5 crenças rígidas de uma educação tóxica que resultam em baixa autoestima e codependência

5 crenças rígidas de uma educação tóxica que resultam em baixa autoestima e codependência
Uma educação tóxica prejudica o desenvolvimento sadio da criança

Uma educação tóxica é proveniente de um estilo parental inepto, inconsciente, imaturo, abusivo e negligente e, por esta razão, afeta prejudicialmente o desenvolvimento da criança sujeita a isto. Crescer sob tal influência interfere com a nossa capacidade de nos tornarmos adultos autoconfiantes, além de prejudicar a nossa habilidade de nos sentirmos seguros no campo dos relacionamentos.  Se você é pai ou mãe e não quer cometer os erros de seus genitores tóxicos ou deseja tornar-se mais consciente acerca da origem da sua falta de amor-próprio, elencam-se 5 crenças rígidas de uma educação tóxica que resultam em baixa autoestima e codependência:

“A criança deve comportar-se exatamente como os pais querem”

Segundo esta crença, a criança é como uma “tábula rasa”, ou seja, não tem personalidade ou conhecimento, portanto, quem sabe o que é bom para ela são, suposta e exclusivamente, os pais. Contudo, a falha dos pais de não reconhecerem a sua competência, individualidade e autonomia resulta em intensos sentimentos de insegurança pessoal na criança. Por ser forçada a ter um senso de direção para fora de si e nos sentimentos e necessidades alheias, distancia-se do próprio eu e de sua identidade, tornando-se, na idade adulta, um indivíduo inseguro e codependente.

“Os pais são superiores porque são pais”

Tal regra presume que a idade, maternidade e paternidade equivalem à maturidade, o que não é verdade, pois nem todo mundo torna-se responsável, consciente e mais inteligente com a passagem do tempo e a experiência, como é o caso de quem possui o transtorno de personalidade narcisista (para expandir o seu conhecimento acerca das características do narcisismo materno, recomendo o meu primeiro livro, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas). Quem condiciona os filhos a acreditarem a não saberem quem são ou o que seja melhor para si próprios, educa-os para se tornarem dependentes emocionalmente de outras pessoas. Além disso, esta mentalidade impede que confiem na própria percepção, competência, valor e potencial, inclusive fora do ambiente familiar.

“Se você trata a criança bem, torna-se arrogante e mimada”

Trata-se de uma crença antiquíssima e, embora supererrônea, é repetida, ainda hoje, por pais mal informados e que não compreendem a verdadeira importância de nutrir a autoestima do filho para ter um desenvolvimento saudável. É somente através do amor incondicional expressado de forma clara e consistente com as necessidades de uma criança que esta aprende a amar-se e respeitar-se. Quem cresce sentindo-se invisível e sem ser apreciado e validado pelos pais aprende que não é bom o suficiente e digno de ser amado e bem tratado. Tal individuo terá grande dificuldade de reconhecer o próprio valor sem vergonha e culpa (síndrome do impostor), autoafirmar-se e defender os próprios interesses.

“Pais dedicados são aqueles que ‘se preocupam’ com a criança”

Pais controladores e/ou ansiosos usam esta crença para manipular e projetar a ansiedade nos filhos. Vamos deixar bem claro, a ansiedade não equivale a amor. Pais que se preocupam excessivamente com o bem-estar dos filhos, ou usam isso como desculpa para justificar o controle que tentam exercer sobre estes, ou fazem por motivações obscuras e deficiências de equilíbrio emocional próprias. Não é a responsabilidade de nenhum filho fazer o que os pais querem para que se sintam melhor, já que não são responsáveis por seu bem-estar emocional. As crianças que são condicionadas a acreditarem nesta crença vivem com medo de magoarem os pais e sentem-se culpadas por problemas e sentimentos que não são seus, aspecto que está no cerne de uma atitude codependente.

“A criança é responsável pelo descontentamento dos pais em relação a ela”

Quando uma criança não corresponde às expectativas dos pais, razoáveis ou não, desapontam-nos e sofre as consequências disto, independente de terem vindo de si própria ou refletirem o seu próprio eu.  Desta forma, aprende, desde cedo, que necessita não somente antecipar, como também atender as necessidades alheias para que se sinta amada e segura em um relacionamento (codependência), pois quem é, o que quer e sente não tem valor nenhum (baixa autoestima). Segundo esta lógica, o seu valor é condicional, está fora de si e depende de sua habilidade de agradar os outros.

Se se identificou com as crenças rígidas de uma educação tóxica, acredita ter sido vítima disso e deseja superar a codependência e a baixa autoestima, sugiro o seguinte:

  • Reconheça e respeite o seu direito à autonomia, assim como o de seus filhos: todos temos direito à individualidade. Torne-se um modelo de autenticidade e autoconfiança honrando a sua liberdade pessoal e a dos outros a sua volta. Aprenda a dizer não e a aceitar as preferências alheias quando diferem da sua. Chega de dar ajuda e opinião que não são solicitadas tampouco necessárias.
  • Reconheça a própria competência, assim como a de seus filhos: seja consistente e aplique na própria vida o que acredita em teoria, com muita coragem. Se acredita nas suas habilidades e de seus filhos, dê prova concreta disso permitindo que todos se tornem responsáveis tanto por suas decisões, como pelas consequências destas. Seja tolerante e permita erros. Ninguém tem de ser perfeito, já que a vida é uma jornada de aprendizado para todos nós.
  • Ame-se, bem como os seus filhos, somente por estar viva: repita para si,Eu sou suficiente”, ponto final. Você não precisa provar o seu valor para ninguém. Se necessita de mais ajuda nesta área, recomendo o meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. No capítulo de número 4, “Os cinco Ás de emancipação da filha de mãe narcisista”, exploro a autoestima e autoaceitação em profundidade e ofereço dicas práticas de como alcançá-las.    
  • Torne-se responsável por como se sente e separe o que é seu do que é do outro: passe a monitorar os seus sentimentos e comportamentos e a entender o que funciona como um gatilho para a sua ansiedade. Investigue-a e aprenda a regulá-la e a lidar com ela de forma independente.

 

6 verdades por trás das mentiras da mãe narcisista

6 verdades por trás das mentiras da mãe narcisista
A mãe narcisista usa mentiras para manipular a filha

Umas das dificuldades que as minhas clientes encontram em seu processo de recuperação do abuso narcisista é reconectarem com a própria perspectiva. Devido ao fato de terem sido criadas a base de mentira e manipulação de sua realidade e história, tendem a duvidar da própria percepção, algo que as prejudica, particularmente, no campo dos relacionamentos e quando necessitam dela para julgar o que é dito e feito, e compreender o efeito que as outras pessoas provocam nelas. Para ajudá-la a validar a sua verdade, sair do buraco da insegurança e incerteza e aumentar a autoconfiança, seguem 6 verdades por trás das mentiras da mãe narcisista:

Mentira: “Você é incapaz de amar”

Verdade: quando um filho ou filha ousa não se entregar de corpo e alma, 24 horas e 7 dias da semana ao controle, à exploração e à manipulação narcisista, é porque não “ama” a mãe. Portanto, segundo o raciocínio ilógico da matriarca narcisista, ter alta autoestima, honrar os limites, respeitar os sentimentos e agir de forma autônoma e autêntica, ou seja, com amor-próprio, seriam caraterísticas de um indivíduo incapaz de amar. Cada vez que você se permite acreditar na balela narcisista, o seu cérebro encolhe mais um pouco.

Mentira: “Você pediu para me ter como mãe”

Verdade: a ideia que você escolhe reencarnar tendo uma mãe abusiva para evoluir espiritualmente é tão absurda quanto antiga. Se você ainda não tem consciência do impacto negativo que o trauma da infância exerce na vítima, recomendo informar-se sobre os fatos neurobiológicos antes de se deixar convencer pelo lero-lero narcisista. Crescer em um ambiente familiar tóxico e de estresse crônico não favorece ninguém, mas retarda e, às vezes, até interrompe o processo de desenvolvimento saudável de uma criança. Mesmo sem entrarmos no mérito cientifico deste argumento, usar verdades espirituais para justificar os comportamentos impróprios consiste em abuso espiritual.

Mentira: “Eu me sinto assim por sua causa”

Verdade: embora não tenhamos controle de como afetamos os outros emocionalmente, já que as emoções são extremamente contagiosas, não somos responsáveis pela sua capacidade de administrá-las. Se a sua mãe narcisista sente-se descontente, com raiva e amargurada, por grande parte do tempo, é porque tem um problema de ordem emocional que precisa ser abordado. A falha de direcionar este problema e reconhecer a própria responsabilidade é sempre dela e, nunca, sua.

Mentira: “Você não faz nada certo”

Verdade: quando os pais reconhecem a competência dos filhos de forma incondicional, comunicam a mensagem que são capazes de viver uma vida autônoma e de realizações como, com quem e quando desejam. Pais controladores e inseguros, contudo, como é o caso da mãe narcisista, incentivam a dependência através de comportamentos antagonistas, como estarem sempre insatisfeitos e terem o hábito de criticaram o seu desempenho, como se fossem, de fato, superiores. Este comportamento não reflete a realidade dos fatos, mas as suas tendências abusivas e a necessidade de controle através da subjugação.

Mentira: “Você é egoísta”

Verdade: a mãe narcisista é péssima em gerenciar as emoções, não admite falhas e é mestra na arte da projeção. Quando ela projeta o seu descontentamento ou uma característica negativa própria na filha, “lida” com as emoções antagônicas e os próprios defeitos expressando-os de forma dissimulada e desonesta, culpando-a por possui-los e isentando-se de qualquer responsabilidade.

Mentira: “Quando descobrirem quem você é, será abandonada”

Verdade: esta tática consiste em fazer que acredite que há algo de errado com você, para que, então, passe a compensar pelo suposto déficit fazendo algo pelos outros (mãe narcisista), para que consiga ser amada ou se torne merecedora de seu amor. Por conseguinte, o seu valor reside não em quem é, mas no que tem a oferecer (à mãe narcisista, é claro!), uma crença que a mantém como uma eterna serviçal de suas vontades, seus sentimentos e suas necessidades.

Mentira: “Ninguém nunca vai querer você”

Verdade: a mãe narcisista usa esta mentira para que acredite que não há vida fora do domínio dela. Além disso, quando promove tais valores de baixa autoestima, ajuda a persuadi-la, através de muita lavagem cerebral, que não é boa o suficiente e digna de ser amada. Desta forma, mantém-na pequena, dependente e vulnerável, características que a fazem a vítima perfeita de sua manipulação e controle.

Uma regra que pode auxiliá-la a redobrar a sua confiança na habilidade de discernimento é reconhecer e validar – incondicionalmente – os próprios sentimentos com coragem e sem a contribuição de ninguém. É importante lembrar que validar o que sente não equivale, obrigatoriamente, a agir somente baseada neles, mas respeitá-los com tolerância. Resistir a tentação de questionar tudo o que sente e considerar as emoções negativas como portadoras de alguma sabedoria é uma superferramenta de superação dos efeitos do seu trauma, além de serem atitudes essenciais em seu processo de reconexão com a habilidade de identificar e proteger-se de perigos, pessoas tóxicas e circunstâncias que não a favorecem.

3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima

3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima
A superidentificação com o papel de vítima faz com que se esqueça que tem o poder de dizer não ao abuso

É terrível, cruel e desesperador sofrer abuso da própria mãe, além de ser solitário e doloroso não contar com o apoio emocional dos responsáveis pelos próprios cuidados quando se é criança, vulnerável e dependente. Sobretudo, é injusto ter o seu desenvolvimento prejudicado e a visão de mundo corrompida por uma mãe egoísta e transtornada que nunca é devidamente considerada responsável pelo mau que causa aos filhos. Embora tudo isso seja a mais pura verdade e reflita a história dos filhos e filhas de mães narcisistas, não precisam pensarem, comportarem-se e sentirem-se como uma vítima para o resto de suas vidas. Quando este é o caso, no entanto, a superidentificação com o papel de vítima faz com que se concebam, exclusiva e excessivamente, através deste ângulo e “esqueçam” que, como adultos, são capazes e têm o poder de dizer não ao abuso e viver uma vida realizadora. Para ser relembrada da própria força e ajudá-la a pensar e agir como uma sobrevivente, destacam-se 3 sinais de que está presa em uma mentalidade de vítima:

1- A sua motivação de vida é o “tenho que”: desde o momento em que acorda até quando volta para a cama, o seu dia-a-dia é recheado de tarefas e obrigações que “têm que” cumprir. Quase nada do que faz é tratado como uma escolha, mas como uma obrigação, já que pensa e age como se fosse impotente e uma vítima das próprias circunstâncias. Apesar da vida, por vezes, exigir sacrifício e esforço, a sua existência é regida por supostas “necessidades” que são, aparentemente, criadas fora de você ou lhe foram impostas. Aí, você indaga, “mas eu tenho que escovar os dentes todas as manhãs, da mesma forma que também tenho que trabalhar para pagar as contas, já que os meus dentes não se limpam sozinhos e o dinheiro não nasce em árvore!”. Correto, concordo. Contudo, manter os dentes limpos e as contas em dia permanecem escolhas suas. Mesmo sendo mãe e responsável por outras vidas, agir de forma responsável também é uma escolha sua (pergunte a sua mãe narcisista!). Na realidade, a maior parte do que fazemos e, de certa forma, do que acontece em nossas vidas, também é uma consequência direta ou indireta das nossas escolhas, sejam feitas de forma consciente ou não.

2- Você tem uma baixa tolerância ao desconforto: por que algumas pessoas conseguem se controlar e não comer, beber ou comprar em excesso, por exemplo, enquanto outras têm tanta dificuldade? Há inúmeras razões que explicam os diferentes comportamentos humanos, já que somos seres complexos e únicos, o que torna impossível responder esta pergunta sem conhecer o indivíduo em questão, bem como a sua história pessoal. Uma característica universal de todos os sobreviventes de abuso e demais pessoas que conseguem implementar mudanças positivas em suas vidas e libertarem-se dos hábitos que não os favorecem, no entanto, é a habilidade de tolerar o desconforto, ou “sair da zona de conforto”. Embora tenda a ser extremamente custoso para as vítimas do trauma do desenvolvimento, tais como os filhos e filhas de mães narcisistas, não adotarem comportamentos autodestrutivos e que lhes proporcionem gratificação imediata, já que exibem uma dificuldade de regulação emocional, quando se esforçam em tolerar o desconforto proveniente de dizer não, resistir à pressão e tentação, agir de forma autêntica ou se afastarem  de pessoas tóxicas, por exemplo, as recompensas pessoais tendem a ser incríveis a longo prazo. Para aqueles que desejam quebrar o ciclo do abuso e viver uma vida autônoma e realizadora, é fundamental que estejam dispostos a se sentirem mal antes de se sentirem bem.

3- Você se afunda na autopiedade: enquanto reconhece o valor de sentir pena de si mesmo, já que é essencial no período de luto, além de refletir uma atitude complacente, tolerante e empática em relação a si, não é um recurso psicológico que deva ser usado em demasia. A vítima abusa deste recurso quando o usa com grande frequência e no lugar da autoconsciência. Na prática, isso acontece quando se concentra mais em sentir-se mal do que em questionar as circunstâncias de seu infortúnio e a sua participação, direta ou indireta, no decorrer dos eventos que o ocasionaram. Desta forma, perpetua esse estado convencendo-se de que é impotente, através da recusa de analisar o papel que o pensamento e comportamento exercem na própria existência. Portanto, se você dedica grande parte do tempo a reclamar da vida, mas nunca reflete sobre a função que exerce nela ou toma responsabilidade pelos próprios atos (ou ausência destes), está agindo como uma vítima. Embora sofrer com os maus-tratos de uma família abusiva, assim como não ter o seu sofrimento validado seja uma grande injustiça, forçar-se a manter-se eternamente endividada a esta, além de ficar presa à identidade de vítima e atitude passiva enquanto aguarda ser resgatada é uma atitude de sabotagem e negligência com a própria felicidade.

Caso tenha se identificado com o relatado e deseje mudar este cenário e adotar uma mentalidade de sobrevivente, recomendo o seguinte:

1- Use o “quero” no lugar do “tenho que”: quem é o agente da própria felicidade faz, predominantemente, o que quer e não o que “deve”. Se a sua rotina está repleta de atividades que se vê forçada a fazer, mas não se identifica, está na hora de reavaliar o seu propósito. Na minha experiência, contudo, é a mentalidade de vitimização e não necessariamente a qualidade do ato em si que define o efeito que tem em você. Passe a ver o mundo como um resultado das suas escolhas e diga para si mesma: “Eu quero ir trabalhar”, “Eu quero limpar a casa”, “Eu quero estudar”, por exemplo, em vez de “tenho que”, afinal de contas, correspondem ao que escolheu para si.

2- Aumente a tolerância ao desconforto: se ainda está aqui e conquistou tudo que tem após anos de abuso narcisista, significa que é muito resiliente. Portanto, é competente e tem a capacidade de implementar mudanças positivas em sua vida, apesar das adversidades. Não desista e aprenda a tolerar o desconforto que provém de se engajar em comportamentos produtivos e funcionais que a removem da zona de conforto e a catapultam ao sucesso pessoal, como dizer não ao que e a quem lhe faz mal. Faça um investimento a longo prazo em si mesma e passe a se tratar bem e agir com a autoestima. Você é merecedora do seu amor-próprio.

3- Redirecione o foco da sua atenção para dentro e não fora de si: em vez de passar horas tentando entender porque os seus familiares, “amigos” e vizinhos não conseguem nem estão dispostos a reconhecer o mal causado a você, pense no que você pode fazer para melhorar a sua qualidade de vida e estimular o seu bem-estar e crescimento pessoal. Chegou a hora de parar de depender dos outros para sentir-se bem e dar sentido a sua vida. Liberte-se da escravidão da aprovação alheia, das garras da culpa e vergonha e retome o controle sobre o próprio corpo e destino.

Como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019

Como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019
Os amigos verdadeiros celebram os momentos especiais e demonstram apreciação e gratidão pela amizade

Porque todos necessitamos de relacionamentos funcionais em nossas vidas para nos sentirmos realizados no campo pessoal, achei pertinente usar este espaço para incluir dicas de como criá-los e mantê-los saudáveis. Infelizmente, em um filho ou filha de mãe narcisista, este conhecimento tende a não lhe ser nato, visto ter sido criado em um ambiente tóxico de muito abuso e negligência afetiva e emocional. Devido ao fato de que provém de uma cultura familiar disfuncional, é comum perpetuar esta tendência relacional também fora deste ambiente e atrair pessoas imaturas emocionalmente e até tóxicas. Para ajudá-lo a mudar este quadro neste novo ano que se inicia e melhorar a qualidade dos seus relacionamentos, seguem 9 dicas de como criar e manter relacionamentos funcionais em 2019:

1- Tenha paciência e dê tempo ao tempo. Os relacionamentos funcionais não ocorrem da noite para o dia, mas tendem a levar tempo para se tornarem sólidos. Este tipo de relacionamento possui uma dinâmica democrática e adulta, é formado por indivíduos maduros e autônomos que respeitam a liberdade pessoal, as vontades e os interesses dos outros. Nessas circunstâncias, não é não. Em vez de ficarem de cara amarrada e fazerem chantagem emocional para conseguir o que querem, são pacientes, respeitam o tempo e o espaço do outro e entendem quando o momento é inapropriado para certos encontros, planos ou atividades, ou quando é necessário encontrar um meio-termo ou chegar a um consenso que favoreça ambas as partes da melhor forma possível.

2- Lembre-se do que é ser amigo e, sobretudo, do que não cabe a este papel. Os amigos[i] verdadeiros são empáticos, compreensivos e respeitosos, além de agirem com a autoestima e autoconfiança, colocando-se primeiro, como regra, na própria vida e não depois do outro, independente do nível de intimidade que compartilhe. Enquanto que o amigo leal ajuda em momentos difíceis, não é função de nenhum amigo comportar-se como o pai, mãe ou terapeuta do outro e estar permanentemente disponível para “resgatá-lo”. Independente do tipo de apoio que se dá a um amigo, isso também não equivale a uma obrigação, mas a um ato de amor, bondade, amizade e compaixão. Vale lembrar que a ajuda só é saudável para um relacionamento quando respeita as limitações de quem a oferece, assim como é da natureza do próprio relacionamento.

3- Mantenha o respeito. A amizade verdadeira é descontraída e inclui a brincadeira, mas não compactua, de forma alguma, com o bullying e o abuso verbal. O amigo verdadeiro, mesmo quando de inteligência engenhosa e humor astucioso, sabe como regular o poder da própria língua para não intimidar ou expor o outro. Nos relacionamentos saudáveis, o humor, o riso e a piada são usados para se conectar com o outro e não para aliená-lo.

4- Exerça um alto nível de consciência e autonomia emocional. Nos relacionamentos funcionais não há codependência e dependência emocional, mas tanto você como o seu amigo exibem um alto nível de consciência sobre o próprio comportamento e estado emocional. Neste contexto, ambos estão cientes da influência que podem exercer um no outro e a forma que se afetam emocionalmente, o que os fazem mais cautelosos e honestos em relação à forma de agir, principalmente quando se sentem sob o forte domínio de sentimentos antagônicos. O amigo de verdade lida com a própria inadequação, amplamente, de modo independente e não usa o amor e a cumplicidade do outro para descarregar a raiva e se regular emocionalmente, por exemplo, de maneira aproveitadora, indolente e irresponsável, mas permanece atento – mesmo quando frustrado – do impacto que causa nele.

5- Peça desculpas. Porque amigos verdadeiros estão sujeitos, como todos nós, a cometerem erros, reconhecem quando não se comportam de forma adequada e magoam o outro, pedindo desculpas e assumindo a sua parcela de responsabilidade pelas consequências de seus atos. É pertinente relembrar que os relacionamentos funcionais, apesar de altamente respeitosos e saudáveis, são humanos, portanto, não são perfeitos.

6- Não insista em discussões desnecessárias. Por mais que nos identifiquemos com o outro e tenhamos um relacionamento harmonioso com os nossos amigos, é normal haver momentos em que os nossos pensamentos se opõem. Nos relacionamentos funcionais, “We agree to disagree”, ou concordamos em discordar, com calma e naturalidade. Isso se deve ao fato de que, em uma interação adulta, democrática e equilibrada, defender e argumentar contra uma ideia não é um ato intencionado a converter o outro ou forçá-lo a ver o mundo de certa forma, mas um exercício de socialização, reflexão e livre troca de ideias. Nestes casos, mesmo que haja desconforto resultante de um sentimento de antagonismo, deve-se lidar de maneira autônoma e sem envolver o outro, puni-lo ou isolá-lo, por exemplo, por ter visões de mundo próprias.

7- Seja verdadeiro. Quando se é aceito pelo outro, não temos medo de ser quem somos, independente do que isso signifique. Nos relacionamentos saudáveis, a autenticidade permite que nos mantenhamos verdadeiros com o nosso eu, corpo e sentimentos, isto facilita a intimidade e a realização pessoal também com outro ser humano. Mentir, inventar desculpas e fingir que é outra pessoa para agradar ou atender às expectativas de um “amigo” não reflete uma forma de se relacionar espontânea, genuína e baseada na autoestima, afeto e respeito, mas uma atitude insegura e codependente.

8- Demonstre apreciação e gratidão pela amizade. Os amigos verdadeiros mantêm viva a amizade mesmo quando distantes, cultivando-a de forma ativa e consciente. Isso ocorre quando se esforçam para manterem-se cientes do que acontece na vida do outro, por exemplo, celebram os momentos especiais e demonstram apreciação e gratidão pela amizade seja diretamente através de palavras ou indiretamente por meio de manifestações de afeto e carinho.

9- Todos responsabilizam-se pelo relacionamento. Quando um relacionamento “funciona” e favorece o indivíduo, todos os envolvidos esforçam-se para mantê-lo saudável. Nestes contextos, há um evidente entendimento sobre a complexidade dos relacionamentos humanos e uma clara intenção de dedicar-se a superar problemas, sejam de ordem individual ou coletiva. Nas situações as quais apenas um indivíduo sente-se inteiramente responsável pelo (bom) funcionamento de um relacionamento e trabalha sozinho para garantir a sua sobrevivência, esta atitude tende, na esmagadora maioria das vezes, a produzir o efeito oposto, ou a perpetuar uma dinâmica disfuncional.

Embora os relacionamentos humanos necessitem de nossa dedicação para funcionarem, quando você insiste em melhoras em um relacionamento – seja da natureza que for – mas nunca se concretizam ou são sustentadas a longo prazo é porque não são possíveis. Se já investiu meses e até anos em um relacionamento com a esperança de que mude e se torne recompensador sem nenhum sucesso significativo, está na hora de se conscientizar deste fato, parar de desperdiçar energia e buscar novas oportunidades.

[i] O termo “amigo” também pode ser substituído por “parceiro amoroso”

 

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista
A sobrevivente de sucesso é aquela que transcende o próprio trauma

Descobrir que se é filha ou filho de uma mãe narcisista representa um momento que marca não somente a história, como também a trajetória de crescimento e desenvolvimento pessoal destes indivíduos. Isso se deve ao fato de que a verdade narcisista é tão reveladora que se torna impossível ignorá-la e tocar a vida como se ela não existisse. A autoconsciência acerca do problema (narcisismo materno), seus efeitos (abuso e trauma) e implicações (cortar o contato) tende a dar origem a uma intensa mistura de sentimentos, tais como: alívio, medo, vergonha e revolta, entre outros. Sobretudo, tende a despertar na vítima uma grande vontade de mudar e reaver a sua autonomia e dignidade. Este forte desejo de viver uma existência feliz, de paz e realizações através da livre expressão de sua essência – tão castigada pelos ataques de uma mãe egoísta, controladora e invejosa – é a energia motivadora que dá início ao seu processo de libertação pessoal.

Embora a vontade de se libertar das garras de uma mãe abusiva tenda a ser voraz, nem todas as filhas de mães narcisistas conseguem retomar as rédeas da própria vida e se afastarem dessa influência nefasta. Este artigo visa explorar a diferença entre elas, ou trazer à luz as características da filha de mãe narcisista que pretende acabar com o ciclo de abuso narcisista e propulsar o seu processo de cura e sua independência psicológica e emocional.

Vítima ou sobrevivente?

A libertação pessoal da vítima de abuso narcisista, independente de sexo, é alcançada quando investe esforço e determinação em uma mudança radical de atitude. Mudar, neste contexto, exige pensar e agir como uma sobrevivente e, não mais, como uma vítima. Na prática, esta mudança pode ser observada quando a vítima substitui as suas estratégias de enfrentamento disfuncionais, como a negação e a repressão emocional por táticas mais saudáveis, autoconfiantes e maduras. Em vez de se sentir permanentemente intimidada e à mercê de sua própria inadequação a, então, sobrevivente não só é capaz de reconhecer o abuso sofrido como algo amoral, brutal e injusto, bem como validar todas as emoções antagônicas desta descoberta terrível, tais como: a tristeza, a raiva e os demais sentimentos que compreendem o luto, com honestidade e coragem. A sobrevivente não foge da própria dor e dos sentimentos de abandono e solidão que acompanham a genuína conscientização de sua perda, tampouco os normaliza ou diminui o impacto negativo que a mãe exerce sobre os seus bem-estares físico, psicológico e emocional, mas se permite registrá-los, processá-los e aprender com estes.

Devido ao fato da sobrevivente valorizar o próprio bem-estar e honrar suas emoções, cortar ou reduzir drasticamente o contato com a mãe narcisista revelam-se como as alternativas mais sensatas e responsáveis. Diferente da vítima que perpetua o processo de vitimização, insistindo em forçar uma falsa conexão afetiva com uma mãe exploradora e egoísta, a sobrevivente recusa-se a submeter-se a sua atitude errática, de forma consistente e firme, colocando a sua sanidade e qualidade de vida em primeiro lugar.

O segredo do sucesso da sobrevivente: a tolerância do desconforto emocional

Visto que se afastar da própria mãe – mesmo quando extremamente abusiva – trata-se de uma tarefa inédita nos contextos socioculturais que glorificam os valores de família rígidos e obsoletos, comportar-se como uma sobrevivente requer estâmina. Como se não bastasse esta mentalidade coletiva retrógrada, a filha de mãe narcisista também deve enfrentar a sua notória falta de autoconfiança e medo insuportável de se autoafirmar. Quando uma criança é sistematicamente atacada e rejeitada cada vez que expressa a sua identidade, vontades e interesses próprios, aprende a associar a autoafirmação com uma experiência extremamente dolorosa. No decorrer do tempo, é condicionada a fazer somente o que favorece os pais controladores e a família disfuncional, sacrificando a própria alma como se fosse algo irrelevante. Portanto, para a filha de mãe narcisista a qual foi submetida a anos de maltratos psicológicos, emocionais e físicos, dizer não a quem abusa dela resulta, naturalmente, em grande desconforto emocional.

Como se autoafirmar é um supergatilho que remete a filha de mãe narcisista a várias experiências traumáticas de seu passado, tais como desentendimentos e discussões intermináveis, aprender a tolerar o medo, a insegurança e a ansiedade, assim como os demais sentimentos de inadequação associados a uma atitude autêntica e autônoma é determinante para o sucesso de seu processo de emancipação e crescimento pós-traumático. A filha de mãe narcisista consegue superar o trauma e até prosperar nos campos pessoal e profissional, quando reconhece e aceita tais vulnerabilidades, mas não se permite ser dominada por elas. Logo, a sobrevivente de sucesso é aquela que, por estar ciente de seus gatilhos, transcende o próprio trauma resistindo à pressão de se diminuir e se fazer insignificante diante da mãe narcisista e demais familiares, ato que, apesar de sua natureza incoerente, ainda é encorajado por um grande número de indivíduos que defende as instituições “mãe” e “família” como invioláveis.

Se você está pensando ou já iniciou o processo de corte ou redução de contato com a mãe narcisista e/ou família tóxica, mas não se sente segura, lembre-se de que este desconforto é normal considerando o seu histórico de abuso e trauma. Você não foi educada para se autoafirmar e agir de acordo com a sua cabeça, mas para submeter-se a eterna tirania de sua mãe narcisista. O que você está fazendo é um ato revolucionário até para o seu próprio entendimento, logo, dê tempo a si mesma, ao seu cérebro, ao seu corpo e as suas emoções, para se acostumarem com a ideia. Todo o tipo de hábito, por mais prejudicial a sua saúde, não é fácil de ser erradicado ou substituído sem um mínimo de desconforto emocional. Se você se sente inadequada para tomar uma decisão tão adulta e independente, tal como se distanciar de uma pessoa ou pessoas que lhe faz/fazem mal, a sua inquietação é um bom sinal, pois marca a saída da sua zona de conforto e um superavanço na sua habilidade de implementar mudanças positivas na própria vida.

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista
O reconhecimento que você procura está dentro de você

De forma incoerente, egoísta e cruel, filhas e filhos de mães narcisistas são forçados a se sentirem culpados por se recusarem a tolerar o comportamento transtornado de suas mães narcisistas.  A mensagem que recebem dos pais facilitadores, parentes, amigos e colegas – bem como da sabedoria burra do senso comum – tende a permanecer a mesma: independente do que a sua mãe fez ou faça, nada parece ser condenável o suficiente para ser reprovado. O que ouvem, pelo contrário, é que é “seu dever” aturá-la, aplacá-la, satisfazê-la e até perdoá-la, mesmo quando esta não possui humildade nenhuma para pedir desculpas tampouco perdão pelo abuso que cometeu e ainda comete contra os próprios filhos. Não é nenhuma surpresa, portanto, que como filho ou filha de mãe narcisista, você se sinta pequeno e insignificante, além de apresentar problemas de baixa autoestima. Como conseguir se autoafirmar contra tamanha injustiça, quando é tão difícil encontrar aliados ou pessoas corajosas o suficiente para reconhecerem esta verdade?

Chegou a hora de parar de buscar confirmação externa para o seu sofrimento. O reconhecimento que você procura assim como o amor e o respeito que tanto merece estão dentro de você.  Para ajudá-lo a dar voz a você a tudo o que sente e passou nas mãos de uma mãe e família tóxicas, leia e memorize a lista abaixo para relembrá-lo de sua humanidade e valor:

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

  1. Eu tenho o direito de sentir raiva de quem abusa de mim.

  2. Eu tenho o direito de ser tratada como adulto.

  3. Eu tenho o direito de dizer não.

  4. Eu tenho o direito de cometer erros.

  5. Eu tenho o direito de cortar o contato com pessoas tóxicas, independente de quem sejam.

  6. Eu tenho o direito de viver a minha vida de acordo com a minha cabeça.

  7. Eu tenho o direito de reclamar do que não acho correto e das injustiças cometidas contra mim.

  8. Eu tenho o direito de validar a minha história e realidade.

  9. Eu tenho o direito de me proteger.

  10. Eu tenho o direito de sentir emoções antagônicas, bem como expressá-las de uma forma não abusiva.

  11. Eu tenho o direito de pedir e recusar ajuda.

  12. Eu tenho o direito a ter minha própria vontade, opinião e interesses.

  13. Eu tenho o direito de mudar a minha forma de agir e pensar.

  14. Eu tenho o direito de viver uma vida plena e de realizações.

Use e abuse desta lista para lembrar-se de que ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de abusar de você. Como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, “laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva e boçal”. Ainda que a mulher que lhe deu à luz pareça ter mais direitos do que você, não se deixe lograr por uma cultura familiar paternalista, condescendente e de superioridade que protege pais e mães negligentes e abusivos, enquanto ignora o trauma, a dor e o desespero de filhos e filhas. Você tem todo o direito ao listado acima e muito, muito mais. Faça de seus direitos a sua bandeira de amor-próprio e carregue-a consigo, permanentemente e onde estiver. Não se permita ser manipulado por chantagem emocional e pare de praticar gaslighting contra si mesmo. A melhor maneira de legitimar a sua verdade é vivendo-a de forma autêntica, autônoma e de dentro para fora, com muita coragem e determinação.

Como se colocar em primeiro lugar em 2018

Como se colocar em primeiro lugar em 2018
Você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar

Dar prioridade ao próprio bem-estar não equivale a egoísmo, tampouco a narcisismo, já que uma autoestima alta é uma característica psicológica funcional e não patológica. Por mais que a sua mãe narcisista a tenha convencido do contrário ao longo de muitos anos de abuso, lavagem cerebral e um comportamento egoísta e egocêntrico, você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar. Mesmo que você seja mãe ou esteja vivendo um relacionamento amoroso, as suas necessidades, vontades e interesses têm grande relevância para a preservação de sua essência e saúde mental, bem como para garantir a sua qualidade de vida e a dos relacionamentos. Não há melhor exemplo de mãe, amiga ou parceira amorosa do que uma mulher que se valoriza como um indivíduo seguro e autônomo.

Sem dúvida, para quem foi criada em um ambiente familiar disfuncional e negligente, não se revela uma tarefa fácil concentrar-se em si, nos seus próprios problemas e objetivos. Se você está cansada de se sentir como uma atriz coadjuvante na própria vida, seguem 5 dicas de como se colocar em primeiro lugar em 2018:

1- Questione as atitudes e motivações codependentes

Colocar-se em primeiro lugar é dar atenção a si mesma de forma ativa e consciente, antes de tudo. Na prática, consiste em dizer não à codependência e sim ao amor-próprio, ou se concentrar em resolver a própria dor, assim como lidar efetivamente com os sintomas do trauma em vez de direcionar a atenção ao narcisismo da mãe, aos problemas do pai, da irmã, do irmão, dos amigos, parentes, parceiros amorosos etc., já que não são sua responsabilidade. Portanto, se a sua mãe é narcisista, não cabe a você encontrar a cura para o problema dela, pois além de não lhe pedir ajuda, não a reconhece como tal, tampouco dá valor a sua dedicação. A codependência não é uma atitude nobre, mas uma tendência comportamental masoquista e de autossabotagem baseada em estratégias de defesa e enfrentamento disfuncionais que evitam lidar com as emoções negativas fortes, tais como a tristeza e a vergonha de não ser amada pela própria mãe (e muitas vezes também pelo próprio pai e demais membros da família) através da negação, repressão, sublimação e dissociação, entre outros.

Para questionar a sua tendência codependente, monitore os pensamentos (sobretudo em relação a sua família) e, toda a vez que se flagrar tentando resgatar quem quer que seja, pergunte-se:

“Por que eu estou mais preocupada com os outros do que comigo mesma?”

“Que inseguranças e emoções negativas estou tentando mascarar através desta atitude?”

 “Quais são as minhas necessidades neste momento?”  

2- Mantenha uma atitude de tolerância zero com a culpa e a vergonha

No contexto do narcisismo materno, a culpa e a vergonha são sentimentos extremamente contraproducentes a uma autoestima saudável. É comum eu recomendar cautela aos meus clientes quando se sentem invadidos por tais sentimentos devido ao seu grande poder tóxico; entretanto, no caso de filhas de mães narcisistas, esta recomendação é redobrada. Se você tem uma mãe tóxica narcisista, recomendo muitíssimo que desconfie de pensamentos em relação a ela e à família que resultam em culpa e vergonha, pois 99,99% das vezes são incoerentes e provenientes de crenças negativas capazes de travarem o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Lide com a culpa e a vergonha como lidaria com um incêndio dentro de casa, extinguindo-as imediatamente. Para fazê-lo, pode contar com a ajuda do seu diálogo interno iniciando um questionamento racional, adulto e centrado das verdadeiras motivações de tais sentimentos, como a chantagem emocional, por exemplo. Se preciso, verbalize a sua aversão à culpa e vergonha de forma clara através da escrita ou dizendo para si mesma em voz alta: “Culpa/vergonha em alta, autoestima em baixa!” Quando você se liberta da influência da culpa e vergonha, readquire a atenção e energia necessárias para focar em si, nos seus interesses e nas suas realizações.

3- Diga não à autossabotagem

Cultivar uma “autoestima” condicional, não respeitar os próprios limites e negligenciar os sentimentos, bem como se entregar ao perfeccionismo, à crítica negativa, à codependência, à procrastinação e à imobilidade são atitudes autossabotadoras. Tudo aquilo que rejeita quem você é e cria uma distância entre você e a sua essência compromete a autorrealização, seja nos campos pessoal, acadêmico ou profissional. Se você tem o hábito de acreditar em todo e qualquer pensamento que passa pela sua cabeça – especialmente os motivados pela culpa e vergonha, que insistem em convencê-la de não ser e agir de acordo com o seu verdadeiro eu para garantir a aprovação alheia ou de que não é boa o suficiente para alcançar o que deseja – isso a torna uma vítima fácil da autossabotagem. Quebre o ciclo da ruminação e saia do seu estupor reivindicando o direito de ser você, independente do que isso signifique. Lembre-se de que se aprende muitíssimo a respeito de si mesmo por meio de todo e qualquer ato cometido de forma honesta e autêntica. Rejeite a voz derrotista do narcisismo materno, seja proveniente de sua própria cabeça ou da língua venenosa de sua mãe, dizendo não à autossabotagem e dê asas a sua criatividade e expressão pessoal.

Sentir-se bem e em harmonia consigo é possível por intermédio da expansão da autoconsciência e autoconhecimento. Para entrar o ano sentindo-se com mais autonomia, adote uma posição autoafirmativa e inovadora investindo em maneiras de pensar e agir que complementam a pessoa que é e o que deseja para a própria vida. Se ainda necessita de mais inspiração para começar a implementar mudanças positivas na própria vida, sugiro a leitura do meu novo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.  No capítulo de número 4, Os cinco As de emancipação da filha de mãe narcisista, descrevo as atitudes e comportamentos que ajudam a filha de mãe narcisista a superar problemas antigos, readquirir o controle sobre si e reconectar-se com a própria vida.

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes?

Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância. Filhos e filhas de mães narcisistas, por crescerem em um ambiente de intenso abuso, negligência e instabilidade emocional correm o risco de apresentarem dificuldades em uma ou mais áreas de seu desenvolvimento, tais como: apego, biologia, equilíbrio emocional, capacidade cognitiva e autoconfiança. Sentir-se rejeitada, ignorada e, por vezes, totalmente inadequada na presença da genitora narcisista cria um ambiente hostil e repleto de ansiedade para o crescimento e desenvolvimento sadio de qualquer criança. A incoerência do estilo “maternal” deste tipo de mãe faz com que a filha, em particular, esteja sempre em alerta a possíveis perigos, como ser atacada física ou verbalmente por quem, supostamente, deveria amá-la e protegê-la. Por conseguinte, a atenção que deveria estar voltada para o desenvolvimento de características pessoais e funções mais sofisticadas de sua psique direciona-se para as suas necessidades básicas, como a sobrevivência e autopreservação, prejudicando o desenvolvimento de sua identidade e contribuindo para a criação de uma percepção essencialmente negativa e tendenciosa de si mesma, de mundo e relacionamentos. Caso você seja filho ou filha de uma mãe narcisista, a probabilidade de que tenha sofrido com o trauma do desenvolvimento é muito alta. Para entender a maneira pela qual crescer sob a tirania de uma mãe narcisista tem o potencial de afetar a sua mente, corpo e relacionamentos seguem os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes:

1- Você não tem uma visão coerente de si mesmo

Crescer acreditando que não é digna de ser amada, é incompetente e nada do que faz é bom o suficiente compromete a nossa capacidade de desenvolver uma percepção sadia e confiante de nós mesmos. É ter a essência constante e sistematicamente negada de forma tão cruel e persistente, como se houvesse algo errado consigo. A filha de mãe narcisista cresce acreditando ser de fato “quebrada” ou “errada”, percepção prejudicial não somente a autoimagem, com também a sua identidade, pois acaba investindo ainda mais energia desperdiçada em tornar-se alguém programado somente para satisfazer a mãe narcisista, perdendo o contato com o seu verdadeiro eu para proteger-se dos ataques dela e salvaguardar este relacionamento tóxico. Já na idade adulta, tem dificuldades de realizar-se nos campos pessoal, acadêmico e/ou profissional, pois não sabe ou encontra sérias dificuldades de reconhecer quem é, do que gosta e é capaz.

2- Você se sente facilmente sobrecarregada por pensamentos e sentimentos

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes
Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância

Como o seu cérebro se desenvolveu em um ambiente hostil, adaptou-se a isso para protegê-la de ameaças ao seu bem-estar, sejam estas da natureza física ou psicológica/emocional. Filhas de mãe narcisistas são facilmente influenciadas por seus próprios pensamentos e sentimentos, sobretudo quando negativos. Dado que a sua sobrevivência, ou seja, sentir-se segura e protegida foram sempre a sua prioridade, leva-se muito a sério e confia em seus instintos muito mais do que na própria razão, como se fosse um animal selvagem sentindo-se permanentemente acuado por um predador. Por outro lado, a combinação de seu isolamento emocional, excesso de independência e visão tendenciosa faz com que seja suscetível às suas perturbações próprias emocionais e pareceres demasiado negativos os quais não revelam, necessariamente, uma fiel representação dos fatos.

3- Você tem dificuldade de regular as suas emoções

O adulto que quando criança não conta com a presença calma, tranquila e centrada de uma mãe atenciosa e consistente com as suas necessidades tem dificuldades de se equilibrar emocionalmente, já que aprendemos a regular as emoções com a ajuda do nosso genitor mais influente ou adulto responsável pelos nossos cuidados através do toque, afeição e carinho. Filhas de mãe narcisistas tendem a não conseguir equilibrar as emoções de uma forma efetiva e independente, geralmente necessitam se automedicar. Portanto, é bastante comum terem problemas de ansiedade, tal como o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT), assim como um índice de cortisol no sangue acima da média. A vida, como resultado, parece uma grande batalha para a filha de mãe narcisista, fazendo do drama, da angústia e do estresse características fixas e até “aceitáveis” de sua existência. Já que o seu “normal” é um intenso estado de alerta – seja este consciente ou não – inúmeras situações têm o potencial de desestabilizá-la emocionalmente.

4- Você tem dificuldade de criar relacionamentos seguros e estáveis

As vítimas sobreviventes de trauma do desenvolvimento tendem a apresentar dificuldades no campo dos relacionamentos, principalmente no amoroso. Visto que não possuem um adequado senso de segurança interno e externo, acham difícil confiar no outro e criar uma conexão afetiva verdadeira com as outras pessoas. Têm tanto receio de se envolverem afetiva e emocionalmente, a ponto de conscientemente se afastarem de qualquer intimidade que as exponha a uma situação de “risco”, tal como serem rejeitadas e maltratadas de novo. Como não conseguem equilibrar as emoções, tornam-se extremamente reativas e instáveis comprometendo, também, o relacionamento. Finalmente, a falta de autoconfiança e a baixa autoestima resultantes de uma percepção negativa de si mesma fazem com que se envolvam com parceiros errados, que não as respeitam e até abusam delas, repetindo o padrão de rejeição e circunstâncias hostis em que foi criada, mas por lhe ser tão familiar, cria uma falsa ilusão de apego e conexão afetiva.

5- Você evita lidar com lembranças traumáticas e dolorosas

Naturalmente, é doloroso revisitar memórias traumáticas. O nosso cérebro sabe disso e nos protege desta dor afastando e até bloqueia essas memórias. Não conseguir relembrar a infância ou se sentir desconfortável quando tenta relatar as experiências de vida com uma mãe narcisista e pai facilitador é um indicio poderoso de que tais memórias são potencialmente traumáticas. Se você não consegue produzir uma narrativa consistente com uma infância feliz e tranquila, citando um razoável número de exemplos de situações em que seus pais estiveram presentes não somente em corpo, mas também em alma para a protegerem, ajudarem-na e a apoiarem, é porque provavelmente este não foi o caso. A inconsistência de um relato de uma pessoa traumatizada pela indiferença materna e/ou paterna, por exemplo, é em si reveladora de que a visão de sua infância não corresponde à realidade dos fatos (a vítima sobrevivente de trauma do desenvolvimento defende que “não há nada de errado” com a sua infância, embora não consiga relembrar nenhum momento em que teria recebido apoio emocional de seus genitores, por exemplo).

Apesar do trauma do desenvolvimento ser um problema de saúde mental bastante complexo, frequentemente afetando o bem-estar emocional, os relacionamentos e a capacidade de realização pessoal da vítima sobrevivente, é possível de ser tratado. Uma atitude consciente e proativa em relação a sua existência, bem como seus efeitos, é por si só emancipadora. Abordar o trauma com honestidade e coragem demonstra-se fundamental para ser superado, seja buscando terapia ou implementando mudanças positivas na própria vida de modo independente. Quando se trata de trauma, a autoconsciência, o conhecimento a respeito do problema e uma atitude autônoma de recuperação do controle sobre a própria vida são indispensáveis para que se consiga curar as feridas do passado.

Terapia que ajuda x terapia que não ajuda

Devido à recente exposição do tema narcisismo materno e o aumento da conscientização em relação ao problema, há um renovado interesse na terapia por parte daqueles que se veem como uma vítima de uma mãe narcisista. Dado a dimensão do prejuízo causado por crescer e se desenvolver sob a tirania de uma mãe abusiva, torna-se natural a ideia da filha procurar apoio de uma profissional na área de saúde mental para lidar com os problemas de ordem psicológica e emocional resultantes deste relacionamento tóxico. Contudo, reunir a coragem e os recursos financeiros necessários para iniciar o tratamento psicoterápico não garante o sucesso de seu resultado. Dentre os inúmeros e-mails que recebo através do filhasdemaesnarcisistas.com.br, muitos incluem relatos de filhas de mães narcisistas que, embora tenham procurado tratamento, não se sentem melhores após terem investido tempo e dinheiro significativos. Isto ocorre porque encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado tem o potencial de tornar-se um processo difícil e até decepcionante, faz-se vital que se informe a respeito do tipo de terapia que tem a maior probabilidade de ajudá-la. Este artigo visa trazer à luz o papel que a terapeuta e o relacionamento com a cliente e, em especial, filha de mãe narcisista, exercem no sucesso ou fracasso da terapia.

O básico

Independente da abordagem terapêutica, a terapia funciona somente quando é Centrada na Pessoa, ou seja, respeita três condições básicas: a consideração positiva incondicional, empatia e congruência. Em termos práticos, isso quer dizer que a terapeuta não só aceita a cliente e suas circunstâncias sem julgá-la, bem como é capaz de se colocar no seu lugar e ver o mundo através de seus olhos com muito respeito, atitude refletida de forma inequívoca nos seus valores e comportamento. Como está ciente de que a cliente é a expert na sua própria vida, acredita nela e trabalha com ela para ajudá-la a promover a autoexploração e o conhecimento.

terapia
Encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado pode tornar-se um processo difícil

Por mais que isso pareça evidente e até inquestionável para se criar um ambiente terapêutico seguro e produtivo, este cenário não é observado em todos os contextos, especialmente quando a cliente apresenta problemas que questionam as crenças da própria terapeuta. No caso da filha de mãe narcisista, uma terapeuta que acredita tão fielmente nas intuições Mãe e Família a ponto de não conseguir questioná-las ou analisá-las sob um ângulo negativo, irá comportar-se de forma naturalmente resistente quando se deparar com uma cliente cujos problemas de ordem psicológica e emocional estejam diretamente relacionados à atitude disfuncional, negligente e abusiva de seus genitores. Esta resistência se faz óbvia em comentários, tais como: “Mas ela é sua mãe”, “Você tem que entender e aprender como lidar com a sua mãe” etc.

Esse tipo de retórica somente reproduz o ambiente familiar de antagonismo e rejeição o qual a filha de mãe narcisista foi forçada a tolerar por longos e sofridos anos. É impossível sentir-se compreendida e aceita quando a própria terapeuta é incapaz de reconhecer e honrar a sua verdade, seja qual for. Portanto, não a complementa ou fortalece, tampouco ajuda a esclarecer os seus sentimentos de inadequação, mas apenas a faz sentir-se ainda mais incongruente, isolada e solitária.

Respeitando a verdade da filha de mãe narcisista

A função da terapeuta também é auxiliar a cliente a construir um senso de realidade que faça sentido e explique a sua experiência de modo coerente. Partindo desta premissa, a terapia que ajuda a filha de mãe narcisista é aquela que aborda os eventos que compõem a sua história como fatos e não fantasia. Quando o objetivo é emancipar a cliente, auxiliá-la a entender o que aconteceu consigo sob uma perspectiva clara e objetiva torna-se indispensável. Ajudá-la a entender que o que sofreu tem nome – abuso – e que, como tal, deixou marcas profundas na sua mente e corpo – o trauma – permite que a filha de mãe narcisista consiga organizar a sua narrativa pessoal de forma lógica. Nestas circunstâncias, há um grande senso de alívio e bem-estar, em que a cliente se torna apta a, finalmente, validar a sua história e os seus sentimentos de impropriedade. Saber a verdadeira origem de sua confusão e insegurança e ter esta verdade confirmada por uma terapeuta empática é, em si só, um ato transformador.

A terapeuta que evita tocar em assuntos tabus, e que, por isso, não associa a experiência da filha de mãe narcisista com a família disfuncional às palavras “abuso” e “trauma”, priva-a de conceber a verdadeira extensão e implicância de não lidar com o seu problema de maneira franca e proativa. Ser vítima de abuso materno narcisista resulta, em sua esmagadora maioria, em trauma de ordem complexa. Os efeitos desta modalidade de trauma são sentidos não somente na infância, como também na idade adulta, frequentemente limitando a capacidade da filha de mãe narcisista de viver uma vida plena e de realizações, pois afetam o seu sistema emocional, corpo, psique e relacionamentos negativamente. A abordagem terapêutica que ajuda a filha de mãe narcisista a superar o trauma é aquela que o entende como fato e o conceitua através de uma elucidação clara e de fácil identificação. Sobretudo, trata-se de uma abordagem que reconhece os seus efeitos não como produtos de simbolismo ou uma imaginação fértil, mas como manifestações reais de um problema de saúde mental que exerce um impacto negativo na sua qualidade de vida.

Se você é filha de mãe narcisista e está pensando em buscar um tratamento, escolher uma terapeuta sensível, que entenda e respeite você, a sua história e verdadeira dimensão do seu problema é fundamental. A terapia que ignora os fatores acima falha em reproduzi-los de forma satisfatória e, portanto, revela-se como uma perda de tempo e dinheiro. Além disso, uma “profissional” que está mais preocupada em provar uma teoria e proteger valores de família absolutos e obsoletos do que reconhecer a verdade de uma cliente traumatizada e vítima de abuso tem o potencial de aliená-la e até retraumatizá-la, prejudicando-a em vez de ajudá-la. Portanto, recomendo cautela.

Quando em terapia, reflita sobre as seguintes perguntas:

  • Eu me sinto compreendida e acolhida por esta terapeuta?
  • Ela parece possuir um conhecimento atualizado e apropriado sobre o meu tipo de problema?
  • Ela aborda o que passei sob a perspectiva do abuso e trauma?
  • Eu me sinto mais esclarecida com os comentários, esclarecimentos e as interpretações desta terapeuta?

Se a resposta for sim para todas essas perguntas, há uma grande probabilidade de que a terapia será produtiva.

2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista

Como se não bastasse ser vítima de abuso, a filha de mãe narcisista também tem de lidar com a indiferença daqueles que se recusam a reconhecer a legitimidade de seu sofrimento. Tentar fazer com que os outros entendam a gravidade de sua situação ou a intensidade do impacto que o comportamento irracional da mãe narcisista exerce em você e na sua família revela-se, muitas vezes, algo infrutífero. São raras as situações em que se sentem de fato compreendidas, pois a tendência quase universal é de que suas experiências sejam completamente invalidadas assim que são compartilhadas com uma ou demais pessoas.

Essa descrença não se deve somente à falta de conhecimento acerca dos transtornos de personalidade, mães e pais tóxicos e/ou famílias disfuncionais, como também corresponde a uma atitude intolerante regida por crenças rígidas, incoerentes, que falham significativamente em explicar o comportamento humano de maneira holística, realista e objetiva. A seguir 2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista para que você se proteja contra a ignorância alheia:

1- Coisas ruins acontecem a pessoas más

2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista
O sofrimento da filha de mãe narcisista é raramente validado

A crença de que o mundo é justo, ou seja, de que coisas ruins só acontecem a pessoas más, é uma das mais simplistas, errôneas e infantis da cultura ocidental. A nossa inclinação natural é de acreditarmos cegamente na suposta bondade universal de todos os seres humanos, sobretudo quando têm trabalho, um nível educacional razoável e parecem cumprir fielmente com a lei. Surpreendemo-nos profundamente quando um vizinho de alto nível social é escoltado para dentro de um carro de polícia por ter tentado matar a mulher a pancadas na noite anterior. Mesmo em face da complexidade e irracionalidade humana, ainda tentamos encontrar justificativas para comportamentos impróprios a fim de que se encaixem na nossa visão fixa de realidade subjetiva (“este tipo de coisa não acontece no meu bairro”). Concluímos, então, que a suposta vítima deve ter contribuído, de alguma forma, para o seu infeliz destino; se esta interpretação se mostra improvável, passamos a questionar ou normalizar a extensão de seu sofrimento.

Da mesma forma, indagamos, “Como uma mãe que trabalha, paga as suas contas em dia e exibe tão boa aparência é capaz de tratar a filha de forma tão brutal?”. Se a filha de mãe narcisista é maltratada pela matriarca é porque fez algo para merecer tal tratamento ou está dramatizando a situação. Ou um ou outro para se encaixar perfeitamente na minha visão de mundo e não abalar os fundamentos da harmonia que me esforço tanto em manter entre a minha perspectiva e experiência. Alimentar a ilusão de que a vida é justa e recompensa o bom comportamento me permite me sentir seguro e bem a respeito de mim mesmo, além de dar significado a minha existência (“nada de ruim acontece/acontecerá comigo, pois sou uma boa pessoa”).

2- Os seres humanos são mestres de seus próprios destinos

Outra crença falsa que promove uma ideia utópica de que somos capazes de exercer total controle sobre nossas vidas. Além disso, ajuda a disseminar uma noção rígida e desumana de perfeição e equilíbrio em todos os contextos, excluindo vulnerabilidades como se não fizessem parte da nossa constituição ou contribuíssem para definir a nossa história.  Como resultado, vítimas de injustiça, assim como sofredores de abuso e trauma são rapidamente esquecidos, considerados incompetentes, fracos e/ou merecedores de seu destino, visto que, supostamente, falharam em influenciar os eventos de sua vida de maneira positiva.

A filha de mãe narcisista que dá voz a seu sofrimento tende a ser repreendida, excluída ou julgada negativamente por ser um inconveniente lembrete da fragilidade e maldade humana. Aceitar a realidade de milhões de crianças, homens e mulheres ao redor do mundo que são ou foram abusados psicológica, emocional e/ou fisicamente por sua própria mãe ou pai corrompe a nossa imagem e desestabiliza o nosso senso de falso equilíbrio e o controle sobre nós mesmos.

Questionar as crenças que suportam a ideia de que vivemos em um mundo justo e somos inerentemente bons e infalíveis significa aceitar as nossas vulnerabilidades e a incerteza contida na existência humana. Tal processo requer um nível de amor-próprio, honestidade e maturidade altos para se materializar. Na próxima vez em que alguém duvidar de seu sofrimento ou tentar invalidar a sua história, lembre-se disso e, ao invés de se sentir diminuída, cumprimente-se por ter a coragem e a força interior de enfrentar a sua angústia e seus medos, face a face.