus planos”

“Este plano não fui eu quem fez”

“Este plano não é meu”

“Esta opção não me agrada”

“Não posso, preciso me concentrar nos meus afazeres/planos”

“Quero priorizar o que tenho para fazer”

2- Não peça desculpas

Quando você se des-culpa para uma mãe narcisista, você assume responsabilidade por problemas que não são seus. Vale reiterar que a sua mãe ou o que ela quer não é incumbência sua. Assim como você, ela já tem idade e experiência necessárias para responsabilizar-se por seu próprio bem-estar.

3- Repita a sua resposta

Uma das qualidades essenciais de um bom negociador é a resistência, ou seja, a capacidade de fazer valer a sua posição, independente dos humores ou interesses dos envolvidos na negociação. Como filha de uma narcisista, você tende a fazer o oposto disso, em vez de resistir às tentativas de sua mãe de manipulá-la, acaba cedendo. Para romper com este hábito, passe a reiterar sua posição repetindo sua resposta ou intercalando-a com as sugestões citadas, pelo tempo que for necessário.

4- Não se deixe levar por dramas

A mãe narcisista não perde a batalha sem uma luta sanguinária. Se ela quer algo de você, usará de toda arma possível para extrair uma resposta positiva: choramingo, chantagem emocional, acusações a sua pessoa etc. É neste instante que a dissociação torna-se a sua melhor amiga. Assim que a sua mãe narcisista começar a dramatizar, concentre-se em um ponto (objeto, cena, paisagem) e passe a analisá-lo detalhadamente em sua mente enquanto ela encena seu teatro, não reaja a provocações, agressividade passiva ou emoções antagônicas fortes. Quando ela terminar, repita a sua resposta de maneira calma e centrada.

5- Não dê explicação

Você tem todo o direito de dizer “não” a sua mãe narcisista ou a quem quer que seja. Você não deve explicação, pois é adulta o suficiente para saber o que é melhor para si. Justificativa é cortesia e não obrigação. Cada um é responsável por seus sentimentos, vontades e escolhas, por isso, não é seu dever sentir-se culpada pela frustação proveniente de ideias que não são suas. Você não veio ao mundo para servir aos interesses dos outros, seja pai, mãe, amigo(a), chefe, marido, filho(a) ou parente, mas para viver a vida de acordo com o seu pensamento. Só você se conhece bem o suficiente para saber a sua resposta certa, se é “não” é não. Ponto.

6- Mude de assunto

Se após repetir suas respostas intercalando-as com as opções mencionadas por um período prolongado e a sua mãe narcisista ainda estiver insistindo em convencê-la a fazer o que deseja, mude de assunto. Converse sobre algo totalmente diferente do que ela está falando, para tornar difícil o retorno ao tópico anterior. A intenção é passar a mensagem de que você não está disposta a concordar com ela – definitivamente – e que “a vida continua”, ou seja, há outros eventos acontecendo na sua e até na vida dela que também merecem atenção.

O diálogo a seguir contém as estratégias explicadas. Observe como elas são aplicadas na conversação entre uma mãe narcisista (MN) e sua filha (F):

(No telefone)

MN: Lembra da Juca?

F: Lembro.

MN: Hoje é aniversário dela. Eu queria muito ir, mas o meu carro na oficina. Ela gosta tanto de você… A gente poderia ir juntas no seu carro…

F: Não estou com vontade.

MN: Mas hoje é o aniversário dela e ela mora superlonge e eu não tenho como ir!

F: Não estou disposta.

MN: Que é isso minha filha!… Você doente?

F: Não. Não estou disposta.

MN: Se você não está doente, então, por que não pode me levar? Você não precisa ficar na festa, só me dar carona.

F: Não está nos meus planos.

MN: Mas você pode fazer o que quiser, só me deixa na casa da Juca e vai embora. Não estou pedindo muito! Você nunca faz nada pra mim…

F: Prefiro não ir.

MN: Que egoísmo! Você só pensa em si mesma, não é capaz de ajudar nem a própria mãe, quando tudo que eu faço… blá, blá, blá…

F: (Não entra no clima de drama da mãe e permanece em silêncio, enquanto remove casquinha de esmalte das unhas e faz planos para a próxima manicure).

MN: Alô?

F: Hum.

MN: Então, você vai me levar?

F: Não posso, preciso me concentrar nos meus afazeres.

MN: Que afazeres?

F: Prefiro cuidar dos meus planos (F mantém tom de voz calmo e centrado)

MN: Que planos? (Em tom sarcástico)

F: Meus planos, coisas que tenho para fazer (F mantém o mesmo tom de voz, calmo e centrado)

MN: Mas o que é tão importante que você não pode me ajudar? (Em tom de voz alto e irritadiço)

F: Meus planos, coisas que tenho para fazer (F mantém o mesmo tom de voz, calmo e centrado). Te contei que esta semana encontrei com a Lena, aquela amiga minha que se mudou para o Uruguai há dois anos? Ela…blá blá blá…

Dizer não a sua mãe narcisista exige dedicação e esforço de sua parte, mas é extremamente recompensador quando consegue. Nada lhe dará tamanha satisfação do que sentir-se em controle de si mesma e dona de sua própria vontade, e não como uma marionete à mercê dos interesses narcisistas. Se no princípio sentir-se insegura e culpada, em vez de se concentrar nestes sentimentos, congratule-se por sua coragem. A tendência é de que com o tempo dizer não a sua mãe narcisista se tornará um ato mais natural e automático. Para garantir seu sucesso, persistência, amor-próprio e complacência são essenciais. Não se recrimine quando não conseguir dizer não tampouco quando a culpa tentar minar o seu entusiasmo quando realizá-lo. Aja como sua melhor amiga consolando a si mesma e reconhecendo o valor de seu empenho.

A ascensão e a queda da filha-mártir

O desenvolvimento emocional da filha de mãe narcisista tende a ser um processo longo e repleto de altos e baixos. Por possuir uma mãe extremamente egoísta e egocêntrica, é condicionada a acreditar que somente os interesses desta devam prevalecer. Já criança aprende que suas vontades não são atendidas se forem diferentes dos desejos da mãe. Na adolescência, mesmo quando se arrisca a revoltar-se contra a injustiça e o abuso sofridos exibindo um comportamento problemático, seus atos não causam impacto suficiente para que a mãe remova o foco de si mesma para as necessidades e carências da filha. Na idade adulta e já cansada de lutar uma batalha perdida contra o narcisismo materno, entrega-se a ele sacrificando a si mesma no processo.

A sensação de impotência em face do narcisismo materno faz com que a filha de mãe narcisista sinta-se ainda mais insignificante. Se não está preparada a implementar mudanças radicais na dinâmica do relacionamento com a mãe ou a cortá-la de sua vida definitivamente, cria uma falsa ilusão de controle renunciando de seus sentimentos para concentrar-se exclusivamente no bem-estar da família, sobretudo da mãe.

Este momento de intensa insatisfação pessoal e confusão mental marca a ascensão da filha-mártir.

A filha de mãe narcisista, quando no papel de filha-mártir, é aquela que se desdobra em duas para atender os interesses de todos. A filha-mártir deixa de se concentrar no que quer para si, em seus sonhos e objetivos, para garantir a felicidade da mãe ou tornar-se sua versão de “filha perfeita” (serviçal, submissa e irrelevante) para ser “amada” e aceita por ela. Está sempre mudando de planos e postergando decisões importantes para resolver dramas que não são seus, enquanto usa a sabedoria popular do senso comum para sustentar e defender sua atitude incoerente, assim como absolutos de aplicação moral, ética e religiosa para valorizar seu sofrimento. Tudo, é claro, sem receber nenhum reconhecimento por seus esforços e com um sorriso de quem está “sempre pronta” para se entregar de corpo e alma ao próximo sem perder a elegância.

Neste processo de falso autoengrandecimento, também conta com a ajuda de amigos e parentes e, sobretudo, de uma cultura patriarcal e machista que concede a responsabilidade dos pais como dever vitalício dos filhos, independente de como sejam tratados ou do efeito que tal incumbência exerça em suas vidas e em seu bem-estar. Se religiosa, a filha-mártir se refugia na Bíblia e na imagem de Jesus Cristo crucificado como inspiração de seu martírio pessoal. Sentindo-se orgulhosa e magnânima, a ilusão de que é de fato relevante produz certa euforia da qual se torna dependente para criar um aparente senso de autoestima e amor-próprio.

É precisamente no ápice de sua autoalienação que a filha-mártir dá início a sua queda. Em um piscar de olhos é como se estivesse no topo de uma montanha-russa e, em seguida, descendo com força total ao encontro de sua própria destruição. Mesmo que tenha um grande talento para escamotear sentimentos antagônicos e alimentar sua imagem de fortaleza, seus recursos emocionais não são infinitos. Após um longo período de negligência pessoal, torna-se, entre outros, deprimida, ansiosa, irritadiça, estafada, insatisfeita, impaciente e infeliz; ou acaba na emergência de hospital por causa de um ataque de pânico, esbaforida, entontecida ou com sintomas de arritmia cardíaca; ou em um consultório médico reclamando de enxaquecas, complicações de ordem intestinal, dores de estômago, musculares ou das costas, com queda de cabelo, insônia, fatiga; ou em um consultório psiquiátrico atrás de uma cura milagrosa (prozac, celexa, zoloft, paxil, lexapro) para sua falta de entusiasmo pela vida ou na sala de terapia para entender o porquê de sua indisposição “repentina”.

filha-mártir

É no ápice de sua auto alienação que a filha-mártir dá início a sua queda

Invalidar a importância de sua essência como de seus próprios sentimentos para assegurar uma harmonia fictícia com uma mãe narcisista não é uma demonstração de amor, mas um ato de autossabotagem. Relacionamentos saudáveis não a fazem se sentir usada, vazia nem exaurida. O amor verdadeiro não requer abnegação nem recusa pessoal, mas incentiva e realça seus atributos naturais fazendo-a sentir-se aceita, inteira e a valoriza pelo que você é e não pelo que pode proporcionar.

Filha-mártir ou presa de mais uma armadilha narcisista?

Como você compensa as deficiências da mãe narcisista

A filha compensa as deficiências da mãe narcisista de diversas formas, assim como filhos de pais com doença mental ou que possuem um transtorno de personalidade, e, por isso, tende a desenvolver mecanismos para lidar com o comportamento irregular e muitas vezes impróprio da mãe. Como esta reação é automática e na maioria das vezes inconsciente, a filha de mãe narcisista só percebe o impacto real desta tendência quando profundamente entremeada com o problema da mãe, sentindo-se perdida e desconectada de si mesma.

Para ajudá-la a entender este processo e a identificar as atitudes que favorecem esta dinâmica e minam o seu crescimento pessoal, seguem 5 estratégias de como você compensa as deficiências da mãe narcisista:

1- Atua como objeto regulador dos estados psicológico e emocional da mãe

Devido ao fato de a mãe narcisista ser incapaz de se autorregular emocionalmente e de forma independente, usa os estímulos à sua volta para “controlar” seus humores. Ao contrário do que é observado nos relacionamentos entre mãe e filha em contextos familiares sem a presença de um transtorno de personalidade como o narcisismo, a filha acaba agindo de forma a compensar o déficit psicológico da mãe. Nas situações em que a mãe narcisista se vê dominada pela raiva e a insatisfação, por exemplo, a filha ignora suas próprias necessidades, afazeres e objetivos para concentrar-se no bem-estar da mãe. Faz tudo para agradá-la e remediar seu sofrimento para que, somente então, consiga dedicar-se a si mesma, o que acaba raramente acontecendo da maneira como gostaria.

2- Torna-se mãe da própria mãe

compensa as deficiências da mãe narcisista

A troca de papéis entre mãe e filha é extremamente comum no relacionamento entre filha e mãe narcisista.

Em face da imaturidade da mãe narcisista, cabe à filha tornar-se responsável não apenas por si mesma, mas também pela própria mãe. A troca de papéis entre mãe e filha é extremamente comum neste relacionamento, visto que esta frequentemente se encontra na posição de “adulto” e não de criança, sendo exposta prematuramente a problemas não condizentes com seu nível de desenvolvimento. A mãe narcisista deliberadamente envolve os filhos em discussões e dilemas que não são seus. Em vez de poupar a filha de seu eterno drama e depressão crônica, extravasa suas insatisfações livremente dentro do ambiente familiar independente de sua natureza, de maneira a manter a atenção em si mesma como se fosse criança e merecedora de tratamento especial. Este comportando – egoísta e infantil – exerce grande impacto na filha, que acuada por tamanha incoerência, vê-se forçada a apoiar e a atender ao desafeto da mãe para salvaguardar o equilíbrio do sistema familiar.

3- Torna-se invisível

Para se preservar dos ataques gratuitos de ira da mãe, a filha de mãe narcisista faz o que pode para se tornar imperceptível. Como medida adaptativa, mantém um perfil discreto e comedido dentro do ambiente familiar para se esquivar de ser tratada de maneira abusiva. Desde cedo, evita cruzar o caminho da mãe sempre que possível, tornando-se rapidamente independente de seu cuidado e atenção. Visto que tudo tem o potencial de abalar a autoestima frágil e o humor inconsistente da mãe, esconde seus problemas ou nega a existência destes para não “sobrecarregá-la”. Além disso, autoanula-se psicológica e emocionalmente, conformando-se com as suas vontades enquanto negligencia seus próprios interesses e sentimentos. Quanto mais ausente, submissa e irrelevante, maior a probabilidade de evitar conflitos.

4- Assume a culpa dos problemas da mãe

Como a mãe narcisista nega ter responsabilidade por tudo que lhe acontece de errado, quem está a sua volta torna-se imediatamente “o ofensor”. Para que a mãe narcisista se sinta em relativa paz consigo mesma e com seus altíssimos padrões de perfeição e excelência, a filha assume a responsabilidade por tudo que não corresponde ao seu idealismo irracional. Se a mãe não consegue atingir seus objetivos ou sentir-se realizada consigo mesma ou com os outros, é porque não recebeu a atenção ou dedicação devidas. Cabe a quem tem intimidade e convívio direto com ela, como seus filhos e parceiros amorosos, assumir a culpa de seus problemas, sejam da natureza que for, para então resolvê-los. A filha de mãe narcisista, registrando esta mensagem já criança, responde à inconsequência da mãe se colocando eternamente disponível para remediar seu sofrimento, desenvolvendo uma inclinação quase intuitiva ao remorso e à culpa quando ao lado dela.

5- Vira o bobo da corte

Crescer ao lado de um pai ou mãe com depressão crônica costuma exercer muita influência no desenvolvimento da criança. Os filhos seguidamente compensam o mau humor e insatisfação dos pais tornando-se responsáveis por seu entretenimento e, portanto, fazem tudo para agradá-los e despertar uma reação positiva, pois seu descontentamento generalizado é fonte de desconforto e uma profunda inquietação. Como não está apta a compreender a extensão do problema da mãe, a filha de mãe narcisista usa de sua graça e simpatia para tentar animá-la e reduzir o efeito de sua perpétua amargura. Ao longo dos anos, este comportamento transforma-se em um traço de personalidade que contribui com a formação da crença de que para ser aceita pelos outros, tem que agradá-los. Já na idade adulta, sente-se insegura e inadequada quando não consegue cativar ou contentar a todos com quem interage, como se fosse de fato sua obrigação fazê-lo.

Mesmo sem perceber, você compensa as deficiências da mãe narcisista em suas tentativas desesperadas de reduzir a angústia de todos. Apesar deste hábito soar “nobre” e “magnânimo” na superfície, só promove a codependência e um sentimento de profundo vazio e insatisfação pessoal, além de não ajudar sua mãe tampouco quem se encontra sob a influência dela. Para mais informações sobre “comportamentos facilitadores” do narcisismo materno, clique aqui

5 mentiras para proteger sua mãe narcisista

É comum vítimas de abuso emocional/psicológico, como filhas de mães narcisistas, usarem mentiras para proteger sua mãe narcisista. Após ler todo o conteúdo do Filhas de Mães Narcisistas como se estivesse lendo a respeito de sua própria vida, você fez o teste “mãe narcisista” somente para confirmar o que você já intuía de que a probabilidade dela ser é realmente grande. Apesar de toda a evidência de anos de abuso estampada em sua autoestima e de todo o conhecimento adquirido em pesquisas referentes a narcisismo materno, você ainda usa de mentiras para proteger sua mãe narcisista e justificar sua atitude descabida, pois foi condicionada a acreditar fielmente em suas supostas “boas intenções” ou “pureza maternal”. Tais pensamentos, errôneos e improdutivos, retardam o seu desenvolvimento pessoal mantendo-a presa a um relacionamento disfuncional. Para proteger-se da influência de tais pensamentos, é imprescindível identificá-los e analisá-los de maneira franca e objetiva.

A seguir, 5 mentiras para proteger sua mãe narcisista da responsabilidade de seus próprios atos:

1- “Ela é uma coitada”

Vamos deixar algo bem claro: a sua mãe narcisista não é uma coitada tampouco vítima de uma grande injustiça, você é. Você não tem de proteger a sua mãe de si mesma, mas se proteger da influência maligna e corrosiva dela. Narcisistas são perfeitamente capazes de distinguir entre o certo e o errado e possuem livre-arbítrio para tomarem suas próprias decisões. O que acontece na vida da sua mãe, a maioria é consequência direta das escolhas dela, inclusive seu comportamento impróprio e abusivo.

2- “Ela é minha mãe”

Mesmo? Se você acredita que mãe de verdade é aquela que cuida do bem-estar físico, emocional e psicológico dos filhos, fica difícil ignorar os fatos. Mãe verdadeira não faz a filha se sentir inadequada e rejeitada para se sentir melhor a respeito de si mesma. Mãe de verdade não usa a boa vontade e o amor incondicional dos filhos para autobenefício, nem os faz responsáveis por seu próprio bem-estar. Mãe não é somente um fato biológico, mas, sobretudo, quem ama e cuida.

3- “Ela não faz de propósito”

Adultos são responsáveis por seus atos. Ponto. Embora narcisista, sua mãe tem idade e experiência suficientes para entender o impacto que sua atitude exerce nos outros, principalmente em você. Mesmo tendo acompanhado seu desenvolvimento de maneira emocionalmente ausente, sabe o que fazer para conseguir a reação desejada. Usa de chantagem emocional para compeli-la a realizar as vontades dela, pois sabe como manipulá-la por meio de suas vulnerabilidades.

4- “Ela pode não demonstrar, mas sei que me ama”

Se a sua mãe de fato a ama, por que você se sente tão rejeitada, insegura e inadequada ao lado dela? Como Camões e Renato Russo explicam, “O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece”. Não é a conexão sanguínea a determinante do amor, mas a afinidade, a harmonia, o respeito e o afeto. Quando você é amada por alguém você se sente em paz com o mundo e você mesma, sente-se inteira. Você não se sente perdida, isolada emocionalmente. O que sustentou seu relacionamento com sua mãe esses anos todos não foi o amor, mas o interesse (dela), a dependência (mútua) e a falta de autoconhecimento (principalmente seu).

5- “Ela está mudando”

Se a sua mãe é narcisista, ela possui um transtorno de personalidade. Transtornos de personalidade não “cessam de existir” independentemente e da noite para o dia, mas seus sintomas são controlados com a ajuda de tratamento psicoterápico. O narcisismo também não se cura com amor, compaixão ou perdão, mas com acompanhamento psicológico efetuado por um profissional especializado no transtorno de personalidade narcisista, como um psiquiatra ou psicólogo com qualificação e experiência clínica. É claro que a sua mãe não é ininterruptamente ruim ou desagradável o tempo todo, pois não é uma máquina. Pode se comportar de modo razoável num dia e, no dia seguinte, apresentar um comportamento abusivo com probabilidade extremamente alta, visto ser a regra e não a exceção. Se você tende a “esquecer” de como é (mal)tratada, eu recomendo muitíssimo registrar suas experiências com a ajuda de um diário.

Se você frequentemente se vê repetindo quaisquer das afirmativas mencionadas, não se engane, você tem utilizado mentiras para proteger sua mãe narcisista. Seja honesta consigo mesma e honre seus sentimentos, se você se sente dominada por emoções de caráter antagônico como a raiva, vergonha e a culpa quando se encontra ao lado de sua mãe, se ela a faz sentir-se triste e abandonada tanto afetiva como emocionalmente é porque isto está de fato acontecendo. Não é fácil encarar de frente a verdade sobre o abuso narcisista, mas muito mais difícil e prejudicial é viver uma vida inteira traindo a si mesma para proteger um relacionamento que não funciona com uma mãe de mentira. Você merece mais, certo?

mentiras para proteger sua mãe narcisista

É comum vítimas de abuso emocional/psicológico, como filhas de mães narcisistas, usarem mentiras para proteger o/a praticante do abuso.

5 sinais de que o relacionamento com sua mãe é disfuncional

Imersa em pensamentos, você pondera se o seu relacionamento com sua mãe é disfuncional e acaba por se convencer: “Mas todo relacionamento não é fácil, não é mesmo?”.  Sim, você tem razão, em parte.  Relacionamentos geralmente exigem dedicação, comprometimento e esforço, mas são especialmente difíceis de serem mantidos com quem possui um transtorno de personalidade tal como o narcisismo. Se você é filha de mãe narcisista, o relacionamento com sua mãe é disfuncional, ou seja, não funciona. Em vez de harmonia, há desentendimento; em lugar de respeito, há desdém; e ao invés de equilíbrio, há uma total disparidade de forças. Como esta dinâmica nunca se altera, este tipo de relacionamento está condenado a um retumbante fracasso.

A seguir, 5 sinais de que o relacionamento com sua mãe é disfuncional:

1- Você é tratada como criança

Ter uma mãe narcisista é como pertencer à Terra do Nunca, pois para ela você é uma eterna criança. Em lugar de apreciar e respeitar seu ponto de vista, sua mãe narcisista responde com desprezo e desdém quando você apresenta-lhe uma ideia que vai de encontro com a dela. Mesmo quando inteligentes e inovadoras, suas opiniões são ignoradas se não se encaixam exatamente ao que a sua mãe narcisista deseja, fazendo-a sentir-se desvalorizada e inútil.

2- Você se sente isolada emocionalmente

Seus sentimentos não são reconhecidos tampouco valorizados por sua mãe narcisista. Você frequentemente se sente rejeitada, culpada e envergonhada sem ao menos saber o porquê. A distância entre vocês é tão intensa e a falta de conexão afetiva tão marcante que você se sente roubada de sua própria humanidade. Você se torna oca e carente de demonstrações de carinho.

3- Você usa a culpa como moeda

Você admite culpa, embora não expresse abertamente. A culpa extravasa pela raiva, mau humor e pelas contrariedades que possam acontecer na vida de sua mãe narcisista. Tudo, é claro, para ser aceita e “amada” por ela. Você se autossabota psicologicamente e sacrifica sua autoestima para manter o relacionamento com ela. Sentindo-se abandonada e tomada por um profundo medo da solidão, você toma para si toda a responsabilidade de sua mãe em troca de um mínimo de atenção e afeto dela.

4- Você se sente roubada de sua própria identidade

Você já recorreu a várias estratégias para ser aceita por sua mãe narcisista: tornar-se mais feminina, magra, elegante, bem-sucedida, popular…, mas nada parece satisfazê-la! Seus gostos e interesses foram tão recauchutados para satisfazer as vontades e preferências dela, que nada que restou parece realmente autêntico. Você passa se reinventando, como se a vida fosse uma eterna busca a si mesma.

5- Você duvida de si

Suas habilidades, sanidade, experiência e inteligência são constantemente reavaliadas como se não fosse capaz de produzir um julgamento maduro e confiável de forma independente. Você se sente inadequada sem alguém para assegurá-la de que está no caminho certo e questiona seus objetivos mesmo quando coerentes com o que deseja para si mesma. Sentindo-se insegura, você se espelha na conduta de terceiros em lugar de manter sua própria opinião, a fim de reduzir sua inquietação interior.

Não é responsabilidade de filha alguma aturar o comportamento egoísta e impróprio da mãe. Também não é sua obrigação aceitar uma sentença de abuso de quem quer que seja, inclusive dela. Não se deixe enganar, você é livre. Se você se identifica com isso, está na hora de quebrar o vínculo com o narcisismo e reaver sua autoestima. Nenhum vínculo sanguíneo pode ser mais importante do que o seu pleno bem-estar emocional e psicológico, acredite.

relacionamento com sua mãe é disfuncional

Se você é filha de mãe narcisista, o relacionamento com sua mãe é disfuncional, ou seja, não funciona.

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