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3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima

3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima
A superidentificação com o papel de vítima faz com que se esqueça que tem o poder de dizer não ao abuso

É terrível, cruel e desesperador sofrer abuso da própria mãe, além de ser solitário e doloroso não contar com o apoio emocional dos responsáveis pelos próprios cuidados quando se é criança, vulnerável e dependente. Sobretudo, é injusto ter o seu desenvolvimento prejudicado e a visão de mundo corrompida por uma mãe egoísta e transtornada que nunca é devidamente considerada responsável pelo mau que causa aos filhos. Embora tudo isso seja a mais pura verdade e reflita a história dos filhos e filhas de mães narcisistas, não precisam pensarem, comportarem-se e sentirem-se como uma vítima para o resto de suas vidas. Quando este é o caso, no entanto, a superidentificação com o papel de vítima faz com que se concebam, exclusiva e excessivamente, através deste ângulo e “esqueçam” que, como adultos, são capazes e têm o poder de dizer não ao abuso e viver uma vida realizadora. Para ser relembrada da própria força e ajudá-la a pensar e agir como uma sobrevivente, destacam-se 3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima:

1- A sua motivação de vida é o “tenho que”: desde o momento em que acorda até quando volta para a cama, o seu dia-a-dia é recheado de tarefas e obrigações que “têm que” cumprir. Quase nada do que faz é tratado como uma escolha, mas como uma obrigação, já que pensa e age como se fosse impotente e uma vítima das próprias circunstâncias. Apesar da vida, por vezes, exigir sacrifício e esforço, a sua existência é regida por supostas “necessidades” que são, aparentemente, criadas fora de você ou lhe foram impostas. Aí, você indaga, “mas eu tenho que escovar os dentes todas as manhãs, da mesma forma que também tenho que trabalhar para pagar as contas, já que os meus dentes não se limpam sozinhos e o dinheiro não nasce em árvore!”. Correto, concordo. Contudo, manter os dentes limpos e as contas em dia permanecem escolhas suas. Mesmo sendo mãe e responsável por outras vidas, agir de forma responsável também é uma escolha sua (pergunte a sua mãe narcisista!). Na realidade, a maior parte do que fazemos e, de certa forma, do que acontece em nossas vidas, também é uma consequência direta ou indireta das nossas escolhas, sejam feitas de forma consciente ou não.

2- Você tem uma baixa tolerância ao desconforto: por que algumas pessoas conseguem se controlar e não comer, beber ou comprar em excesso, por exemplo, enquanto outras têm tanta dificuldade? Há inúmeras razões que explicam os diferentes comportamentos humanos, já que somos seres complexos e únicos, o que torna impossível responder esta pergunta sem conhecer o indivíduo em questão, bem como a sua história pessoal. Uma característica universal de todos os sobreviventes de abuso e demais pessoas que conseguem implementar mudanças positivas em suas vidas e libertarem-se dos hábitos que não os favorecem, no entanto, é a habilidade de tolerar o desconforto, ou “sair da zona de conforto”. Embora tenda a ser extremamente custoso para as vítimas do trauma do desenvolvimento, tais como os filhos e filhas de mães narcisistas, não adotarem comportamentos autodestrutivos e que lhes proporcionem gratificação imediata, já que exibem uma dificuldade de regulação emocional, quando se esforçam em tolerar o desconforto proveniente de dizer não, resistir à pressão e tentação, agir de forma autêntica ou se afastarem  de pessoas tóxicas, por exemplo, as recompensas pessoais tendem a ser incríveis a longo prazo. Para aqueles que desejam quebrar o ciclo do abuso e viver uma vida autônoma e realizadora, é fundamental que estejam dispostos a se sentirem mal antes de se sentirem bem.

3- Você se afunda na autopiedade: enquanto reconhece o valor de sentir pena de si mesmo, já que é essencial no período de luto, além de refletir uma atitude complacente, tolerante e empática em relação a si, não é um recurso psicológico que deva ser usado em demasia. A vítima abusa deste recurso quando o usa com grande frequência e no lugar da autoconsciência. Na prática, isso acontece quando se concentra mais em sentir-se mal do que em questionar as circunstâncias de seu infortúnio e a sua participação, direta ou indireta, no decorrer dos eventos que o ocasionaram. Desta forma, perpetua esse estado convencendo-se de que é impotente, através da recusa de analisar o papel que o pensamento e comportamento exercem na própria existência. Portanto, se você dedica grande parte do tempo a reclamar da vida, mas nunca reflete sobre a função que exerce nela ou toma responsabilidade pelos próprios atos (ou ausência destes), está agindo como uma vítima. Embora sofrer com os maus-tratos de uma família abusiva, assim como não ter o seu sofrimento validado seja uma grande injustiça, forçar-se a manter-se eternamente endividada a esta, além de ficar presa à identidade de vítima e atitude passiva enquanto aguarda ser resgatada é uma atitude de sabotagem e negligência com a própria felicidade.

Caso tenha se identificado com o relatado e deseje mudar este cenário e adotar uma mentalidade de sobrevivente, recomendo o seguinte:

1- Use o “quero” no lugar do “tenho que”: quem é o agente da própria felicidade faz, predominantemente, o que quer e não o que “deve”. Se a sua rotina está repleta de atividades que se vê forçada a fazer, mas não se identifica, está na hora de reavaliar o seu propósito. Na minha experiência, contudo, é a mentalidade de vitimização e não necessariamente a qualidade do ato em si que define o efeito que tem em você. Passe a ver o mundo como um resultado das suas escolhas e diga para si mesma: “Eu quero ir trabalhar”, “Eu quero limpar a casa”, “Eu quero estudar”, por exemplo, em vez de “tenho que”, afinal de contas, correspondem ao que escolheu para si.

2- Aumente a tolerância ao desconforto: se ainda está aqui e conquistou tudo que tem após anos de abuso narcisista, significa que é muito resiliente. Portanto, é competente e tem a capacidade de implementar mudanças positivas em sua vida, apesar das adversidades. Não desista e aprenda a tolerar o desconforto que provém de se engajar em comportamentos produtivos e funcionais que a removem da zona de conforto e a catapultam ao sucesso pessoal, como dizer não ao que e a quem lhe faz mal. Faça um investimento a longo prazo em si mesma e passe a se tratar bem e agir com a autoestima. Você é merecedora do seu amor-próprio.

3- Redirecione o foco da sua atenção para dentro e não fora de si: em vez de passar horas tentando entender porque os seus familiares, “amigos” e vizinhos não conseguem nem estão dispostos a reconhecer o mal causado a você, pense no que você pode fazer para melhorar a sua qualidade de vida e estimular o seu bem-estar e crescimento pessoal. Chegou a hora de parar de depender dos outros para sentir-se bem e dar sentido a sua vida. Liberte-se da escravidão da aprovação alheia, das garras da culpa e vergonha e retome o controle sobre o próprio corpo e destino.

Como administrar a hipervigilância e sair do modo luta ou fuga

Como administrar a hipervigilância e sair do modo luta ou fuga
A meditação aumenta a felicidade

Como aprendemos no artigo anterior do blog do Filhas de Mães Narcisistas, a hipervigilância, ou a visão tendenciosa ao perigo, é um dos efeitos do trauma complexo de se crescer em um ambiente de abuso e estresse tóxico. Este estado contínuo de alerta, além de interferir com a capacidade de se sentir segura e ter controle das emoções, mantém ou exacerba os sintomas dos transtornos de ansiedade, como o obsessivo compulsivo e de estresse pós-traumático (simples ou complexo), por exemplo. Se sofre de ansiedade e gostaria de resolver o problema de forma autônoma, saudável e sem depender de remédios, seguem algumas estratégias funcionais de como administrar a hipervigilância e sair do modo luta ou fuga:

Pratique a meditação regularmente: a meditação é uma superferramenta de equilíbrio emocional, principalmente para quem sofre com os pensamentos disfuncionais e a preocupação excessiva. Uma vez que você consiga introduzir o hábito de limpar a sua mente deste lixo cognitivo, ficará em uma posição privilegiada para exercer o controle sobre as emoções antagônicas. Os benefícios da meditação, no entanto, excedem o da regulação emocional, mas incluem os seguintes:

A meditação aumenta …

  • a felicidade
  • a função imunológica
  • a massa cinzenta
  • o volume de áreas relacionadas à regulação emocional, emoções positivas e autocontrole
  • a espessura cortical em áreas relacionadas à atenção
  • a conexão social e a inteligência emocional
  • o foco e a atenção

Diminui…

  • a dor
  • a Inflamação em nível celular
  • a depressão
  • a ansiedade
  • o estresse

Melhora…

  • a capacidade de regular as emoções
  • a capacidade de introspecção
  • a produtividade
  • a capacidade de multitarefa
  • a memória
  • a criatividade

Eu recomendo muitíssimo o livro do Mark Williams, Atenção Plena: Mindfulness  para quem quer se iniciar na prática da meditação, já que contém áudios de meditações guiadas e vem no formato de um programa de oito semanas, o qual foi comprovado cientificamente ser capaz de induzir mudanças positivas no cérebro.

Faça um detox das redes sociais: a sua dependência do celular como fonte de entretenimento e distração, bem como de outros aparatos eletrônicos, tais como a TV, o computador e o tablet, tem um grande potencial de resultar em sobrecarga sensorial. Esta superestimulação, a qual tem início já quando acorda e termina somente à noite, aumenta a hipervigilância e, portanto, a ansiedade, além de mantê-la presa a um mau hábito. Limite o contato com as “telas” e o acesso às redes sociais para que, conscientemente, resista à tentação e aprenda a controlar o impulso. No seu tempo livre, leia um livro, jogue ou brinque com os filhos, medite, converse com um colega, parceiro ou com o vizinho, faça um chá, dance, ouça música, faça exercício ou saia para caminhar, por exemplo, substituindo, de forma proativa, um hábito prejudicial por aqueles que favorecem a sua saúde emocional.

Reduza o consumo de alimentos ricos em carboidratos: o que você come também afeta o seu humor. O consumo de alimentos ricos em carboidratos refinados como o pão branco, batata, arroz branco, massa branca, cereais/sucrilhos, bolos, biscoitos, iogurte com açúcar e sucos, por exemplo, pode causar um desequilíbrio hormonal que resulta na produção dos hormônios do estresse, tais como o cortisol e a adrenalina. Isso explica porque muitos de nós se sentem ansiosos entre as refeições, quando se observa um declínio no nível de glicose no sangue e uma produção dos hormônios do estresse, os quais são responsáveis, também, por restaurá-lo.

Faça exercício/atividade física regularmente: caminhar, correr e fazer aula de dança, por exemplo, contribuem com a melhora de humor, pois reduzem os sintomas da depressão e ansiedade. Isso se deve ao fato de que o exercício e a atividade física aumentam a produção de endorfinas e a sensibilidade do cérebro aos hormônios serotonina (associado ao bem-estar) e norepinefrina (associado à energia), os neurotransmissores que se acredita interferirem com o humor.

Reduza drasticamente ou corte o contato com as pessoas tóxicas: uma característica universal das pessoas tóxicas é que não conseguem regular as emoções nem agirem de forma centrada e empática nos relacionamentos. A mãe narcisista não é uma exceção, pois usa os filhos como muletas emocionais, manipulando-os e abusando destes para se sentir melhor consigo própria. Desta forma, o convívio com tal pessoa irritadiça, inquieta e profundamente insatisfeita, faz com que os filhos se vejam forçados a lidar com uma descarga negativa emocional que não provém de seus próprios corpos. Infelizmente, isso não é algo que possamos controlar com facilidade, pois as emoções são extremamente contagiosas, sejam positivas ou negativas. Essa nossa capacidade de sermos diretamente afetados pelo humor do outro se deve, grandemente, ao que os neurocientistas referem-se como “mimetismo automático” (Chartrand; van Baaren, 2009), ou a imitação inconsciente ou automática da fala, movimentos, gestos, expressões faciais e olhar fixo  das pessoas com as quais interagimos. De acordo com Prochazkova e Kret (2017), “Quando as pessoas inconscientemente imitam as expressões de emoção do parceiro, elas também passam a sentir as reflexões dessas emoções” (“When people unconsciously mimic their partner’s expressions of emotion, they come to feel reflections of those emotions as well”), o que explica porque você se sente tão mal ao lado da genitora narcisista, até quando se encontra de boca fechada. Portanto, se deseja sentir-se feliz e equilibrada, é vital que se concentre nos relacionamentos funcionais e nas pessoas que a favorecem emocionalmente, limitando o contato com aquelas que não lhe fazem bem, como, por exemplo, o seu gatilho número 1, nominalmente, a mãe narcisista. Se isto lhe parece uma ideia atraente, mas não sabe como executá-la, recomendo a leitura do meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, pois contém dicas práticas de como cortar ou reduzir o contato através do “Relacionamento Light” (Prisioneiras… página 201).

Faça terapia: somente o fato de saber que tem alguém com quem conversar, que a compreende sem julgamento, é confortante, pois reduz os sentimentos de solidão, rejeição, alienação e isolamento, tão característicos das filhas de mães narcisistas. Além disso, ter um espaço seguro para desabafar, dar voz à angustia e externá-la ajuda a regulá-la, assim como as demais emoções antagônicas, tais como a raiva acumulada, tristeza e vergonha crônica, entre outros efeitos do trauma. Para ter acesso a uma lista completa dos efeitos do trauma e abordagens terapêuticas que recomendo para filhos e filhas de mães narcisistas, sugiro a leitura do Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

Para não se sentir presa no feedback loop da hipervigilância e ansiedade (hipervigilância » ansiedade » hipervigilância), monitore como se sente, assim como atitudes, hábitos, pensamentos e relacionamentos que tenham um efeito nocivo em seu equilíbrio e em sua saúde emocional. Sobretudo, para sair do modo luta ou fuga e começar a curtir a vida, saia da zona de conforto, aprenda a tolerar o desconforto e passe a agir como uma sobrevivente e agente de mudanças.

Sinais e sintomas de que está operando no modo luta ou fuga

Se é uma leitora assídua deste blog, sabe quais são os efeitos do estresse tóxico resultantes de um longo convívio com uma família disfuncional e mãe narcisista na sua mente, no seu corpo e no espírito. Um dos efeitos mais marcantes deste trauma é a hipervigilância ou um estado contínuo de alerta. Isso se deve ao fato de que, neurobiologicamente, as filhas e os filhos de mães narcisistas foram programados para estarem sempre preparados para enfrentar um eminente perigo ou ameaça ao seu bem-estar, ou seja, para lutar ou fugir de ataques, essencialmente, de sua genitora abusiva. Como este estado é extremamente prejudicial não somente a sua saúde psicológica e emocional, mas também física, segue uma lista completa dos sinais e sintomas de que está operando no modo luta ou fuga para aumentar a sua compreensão acerca do problema:

Sinais e sintomas de que está operando no modo luta ou fuga
Um dos efeitos mais marcantes do seu trauma é a hipervigilância ou um estado contínuo de alerta
  1. Você tem o hábito de imaginar catástrofes ou antecipar um resultado negativo.
  2. Você sofre de armouring ou tensão nos músculos da região dos ombros, nuca e mandíbula.
  3. Você dispõe de grande energia em agradar e sente-se insegura e até culpada quando não consegue cativar a todos.
  4. Você é impulsiva e age com base em emoções fortes, além de não ter paciência para aguardar por uma resolução mais centrada e refletir com calma acerca das alternativas.
  5. Você possui uma visão de mundo excessivamente subjetiva e tendenciosa para o negativo, portanto, quando algo não ocorre como esperado, acredita que a responsabilidade é sua ou tem a ver com você de alguma forma.
  6. Você tem dificuldade de se identificar com as emoções antagônicas em suas diversas intensidades e parece ser capaz de senti-las somente de forma excessiva, crônica ou patológica. O que é, potencialmente, uma expressão coerente e saudável de tristeza, por exemplo, torna-se “depressão”, a raiva é considerada “descontrole/loucura” e o medo, “ansiedade”.
  7. Você tem dificuldade de criar e manter relacionamentos funcionais e duradouros.
  8. Você tem medo de perder as pessoas que ama, bem como os animais de estimação, e tem pensamentos intrusivos com cenários nos quais morrem de um jeito terrível ou inesperado.
  9. Você sofre de terror noturno e demais distúrbios do sono, tal como a insônia.
  10. Quando percebe certa seriedade, insegurança, ansiedade ou frustração no comportamento de outra pessoa, prepara-se para “o pior”.
  11. Quando alguém age de forma ríspida ou não demonstra interesse por você, leva para o lado pessoal e fica ruminando sobre o ocorrido por um longo período.
  12. Você se sente vulnerável e incapaz de se autoafirmar, proteger-se e implementar mudanças positivas em sua vida.
  13. Você tem plena ciência do que não lhe agrada, mas se sente perdida em relação a si mesma e não sabe quem verdadeiramente é, do que gosta e deseja fazer da própria vida.
  14. Você fica nervosa em relação aos afazeres ou às pessoas com as quais convive, sem ao menos saber o porquê e mesmo quando tem plena competência para executá-los e de interagir socialmente de modo satisfatório.
  15. Você sente um medo terrível de forma bastante inesperada, o qual não corresponde às circunstâncias atuais.
  16. Quando recebe uma crítica construtiva ou é agredida verbalmente, sente-se pessoalmente atacada, assume uma atitude defensiva ou congela na frente do outro, tornando-se muda e desorganizada cognitivamente e sem saber o que dizer, como agir ou se defender.
  17. Você está solteira há bastante tempo e evita envolver-se emocionalmente com outra pessoa por ter sido magoada no passado e acredita que irá passar por isso novamente.
  18. No seu caso, não existe estresse bom (temporário, saudável/energizante e motivador), mas somente ruim (crônico, disfuncional/patológico e debilitante).
  19. Você está sempre irritada com alguém ou alguma coisa e tem crises de raiva com facilidade.
  20. Você é bombardeada por pensamentos intrusivos de cenários imaginários em que se vê exposta a perigos ou a ataques ao seu bem-estar e a sua autoestima.
  21. A paz, calma e harmonia são entediantes para você e só se sente verdadeiramente viva quando engaja em comportamentos excessivos, a vida é repleta de drama ou passa por momentos de altos e baixos.
  22. Você não tem vontade de ter relações sexuais com o(a) parceiro(a), consegue ter prazer no sexo ou sente que precisa forçar-se para concentrar-se no momento e conseguir curti-lo.
  23. Você se sente desconectada das pessoas a sua volta ou as considera como uma ameaça a sua autoestima e ao seu bem-estar.
  24. Quando precisa entregar um trabalho ou fazer algo que será analisado por outra pessoa, leva um longo tempo para iniciá-lo, procrastina e, quando finalmente o finaliza, revisa o que produziu mil vezes e de forma neurótica como se fosse proibido cometer erros.
  25. Você tem uma imensa dificuldade de relaxar e parece estar sempre cansada, desmotivada e sem energia até para fazer o que lhe dá prazer.
  26. Você tem problemas de relacionamento que parecem não melhorar com o tempo e a idade.
  27. Você possui um transtorno alimentar, de personalidade, ansiedade e/ou humor.
  28. Você sente uma solidão e um vazio existencial imensos que parecem não diminuir com a experiência.
  29. Você tem dificuldade de viver no presente e curtir os pequenos prazeres da vida.
  30. Você tem pensamentos de suicídio.
  31. Você se assusta com grande facilidade.
  32. Você tem asma, câncer, é diabética ou sofre de uma doença crônica inflamatória ou autoimune.
  33. Você evita ambientes novos ou o contato com as pessoas que não conhece bem, a todo o custo, assim como as interações comunicativas delicadas e que exijam uma atitude assertiva.
  34. Quando você se força ou precisa encontrar uma pessoa desagradável, fica tentando prepara-se para o evento de forma neurótica e obsessiva, como se fosse uma questão de vida ou morte.
  35. Você perde o sono com muita facilidade, seja porque tem de entregar um trabalho na faculdade, mudar de residência, fazer uma apresentação no trabalho, interagir com uma pessoa difícil/importante etc.
  36. Você tem dificuldade de concentração e sente-se facilmente distraída pelo que acontece a sua volta.
  37. Você tem o hábito de desconfiar dos outros e tentar ler a sua mente para descobrir quem são e as “verdadeiras intenções”.
  38. O seu desenvolvimento (formação de identidade, autonomia, maturidade emocional, crescimento pessoal e profissional) parece não progredir de maneira substancial com a passagem do tempo, ou se iniciou mais tarde do que a média das pessoas.
  39. Você é impaciente, reativa e sente-se frequentemente insatisfeita, envergonhada e culpada pela forma como age.
  40. Você se sente inepta intelectualmente ou acredita ter dificuldade de aprendizado, pois leva tempo para resolver os problemas e/ou memorizar e aprender coisas simples.
  41. Você se atrasa com grande frequência e tem dificuldade de se organizar e manter compromissos.
  42. Você sofre de ansiedade crônica e só consegue sentir-se bem quando come, faz compras, está sob medicação psiquiátrica tal como os antidepressivos e ansiolíticos, consome bebida alcoólica, joga, usa drogas ou exercita-se, por exemplo.
  43. Você já teve pelo menos um episódio depressivo e se vê em risco de passar por isso novamente.

Caso tenha se identificado com esses exemplos e acredita que esteja operando no modo luta ou fuga, recomendo que enderece o problema da hipervigilância através de uma atitude proativa e consciente. No próximo artigo, incluirei dicas de como administrá-la de forma natural, saudável e, sobretudo, sem a ajuda de remédios. Para ser avisada por e-mail da data de publicação deste e outros artigos publicados no Filhas de Mães Narcisistas, basta cadastrar-se na nossa Newsletter.

A cultura familiar de incesto emocional e codependência

Para quem é brasileiro ou português e provém de uma família tóxica, “ser filho” equivale a um grande peso. Este sentimento corresponde a uma cultura familiar sustentada por valores rígidos e obsoletos, os quais supervalorizam as necessidades dos pais e negligenciam as dos filhos. Tal cultura é centrada extensivamente nas emoções, carências, vontades e interesses dos genitores, além de promover uma dinâmica relacional disfuncional que nega a existência de limites pessoais e desencoraja a autonomia, seja psicológica, emocional ou, até, financeira, de todos os membros da família. Estas famílias são comumente referidas, também, como “emaranhadas” (enmeshed), pois são constituídas de relacionamentos cujos limites pessoais são bastante turvos e imprecisos, bem como os papéis de pai/mãe e filho/filha. Essa cultura difunde a visão de que os filhos encontram-se em eterno débito em relação aos pais, cultiva-se de geração em geração através de culpa, medo e vergonha, além de uma atitude abusiva de incesto emocional e de codependência.

A cultura familiar de incesto emocional e codependência
Em um relacionamento emocionalmente incestuoso, o pai e/ou mãe usa o filho para atender às necessidades que deveriam ser supridas por si mesmo ou outros adultos

Em um relacionamento emocionalmente incestuoso, o pai e/ou mãe usa o filho para atender às necessidades que deveriam ser supridas por si mesmo ou outros adultos, condicionando-o, desde pequeno, a concentrar-se no seu bem-estar e não no de si próprio. Recentemente, fui lembrada por um cliente brasileiro desta dinâmica disfuncional e que, embora muito comum, raramente é questionada. Em um momento bastante estressante e delicado financeiramente de mudança de residência, o cliente em questão foi comunicado de que a mãe havia se internado em um hospital privado para tratar um problema de saúde. Conversando ao telefone com ela, “compreendeu” que lhe era esperado que arcasse com todas as despesas hospitalares. Sentindo-se dominado por um grande sentimento de obrigação com a mãe porque cuidava dos filhos quando precisava, aceitou a incumbência sem ao menos esclarecê-la acerca de sua atual situação. Sem demonstrar o mínimo interesse sobre a sua condição atual – como lhe é de costume – a genitora aceitou a oferta do filho de boca fechada e mãos abertas. Para garantir os padrões de cuidado esperados pelos pais, o meu cliente teve de pedir um empréstimo no banco, endividando-se, ainda mais.

Nesse exemplo, fica claro que as necessidades da mãe prevalecem sobre as do filho. Fica evidente ainda que os seus sentimentos de inadequação, tais como a vergonha e o medo de ser internada em um hospital público, não foram lidados de forma honesta, aberta e autônoma, mas descarregados nas costas do filho para que os “resolvesse”. Embora o meu cliente também tenha se sentido sobrecarregado e cansado, tanto física como emocionalmente, não ocorreu aos genitores, em nenhum momento, oferecerem-no ajuda tampouco demonstrarem empatia com o período atribulado que atravessa. A lavagem cerebral a qual foi submetido desde criança e o acordo silencioso e de mérito irrefutável de que é sua obrigação não somente antecipar, mas também estar permanentemente disponível para atender as necessidades dos pais foi suficiente para que ignorasse as suas, as dos filhos e as da esposa e se sacrificasse por eles.

No relacionamento familiar codependente, os filhos também servem como garantia de que os padrões e o estilo de vida dos pais serão mantidos quando se tornarem idosos. Esta noção, bastante difundida em meu país de origem, cria um imenso problema na vida de milhões de brasileiros, especialmente, para quem é pai e mãe e se vê sobrecarregado financeiramente não somente com as necessidades da própria família, assim como de seus genitores. Neste cenário, sentem-se compelidos a “ajudar” os pais para “retribuírem” o que fizeram por si, como se a dedicação e o amor de pai e mãe fossem inteiramente condicionais e dependessem de recompensação financeira para serem validados. Em um país onde a corrupção política e o abuso são a regra e não a exceção e cujos cidadãos se veem forçados a compensar com os próprios recursos por um sistema previdenciário falho e que gera grande insegurança pessoal, não é surpreendente que a noção de que seja correto para os filhos comportarem-se como os pais dos próprios pais e isentarem-no da responsabilidade do próprio cuidado e bem-estar é apoiada, inclusive, por uma lei federal.

Portanto, no sistema de troca da família disfuncional, emocionalmente incestuosa e codependente, a bússola moral dos filhos é amplamente voltada para os estados emocionais e necessidades dos pais, já que estes são emocionalmente imaturos para lidarem com a própria inadequação e arcarem com as consequências de suas próprias escolhas e atitudes, como as que influenciam a sua segurança financeira, saúde física e qualidade de seus relacionamentos. De si, é esperado que restaure o seu equilíbrio emocional e supra as suas carências, independentemente de sua natureza. Assim sendo, um filho é considerado competente e bom o suficiente quando consegue compensar pela incapacidade dos pais de agirem de forma emocionalmente autônoma, consciente, madura e condizente com as próprias circunstências (ou sua recusa de aceitarem-nas).

Esta cultura, embora se pressuponha defender os princípios de união familiar e respeito aos idosos, sustenta uma mentalidade de sujeição, servidão, obediência e rejeição que corrompe a harmonia dos relacionamentos familiares e o crescimento e desenvolvimento pessoal de todos os envolvidos. Mesmo quando plenamente capazes, tanto física como intelectualmente, de concentrarem-se no próprio bem-estar e investirem em práticas de cuidado pessoal, tais genitores são negligentes com o corpo e a mente e modelam uma atitude de dependência que tem efeitos danosos tanto na sua saúde, autoestima e identidade, quanto nas dos filhos.

Para quem se vê como uma vítima de tal cultura familiar, é normal sentir-se abandonado, alienado, pequeno e insignificante. No meu trabalho com os filhos e filhas de famílias tóxicas torna-se claro que a cultura familiar reacionária, conservadora e de incesto emocional e codependência, tão reverenciada no Brasil e Portugal, ajuda a perpetuar a exploração e o abuso, além de desembocar, ultimamente, em problemas sérios de saúde mental e relacionamentos. Vale a pena lembrar que o respeito e a união familiar só são genuinamente observados na prática quando se originam da empatia, amor incondicional e respeito à liberdade pessoal e que, por esta razão, são mantidos de forma saudável e, sobretudo, sustentável, tanto pelos pais quanto pelos filhos.

Os efeitos do trauma da infância na saúde fisica – O estudo dos ACEs

Os efeitos do trauma da infância na saúde fisica - O estudo dos ACEs
O trauma da infância compromete, também, a saúde física

Um dos objetivos centrais do Filhas de Mães Narcisistas é aumentar a consciência acerca do trauma da infância e dos efeitos do estresse tóxico na criança em desenvolvimento. Se você é um leitor assíduo deste blog e já devorou o Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade para Filhas de Mães Narcisistas e o Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, está ciente dos efeitos cognitivos, comportamentais, relacionais, sexuais e espirituais de seu trauma. Para um filho ou filha de uma mãe narcisista/tóxica/abusiva que exibe um alto nível de consciência, os termos “estresse (tóxico)”, “trauma”, “família disfuncional”, “abuso” e “negligência” são-lhe bastante conhecidos. O intuito do presente artigo é ampliar o seu conhecimento em relação aos efeitos que estas experiências negativas podem ter no seu corpo, precisamente, na sua saúde física. Para que consiga atingir este objetivo e compreender a verdadeira dimensão dos efeitos do trauma da infância, é essencial familiarizar-se com o estudo dos ACEs.

O estudo dos ACEs      

O estudo dos ACEs foi uma pesquisa conduzida no final dos anos 90 por um centro de controle e prevenção de doenças nos Estados Unidos chamado Kaiser Permanente. A finalidade do estudo foi estabelecer a conexão entre as experiências adversas da infância (Adverse Childhood Experiences = ACEs) e a ocorrência de doenças a longo prazo. Elenca-se, abaixo, os exemplos centrais ao que se refere como ACEs ou experiências adversas/eventos traumáticos:

  • Abuso físico
  • Abuso sexual
  • Abuso emocional
  • Negligência física
  • Negligência emocional
  • Violência por um parceiro íntimo
  • Mãe tratada violentamente
  • Uso indevido de substâncias dentro de casa
  • Doença mental de um membro da família
  • Separação parental ou divórcio
  • Membro da família encarcerado

Cada experiência adversa ou trauma listado equivale a uma pontuação de ACE. No estudo dos ACEs, realizado com mais de 17.000 adultos, 87% dos entrevistados apresentaram uma pontuação de pelo menos um trauma/evento adverso na infância, fato que revela, inequivocamente, a natureza penetrante do trauma. Os resultados da pesquisa também determinaram que quanto maior o nível de disfunção familiar e a exposição do indivíduo em desenvolvimento a maltrato e ao estresse tóxico, maior a sua probabilidade de sofrer a longo prazo os seguintes problemas de saúde física:

  • Doenças gastrointestinais
  • Doenças cardiovasculares
  • Doenças respiratórias
  • Doenças sexualmente transmissíveis
  • Fraturas ósseas
  • Obesidade
  • Diabetes
  • Câncer

O estudou também estabeleceu que uma pontuação de 4 ou mais ACEs aumenta a probabilidade de…

  • Alcoolismo em 700%
  • Câncer em 200%
  • Doença pulmonar crônica em 390%
  • Hepatite em 240%
  • Depressão em 460%
  • Tentativa de suicídio em 220%

Já uma pontuação de 6 ou mais ACEs, reduz a expectativa de vida, em média, 20 anos (é 80 anos para os indivíduos com uma pontuação de ACEs zero) e aumenta ainda mais a probabilidade de se tentar o suicídio (3.000%).

Reiterando a relevância do estudo dos ACEs

O estudo dos ACEs destacou a relação tão elementar entre a qualidade dos relacionamentos familiares e circunstâncias de desenvolvimento de uma criança com o seu bem-estar físico e não somente o aspecto psicológico e emocional. Através das estatísticas significativas de um estudo de tal magnitude obtém-se a confirmação cientifica de um conhecimento que para a sobrevivente é bastante intuitivo, ou seja, que o abuso e a negligência, em todas as suas formas, causam um grande impacto negativo no ser humano como um todo, corpo e mente. Portanto, faz-se elementar, também para a vítima que ainda busca tanto a validação do seu trauma como o entendimento do impacto que exerce em si e no seu desenvolvimento, inteirar-se sobre os resultados do estudo dos ACEs e informar-se a respeito dos potenciais efeitos prejudiciais que as experiências adversas sofridas na infância podem causar ou já causaram na sua saúde física na idade adulta.

O aumento da consciência acerca de sua condição de vulnerabilidade pode ajudá-lo a ganhar uma renovada apreciação pelas práticas de cuidado pessoal, manutenção do bem-estar e prevenção de doenças, tais como o exercício ou atividade física, uma dieta equilibrada e o controle do consumo de álcool e alimentos ricos em açúcar, por exemplo. Sobretudo, o estudo dos ACEs reafirma a necessidade de uma mudança radical nas atitudes relacionadas ao abuso e à negligência, seja em nível micro, meso ou macrossocial, já que as implicações à saúde pública, bem como sociais e econômicas, compreende a todo nós e não somente às minorias marginalizadas, como divulgado pelo senso comum. Os indivíduos e as famílias que compõem a nossa sociedade, assim como os profissionais da saúde mental e física, escolas e instituições religiosas e governamentais envolvidos direta ou indiretamente nos contextos de abuso e negligência necessitam adotar uma atitude de respeito e apoio evidentes às vítimas/sobreviventes, a qual é comunicada sem ambiguidade e sustentada incondicionalmente.

Para calcular a sua pontuação de ACEs, responda o questionário contido aqui (disponível somente em inglês).

Fontes:

Aces too High News

Adverse Childhood Experiences Study

Center on the Developing Child Harvard University

SAMHSA Substance Abuse and Mental Health Services Administration

 

Como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019

Como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019
Os amigos verdadeiros celebram os momentos especiais e demonstram apreciação e gratidão pela amizade

Porque todos necessitamos de relacionamentos funcionais em nossas vidas para nos sentirmos realizados no campo pessoal, achei pertinente usar este espaço para incluir dicas de como criá-los e mantê-los saudáveis. Infelizmente, em um filho ou filha de mãe narcisista, este conhecimento tende a não lhe ser nato, visto ter sido criado em um ambiente tóxico de muito abuso e negligência afetiva e emocional. Devido ao fato de que provém de uma cultura familiar disfuncional, é comum perpetuar esta tendência relacional também fora deste ambiente e atrair pessoas imaturas emocionalmente e até tóxicas. Para ajudá-lo a mudar este quadro neste novo ano que se inicia e melhorar a qualidade dos seus relacionamentos, seguem 9 dicas de como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019:

1- Tenha paciência e dê tempo ao tempo. Os relacionamentos funcionais não ocorrem da noite para o dia, mas tendem a levar tempo para se tornarem sólidos. Este tipo de relacionamento possui uma dinâmica democrática e adulta, é formado por indivíduos maduros e autônomos que respeitam a liberdade pessoal, as vontades e os interesses dos outros. Nessas circunstâncias, não é não. Em vez de ficarem de cara amarrada e fazerem chantagem emocional para conseguir o que querem, são pacientes, respeitam o tempo e o espaço do outro e entendem quando o momento é inapropriado para certos encontros, planos ou atividades, ou quando é necessário encontrar um meio-termo ou chegar a um consenso que favoreça ambas as partes da melhor forma possível.

2- Lembre-se do que é ser amigo e, sobretudo, do que não cabe a este papel. Os amigos[i] verdadeiros são empáticos, compreensivos e respeitosos, além de agirem com a autoestima e autoconfiança, colocando-se primeiro, como regra, na própria vida e não depois do outro, independente do nível de intimidade que compartilhe. Enquanto que o amigo leal ajuda em momentos difíceis, não é função de nenhum amigo comportar-se como o pai, mãe ou terapeuta do outro e estar permanentemente disponível para “resgatá-lo”. Independente do tipo de apoio que se dá a um amigo, isso também não equivale a uma obrigação, mas a um ato de amor, bondade, amizade e compaixão. Vale lembrar que a ajuda só é saudável para um relacionamento quando respeita as limitações de quem a oferece, assim como é da natureza do próprio relacionamento.

3- Mantenha o respeito. A amizade verdadeira é descontraída e inclui a brincadeira, mas não compactua, de forma alguma, com o bullying e o abuso verbal. O amigo verdadeiro, mesmo quando de inteligência engenhosa e humor astucioso, sabe como regular o poder da própria língua para não intimidar ou expor o outro. Nos relacionamentos saudáveis, o humor, o riso e a piada são usados para se conectar com o outro e não para aliená-lo.

4- Exerça um alto nível de consciência e autonomia emocional. Nos relacionamentos funcionais não há codependência e dependência emocional, mas tanto você como o seu amigo exibem um alto nível de consciência sobre o próprio comportamento e estado emocional. Neste contexto, ambos estão cientes da influência que podem exercer um no outro e a forma que se afetam emocionalmente, o que os fazem mais cautelosos e honestos em relação à forma de agir, principalmente quando se sentem sob o forte domínio de sentimentos antagônicos. O amigo de verdade lida com a própria inadequação, amplamente, de modo independente e não usa o amor e a cumplicidade do outro para descarregar a raiva e se regular emocionalmente, por exemplo, de maneira aproveitadora, indolente e irresponsável, mas permanece atento – mesmo quando frustrado – do impacto que causa nele.

5- Peça desculpas. Porque amigos verdadeiros estão sujeitos, como todos nós, a cometerem erros, reconhecem quando não se comportam de forma adequada e magoam o outro, pedindo desculpas e assumindo a sua parcela de responsabilidade pelas consequências de seus atos. É pertinente relembrar que os relacionamentos funcionais, apesar de altamente respeitosos e saudáveis, são humanos, portanto, não são perfeitos.

6- Não insista em discussões desnecessárias. Por mais que nos identifiquemos com o outro e tenhamos um relacionamento harmonioso com os nossos amigos, é normal haver momentos em que os nossos pensamentos se opõem. Nos relacionamentos funcionais, “We agree to disagree”, ou concordamos em discordar, com calma e naturalidade. Isso se deve ao fato de que, em uma interação adulta, democrática e equilibrada, defender e argumentar contra uma ideia não é um ato intencionado a converter o outro ou forçá-lo a ver o mundo de certa forma, mas um exercício de socialização, reflexão e livre troca de ideias. Nestes casos, mesmo que haja desconforto resultante de um sentimento de antagonismo, deve-se lidar de maneira autônoma e sem envolver o outro, puni-lo ou isolá-lo, por exemplo, por ter visões de mundo próprias.

7- Seja verdadeiro. Quando se é aceito pelo outro, não temos medo de ser quem somos, independente do que isso signifique. Nos relacionamentos saudáveis, a autenticidade permite que nos mantenhamos verdadeiros com o nosso eu, corpo e sentimentos, isto facilita a intimidade e a realização pessoal também com outro ser humano. Mentir, inventar desculpas e fingir que é outra pessoa para agradar ou atender às expectativas de um “amigo” não reflete uma forma de se relacionar espontânea, genuína e baseada na autoestima, afeto e respeito, mas uma atitude insegura e codependente.

8- Demonstre apreciação e gratidão pela amizade. Os amigos verdadeiros mantêm viva a amizade mesmo quando distantes, cultivando-a de forma ativa e consciente. Isso ocorre quando se esforçam para manterem-se cientes do que acontece na vida do outro, por exemplo, celebram os momentos especiais e demonstram apreciação e gratidão pela amizade seja diretamente através de palavras ou indiretamente por meio de manifestações de afeto e carinho.

9- Todos responsabilizam-se pelo relacionamento. Quando um relacionamento “funciona” e favorece o indivíduo, todos os envolvidos esforçam-se para mantê-lo saudável. Nestes contextos, há um evidente entendimento sobre a complexidade dos relacionamentos humanos e uma clara intenção de dedicar-se a superar problemas, sejam de ordem individual ou coletiva. Nas situações as quais apenas um indivíduo sente-se inteiramente responsável pelo (bom) funcionamento de um relacionamento e trabalha sozinho para garantir a sua sobrevivência, esta atitude tende, na esmagadora maioria das vezes, a produzir o efeito oposto, ou a perpetuar uma dinâmica disfuncional.

Embora os relacionamentos humanos necessitem de nossa dedicação para funcionarem, quando você insiste em melhoras em um relacionamento – seja da natureza que for – mas nunca se concretizam ou são sustentadas a longo prazo é porque não são possíveis. Se já investiu meses e até anos em um relacionamento com a esperança de que mude e se torne recompensador sem nenhum sucesso significativo, está na hora de se conscientizar deste fato, parar de desperdiçar energia e buscar novas oportunidades.

[i] O termo “amigo” também pode ser substituído por “parceiro amoroso”

 

Entenda a conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual

Entenda a conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual
A insatisfação sexual é uma questão que tende a afligir as vítimas de abuso narcisista

No artigo anterior deste blog, “Como regular as emoções negativas”, sugeri técnicas simples para a regulação emocional, algo que comumente revela-se como um desafio para as filhas de mães narcisistas. No presente artigo, exploraremos outra questão que tende a afligir as vítimas de abuso narcisista e que está intrinsicamente relacionada a sua história de trauma e dificuldade de regular as emoções: a insatisfação sexual.

Embora a conexão entre o abuso sexual e o desenvolvimento dos problemas desta ordem seja-nos fácil de ser concebida, associar o trauma causado pelos abusos de natureza psicológica/emocional e a falta de satisfação sexual da vítima não é algo que exploremos com a mesma naturalidade. Comumente se observa, inclusive no ambiente terapêutico, é que a vida sexual do(a) cliente – se lidada na sala de terapia – raramente é examinada sob a perspectiva do trauma, sobretudo quando não está relacionada, essencialmente, a um histórico de abuso sexual. Enquanto que compreendemos o impacto negativo que o estupro potencialmente cause nas relações sexuais após o evento, é difícil imaginar como ser humilhado e rejeitado por uma mãe tóxica ao longo do desenvolvimento influencia a capacidade de um indivíduo de ter uma vida sexual satisfatória na idade adulta.

A verdade, nua e crua, é que independente da natureza do trauma, todos têm o potencial de causar um grande impacto na qualidade de vida da vítima, inclusive sexual. Abaixo estudaremos os principais fatores que contribuem para este cenário e expõem a conexão entre o trauma, os problemas de controle emocional e a insatisfação sexual.

Alta reatividade

Se você é um leitor assíduo dos artigos publicados no blog do Filhas de Mães Narcisistas, já está ciente de que o cérebro humano, quando exposto a contínuo estresse tal como é característico ao se crescer sob a tirania de uma mãe narcisista, apresenta duas características centrais:

  1. Alta sensibilidade do sistema límbico ou região do medo
  2. Baixa atividade do córtex cerebral ou região do pensamento analítico e objetivo

Em vista disso, a carga emocional das vítimas do trauma do desenvolvimento tende a ser demasiado pesada, pois sofrem de estresse crônico e se abalam emocionalmente com facilidade, o que torna difícil levar a vida de forma leve. Portanto, sentir-se bem, relaxada e disposta para ter relações sexuais pode equivaler-se, literalmente, a um grande esforço. Um estudo com gêmeos realizado por Harris et al. (2008) confirmou esta tendência quando demonstrou que aqueles que se descreveram como ansiosos e emocionalmente instáveis, ansiosos, ou que se perturbam com facilidade, são menos propensos a atingir o orgasmo regularmente do que aqueles que se consideraram mais estáveis emocionalmente. De fato, faz sentido concordar com Barlow et al. (2002) ao afirmarem que a ansiedade e o alto nível de estresse impedem a excitação sexual, já que divergem o foco dos estímulos sexuais.

Estilo de apego inseguro

As filhas de mãe narcisistas apresentam um estilo de apego ou vínculo inseguro no contexto relacional, ou seja, nutrem um profundo medo de confiar nas outras pessoas e serem abusadas e rejeitadas novamente. Esta inclinação, por mais que seja automática e inconsciente, cria imensas barreiras à intimidade, à saúde de sua vida sexual e ao sucesso de relacionamentos, em especial os amorosos. Quem não se sente segura também dentro da própria pele nem possui as ferramentas saudáveis para lidar com a inadequação, acaba se distanciando das emoções e do próprio corpo como uma medida (falha) de “regulação emocional”. Quando você negligencia o corpo e as emoções, a sua autoestima vai para o fundo do poço.  Nestes contextos, você se esquiva de ter relações e concentra-se exclusivamente nas necessidades do(a) parceiro(a), o que reduz ainda mais a sua satisfação sexual não somente a curto, mas também a longo prazo.

A conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual faz-se clara quando analisamos os efeitos no cérebro e corpo da vítima de forma holística. Se você está insatisfeita com a sua capacidade de regular as emoções e a qualidade da sua vida sexual, é vital que invista tempo e energia para curar as feridas do seu trauma e aprenda a controlar o estresse ativamente, já que nunca é tarde para se dedicar a medidas de melhoramento de qualidade de vida e dos relacionamentos.

Referências

Harris J.M., Cherkas L.F., Kato B.S., Heiman J.R. & Spector T.D. (2008). Normal variations in personality are associated with coital orgasmic infrequency in heterosexual women: A population-based study. Journal of Sexual Medicine, 5, 1177–1183.

Barlow, D. H., Wiegel, M. & Scepkowski, L. A. (2002). Cognitive-Affective Processes in Sexual Arousal and Sexual Dysfunction. Boston, MA: Markus and Boston University.

Como regular as emoções negativas

Uma das reclamações mais frequentes que recebo de minhas clientes é que têm dificuldade de regular as emoções antagônicas. Como cresceram em um ambiente de extrema negligência emocional, é compreensível que sejam deficientes nesta área, já que foram condicionadas, desde pequenas, a reprimirem e até a descartarem a própria inadequação para se concentrarem nas necessidades de suas mães narcisistas. Além disso, em função do seu desenvolvimento ter ocorrido em um ambiente de intenso estresse resultante do convívio com uma mãe abusiva, possuem uma alta sensibilidade do sistema límbico, o que aumenta a sua reatividade (para mais informações sobre o sistema límbico e como o trauma do desenvolvimento afeta o cérebro, clique aqui).  Em vista destes fatores, faz-se vital que aprendam como superar esta deficiência para aumentarem a sua qualidade de vida e dos relacionamentos.

Como regular as emoções negativas
As filhas de mães narcisistas têm dificuldade de regular as emoções antagônicas

Para ajudá-la a regular as emoções negativas, recomendo seguir os 5 passos abaixo descritos, na ordem sugerida:

1- Avalie o seu estado emocional e decida se precisa agir

Assim que perceber uma mudança em seu humor, aumente a consciência sobre o seu estado emocional registrando o momento mentalmente, ou seja, que não está bem. Validar a própria inadequação e atribuir-lhe a relevância que merece de forma consciente e autônoma facilita o desencadeamento do processo de regulação emocional. Logo que notar que não está se sentindo bem (estressada, com raiva etc.), pergunte-se: “Preciso fazer algo a respeito?”. O intuito desta simples pergunta é mobilizá-la para a ação, se julgar necessária. Se não sabe como avaliar se precisa tomar uma atitude, lembre-se do seguinte: a emoção negativa de maior duração é a tristeza, podendo durar até cinco dias, enquanto que a vergonha, a surpresa, o  medo, a repulsa e a irritação possuem duração menor (em média, 30 a 60 minutos (Verduyn & Lavrijsen, 2015)), portanto, se exceder esta média, provavelmente, merece a sua atenção.

2- Identifique as emoções, a primária e a secundária

Quando estudamos os processos de fluxo e regulação das emoções, percebemos que não são tão simples como parecem. A raiva ou culpa que você sente, por exemplo, pode não ser o sentimento que predomina na sua reação emocional. Segundo Lazarus (1991), o renomado psicólogo e teórico das emoções, o processo de regulação emocional é feito através de uma transição entre uma emoção primária (instantânea, desregulada) e secundária (reguladora), o que pode dificultar o nosso entendimento acerca do que estamos sentindo e porquê. Para entender este fenômeno, imagine que está dirigindo em alta velocidade, quando um motorista inconsequente corta a sua frente. Então, o que sente, raiva? Nestes casos, a raiva é a emoção secundária e não a primária, pois ocorre após o medo de perder o controle do carro e nos ajuda a regulá-lo. A raiva, neste contexto, contribui para reavermos a nossa autoestima e confiança em nós mesmos, bem como nossas habilidades. O conhecimento de que as emoções vêm em tais “ondas” pode direcioná-la de forma mais acurada para a raiz da sua inadequação, um processo que, por si só, diminuirá a sua intensidade.

3- Aja imediatamente

Quando dominada ou incomodada por uma emoção antagônica persistente, não perca tempo e faça algo a respeito, o quanto antes. Quanto mais cedo você lidar com a sua inadequação, menos prejuízo lhe causará. Há várias maneiras de lidar ativamente com as emoções antagônicas, como através de exercícios de respiração e relaxamento muscular progressivo de Jacobson. Eu sugiro muitíssimo ambos não somente como estratégias funcionais de regulação emocional, mas também como práticas regulares para o controle da hipervigilância (um dos principais sintomas do TEPT-C, Transtorno do Estresse Pós-traumático Complexo).

4- Exerça o controle cognitivo

Se deseja desenvolver a sua capacidade de autocontrole, é fundamental que trabalhe com o seu córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável, entre outros, pela metacognição e regulação de comportamentos impulsivos, tais como aqueles altamente influenciados pela raiva. Abaixo são elencadas algumas técnicas cognitivas básicas que a ajudarão a ativar esta área altamente sofisticada do seu cérebro:

  1. Redobre o seu nível de autoconsciência. Monitore os seus pensamentos, comportamentos e emoções diariamente. Registre, seja mentalmente ou com a ajuda de um diário, a maneira como os seus pensamentos influenciam o seu estado emocional e comportamento e vice-versa. Identifique, sobretudo, o tom do seu diálogo interno e os tipos de pensamentos que funcionam como gatilhos para a sua inadequação e desembocam em comportamentos disfuncionais.
  2. Questione os pensamentos negativos com a ajuda de um Relatório Diário de Pensamentos Disfuncionais (RDPD). As filhas de mães narcisistas tendem a sofrer com a autocrítica e uma grande variedade de pensamentos improdutivos, como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. Estes pensamentos disfuncionais estão no cerne de sua inadequação, já que é difícil sentir-se alegre e confiante quando se carrega uma mini mãe narcisista dento do próprio cérebro. Para calar a boca desta tirana interna e exercer mais controle sobre as emoções, recomendo completar um RDPD pelo período de no mínimo duas semanas, para aprender como questionar os pensamentos negativos que afetam o seu humor.
  3. Identifique as suas vulnerabilidades. Quando as minhas clientes não estão bem emocionalmente, os seus níveis de codependência, procrastinação e perfeccionismo, por exemplo, tendem a encontrarem-se altos. Isso se deve ao fato de que tais vulnerabilidades abrangem estratégias de enfrentamento disfuncionais para reavermos a nossa autoestima e regularmos a nossa inadequação. A questão é que não resolvem o problema a longo prazo, mas acabam por estendê-lo, portanto, ao se flagrar fazendo uso de tais táticas, abandone-as imediatamente e aplique as sugeridas neste artigo.

5- Pratique a autoaceitação

Sentir as emoções negativas faz parte de ser humano. Assim como nem toda a emoção negativa tem um propósito, é normal senti-las na grande diversidade de situações que compõe a existência. O seu sucesso em regular e até controlar as emoções também depende da sua capacidade de aceitá-las com tolerância e respeito. Mesmo quando parecer não fazerem sentido, aceite-as para que consiga aceitar a si mesmo. Indivíduos autoconfiantes, íntegros e centrados são aqueles que agem de forma emocionalmente congruente e madura e que se permitem honrar todas as emoções que constituem o repertório humano, sejam positivas ou não.

Referências

Lazarus, R. S. (1991). Progress on a cognitive-motivational-relational theory of emotion. American Psychologist, 46, 819-834.

Verduyn, P. & Lavrijsen, S. (2015). Which emotions last longest and why: The role of event importance and rumination. Motiv Emot, 39, 119–127. DOI 10.1007/s11031-014-9445-y

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão

Se você é filha de uma mãe narcisista/tóxica/abusiva, a seguinte questão já deve ter permeado a sua consciência, reiteradamente:

“Eu devo perdoar a minha mãe narcisista?”

Como qualquer decisão de peso, o perdão em relação a sua mãe narcisista precisa ser uma reflexão proveniente de sua essência e de seu momento e não uma obrigação, resultado de uma pressão sociocultural ou imposição de terceiros, é importante refletir detidamente sobre essa questão antes de tomar uma decisão precipitada. Como acredito no poder transformador do conhecimento e no livre-arbítrio, bem como da autoconsciência e do amor-próprio, este artigo é dedicado a oferecer-lhe uma nova perspectiva acerca do perdão, que valide a sua realidade de filha de mãe narcisista e história de abuso e trauma, pois o seu contexto pessoal é bem especial. Para alcançar este objetivo, abaixo seguem 5 mitos sobre o perdão:

1- “Você tem que perdoar”

Primeiramente, vale a pena enfatizar: o perdão não é uma obrigação, mas uma escolha. Ninguém é obrigado a perdoar ninguém, seja ou não parente. Perdoar (ou não perdoar) é uma experiência íntima que diz respeito somente a você. “Ter que” carrega uma obrigatoriedade que lhe rouba o direito de ser e agir de acordo com a sua essência, vontade e sentimentos. Ninguém sabe como é ser você tampouco vivencia a sua experiência, portanto, não se entregue à intimidação e ao bullying de quem não veste a sua pele. Você é livre.

2- “Perdoar é um ato que beneficia a todo mundo”

Para quem acredita neste mito, convido a fazer ao que me refiro como “o teste do perdão”. Ao terminar de ler este artigo, perdoe a sua mãe narcisista para si mesma da forma mais genuína que conseguir e registre o momento em um pedaço de papel ou em seu celular. A partir desta data, mantenha um diário por, no mínimo 30 dias, relatando como se sente. No final deste período, faça uma avaliação franca de si. Então, sente-se substancialmente renovada, aliviada, mais centrada e feliz após ter perdoado a sua mãe narcisista, ou exatamente da mesma maneira (ou pior) do que antes? Não há nada de errado com você se nada mudou, pois você não é “todo mundo”, mas um indivíduo de alta complexidade, com personalidade e sentimentos próprios.

3- “Perdoar fará com que se sinta melhor”

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão
Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional

Devido ao fato de que somos únicos em nosso jeito de ser e sentir, o perdão não é para todos, pois nem todo mundo sente-se instantaneamente bem após perdoar alguém. Além disso, o perdão que faz alguém sentir-se melhor – de forma sólida e duradora – vem no momento certo, ou seja, depois do luto. Isso é porque o perdão consiste em um processo de aceitação não somente de natureza intelectual, mas, sobretudo, emocional. Quem perdoa com “a cabeça” (racionalmente) e não com “o coração” (emocionalmente) pratica o perdão rápido demais e negligencia os estágios do luto que precedem o final (negação e isolamento, raiva, negociação e depressão), a aceitação. O luto é uma necessidade para quem perdoa, pois é um processo fundamental pelo qual se compreende e se aceita uma realidade, tanto com o corpo como com a alma. Colocar o perdão na frente do luto, ou querer perdoar a mãe narcisista sem nunca se ter permitido processar as emoções antagônicas em relação a este relacionamento disfuncional tende a não produzir resultados positivos a longo prazo.

4- “Quando se perdoa alguém, o relacionamento sempre melhora”

Se você acredita nesse mito, recomendo-lhe, mais uma vez, a fazer o meu teste do perdão. No término desta leitura ou quando tiver tempo, perdoe a sua mãe narcisista interna ou diretamente na presença dela. Após fazê-lo, registre o ocorrido e verifique consigo mesma depois de trinta dias. Como foi? O relacionamento com ela melhorou, continua igual ou pior do que antes? No Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade para Filhas de Mães Narcisistas questiono o suposto poder transformador do perdão no contexto do narcisismo materno, já que, “Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional” (Prisioneiras…, p. 203). Tendo em vista a prática da mãe narcisista e demais indivíduos abusivos usarem a vergonha e a culpa que frequentemente acompanham o perdão para nunca reconhecerem o sofrimento de suas vítimas e perpetuarem o abuso que as infringe, a probabilidade de que o perdão, sozinho, desencadeie um processo transformador deste relacionamento é, virtualmente, nula.

5- “O perdão só funciona quando é pedido ou dito diretamente para a pessoa”

Quando o perdão é uma experiência orgânica e não uma obrigatoriedade ocorre no seu tempo e é sentido de dentro para fora. Assim como os sentimentos que se originam de um estado de profunda e sincera aceitação, o perdão, quando autêntico, é uma experiência sua. Desta forma e porque está ciente disso, você não “tem que” comunicar ninguém quando (e se) o perdão materializa-se – tampouco a sua mãe narcisista – pois é algo concernente apenas a si. O perdão alardeado de modo afetado e com superioridade não corresponde a um ato equilibrado, mas à insegurança pessoal e à necessidade de aprovação.

Para quem cresceu sob a tirania e atitude transtornada e abusiva de uma mãe narcisista, o perdão não é uma novidade, mas um exercício diário de tolerância, dependência emocional, codependência e, até, sobrevivência. Contudo, afirmar que – inquestionavelmente e em todas as circunstâncias – o ato de perdoar a mãe narcisista, em si, cura as feridas do seu trauma é uma afirmativa errônea, não reflete a realidade de um grande número de filhos e filhas de mães tóxicas. Embora o perdão possa ser uma experiência genuinamente benéfica para alguns, não se trata de uma regra para todos os seres humanos nem possui a mesma relevância prática, relacional, psicológica e emocional. Caso esteja se questionando se “deve” perdoar a mãe narcisista, verifique com o seu corpo, e não somente com o seu intelecto, se verdadeiramente deseja isso. Acima de tudo, respeite o seu ritmo e honre as emoções ou quem neste momento você é.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?

Como já ouvi muitos de meus clientes usando os termos “codependência” e “dependência emocional” como se possuíssem o mesmo significado e os afetassem da mesma maneira, achei pertinente usar este espaço para esclarecer a diferença entre os dois. Visto que ambos são conceitos relevantes no contexto de abuso narcisista, mães tóxicas e relacionamentos disfuncionais e abusivos, é necessário que você aprenda a distingui-los para compreender a forma como interferem em seu desenvolvimento, sua qualidade de vida e de relacionamentos. Começaremos, então, explorando a codependência.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?
A filha de mãe narcisista toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora para sentir-se “amada” por ela

A codependência

Um indivíduo codependente é aquele que usa a dependência que os outros têm nele para se sentir amado e seguro, tanto consigo como em um relacionamento.  Um exemplo clássico de codependência é o do marido ou esposa que ignora o alcoolismo do(a) parceiro(a) ou nega que seja um problema para contentá-lo(a) e garantir a “estabilidade” do relacionamento. Análogo à filha de mãe narcisista que toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora e de seu relacionamento com ela, culpando-se por problemas que não são seus para sentir-se “amada” e aceita por ela. Logo, a filha de mãe narcisista é codependente quando usa a dependência (emocional, psicológica, financeira etc.) da mãe em si para sentir-se valorizada e manter um relacionamento “harmonioso” com esta.  A codependência, portanto, é sempre disfuncional, pois direciona o foco do indivíduo para fora de si, assim como para as estratégias de enfrentamento de problemas mal-adaptativas, retardando o seu desenvolvimento. Além disso, a codependência, como um comportamento que corrobora e facilita as atitudes impróprias de terceiros, ajuda a perpetuar os problemas de saúde mental e relacionamento e, até, o abuso.

Por esta razão, a filha de mãe narcisista, quando age de forma codependente, confunde a dedicação à mãe com os comportamentos facilitadores do narcisismo materno, tornando-os a sua fonte central de autoengrandecimento, quando não passam de um falso impulsionador de autoestima. Está sempre pensando na mãe e priorizando as suas necessidades, opiniões, vontades e seus sentimentos motivada, na maioria das vezes, por sentimentos de inadequação como a culpa, vergonha e o medo e não por amor e respeito, mas para ter um senso interno de segurança. Esta tendência, contudo, compromete a sua capacidade não só de se equilibrar emocionalmente de modo independente, bem como criar uma identidade sólida e autônoma de sua genitora. Como consequência, a codependência, uma vez que firmemente estabelecida como um comportamento que a auxilia a lidar com o estresse e com um problema sem solução ou que está além de seus poderes, tal como o narcisismo, desencadeia um processo de dependência emocional que, com o passar do tempo, torna-se um traço de personalidade e o mecanismo pelo qual a filha consegue restaurar o seu “equilíbrio” emocional e amor-próprio (Eu sou amada/me sinto bem quando os outros precisam de mim/priorizo as necessidades dos outros).

A dependência emocional

Todos necessitamos de uma conexão emocional verdadeira com outro ser humano, sobretudo com os nossos pais, para nos sentirmos seguros, amados e aptos. A criança que desenvolve um apego seguro com a mãe – ou que confia nela e neste relacionamento como uma fonte sólida de amor, proteção e bem-estar emocional – torna-se um adulto autoconfiante, capaz e autônomo emocionalmente (Bowlby, 1988). É, através desta união, que se sente segura para explorar o mundo, receber o apoio emocional de que necessita e aprende a confiar nos relacionamentos humanos e a se beneficiar destes de uma forma saudável e sem medo. Isto favorece o seu crescimento e desenvolvimento, além de enriquecer a sua experiência e contribuir para o seu sucesso tanto nos campos pessoal como profissional. Neste contexto, a dependência emocional com a mãe permite que a criança concentre-se em si, além de prepará-la para operar de maneira funcional na área dos relacionamentos. Portanto, é benéfico e produtivo precisar de alguém quando esta dependência complementa o indivíduo e não o anula, liberta-o emocionalmente e não o oprime, fortalece a sua identidade e não a sufoca.

A dependência emocional é prejudicial quando motiva a criança – como a filha de mãe narcisista – a buscar este senso de segurança exclusivamente fora de si, já que não teve esta necessidade suprida pelo relacionamento com a genitora (precisamente, no período crítico de 0 a 2 anos[i]). Este tipo de dependência é exagerada e disfuncional, pois aponta o seu senso de direção para fora de si mesma e longe de sua própria essência, sentimentos, vontades, opiniões e interesses, além de mantê-la presa a uma visão de mundo e dos relacionamentos centrada na desconfiança, no sacrifício e sentimentos de culpa, medo, vergonha e insatisfação pessoal. Este tipo de dependência faz com que você…

  • Somente sinta-se amado quando recebe a aprovação de terceiros, corresponde às expectativas dos outros ou se torna quem querem que seja
  • Somente sinta-se feliz quando faz os outros se sentirem bem
  • Somente sinta-se calmo quando diz “sim” a tudo e a todos
  • Somente sinta-se completo quando está na companhia dos outros ou de quem é importante para si
  • Somente sinta-se valorizado quando alguém necessita ou precisa de você, quando o seu mérito é reconhecido ou se sente responsável pelo bem-estar dos envolvidos nos seus relacionamentos, bem como dos relacionamentos em si
  • Somente sinta-se centrado e disposto a concentrar-se na própria vida e nos próprios projetos quando os seus relacionamentos estão indo bem, ou quando consegue racionalizar os sentimentos de inadequação conectados a estes através da culpa (“estou me sentindo mal não porque a minha mãe não me ama, mas porque fiz algo de errado”).

A codependência e dependência emocional são usadas pela família tóxica como ferramentas de manipulação e abuso, ou armadilhas psicológicas que a mantém presa neste relacionamento. Enquanto que se revela impossível sentir-se genuinamente satisfeito sem nenhum tipo de conexão emocional com outro ser humano, é impraticável realizar-se tanto individualmente como nos relacionamentos quando se é escravo destes, tais como dos comportamentos codependentes que mantém para obter um senso de autoestima, identidade e equilíbrio emocional. A melhor forma de lidar tanto com a codependência como a dependência emocional é por meio de uma atitude autoafirmativa, confiante e autônoma, honrando as emoções e os limites pessoais e exercendo o seu direito à liberdade pessoal. Se este é o seu objetivo, recomendo a leitura de meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

Referência:

Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. New York, NY: Basic Books.

[i] Para mais informações sobre o processo de formação e estilo de apego e como influencia o desenvolvimento (“Teoria do Apego”), recomendo a leitura dos trabalhos de Jown Bowlby e Mary Ainsworth.