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Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão

Se você é filha de uma mãe narcisista/tóxica/abusiva, a seguinte questão já deve ter permeado a sua consciência, reiteradamente:

“Eu devo perdoar a minha mãe narcisista?”

Como qualquer decisão de peso, o perdão em relação a sua mãe narcisista precisa ser uma reflexão proveniente de sua essência e de seu momento e não uma obrigação, resultado de uma pressão sociocultural ou imposição de terceiros, é importante refletir detidamente sobre essa questão antes de tomar uma decisão precipitada. Como acredito no poder transformador do conhecimento e no livre-arbítrio, bem como da autoconsciência e do amor-próprio, este artigo é dedicado a oferecer-lhe uma nova perspectiva acerca do perdão, que valide a sua realidade de filha de mãe narcisista e história de abuso e trauma, pois o seu contexto pessoal é bem especial. Para alcançar este objetivo, abaixo seguem 5 mitos sobre o perdão:

1- “Você tem que perdoar”

Primeiramente, vale a pena enfatizar: o perdão não é uma obrigação, mas uma escolha. Ninguém é obrigado a perdoar ninguém, seja ou não parente. Perdoar (ou não perdoar) é uma experiência íntima que diz respeito somente a você. “Ter que” carrega uma obrigatoriedade que lhe rouba o direito de ser e agir de acordo com a sua essência, vontade e sentimentos. Ninguém sabe como é ser você tampouco vivencia a sua experiência, portanto, não se entregue à intimidação e ao bullying de quem não veste a sua pele. Você é livre.

2- “Perdoar é um ato que beneficia a todo mundo”

Para quem acredita neste mito, convido a fazer ao que me refiro como “o teste do perdão”. Ao terminar de ler este artigo, perdoe a sua mãe narcisista para si mesma da forma mais genuína que conseguir e registre o momento em um pedaço de papel ou em seu celular. A partir desta data, mantenha um diário por, no mínimo 30 dias, relatando como se sente. No final deste período, faça uma avaliação franca de si. Então, sente-se substancialmente renovada, aliviada, mais centrada e feliz após ter perdoado a sua mãe narcisista, ou exatamente da mesma maneira (ou pior) do que antes? Não há nada de errado com você se nada mudou, pois você não é “todo mundo”, mas um indivíduo de alta complexidade, com personalidade e sentimentos próprios.

3- “Perdoar fará com que se sinta melhor”

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão
Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional

Devido ao fato de que somos únicos em nosso jeito de ser e sentir, o perdão não é para todos, pois nem todo mundo sente-se instantaneamente bem após perdoar alguém. Além disso, o perdão que faz alguém sentir-se melhor – de forma sólida e duradora – vem no momento certo, ou seja, depois do luto. Isso é porque o perdão consiste em um processo de aceitação não somente de natureza intelectual, mas, sobretudo, emocional. Quem perdoa com “a cabeça” (racionalmente) e não com “o coração” (emocionalmente) pratica o perdão rápido demais e negligencia os estágios do luto que precedem o final (negação e isolamento, raiva, negociação e depressão), a aceitação. O luto é uma necessidade para quem perdoa, pois é um processo fundamental pelo qual se compreende e se aceita uma realidade, tanto com o corpo como com a alma. Colocar o perdão na frente do luto, ou querer perdoar a mãe narcisista sem nunca se ter permitido processar as emoções antagônicas em relação a este relacionamento disfuncional tende a não produzir resultados positivos a longo prazo.

4- “Quando se perdoa alguém, o relacionamento sempre melhora”

Se você acredita nesse mito, recomendo-lhe, mais uma vez, a fazer o meu teste do perdão. No término desta leitura ou quando tiver tempo, perdoe a sua mãe narcisista interna ou diretamente na presença dela. Após fazê-lo, registre o ocorrido e verifique consigo mesma depois de trinta dias. Como foi? O relacionamento com ela melhorou, continua igual ou pior do que antes? No Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade para Filhas de Mães Narcisistas questiono o suposto poder transformador do perdão no contexto do narcisismo materno, já que, “Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional” (Prisioneiras…, p. 203). Tendo em vista a prática da mãe narcisista e demais indivíduos abusivos usarem a vergonha e a culpa que frequentemente acompanham o perdão para nunca reconhecerem o sofrimento de suas vítimas e perpetuarem o abuso que as infringe, a probabilidade de que o perdão, sozinho, desencadeie um processo transformador deste relacionamento é, virtualmente, nula.

5- “O perdão só funciona quando é pedido ou dito diretamente para a pessoa”

Quando o perdão é uma experiência orgânica e não uma obrigatoriedade ocorre no seu tempo e é sentido de dentro para fora. Assim como os sentimentos que se originam de um estado de profunda e sincera aceitação, o perdão, quando autêntico, é uma experiência sua. Desta forma e porque está ciente disso, você não “tem que” comunicar ninguém quando (e se) o perdão materializa-se – tampouco a sua mãe narcisista – pois é algo concernente apenas a si. O perdão alardeado de modo afetado e com superioridade não corresponde a um ato equilibrado, mas à insegurança pessoal e à necessidade de aprovação.

Para quem cresceu sob a tirania e atitude transtornada e abusiva de uma mãe narcisista, o perdão não é uma novidade, mas um exercício diário de tolerância, dependência emocional, codependência e, até, sobrevivência. Contudo, afirmar que – inquestionavelmente e em todas as circunstâncias – o ato de perdoar a mãe narcisista, em si, cura as feridas do seu trauma é uma afirmativa errônea, não reflete a realidade de um grande número de filhos e filhas de mães tóxicas. Embora o perdão possa ser uma experiência genuinamente benéfica para alguns, não se trata de uma regra para todos os seres humanos nem possui a mesma relevância prática, relacional, psicológica e emocional. Caso esteja se questionando se “deve” perdoar a mãe narcisista, verifique com o seu corpo, e não somente com o seu intelecto, se verdadeiramente deseja isso. Acima de tudo, respeite o seu ritmo e honre as emoções ou quem neste momento você é.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?

Como já ouvi muitos de meus clientes usando os termos “codependência” e “dependência emocional” como se possuíssem o mesmo significado e os afetassem da mesma maneira, achei pertinente usar este espaço para esclarecer a diferença entre os dois. Visto que ambos são conceitos relevantes no contexto de abuso narcisista, mães tóxicas e relacionamentos disfuncionais e abusivos, é necessário que você aprenda a distingui-los para compreender a forma como interferem em seu desenvolvimento, sua qualidade de vida e de relacionamentos. Começaremos, então, explorando a codependência.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?
A filha de mãe narcisista toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora para sentir-se “amada” por ela

A codependência

Um indivíduo codependente é aquele que usa a dependência que os outros têm nele para se sentir amado e seguro, tanto consigo como em um relacionamento.  Um exemplo clássico de codependência é o do marido ou esposa que ignora o alcoolismo do(a) parceiro(a) ou nega que seja um problema para contentá-lo(a) e garantir a “estabilidade” do relacionamento. Análogo à filha de mãe narcisista que toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora e de seu relacionamento com ela, culpando-se por problemas que não são seus para sentir-se “amada” e aceita por ela. Logo, a filha de mãe narcisista é codependente quando usa a dependência (emocional, psicológica, financeira etc.) da mãe em si para sentir-se valorizada e manter um relacionamento “harmonioso” com esta.  A codependência, portanto, é sempre disfuncional, pois direciona o foco do indivíduo para fora de si, assim como para as estratégias de enfrentamento de problemas mal-adaptativas, retardando o seu desenvolvimento. Além disso, a codependência, como um comportamento que corrobora e facilita as atitudes impróprias de terceiros, ajuda a perpetuar os problemas de saúde mental e relacionamento e, até, o abuso.

Por esta razão, a filha de mãe narcisista, quando age de forma codependente, confunde a dedicação à mãe com os comportamentos facilitadores do narcisismo materno, tornando-os a sua fonte central de autoengrandecimento, quando não passam de um falso impulsionador de autoestima. Está sempre pensando na mãe e priorizando as suas necessidades, opiniões, vontades e seus sentimentos motivada, na maioria das vezes, por sentimentos de inadequação como a culpa, vergonha e o medo e não por amor e respeito, mas para ter um senso interno de segurança. Esta tendência, contudo, compromete a sua capacidade não só de se equilibrar emocionalmente de modo independente, bem como criar uma identidade sólida e autônoma de sua genitora. Como consequência, a codependência, uma vez que firmemente estabelecida como um comportamento que a auxilia a lidar com o estresse e com um problema sem solução ou que está além de seus poderes, tal como o narcisismo, desencadeia um processo de dependência emocional que, com o passar do tempo, torna-se um traço de personalidade e o mecanismo pelo qual a filha consegue restaurar o seu “equilíbrio” emocional e amor-próprio (Eu sou amada/me sinto bem quando os outros precisam de mim/priorizo as necessidades dos outros).

A dependência emocional

Todos necessitamos de uma conexão emocional verdadeira com outro ser humano, sobretudo com os nossos pais, para nos sentirmos seguros, amados e aptos. A criança que desenvolve um apego seguro com a mãe – ou que confia nela e neste relacionamento como uma fonte sólida de amor, proteção e bem-estar emocional – torna-se um adulto autoconfiante, capaz e autônomo emocionalmente (Bowlby, 1988). É, através desta união, que se sente segura para explorar o mundo, receber o apoio emocional de que necessita e aprende a confiar nos relacionamentos humanos e a se beneficiar destes de uma forma saudável e sem medo. Isto favorece o seu crescimento e desenvolvimento, além de enriquecer a sua experiência e contribuir para o seu sucesso tanto nos campos pessoal como profissional. Neste contexto, a dependência emocional com a mãe permite que a criança concentre-se em si, além de prepará-la para operar de maneira funcional na área dos relacionamentos. Portanto, é benéfico e produtivo precisar de alguém quando esta dependência complementa o indivíduo e não o anula, liberta-o emocionalmente e não o oprime, fortalece a sua identidade e não a sufoca.

A dependência emocional é prejudicial quando motiva a criança – como a filha de mãe narcisista – a buscar este senso de segurança exclusivamente fora de si, já que não teve esta necessidade suprida pelo relacionamento com a genitora (precisamente, no período crítico de 0 a 2 anos[i]). Este tipo de dependência é exagerada e disfuncional, pois aponta o seu senso de direção para fora de si mesma e longe de sua própria essência, sentimentos, vontades, opiniões e interesses, além de mantê-la presa a uma visão de mundo e dos relacionamentos centrada na desconfiança, no sacrifício e sentimentos de culpa, medo, vergonha e insatisfação pessoal. Este tipo de dependência faz com que você…

  • Somente sinta-se amado quando recebe a aprovação de terceiros, corresponde às expectativas dos outros ou se torna quem querem que seja
  • Somente sinta-se feliz quando faz os outros se sentirem bem
  • Somente sinta-se calmo quando diz “sim” a tudo e a todos
  • Somente sinta-se completo quando está na companhia dos outros ou de quem é importante para si
  • Somente sinta-se valorizado quando alguém necessita ou precisa de você, quando o seu mérito é reconhecido ou se sente responsável pelo bem-estar dos envolvidos nos seus relacionamentos, bem como dos relacionamentos em si
  • Somente sinta-se centrado e disposto a concentrar-se na própria vida e nos próprios projetos quando os seus relacionamentos estão indo bem, ou quando consegue racionalizar os sentimentos de inadequação conectados a estes através da culpa (“estou me sentindo mal não porque a minha mãe não me ama, mas porque fiz algo de errado”).

A codependência e dependência emocional são usadas pela família tóxica como ferramentas de manipulação e abuso, ou armadilhas psicológicas que a mantém presa neste relacionamento. Enquanto que se revela impossível sentir-se genuinamente satisfeito sem nenhum tipo de conexão emocional com outro ser humano, é impraticável realizar-se tanto individualmente como nos relacionamentos quando se é escravo destes, tais como dos comportamentos codependentes que mantém para obter um senso de autoestima, identidade e equilíbrio emocional. A melhor forma de lidar tanto com a codependência como a dependência emocional é por meio de uma atitude autoafirmativa, confiante e autônoma, honrando as emoções e os limites pessoais e exercendo o seu direito à liberdade pessoal. Se este é o seu objetivo, recomendo a leitura de meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

Referência:

Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. New York, NY: Basic Books.

[i] Para mais informações sobre o processo de formação e estilo de apego e como influencia o desenvolvimento (“Teoria do Apego”), recomendo a leitura dos trabalhos de Jown Bowlby e Mary Ainsworth.

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

Para que você chegue à resposta desta pergunta de forma independente, adulta e respeitando a sua verdade, convido-a, primeiramente, a reflexionar sobre as seguintes questões:

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos?
Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia e outra no convívio com a família

1- Se você ou qualquer outra pessoa defender que a mãe narcisista não tem consciência dos seus atos, está afirmando que ela é insana, ou seja, não sabe distinguir entre a fantasia e a realidade. Se a mãe narcisista não conseguisse distinguir entre a fantasia e a realidade, não saberia como agir de forma tão calculada e dissimulada, tanto dentro quanto fora do ambiente familiar. Portanto, a sua aparente “doidice” ou comportamento incontrolável e impulsivo seriam óbvios para todos com quem tem contato. Esse tipo de comportamento, contudo, não corresponde ao da mãe narcisista, pois sabe como cultivar uma imagem de perfeição e viver de aparências. Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia (dedicada, educada e carinhosa) e outra no convívio com a família (negligente, abusiva e fria), o que denota possuir pleno controle das faculdades mentais e sabe com quem e onde pode se comportar de forma abusiva, sem nunca ser descoberta e considerada responsável por seu comportamento impróprio.

2- Para que a mãe narcisista consiga se sentir bem consigo mesma, precisa receber estímulo negativo daqueles com os quais se relaciona. Em outras palavras, precisa rebaixar os outros para se sentir superior (dinâmica a que me refiro como “o relacionamento gangorra” em meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura e que expõe o valor da filha como suprimento narcisista). Se a mãe narcisista não tivesse consciência de seus atos, ou de como magoa e faz a filha se sentir pequena e rejeitada, seria intelectualmente incapaz de se beneficiar destes sentimentos de inadequação ou de usar a filha ou qualquer outra pessoa como suprimento narcisista. Como resultado, os seus relacionamentos seriam funcionais e harmoniosos e não de extrema dependência emocional, como é o caso dos que mantém com todos a sua volta. Além disso, quando a filha de mãe narcisista se recusa a se submeter ao abuso com autoconfiança e cortando o contato, a matriarca narcisista sente-se desconsertada – mesmo não gostando da companhia da filha nem nutrindo nenhum amor genuíno ou respeito por ela. Diante disso, faz tudo para reaver o controle, provando, portanto, que entende a forma pela qual os seus comportamentos abusivos a conferem um senso de autoestima, identidade e “bem-estar” emocional.

3- Porque uma pessoa tem uma doença mental, tal como um transtorno de personalidade, não significa que seja abusiva. Por mais que haja um grande número de pessoas abusivas que possui uma doença mental, nem todo mundo que abusa é narcisista, por exemplo. Correlação não é causalidade. Uma doença mental ajuda a explicar o contexto do abuso, mas não o justifica. Assim como laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva, doença mental não serve de desculpa para se aproveitar do amor e da vulnerabilidade de uma criança ou adolescente, afetar o seu crescimento e desenvolvimento negativamente e comprometer, de forma irresponsável e inconsequente, com a sua qualidade de vida não apenas na infância, como também na idade adulta. Para a profissional de saúde mental que tem ampla experiência com os relacionamentos abusivos, seja de forma direta como sobrevivente ou indireta através dos relatos de suas clientes, ou uma mistura de ambos, afirmar que o abusador faz o que faz porque é, supostamente, doente mental, simplesmente “não cola”. Vale a pena lembrar que a esmagadora maioria das filhas de mães tóxicas nunca recebe a confirmação de que as suas genitoras são, de fato, narcisistas, ou que possuem qualquer outro tipo de doença mental. Por mais que o termo “narcisismo” seja elucidador, não exclui as características mais marcantes das mães abusivas/tóxicas/narcisistas: o pensamento rígido e a falta de empatia e respeito pelos limites, identidade e direito à individualidade de seus filhos.

4- Sob esta perspectiva, pode-se alegar que a mãe narcisista não sabe da extensão do mal que causa a seus filhos porque também foi abusada e maltratada pelos próprios pais e, portanto, julga a sua atitude imprópria como “normal”. Isso pode ser considerado como uma “meia verdade”, em virtude dos seguintes aspectos:

  • A mãe abusiva/tóxica/narcisista usa as mesmas táticas de negação de problemas da maioria dos indivíduos provenientes de famílias disfuncionais. Estas táticas, como escudar-se atrás de chavões do senso comum tais como “Mãe/família é tudo”, “Toda a mãe boa” e “Toda a família tem problema” invalida a realidade de abuso e a negligência de todos, inclusive a de si mesma. O trauma e o abuso são tabus não somente para quem é vítima, mas também para quem é testemunha (direta ou indireta) ou os tolera sem questionamento. Nos casos de quem foi ou é vítima de abuso e se torna, também, um abusador, o peso deste tabu aumenta e, com ele, a vergonha e a necessidade de negá-lo, até para si.
  • Nem todo mundo que é vítima de abuso, abusa. Eu conheço inúmeras vítimas sobreviventes que nunca cometeriam as atrocidades que sofreram e que se sentem extremamente abaladas e decepcionadas consigo quando agem de forma agressiva.
  • Mesmo quando a mãe abusiva/tóxica/narcisista torna-se ciente de quão nociva a sua atitude é para a autoestima e bem-estar psicológico e emocional dos filhos, continua a tratá-los de forma imprópria e a negar o impacto negativo que lhes causa, bem como qualquer tipo de responsabilidade nos problemas deste relacionamento.

É importante sabermos as razões que podem levar um ser humano a cometer atos de abuso, assim como definir o seu nível de consciência acerca destes, sobretudo quando são nossos genitores e tiveram uma influência direta em nosso desenvolvimento. A ciência acerca dos fatores que contribuem com tal crueldade e o sentimento de compreensão e empatia que seguem esta descoberta não diminuem a sua malignidade, contudo, tampouco isentam quem os comete de sua responsabilidade, ou nas sábias palavras da grande psicóloga e filosofa suíça Alice Miller (2002):

“Empathising with a child’s unhappy beginnings does not imply exoneration of the cruel acts he later commits”

(“Demostrar empatia pela infância triste de uma criança não implica a exoneração dos atos cruéis que depois comete”)

Então, no que você acredita?

 

Referência:

Miller, A. (2002). For your own good. Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence (4th ed.). New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista
A sobrevivente de sucesso é aquela que transcende o próprio trauma

Descobrir que se é filha ou filho de uma mãe narcisista representa um momento que marca não somente a história, como também a trajetória de crescimento e desenvolvimento pessoal destes indivíduos. Isso se deve ao fato de que a verdade narcisista é tão reveladora que se torna impossível ignorá-la e tocar a vida como se ela não existisse. A autoconsciência acerca do problema (narcisismo materno), seus efeitos (abuso e trauma) e implicações (cortar o contato) tende a dar origem a uma intensa mistura de sentimentos, tais como: alívio, medo, vergonha e revolta, entre outros. Sobretudo, tende a despertar na vítima uma grande vontade de mudar e reaver a sua autonomia e dignidade. Este forte desejo de viver uma existência feliz, de paz e realizações através da livre expressão de sua essência – tão castigada pelos ataques de uma mãe egoísta, controladora e invejosa – é a energia motivadora que dá início ao seu processo de libertação pessoal.

Embora a vontade de se libertar das garras de uma mãe abusiva tenda a ser voraz, nem todas as filhas de mães narcisistas conseguem retomar as rédeas da própria vida e se afastarem dessa influência nefasta. Este artigo visa explorar a diferença entre elas, ou trazer à luz as características da filha de mãe narcisista que pretende acabar com o ciclo de abuso narcisista e propulsar o seu processo de cura e sua independência psicológica e emocional.

Vítima ou sobrevivente?

A libertação pessoal da vítima de abuso narcisista, independente de sexo, é alcançada quando investe esforço e determinação em uma mudança radical de atitude. Mudar, neste contexto, exige pensar e agir como uma sobrevivente e, não mais, como uma vítima. Na prática, esta mudança pode ser observada quando a vítima substitui as suas estratégias de enfrentamento disfuncionais, como a negação e a repressão emocional por táticas mais saudáveis, autoconfiantes e maduras. Em vez de se sentir permanentemente intimidada e à mercê de sua própria inadequação a, então, sobrevivente não só é capaz de reconhecer o abuso sofrido como algo amoral, brutal e injusto, bem como validar todas as emoções antagônicas desta descoberta terrível, tais como: a tristeza, a raiva e os demais sentimentos que compreendem o luto, com honestidade e coragem. A sobrevivente não foge da própria dor e dos sentimentos de abandono e solidão que acompanham a genuína conscientização de sua perda, tampouco os normaliza ou diminui o impacto negativo que a mãe exerce sobre os seus bem-estares físico, psicológico e emocional, mas se permite registrá-los, processá-los e aprender com estes.

Devido ao fato da sobrevivente valorizar o próprio bem-estar e honrar suas emoções, cortar ou reduzir drasticamente o contato com a mãe narcisista revelam-se como as alternativas mais sensatas e responsáveis. Diferente da vítima que perpetua o processo de vitimização, insistindo em forçar uma falsa conexão afetiva com uma mãe exploradora e egoísta, a sobrevivente recusa-se a submeter-se a sua atitude errática, de forma consistente e firme, colocando a sua sanidade e qualidade de vida em primeiro lugar.

O segredo do sucesso da sobrevivente: a tolerância do desconforto emocional

Visto que se afastar da própria mãe – mesmo quando extremamente abusiva – trata-se de uma tarefa inédita nos contextos socioculturais que glorificam os valores de família rígidos e obsoletos, comportar-se como uma sobrevivente requer estâmina. Como se não bastasse esta mentalidade coletiva retrógrada, a filha de mãe narcisista também deve enfrentar a sua notória falta de autoconfiança e medo insuportável de se autoafirmar. Quando uma criança é sistematicamente atacada e rejeitada cada vez que expressa a sua identidade, vontades e interesses próprios, aprende a associar a autoafirmação com uma experiência extremamente dolorosa. No decorrer do tempo, é condicionada a fazer somente o que favorece os pais controladores e a família disfuncional, sacrificando a própria alma como se fosse algo irrelevante. Portanto, para a filha de mãe narcisista a qual foi submetida a anos de maltratos psicológicos, emocionais e físicos, dizer não a quem abusa dela resulta, naturalmente, em grande desconforto emocional.

Como se autoafirmar é um supergatilho que remete a filha de mãe narcisista a várias experiências traumáticas de seu passado, tais como desentendimentos e discussões intermináveis, aprender a tolerar o medo, a insegurança e a ansiedade, assim como os demais sentimentos de inadequação associados a uma atitude autêntica e autônoma é determinante para o sucesso de seu processo de emancipação e crescimento pós-traumático. A filha de mãe narcisista consegue superar o trauma e até prosperar nos campos pessoal e profissional, quando reconhece e aceita tais vulnerabilidades, mas não se permite ser dominada por elas. Logo, a sobrevivente de sucesso é aquela que, por estar ciente de seus gatilhos, transcende o próprio trauma resistindo à pressão de se diminuir e se fazer insignificante diante da mãe narcisista e demais familiares, ato que, apesar de sua natureza incoerente, ainda é encorajado por um grande número de indivíduos que defende as instituições “mãe” e “família” como invioláveis.

Se você está pensando ou já iniciou o processo de corte ou redução de contato com a mãe narcisista e/ou família tóxica, mas não se sente segura, lembre-se de que este desconforto é normal considerando o seu histórico de abuso e trauma. Você não foi educada para se autoafirmar e agir de acordo com a sua cabeça, mas para submeter-se a eterna tirania de sua mãe narcisista. O que você está fazendo é um ato revolucionário até para o seu próprio entendimento, logo, dê tempo a si mesma, ao seu cérebro, ao seu corpo e as suas emoções, para se acostumarem com a ideia. Todo o tipo de hábito, por mais prejudicial a sua saúde, não é fácil de ser erradicado ou substituído sem um mínimo de desconforto emocional. Se você se sente inadequada para tomar uma decisão tão adulta e independente, tal como se distanciar de uma pessoa ou pessoas que lhe faz/fazem mal, a sua inquietação é um bom sinal, pois marca a saída da sua zona de conforto e um superavanço na sua habilidade de implementar mudanças positivas na própria vida.

Você não é a sua mãe narcisista, você está tendo um flashback

Você não é a sua mãe narcisista, você está tendo um flashback
Você tem um flashback quando é lembrada de uma experiência passada

Como filha de mãe narcisista, não é fácil separar-se do abuso sofrido. Isso se deve ao fato de que o trauma do desenvolvimento influencia a sua perspectiva de mundo e autoimagem. Quando você sofre uma série de eventos adversos durante o período de crescimento e desenvolvimento, estes moldam a maneira como você interpreta a informação a sua volta. Isto ocorre porque o seu sistema límbico ou cérebro emocional torna-se hiperativo como resultado de uma longa exposição ao estresse e às ameaças ao seu senso de segurança e bem-estar, você faz senso da sua experiência sob a lente do trauma, ou seja, de forma rápida, automática, emocional, tendenciosa e subjetiva.

Na prática, isso se reflete em atitudes e estados emocionais que seguem a incidência de um flashback. Você o tem quando lembrada de uma experiência passada, seja ou não prazerosa. Os flashbacks são normalmente visuais, fazendo com que se recorde de uma imagem de um evento passado e se sinta bem ou mal, ou puramente emocionais, permitindo que sinta as emoções de uma experiência passada (normalmente traumática), mas sem conseguir identificá-la ou visualizá-la. Esta última modalidade de flashback tende a ser a razão por trás dos episódios de intensa tristeza, raiva e inadequação, por exemplo, que causam angústia nas vidas de filhas de mães narcisistas mesmo quando não haja razão aparente para justificá-la.

Os flashbacks também são responsáveis por manter a memória de sua mãe narcisista presente na sua vida, mesmo depois de ter cortado o contato. Isso acontece, pois tudo que seja semelhante a ela ou ao vivido com ela, como a sua aparência e seu comportamento, por exemplo, pode tornar-se um gatilho. Assim que uma memória em relação a ela é ativada através de um gatilho, a probabilidade de você ter um flashback, visual ou emocional, é grande. Na prática, isso acontece de várias formas, como nos exemplos:

– Você está conversando com uma amiga no telefone e, de repente, faz um comentário usando uma expressão característica de sua mãe narcisista. Ao se dar conta do que disse, sente-se desconfortável, como se fosse, novamente, a criança insegura copiando o estilo de falar da mãe fria e desinteressada em busca de aprovação.

–  Você é mãe e está tendo um dia “daqueles”. Enquanto o seu marido vegeta na frente da televisão, você tenta sem sucesso colocar a roupa no seu filho de dois anos que, na fase do “não!”, torna o processo bem mais lento do que necessário, atrasando-a para o encontro com as amigas. Não conseguindo controlar a irritação, você perde a paciência com ele “da mesma forma que a sua mãe fazia com você”. Assim que nota, sente-se dominada por um terrível sentimento de culpa e fica envergonhada como se uma pequena explosão de raiva fosse o suficiente para defini-la como uma mãe abusiva.

– Você passou um fim de semana completando uma rota gastronômica. A experiência foi incrível, mas o resultado no seu estômago, nem tanto. Indo em direção à máquina de lavar com as roupas sujas tiradas da mala da viagem, você se flagra andando com o cabelo preso em um coque e com a protuberância abdominal para fora da camiseta, tal como a sua mãe narcisista circulava dentro de casa. A projeção e visualização desta imagem lhe causa intensa náusea, como se tivesse se tornado uma com a sua mãe narcisista.

Quando você tem um flashback como os citados, a tendência é pensar em algo do tipo, “Meu Deus, eu sou que nem a minha mãe/estou me tornando a minha mãe” ou indagar, “Será que eu sou narcisista?” e sentir-se extremamente inadequada e impotente. A verdade, contudo, na esmagadora maioria dos casos,  é outra. Somente porque você está se comportando de maneira similar a sua mãe (ou se parecendo fisicamente com ela), não significa que seja ou esteja agindo como ela, mas que, provavelmente, esteja tendo um flashback. Este, por ser carregado de significado emocional, pode distorcer o seu modo de interpretar o que está acontecendo, inclusive quando o que está vivendo no presente não tem nada a ver com o passado a qual foi remetida. Portanto, é importante entender que as observações mentais resultantes de flashbacks só fazem sentido sob a perspectiva do trauma, mas não refletem, necessariamente, o momento atual nem a pessoa que realmente você é. Portanto, fique tranquila: você não é a sua mãe narcisista, você está tendo um flashback.

Para reduzir a incidência de flashbacks e lidar com os demais efeitos do trauma, recomendo buscar uma terapeuta especializada em uma das abordagens terapêuticas do trauma, tal como a EMDR. Além disso, criar um inventário dos seus gatilhos, monitorar os seus humores e criar o hábito de conectá-los às experiências recentes e à ocorrência de flashbacks correspondem a atos simples que lhe ajudam não só no senso de autocontrole e autoeficácia, bem como no autoconhecimento e no processo de autorregulação emocional.

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista
O reconhecimento que você procura está dentro de você

De forma incoerente, egoísta e cruel, filhas e filhos de mães narcisistas são forçados a se sentirem culpados por se recusarem a tolerar o comportamento transtornado de suas mães narcisistas.  A mensagem que recebem dos pais facilitadores, parentes, amigos e colegas – bem como da sabedoria burra do senso comum – tende a permanecer a mesma: independente do que a sua mãe fez ou faça, nada parece ser condenável o suficiente para ser reprovado. O que ouvem, pelo contrário, é que é “seu dever” aturá-la, aplacá-la, satisfazê-la e até perdoá-la, mesmo quando esta não possui humildade nenhuma para pedir desculpas tampouco perdão pelo abuso que cometeu e ainda comete contra os próprios filhos. Não é nenhuma surpresa, portanto, que como filho ou filha de mãe narcisista, você se sinta pequeno e insignificante, além de apresentar problemas de baixa autoestima. Como conseguir se autoafirmar contra tamanha injustiça, quando é tão difícil encontrar aliados ou pessoas corajosas o suficiente para reconhecerem esta verdade?

Chegou a hora de parar de buscar confirmação externa para o seu sofrimento. O reconhecimento que você procura assim como o amor e o respeito que tanto merece estão dentro de você.  Para ajudá-lo a dar voz a você a tudo o que sente e passou nas mãos de uma mãe e família tóxicas, leia e memorize a lista abaixo para relembrá-lo de sua humanidade e valor:

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

  1. Eu tenho o direito de sentir raiva de quem abusa de mim.

  2. Eu tenho o direito de ser tratada como adulto.

  3. Eu tenho o direito de dizer não.

  4. Eu tenho o direito de cometer erros.

  5. Eu tenho o direito de cortar o contato com pessoas tóxicas, independente de quem sejam.

  6. Eu tenho o direito de viver a minha vida de acordo com a minha cabeça.

  7. Eu tenho o direito de reclamar do que não acho correto e das injustiças cometidas contra mim.

  8. Eu tenho o direito de validar a minha história e realidade.

  9. Eu tenho o direito de me proteger.

  10. Eu tenho o direito de sentir emoções antagônicas, bem como expressá-las de uma forma não abusiva.

  11. Eu tenho o direito de pedir e recusar ajuda.

  12. Eu tenho o direito a ter minha própria vontade, opinião e interesses.

  13. Eu tenho o direito de mudar a minha forma de agir e pensar.

  14. Eu tenho o direito de viver uma vida plena e de realizações.

Use e abuse desta lista para lembrar-se de que ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de abusar de você. Como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, “laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva e boçal”. Ainda que a mulher que lhe deu à luz pareça ter mais direitos do que você, não se deixe lograr por uma cultura familiar paternalista, condescendente e de superioridade que protege pais e mães negligentes e abusivos, enquanto ignora o trauma, a dor e o desespero de filhos e filhas. Você tem todo o direito ao listado acima e muito, muito mais. Faça de seus direitos a sua bandeira de amor-próprio e carregue-a consigo, permanentemente e onde estiver. Não se permita ser manipulado por chantagem emocional e pare de praticar gaslighting contra si mesmo. A melhor maneira de legitimar a sua verdade é vivendo-a de forma autêntica, autônoma e de dentro para fora, com muita coragem e determinação.

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1

Se você é filha ou filho de uma mãe narcisista, já deve ter formulado a seguinte suposição:

“Se eu aprender a lidar com a minha mãe, tornar-me mais fria e não me preocupar com o que ela diz ou faz, serei capaz de aguentá-la e não precisarei cortar o contato.”

No meu trabalho com filhas e filhos de mães narcisistas, é bastante comum encontrar clientes que mencionam isso como um de seus objetivos de terapia. Por ser uma noção tão comum e, ainda, tão errônea no contexto do relacionamento entre filhos e mães narcisistas/tóxicas, achei pertinente usar este espaço para esclarecer.

Então, vamos lá: é possível “treinar-se” para não se abalar emocionalmente com o comportamento abusivo e impróprio de uma mãe narcisista?

A resposta, na esmagadora maioria dos casos, é não. Isso se deve ao fato de que a sua mãe narcisista está no centro da sua história de trauma do desenvolvimento. Como a praticante de grande parte do abuso que você sofreu, a sua mãe narcisista é o seu gatilho número um. Para compreender a extensão do efeito que ela provoca sobre você, é vital entender o conceito de “gatilho”.

A mãe narcisista como um gatilho

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1
Um “gatilho” é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático

No contexto de qualquer tipo de trauma, seja físico, psicológico/emocional, de uma ocorrência singular ou complexo (uma série de eventos adversos), um “gatilho” (trigger, em inglês) é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático de seu passado. Para usar um exemplo bem estereotípico, o barulho de uma explosão pode tornar-se um gatilho para um soldado de guerra traumatizado. Toda a vez que houve um barulho semelhante, independente da origem e donde esteja, sente-se aterrorizado tal como quando se encontrava no campo de batalha. Este gatilho – o barulho de explosão – ativa a sua memória do trauma que, por sua vez, ativa as emoções antagônicas sentidas no momento em que ocorreu (por exemplo, medo), fazendo-o sentir-se vulnerável e indefeso, inclusive se estiver longe de qualquer perigo real.

É claro que há diferentes contextos de trauma, nos quais os gatilhos não são tão simples de serem identificados, tal como o do exemplo. No contexto de trauma complexo – a modalidade sofrida por vítimas de abuso narcisista – estes gatilhos podem ser pessoas e até emoções. A mãe narcisista, portanto, representa um supergatilho. Isso se deve ao fato de que tudo a respeito de sua pessoa, bem como o seu olhar, linguagem corporal, maneira etc. funcionam como gatilhos. Na presença de uma mãe narcisista, o filho ou filha sente-se, com grande frequência e quase automaticamente, como aquela criança vulnerável de muitos anos atrás. Portanto, todo aquele autocontrole, autoridade e autoconfiança de homem ou mulher adulto conquistado ao longo de sua experiência e longe de influência materna parece desvanecer-se na presença de sua mãe narcisista.

Este processo é tão rápido e sutil que escapa a sua consciência. Basta um comentário afetado ou uma crítica destrutiva para que as memórias e crenças do seu trauma sejam ativadas. Uma vez que você é transportada para o passado através destes gatilhos, o seu sistema límbico é ativado e as suas reações tornam-se rápidas, subjetivas, emocionais e até irracionais. Como esclareci no artigo anterior deste blog, esta área do seu cérebro, referido como o “cérebro emocional”, é onde são armazenadas as memórias do seu trauma e é, também, a região responsável por detectar ameaças e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Portanto, as suas reações, quando na presença da sua mãe, serão, na maioria das vezes, motivadas por intensas emoções antagônicas, até mesmo nas circunstâncias em que ela não estiver apresentando um comportamento que, tecnicamente, justifique a amplitude da sua reação. Lembre-se de que o seu sistema límbico é hiperativo em consequência do trauma, a probabilidade de você não se sentir inadequada na presença da pessoa que a abusou por longos e sofridos anos é quase nula. Quando você se familiariza com os aspectos neurobiológicos e entende o conceito de gatilhos, insistir em manter este relacionamento tóxico corresponde a uma atitude ingênua e incoerente.

Honrar as suas emoções é honrar você

A reação normal de um ser humano constantemente atacado verbal e fisicamente e tem a autoconfiança sistematicamente destroçada é se sentir mal e inadequado. Ninguém deve se esforçar para tolerar o abuso, seja de quem ou da natureza que for. As suas emoções, mesmo quando exageradas, são fontes de grande sabedoria, pois lhe avisam ou relembram da ameaça ao seu bem-estar. No contexto de abuso, tentar “controlá-las”, reprimi-las, ignorá-las ou normalizar o seu significado só promove ainda mais o mal-estar emocional e até a ocorrência de problemas de saúde física e mental. Logo, a melhor maneira de lidar com as suas emoções é respeitá-las e aprender com elas. Mesmo que você faça terapia e certas pessoas insistam que você “tem que” ter um relacionamento com a sua mãe, ou que cabe a você “aprender” a relevar a sua atitude abusiva e transtornada, o seu corpo ou você inteira – da cabeça aos pés – permanece o seu guia mais inteligente e humano. Está na hora de honrar a si própria e dizer não ao abuso narcisista. Se precisar de ajuda para reduzir ou cortar o contato com uma mãe narcisista, recomendo os meus livros, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

 

De que forma o trauma do desenvolvimento afeta o cérebro?

Crescer em um ambiente marcado pelo abuso tende a afetar o desenvolvimento de uma criança

Crescer em um ambiente marcado pelo abuso, seja de ordem emocional/psicológica e/ou física, tende a afetar o desenvolvimento de uma criança. Para filhos e filhas de mães narcisistas, assim como de mães tóxicas, o trauma do desenvolvimento compromete a sua capacidade de viver uma vida plena e de realizações. Isso se deve ao fato de que o estresse ao qual são submetidos quando crianças exerce um impacto negativo em seu desenvolvimento neurobiológico. Indivíduos que, durante a infância, sofreram com a negligência dos seus responsáveis e/ou foram constantemente agredidos de forma física e/ou verbal e, como consequência, estiveram sob a influência frequente de intensos sentimentos de inadequação, tais como: a solidão, o medo, a culpa e a vergonha, apresentam cérebros programados no modo “sobrevivência”.

Na prática, este constante estado de alerta permanece devido ao alto funcionamento de certas áreas do cérebro, enquanto outras se mantêm inativas ou apresentam baixa atividade. A seguir, elencam-se as consequências mais proeminentes e que foram estudadas nos exames de imagem realizados em um grande número de pesquisas científicas referente aos efeitos do trauma na infância, juntamente com os seus efeitos nas vítimas sobreviventes:

1- Alta sensibilidade do sistema límbico

O sistema límbico, composto por estruturas como o hipotálamo, o tálamo, a amígdala e o hipocampo, é considerado o “cérebro emocional”. Esta área é responsável, entre outras, por detectar ameaças ao nosso bem-estar e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Nos indivíduos cujas histórias pessoais de desenvolvimento incluem a negligência e/ou abuso, o sistema límbico (especialmente a amígdala) é hiperativo, ou seja, tende a responder muito mais fácil e rapidamente a supostas “ameaças”. No entanto, trata-se de uma reação exagerada que não reflete a realidade de forma acurada, na maioria das vezes, identifica perigos onde não existem e gerando estresse desnecessário.

Efeitos: índice elevado do hormônio do estresse – cortisol – no sangue, problemas de concentração, dificuldade de aprendizado, de manter metas, de se organizar e de regular as emoções, irritabilidade, insônia/problemas do sono, reflexo de susto exagerado, hipersensibilidade à luz e a sons, entre outros.

Uma das reclamações mais comuns de minhas clientes é que se consideram altamente reativas – ou que se abalam com grande facilidade – até quando reconhecem que as suas reações emocionais são desproporcionadas. Além disso, relatam que ao se sentirem afetadas emocionalmente, seja pela raiva ou ansiedade (em geral, causada pela preocupação excessiva), por exemplo, têm dificuldade de voltarem “ao normal” ou se desligarem destas com a agilidade de que gostariam.

2- Baixa atividade do córtex cerebral

O córtex cerebral compreende a parte do cérebro onde se originam os pensamentos analíticos e racionais, além de tratar de funções relacionadas ao aprendizado e à nossa habilidade de resolver problemas de modo objetivo. O córtex pré-frontal, em especial, é responsável pela reflexão balanceada e objetiva que permite ao indivíduo analisar e fazer planos, decisões e julgamentos baseado em comportamentos passados. Também é onde não só se avalia o próprio pensamento ou funções cognitivas (metacognição) (Fleming, Huijgen & Dolan, 2012), bem como regula os impulsos, as vontades, as compulsões e o comportamento nas interações sociais. Nas vítimas sobreviventes do trauma do desenvolvimento, a reatividade emocional é tão grande e a atividade da amígdala tão rápida e intensa, que tende a dominar o processo de interpretação de informação. Como resultado, o córtex, literalmente, “não tem chance” (Van der Kolk, 2014) de auxiliá-las a interagirem com o mundo a sua volta e com seus próprios pensamentos de uma forma equilibrada, adulta e sem a influência das crenças e emoções relacionadas ao trauma.

Efeitos: alta reatividade emocional (ex.: alta raiva e ansiedade que não diminuem com o tempo), temperamento volátil, dificuldade de criar e manter relacionamentos saudáveis e de regular as emoções, as vontades, os impulsos e os comportamentos nas interações sociais.

Este fenômeno é observado, de forma clássica, na atitude daquela cliente e filha de mãe tóxica/narcisista que, embora seja adulta, inteligente e tenha plenas condições de viver uma vida autônoma, sente-se como uma criança e totalmente pressionada pela própria inadequação. Portanto, assemelha-se ao indivíduo que primeiro age para pensar depois e, por consequência, arrepende-se seguidamente de seu próprio comportamento ou sente-se descontente com a maneira pela qual responde a situações estressantes ou que requerem uma atitude mais equilibrada e autocentrada. Quando se permite parar para pensar a respeito de si e suas opções de forma calma e centrada – tal como no ambiente da terapia – agem de maneira a, naturalmente, ativar as áreas de seu cérebro responsáveis pelo raciocínio objetivo, tal como o córtex.

Se você se identifica com os pontos mencionados, não é por ser “incompetente”, “burra”, “errada” ou “lesada”, mas porque está sofrendo com os efeitos do trauma do desenvolvimento. Estas reações não são aberrantes, mas normais considerando o contexto do abuso e da negligência ao qual foi submetida durante muito tempo. Neste sentido, o seu cérebro não é deficiente e exerceu perfeitamente o papel que deveria, ao tentar não apenas proteger os seus bem-estares físico, emocional e psicológico, assim como preservar o relacionamento com as pessoas responsáveis pela sua sobrevivência e que deveriam, em teoria, terem-na protegido e assegurado um ambiente familiar funcional e harmonioso para o seu desenvolvimento. Para lidar com os efeitos do trauma da melhor maneira possível, é vital que, em primeiro lugar, conscientize-se desta verdade.

Referências

Fleming, S. M., Huijgen, J. & Dolan, R. J. (2012). Prefrontal Contributions to Metacognition in Perceptual Decision-Making. J Neurosci. 32(18): 6117–6125. doi: 10.1523/JNEUROSCI.6489-11.2012

Van der Kolk, B. (2014). The Body Keeps the Score: Mind, Brain and the Body in the Transformation of Trauma. London, UK: Penguin Books.

 

Tipos de abuso

Abuso é um comportamento cruel e violento intencionado a manter um indivíduo sob controle de, pelo menos, outra pessoa. Contrário ao que  se entende amplamente por abuso, compreende muito mais do que dano causado ao corpo por meio da violência física (ex. doméstica), mas inclui toda e qualquer conduta imprópria ou ato de violência que afeta os bem-estares físico, emocional, psicológico e/ou espiritual de outra pessoa. Na maioria dos casos de abuso – como o cometido por uma mãe tóxica/narcisista – o comportamento  abusivo não se limita a uma ocorrência, ocorre de forma repetitiva por um determinado período, podendo incluir grande parte ou toda a infância da vítima sobrevivente, assim como se estender à idade adulta. O abuso, no entanto, não ocorre somente no ambiente familiar, pode ser observado em todo e qualquer relacionamento. A seguir são elencados os tipos de abuso para que você entenda de que maneira acontece na prática e como pode afetá-la:

(A palavra “criança”, em muitos dos exemplos pode ser substituída por “pessoa”)

Abuso emocional/psicológico

Tipos de abuso
Culpar uma criança pelas próprias escolhas é abuso
  • Culpar a criança pelo que acontece consigo, inclusive pelas próprias escolhas
  • Provocar a criança ou fazê-la se sentir mal para servir a um fim, de forma consciente e premeditada
  • Usar o medo, a culpa e a vergonha para manipular a criança a fazer somente o que deseja através de chantagem emocional
  • Ameaçar abandonar a criança quando faz algo errado ou não se comporta como desejado
  • Travar o crescimento e desenvolvimento pessoal da criança rejeitando a sua identidade e autonomia de modo consistente e sistemático
  • Tratar a criança como um ser inferior, incompetente ou indigno de ser amado
  • Submeter a criança a grandes e constantes variações de humor, tal como testemunhar ataques de raiva frequentes
  • Ignorar, negar ou banalizar a existência de problemas de saúde mental na criança
  • Ignorar, negar ou rejeitar os limites pessoais da criança
  • Trivializar a natureza dos comportamentos abusivos, como ataques verbais e o uso indiscriminado de mentiras como se fossem aceitáveis, sem importância ou inconsequentes
  • Agir de forma passivo-agressiva fazendo a criança sentir-se inadequada de forma sofisticada e insidiosa para aliviar ou “lidar” com a própria raiva e insatisfação pessoal
  • Incesto emocional: tratar a criança como se fosse o adulto responsável pelos seus cuidados e bem-estares físico, psicológico e emocional. Buscar conselho ou compartilhar de problemas de ordem emocional com a criança, como se fosse adulta e com a incumbência de oferecer apoio emocional ao adulto.

Negligência emocional

  • Não reconhecer os sentimentos da criança, ignorá-los ou tratá-los como dispensáveis
  • Recusar-se a validar o efeito que as suas atitudes exercem no bem-estar emocional da criança
  • Não escutar a criança nem valorizar a sua expressão pessoal, assim como os sentimentos
  • Não expressar empatia pelo sofrimento ou desconforto emocional da criança
  • Incentivar, inclusive indiretamente, a repressão das emoções, sobretudo quando negativas
  • Manter-se emocionalmente distante e desinteressado dos sentimentos da criança
  • Rejeitar ou culpar a criança por sentimentos de natureza antagônica, tal como a raiva
  • Incentivar, através de exemplo de comportamento, a incongruência emocional, ou exigir que a criança pareça feliz quando se sente descontente

Negligência Física

  • Ignorar os problemas de saúde física da criança e não buscar assistência médica
  • Não fornecer abrigo ou ser capaz de manter a criança bem nutrida e/ou vestida de forma apropriada
  • Manter a criança sozinha e sem supervisão por períodos prolongados, principalmente quando ainda não tem a idade para cuidar de si
  • Tornar uma criança responsável pelos cuidados de outra(s) criança(s)
  • Forçar uma criança a prover ou contribuir financeiramente pelo seu próprio sustento (ou da família), seja através de trabalho, seja forçando-a roubar ou mendigar

Abuso Verbal

  • Intimidar e humilhar a criança com rótulos de conotação negativa, tal como “burro”, “estúpido”, “imbecil” etc.
  • Usar nomes de natureza chula e derrogatória para descrever a criança ou o seu comportamento
  • Provocar, rir ou zombar da criança
  • Ter o hábito de comparar a criança a outras pessoas
  • Ter o hábito de resmungar, importunar ou gritar com a criança

Abuso físico (violência doméstica)

  • Agredir uma criança fisicamente através de tapas, pancadas, chutes
  • Queimar ou agredir uma criança fisicamente por meio de um objeto, tal como um cinto
  • Sacudir ou empurrar a criança contra uma parede ou objeto
  • Forçar a criança a comer ou beber; ou se recusar a alimentá-la
  • Forçar a criança a se exercitar, fazer uma tarefa ou atividade física que supere a sua capacidade e disposição

Abuso sexual

  • Tocar ou acariciar as zonas erógenas e/ou órgão sexual da criança
  • Olhares impróprios, fazer “brincadeiras”, comentários ou insinuações maliciosas
  • Expor-se ou masturbar-se na frente da criança
  • Masturbação mútua com a criança
  • Ter relação sexual com a criança (vaginal, oral e/ou anal)
  • Penetrar uma criança com o uso de dedos ou objetos
  • Ejacular na criança
  • Forçar a criança a assistir filmes pornográficos, ou a fazer parte de um
  • Tirar fotos pornográficas de uma criança
  • Forçar uma criança a ter relações sexuais com outra, ou a assistir outros tendo relações sexuais
  • Forçar a criança a ter relações sexuais com animais
  • Forçar a criança a participar de jogos sexuais ou torturá-la sexualmente
  • Recusar-se a conversar com a criança a respeito de sexo, puberdade e menstruação, como se fosse algo sujo e impróprio

Abuso vicário

  • Expor a criança a abuso de qualquer natureza cometido a outrem, tal como membro da família

Abuso espiritual

  • Usar verdades espirituais, palavras ou textos religiosos para coagir, justificar comportamentos e atitudes impróprias, manipular ou cometer algum tipo de dano à criança, seja de ordem física, sexual, psicológica ou emocional
  • Conjurar uma autoridade divina ou usar da autoridade espiritual para endossar um comportamento impróprio ou forçar a criança para servir aos seus próprios interesses

Como se colocar em primeiro lugar em 2018

Como se colocar em primeiro lugar em 2018
Você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar

Dar prioridade ao próprio bem-estar não equivale a egoísmo, tampouco a narcisismo, já que uma autoestima alta é uma característica psicológica funcional e não patológica. Por mais que a sua mãe narcisista a tenha convencido do contrário ao longo de muitos anos de abuso, lavagem cerebral e um comportamento egoísta e egocêntrico, você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar. Mesmo que você seja mãe ou esteja vivendo um relacionamento amoroso, as suas necessidades, vontades e interesses têm grande relevância para a preservação de sua essência e saúde mental, bem como para garantir a sua qualidade de vida e a dos relacionamentos. Não há melhor exemplo de mãe, amiga ou parceira amorosa do que uma mulher que se valoriza como um indivíduo seguro e autônomo.

Sem dúvida, para quem foi criada em um ambiente familiar disfuncional e negligente, não se revela uma tarefa fácil concentrar-se em si, nos seus próprios problemas e objetivos. Se você está cansada de se sentir como uma atriz coadjuvante na própria vida, seguem 5 dicas de como se colocar em primeiro lugar em 2018:

1- Questione as atitudes e motivações codependentes

Colocar-se em primeiro lugar é dar atenção a si mesma de forma ativa e consciente, antes de tudo. Na prática, consiste em dizer não à codependência e sim ao amor-próprio, ou se concentrar em resolver a própria dor, assim como lidar efetivamente com os sintomas do trauma em vez de direcionar a atenção ao narcisismo da mãe, aos problemas do pai, da irmã, do irmão, dos amigos, parentes, parceiros amorosos etc., já que não são sua responsabilidade. Portanto, se a sua mãe é narcisista, não cabe a você encontrar a cura para o problema dela, pois além de não lhe pedir ajuda, não a reconhece como tal, tampouco dá valor a sua dedicação. A codependência não é uma atitude nobre, mas uma tendência comportamental masoquista e de autossabotagem baseada em estratégias de defesa e enfrentamento disfuncionais que evitam lidar com as emoções negativas fortes, tais como a tristeza e a vergonha de não ser amada pela própria mãe (e muitas vezes também pelo próprio pai e demais membros da família) através da negação, repressão, sublimação e dissociação, entre outros.

Para questionar a sua tendência codependente, monitore os pensamentos (sobretudo em relação a sua família) e, toda a vez que se flagrar tentando resgatar quem quer que seja, pergunte-se:

“Por que eu estou mais preocupada com os outros do que comigo mesma?”

“Que inseguranças e emoções negativas estou tentando mascarar através desta atitude?”

 “Quais são as minhas necessidades neste momento?”  

2- Mantenha uma atitude de tolerância zero com a culpa e a vergonha

No contexto do narcisismo materno, a culpa e a vergonha são sentimentos extremamente contraproducentes a uma autoestima saudável. É comum eu recomendar cautela aos meus clientes quando se sentem invadidos por tais sentimentos devido ao seu grande poder tóxico; entretanto, no caso de filhas de mães narcisistas, esta recomendação é redobrada. Se você tem uma mãe tóxica narcisista, recomendo muitíssimo que desconfie de pensamentos em relação a ela e à família que resultam em culpa e vergonha, pois 99,99% das vezes são incoerentes e provenientes de crenças negativas capazes de travarem o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Lide com a culpa e a vergonha como lidaria com um incêndio dentro de casa, extinguindo-as imediatamente. Para fazê-lo, pode contar com a ajuda do seu diálogo interno iniciando um questionamento racional, adulto e centrado das verdadeiras motivações de tais sentimentos, como a chantagem emocional, por exemplo. Se preciso, verbalize a sua aversão à culpa e vergonha de forma clara através da escrita ou dizendo para si mesma em voz alta: “Culpa/vergonha em alta, autoestima em baixa!” Quando você se liberta da influência da culpa e vergonha, readquire a atenção e energia necessárias para focar em si, nos seus interesses e nas suas realizações.

3- Diga não à autossabotagem

Cultivar uma “autoestima” condicional, não respeitar os próprios limites e negligenciar os sentimentos, bem como se entregar ao perfeccionismo, à crítica negativa, à codependência, à procrastinação e à imobilidade são atitudes autossabotadoras. Tudo aquilo que rejeita quem você é e cria uma distância entre você e a sua essência compromete a autorrealização, seja nos campos pessoal, acadêmico ou profissional. Se você tem o hábito de acreditar em todo e qualquer pensamento que passa pela sua cabeça – especialmente os motivados pela culpa e vergonha, que insistem em convencê-la de não ser e agir de acordo com o seu verdadeiro eu para garantir a aprovação alheia ou de que não é boa o suficiente para alcançar o que deseja – isso a torna uma vítima fácil da autossabotagem. Quebre o ciclo da ruminação e saia do seu estupor reivindicando o direito de ser você, independente do que isso signifique. Lembre-se de que se aprende muitíssimo a respeito de si mesmo por meio de todo e qualquer ato cometido de forma honesta e autêntica. Rejeite a voz derrotista do narcisismo materno, seja proveniente de sua própria cabeça ou da língua venenosa de sua mãe, dizendo não à autossabotagem e dê asas a sua criatividade e expressão pessoal.

Sentir-se bem e em harmonia consigo é possível por intermédio da expansão da autoconsciência e autoconhecimento. Para entrar o ano sentindo-se com mais autonomia, adote uma posição autoafirmativa e inovadora investindo em maneiras de pensar e agir que complementam a pessoa que é e o que deseja para a própria vida. Se ainda necessita de mais inspiração para começar a implementar mudanças positivas na própria vida, sugiro a leitura do meu novo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.  No capítulo de número 4, Os cinco As de emancipação da filha de mãe narcisista, descrevo as atitudes e comportamentos que ajudam a filha de mãe narcisista a superar problemas antigos, readquirir o controle sobre si e reconectar-se com a própria vida.