O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista

O segredo do sucesso da sobrevivente de abuso narcisista
A sobrevivente de sucesso é aquela que transcende o próprio trauma

Descobrir que se é filha ou filho de uma mãe narcisista representa um momento que marca não somente a história, como também a trajetória de crescimento e desenvolvimento pessoal destes indivíduos. Isso se deve ao fato de que a verdade narcisista é tão reveladora que se torna impossível ignorá-la e tocar a vida como se ela não existisse. A autoconsciência acerca do problema (narcisismo materno), seus efeitos (abuso e trauma) e implicações (cortar o contato) tende a dar origem a uma intensa mistura de sentimentos, tais como: alívio, medo, vergonha e revolta, entre outros. Sobretudo, tende a despertar na vítima uma grande vontade de mudar e reaver a sua autonomia e dignidade. Este forte desejo de viver uma existência feliz, de paz e realizações através da livre expressão de sua essência – tão castigada pelos ataques de uma mãe egoísta, controladora e invejosa – é a energia motivadora que dá início ao seu processo de libertação pessoal.

Embora a vontade de se libertar das garras de uma mãe abusiva tenda a ser voraz, nem todas as filhas de mães narcisistas conseguem retomar as rédeas da própria vida e se afastarem dessa influência nefasta. Este artigo visa explorar a diferença entre elas, ou trazer à luz as características da filha de mãe narcisista que pretende acabar com o ciclo de abuso narcisista e propulsar o seu processo de cura e sua independência psicológica e emocional.

Vítima ou sobrevivente?

A libertação pessoal da vítima de abuso narcisista, independente de sexo, é alcançada quando investe esforço e determinação em uma mudança radical de atitude. Mudar, neste contexto, exige pensar e agir como uma sobrevivente e, não mais, como uma vítima. Na prática, esta mudança pode ser observada quando a vítima substitui as suas estratégias de enfrentamento disfuncionais, como a negação e a repressão emocional por táticas mais saudáveis, autoconfiantes e maduras. Em vez de se sentir permanentemente intimidada e à mercê de sua própria inadequação a, então, sobrevivente não só é capaz de reconhecer o abuso sofrido como algo amoral, brutal e injusto, bem como validar todas as emoções antagônicas desta descoberta terrível, tais como: a tristeza, a raiva e os demais sentimentos que compreendem o luto, com honestidade e coragem. A sobrevivente não foge da própria dor e dos sentimentos de abandono e solidão que acompanham a genuína conscientização de sua perda, tampouco os normaliza ou diminui o impacto negativo que a mãe exerce sobre os seus bem-estares físico, psicológico e emocional, mas se permite registrá-los, processá-los e aprender com estes.

Devido ao fato da sobrevivente valorizar o próprio bem-estar e honrar suas emoções, cortar ou reduzir drasticamente o contato com a mãe narcisista revelam-se como as alternativas mais sensatas e responsáveis. Diferente da vítima que perpetua o processo de vitimização, insistindo em forçar uma falsa conexão afetiva com uma mãe exploradora e egoísta, a sobrevivente recusa-se a submeter-se a sua atitude errática, de forma consistente e firme, colocando a sua sanidade e qualidade de vida em primeiro lugar.

O segredo do sucesso da sobrevivente: a tolerância do desconforto emocional

Visto que se afastar da própria mãe – mesmo quando extremamente abusiva – trata-se de uma tarefa inédita nos contextos socioculturais que glorificam os valores de família rígidos e obsoletos, comportar-se como uma sobrevivente requer estâmina. Como se não bastasse esta mentalidade coletiva retrógrada, a filha de mãe narcisista também deve enfrentar a sua notória falta de autoconfiança e medo insuportável de se autoafirmar. Quando uma criança é sistematicamente atacada e rejeitada cada vez que expressa a sua identidade, vontades e interesses próprios, aprende a associar a autoafirmação com uma experiência extremamente dolorosa. No decorrer do tempo, é condicionada a fazer somente o que favorece os pais controladores e a família disfuncional, sacrificando a própria alma como se fosse algo irrelevante. Portanto, para a filha de mãe narcisista a qual foi submetida a anos de maltratos psicológicos, emocionais e físicos, dizer não a quem abusa dela resulta, naturalmente, em grande desconforto emocional.

Como se autoafirmar é um supergatilho que remete a filha de mãe narcisista a várias experiências traumáticas de seu passado, tais como desentendimentos e discussões intermináveis, aprender a tolerar o medo, a insegurança e a ansiedade, assim como os demais sentimentos de inadequação associados a uma atitude autêntica e autônoma é determinante para o sucesso de seu processo de emancipação e crescimento pós-traumático. A filha de mãe narcisista consegue superar o trauma e até prosperar nos campos pessoal e profissional, quando reconhece e aceita tais vulnerabilidades, mas não se permite ser dominada por elas. Logo, a sobrevivente de sucesso é aquela que, por estar ciente de seus gatilhos, transcende o próprio trauma resistindo à pressão de se diminuir e se fazer insignificante diante da mãe narcisista e demais familiares, ato que, apesar de sua natureza incoerente, ainda é encorajado por um grande número de indivíduos que defende as instituições “mãe” e “família” como invioláveis.

Se você está pensando ou já iniciou o processo de corte ou redução de contato com a mãe narcisista e/ou família tóxica, mas não se sente segura, lembre-se de que este desconforto é normal considerando o seu histórico de abuso e trauma. Você não foi educada para se autoafirmar e agir de acordo com a sua cabeça, mas para submeter-se a eterna tirania de sua mãe narcisista. O que você está fazendo é um ato revolucionário até para o seu próprio entendimento, logo, dê tempo a si mesma, ao seu cérebro, ao seu corpo e as suas emoções, para se acostumarem com a ideia. Todo o tipo de hábito, por mais prejudicial a sua saúde, não é fácil de ser erradicado ou substituído sem um mínimo de desconforto emocional. Se você se sente inadequada para tomar uma decisão tão adulta e independente, tal como se distanciar de uma pessoa ou pessoas que lhe faz/fazem mal, a sua inquietação é um bom sinal, pois marca a saída da sua zona de conforto e um superavanço na sua habilidade de implementar mudanças positivas na própria vida.

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista
O reconhecimento que você procura está dentro de você

De forma incoerente, egoísta e cruel, filhas e filhos de mães narcisistas são forçados a se sentirem culpados por se recusarem a tolerar o comportamento transtornado de suas mães narcisistas.  A mensagem que recebem dos pais facilitadores, parentes, amigos e colegas – bem como da sabedoria burra do senso comum – tende a permanecer a mesma: independente do que a sua mãe fez ou faça, nada parece ser condenável o suficiente para ser reprovado. O que ouvem, pelo contrário, é que é “seu dever” aturá-la, aplacá-la, satisfazê-la e até perdoá-la, mesmo quando esta não possui humildade nenhuma para pedir desculpas tampouco perdão pelo abuso que cometeu e ainda comete contra os próprios filhos. Não é nenhuma surpresa, portanto, que como filho ou filha de mãe narcisista, você se sinta pequeno e insignificante, além de apresentar problemas de baixa autoestima. Como conseguir se autoafirmar contra tamanha injustiça, quando é tão difícil encontrar aliados ou pessoas corajosas o suficiente para reconhecerem esta verdade?

Chegou a hora de parar de buscar confirmação externa para o seu sofrimento. O reconhecimento que você procura assim como o amor e o respeito que tanto merece estão dentro de você.  Para ajudá-lo a dar voz a você a tudo o que sente e passou nas mãos de uma mãe e família tóxicas, leia e memorize a lista abaixo para relembrá-lo de sua humanidade e valor:

Declaração dos direitos da filha de mãe narcisista

  1. Eu tenho o direito de sentir raiva de quem abusa de mim.

  2. Eu tenho o direito de ser tratada como adulto.

  3. Eu tenho o direito de dizer não.

  4. Eu tenho o direito de cometer erros.

  5. Eu tenho o direito de cortar o contato com pessoas tóxicas, independente de quem sejam.

  6. Eu tenho o direito de viver a minha vida de acordo com a minha cabeça.

  7. Eu tenho o direito de reclamar do que não acho correto e das injustiças cometidas contra mim.

  8. Eu tenho o direito de validar a minha história e realidade.

  9. Eu tenho o direito de me proteger.

  10. Eu tenho o direito de sentir emoções antagônicas, bem como expressá-las de uma forma não abusiva.

  11. Eu tenho o direito de pedir e recusar ajuda.

  12. Eu tenho o direito a ter minha própria vontade, opinião e interesses.

  13. Eu tenho o direito de mudar a minha forma de agir e pensar.

  14. Eu tenho o direito de viver uma vida plena e de realizações.

Use e abuse desta lista para lembrar-se de que ninguém, absolutamente ninguém, tem o direito de abusar de você. Como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, “laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva e boçal”. Ainda que a mulher que lhe deu à luz pareça ter mais direitos do que você, não se deixe lograr por uma cultura familiar paternalista, condescendente e de superioridade que protege pais e mães negligentes e abusivos, enquanto ignora o trauma, a dor e o desespero de filhos e filhas. Você tem todo o direito ao listado acima e muito, muito mais. Faça de seus direitos a sua bandeira de amor-próprio e carregue-a consigo, permanentemente e onde estiver. Não se permita ser manipulado por chantagem emocional e pare de praticar gaslighting contra si mesmo. A melhor maneira de legitimar a sua verdade é vivendo-a de forma autêntica, autônoma e de dentro para fora, com muita coragem e determinação.

Como se colocar em primeiro lugar em 2018

Como se colocar em primeiro lugar em 2018
Você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar

Dar prioridade ao próprio bem-estar não equivale a egoísmo, tampouco a narcisismo, já que uma autoestima alta é uma característica psicológica funcional e não patológica. Por mais que a sua mãe narcisista a tenha convencido do contrário ao longo de muitos anos de abuso, lavagem cerebral e um comportamento egoísta e egocêntrico, você tem todo o direito de se colocar em primeiro lugar. Mesmo que você seja mãe ou esteja vivendo um relacionamento amoroso, as suas necessidades, vontades e interesses têm grande relevância para a preservação de sua essência e saúde mental, bem como para garantir a sua qualidade de vida e a dos relacionamentos. Não há melhor exemplo de mãe, amiga ou parceira amorosa do que uma mulher que se valoriza como um indivíduo seguro e autônomo.

Sem dúvida, para quem foi criada em um ambiente familiar disfuncional e negligente, não se revela uma tarefa fácil concentrar-se em si, nos seus próprios problemas e objetivos. Se você está cansada de se sentir como uma atriz coadjuvante na própria vida, seguem 5 dicas de como se colocar em primeiro lugar em 2018:

1- Questione as atitudes e motivações codependentes

Colocar-se em primeiro lugar é dar atenção a si mesma de forma ativa e consciente, antes de tudo. Na prática, consiste em dizer não à codependência e sim ao amor-próprio, ou se concentrar em resolver a própria dor, assim como lidar efetivamente com os sintomas do trauma em vez de direcionar a atenção ao narcisismo da mãe, aos problemas do pai, da irmã, do irmão, dos amigos, parentes, parceiros amorosos etc., já que não são sua responsabilidade. Portanto, se a sua mãe é narcisista, não cabe a você encontrar a cura para o problema dela, pois além de não lhe pedir ajuda, não a reconhece como tal, tampouco dá valor a sua dedicação. A codependência não é uma atitude nobre, mas uma tendência comportamental masoquista e de autossabotagem baseada em estratégias de defesa e enfrentamento disfuncionais que evitam lidar com as emoções negativas fortes, tais como a tristeza e a vergonha de não ser amada pela própria mãe (e muitas vezes também pelo próprio pai e demais membros da família) através da negação, repressão, sublimação e dissociação, entre outros.

Para questionar a sua tendência codependente, monitore os pensamentos (sobretudo em relação a sua família) e, toda a vez que se flagrar tentando resgatar quem quer que seja, pergunte-se:

“Por que eu estou mais preocupada com os outros do que comigo mesma?”

“Que inseguranças e emoções negativas estou tentando mascarar através desta atitude?”

 “Quais são as minhas necessidades neste momento?”  

2- Mantenha uma atitude de tolerância zero com a culpa e a vergonha

No contexto do narcisismo materno, a culpa e a vergonha são sentimentos extremamente contraproducentes a uma autoestima saudável. É comum eu recomendar cautela aos meus clientes quando se sentem invadidos por tais sentimentos devido ao seu grande poder tóxico; entretanto, no caso de filhas de mães narcisistas, esta recomendação é redobrada. Se você tem uma mãe tóxica narcisista, recomendo muitíssimo que desconfie de pensamentos em relação a ela e à família que resultam em culpa e vergonha, pois 99,99% das vezes são incoerentes e provenientes de crenças negativas capazes de travarem o seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Lide com a culpa e a vergonha como lidaria com um incêndio dentro de casa, extinguindo-as imediatamente. Para fazê-lo, pode contar com a ajuda do seu diálogo interno iniciando um questionamento racional, adulto e centrado das verdadeiras motivações de tais sentimentos, como a chantagem emocional, por exemplo. Se preciso, verbalize a sua aversão à culpa e vergonha de forma clara através da escrita ou dizendo para si mesma em voz alta: “Culpa/vergonha em alta, autoestima em baixa!” Quando você se liberta da influência da culpa e vergonha, readquire a atenção e energia necessárias para focar em si, nos seus interesses e nas suas realizações.

3- Diga não à autossabotagem

Cultivar uma “autoestima” condicional, não respeitar os próprios limites e negligenciar os sentimentos, bem como se entregar ao perfeccionismo, à crítica negativa, à codependência, à procrastinação e à imobilidade são atitudes autossabotadoras. Tudo aquilo que rejeita quem você é e cria uma distância entre você e a sua essência compromete a autorrealização, seja nos campos pessoal, acadêmico ou profissional. Se você tem o hábito de acreditar em todo e qualquer pensamento que passa pela sua cabeça – especialmente os motivados pela culpa e vergonha, que insistem em convencê-la de não ser e agir de acordo com o seu verdadeiro eu para garantir a aprovação alheia ou de que não é boa o suficiente para alcançar o que deseja – isso a torna uma vítima fácil da autossabotagem. Quebre o ciclo da ruminação e saia do seu estupor reivindicando o direito de ser você, independente do que isso signifique. Lembre-se de que se aprende muitíssimo a respeito de si mesmo por meio de todo e qualquer ato cometido de forma honesta e autêntica. Rejeite a voz derrotista do narcisismo materno, seja proveniente de sua própria cabeça ou da língua venenosa de sua mãe, dizendo não à autossabotagem e dê asas a sua criatividade e expressão pessoal.

Sentir-se bem e em harmonia consigo é possível por intermédio da expansão da autoconsciência e autoconhecimento. Para entrar o ano sentindo-se com mais autonomia, adote uma posição autoafirmativa e inovadora investindo em maneiras de pensar e agir que complementam a pessoa que é e o que deseja para a própria vida. Se ainda necessita de mais inspiração para começar a implementar mudanças positivas na própria vida, sugiro a leitura do meu novo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.  No capítulo de número 4, Os cinco As de emancipação da filha de mãe narcisista, descrevo as atitudes e comportamentos que ajudam a filha de mãe narcisista a superar problemas antigos, readquirir o controle sobre si e reconectar-se com a própria vida.

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes?

Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância. Filhos e filhas de mães narcisistas, por crescerem em um ambiente de intenso abuso, negligência e instabilidade emocional correm o risco de apresentarem dificuldades em uma ou mais áreas de seu desenvolvimento, tais como: apego, biologia, equilíbrio emocional, capacidade cognitiva e autoconfiança. Sentir-se rejeitada, ignorada e, por vezes, totalmente inadequada na presença da genitora narcisista cria um ambiente hostil e repleto de ansiedade para o crescimento e desenvolvimento sadio de qualquer criança. A incoerência do estilo “maternal” deste tipo de mãe faz com que a filha, em particular, esteja sempre em alerta a possíveis perigos, como ser atacada física ou verbalmente por quem, supostamente, deveria amá-la e protegê-la. Por conseguinte, a atenção que deveria estar voltada para o desenvolvimento de características pessoais e funções mais sofisticadas de sua psique direciona-se para as suas necessidades básicas, como a sobrevivência e autopreservação, prejudicando o desenvolvimento de sua identidade e contribuindo para a criação de uma percepção essencialmente negativa e tendenciosa de si mesma, de mundo e relacionamentos. Caso você seja filho ou filha de uma mãe narcisista, a probabilidade de que tenha sofrido com o trauma do desenvolvimento é muito alta. Para entender a maneira pela qual crescer sob a tirania de uma mãe narcisista tem o potencial de afetar a sua mente, corpo e relacionamentos seguem os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes:

1- Você não tem uma visão coerente de si mesmo

Crescer acreditando que não é digna de ser amada, é incompetente e nada do que faz é bom o suficiente compromete a nossa capacidade de desenvolver uma percepção sadia e confiante de nós mesmos. É ter a essência constante e sistematicamente negada de forma tão cruel e persistente, como se houvesse algo errado consigo. A filha de mãe narcisista cresce acreditando ser de fato “quebrada” ou “errada”, percepção prejudicial não somente a autoimagem, com também a sua identidade, pois acaba investindo ainda mais energia desperdiçada em tornar-se alguém programado somente para satisfazer a mãe narcisista, perdendo o contato com o seu verdadeiro eu para proteger-se dos ataques dela e salvaguardar este relacionamento tóxico. Já na idade adulta, tem dificuldades de realizar-se nos campos pessoal, acadêmico e/ou profissional, pois não sabe ou encontra sérias dificuldades de reconhecer quem é, do que gosta e é capaz.

2- Você se sente facilmente sobrecarregada por pensamentos e sentimentos

Quais são os 5 sinais de trauma do desenvolvimento mais evidentes
Os sinais de trauma do desenvolvimento mal resolvido na idade adulta correspondem a uma série de eventos traumáticos na infância

Como o seu cérebro se desenvolveu em um ambiente hostil, adaptou-se a isso para protegê-la de ameaças ao seu bem-estar, sejam estas da natureza física ou psicológica/emocional. Filhas de mãe narcisistas são facilmente influenciadas por seus próprios pensamentos e sentimentos, sobretudo quando negativos. Dado que a sua sobrevivência, ou seja, sentir-se segura e protegida foram sempre a sua prioridade, leva-se muito a sério e confia em seus instintos muito mais do que na própria razão, como se fosse um animal selvagem sentindo-se permanentemente acuado por um predador. Por outro lado, a combinação de seu isolamento emocional, excesso de independência e visão tendenciosa faz com que seja suscetível às suas perturbações próprias emocionais e pareceres demasiado negativos os quais não revelam, necessariamente, uma fiel representação dos fatos.

3- Você tem dificuldade de regular as suas emoções

O adulto que quando criança não conta com a presença calma, tranquila e centrada de uma mãe atenciosa e consistente com as suas necessidades tem dificuldades de se equilibrar emocionalmente, já que aprendemos a regular as emoções com a ajuda do nosso genitor mais influente ou adulto responsável pelos nossos cuidados através do toque, afeição e carinho. Filhas de mãe narcisistas tendem a não conseguir equilibrar as emoções de uma forma efetiva e independente, geralmente necessitam se automedicar. Portanto, é bastante comum terem problemas de ansiedade, tal como o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT), assim como um índice de cortisol no sangue acima da média. A vida, como resultado, parece uma grande batalha para a filha de mãe narcisista, fazendo do drama, da angústia e do estresse características fixas e até “aceitáveis” de sua existência. Já que o seu “normal” é um intenso estado de alerta – seja este consciente ou não – inúmeras situações têm o potencial de desestabilizá-la emocionalmente.

4- Você tem dificuldade de criar relacionamentos seguros e estáveis

As vítimas sobreviventes de trauma do desenvolvimento tendem a apresentar dificuldades no campo dos relacionamentos, principalmente no amoroso. Visto que não possuem um adequado senso de segurança interno e externo, acham difícil confiar no outro e criar uma conexão afetiva verdadeira com as outras pessoas. Têm tanto receio de se envolverem afetiva e emocionalmente, a ponto de conscientemente se afastarem de qualquer intimidade que as exponha a uma situação de “risco”, tal como serem rejeitadas e maltratadas de novo. Como não conseguem equilibrar as emoções, tornam-se extremamente reativas e instáveis comprometendo, também, o relacionamento. Finalmente, a falta de autoconfiança e a baixa autoestima resultantes de uma percepção negativa de si mesma fazem com que se envolvam com parceiros errados, que não as respeitam e até abusam delas, repetindo o padrão de rejeição e circunstâncias hostis em que foi criada, mas por lhe ser tão familiar, cria uma falsa ilusão de apego e conexão afetiva.

5- Você evita lidar com lembranças traumáticas e dolorosas

Naturalmente, é doloroso revisitar memórias traumáticas. O nosso cérebro sabe disso e nos protege desta dor afastando e até bloqueia essas memórias. Não conseguir relembrar a infância ou se sentir desconfortável quando tenta relatar as experiências de vida com uma mãe narcisista e pai facilitador é um indicio poderoso de que tais memórias são potencialmente traumáticas. Se você não consegue produzir uma narrativa consistente com uma infância feliz e tranquila, citando um razoável número de exemplos de situações em que seus pais estiveram presentes não somente em corpo, mas também em alma para a protegerem, ajudarem-na e a apoiarem, é porque provavelmente este não foi o caso. A inconsistência de um relato de uma pessoa traumatizada pela indiferença materna e/ou paterna, por exemplo, é em si reveladora de que a visão de sua infância não corresponde à realidade dos fatos (a vítima sobrevivente de trauma do desenvolvimento defende que “não há nada de errado” com a sua infância, embora não consiga relembrar nenhum momento em que teria recebido apoio emocional de seus genitores, por exemplo).

Apesar do trauma do desenvolvimento ser um problema de saúde mental bastante complexo, frequentemente afetando o bem-estar emocional, os relacionamentos e a capacidade de realização pessoal da vítima sobrevivente, é possível de ser tratado. Uma atitude consciente e proativa em relação a sua existência, bem como seus efeitos, é por si só emancipadora. Abordar o trauma com honestidade e coragem demonstra-se fundamental para ser superado, seja buscando terapia ou implementando mudanças positivas na própria vida de modo independente. Quando se trata de trauma, a autoconsciência, o conhecimento a respeito do problema e uma atitude autônoma de recuperação do controle sobre a própria vida são indispensáveis para que se consiga curar as feridas do passado.

Terapia que ajuda x terapia que não ajuda

Devido à recente exposição do tema narcisismo materno e o aumento da conscientização em relação ao problema, há um renovado interesse na terapia por parte daqueles que se veem como uma vítima de uma mãe narcisista. Dado a dimensão do prejuízo causado por crescer e se desenvolver sob a tirania de uma mãe abusiva, torna-se natural a ideia da filha procurar apoio de uma profissional na área de saúde mental para lidar com os problemas de ordem psicológica e emocional resultantes deste relacionamento tóxico. Contudo, reunir a coragem e os recursos financeiros necessários para iniciar o tratamento psicoterápico não garante o sucesso de seu resultado. Dentre os inúmeros e-mails que recebo através do filhasdemaesnarcisistas.com.br, muitos incluem relatos de filhas de mães narcisistas que, embora tenham procurado tratamento, não se sentem melhores após terem investido tempo e dinheiro significativos. Isto ocorre porque encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado tem o potencial de tornar-se um processo difícil e até decepcionante, faz-se vital que se informe a respeito do tipo de terapia que tem a maior probabilidade de ajudá-la. Este artigo visa trazer à luz o papel que a terapeuta e o relacionamento com a cliente e, em especial, filha de mãe narcisista, exercem no sucesso ou fracasso da terapia.

O básico

Independente da abordagem terapêutica, a terapia funciona somente quando é Centrada na Pessoa, ou seja, respeita três condições básicas: a consideração positiva incondicional, empatia e congruência. Em termos práticos, isso quer dizer que a terapeuta não só aceita a cliente e suas circunstâncias sem julgá-la, bem como é capaz de se colocar no seu lugar e ver o mundo através de seus olhos com muito respeito, atitude refletida de forma inequívoca nos seus valores e comportamento. Como está ciente de que a cliente é a expert na sua própria vida, acredita nela e trabalha com ela para ajudá-la a promover a autoexploração e o conhecimento.

terapia
Encontrar a profissional correta para lidar com um assunto tão delicado pode tornar-se um processo difícil

Por mais que isso pareça evidente e até inquestionável para se criar um ambiente terapêutico seguro e produtivo, este cenário não é observado em todos os contextos, especialmente quando a cliente apresenta problemas que questionam as crenças da própria terapeuta. No caso da filha de mãe narcisista, uma terapeuta que acredita tão fielmente nas intuições Mãe e Família a ponto de não conseguir questioná-las ou analisá-las sob um ângulo negativo, irá comportar-se de forma naturalmente resistente quando se deparar com uma cliente cujos problemas de ordem psicológica e emocional estejam diretamente relacionados à atitude disfuncional, negligente e abusiva de seus genitores. Esta resistência se faz óbvia em comentários, tais como: “Mas ela é sua mãe”, “Você tem que entender e aprender como lidar com a sua mãe” etc.

Esse tipo de retórica somente reproduz o ambiente familiar de antagonismo e rejeição o qual a filha de mãe narcisista foi forçada a tolerar por longos e sofridos anos. É impossível sentir-se compreendida e aceita quando a própria terapeuta é incapaz de reconhecer e honrar a sua verdade, seja qual for. Portanto, não a complementa ou fortalece, tampouco ajuda a esclarecer os seus sentimentos de inadequação, mas apenas a faz sentir-se ainda mais incongruente, isolada e solitária.

Respeitando a verdade da filha de mãe narcisista

A função da terapeuta também é auxiliar a cliente a construir um senso de realidade que faça sentido e explique a sua experiência de modo coerente. Partindo desta premissa, a terapia que ajuda a filha de mãe narcisista é aquela que aborda os eventos que compõem a sua história como fatos e não fantasia. Quando o objetivo é emancipar a cliente, auxiliá-la a entender o que aconteceu consigo sob uma perspectiva clara e objetiva torna-se indispensável. Ajudá-la a entender que o que sofreu tem nome – abuso – e que, como tal, deixou marcas profundas na sua mente e corpo – o trauma – permite que a filha de mãe narcisista consiga organizar a sua narrativa pessoal de forma lógica. Nestas circunstâncias, há um grande senso de alívio e bem-estar, em que a cliente se torna apta a, finalmente, validar a sua história e os seus sentimentos de impropriedade. Saber a verdadeira origem de sua confusão e insegurança e ter esta verdade confirmada por uma terapeuta empática é, em si só, um ato transformador.

A terapeuta que evita tocar em assuntos tabus, e que, por isso, não associa a experiência da filha de mãe narcisista com a família disfuncional às palavras “abuso” e “trauma”, priva-a de conceber a verdadeira extensão e implicância de não lidar com o seu problema de maneira franca e proativa. Ser vítima de abuso materno narcisista resulta, em sua esmagadora maioria, em trauma de ordem complexa. Os efeitos desta modalidade de trauma são sentidos não somente na infância, como também na idade adulta, frequentemente limitando a capacidade da filha de mãe narcisista de viver uma vida plena e de realizações, pois afetam o seu sistema emocional, corpo, psique e relacionamentos negativamente. A abordagem terapêutica que ajuda a filha de mãe narcisista a superar o trauma é aquela que o entende como fato e o conceitua através de uma elucidação clara e de fácil identificação. Sobretudo, trata-se de uma abordagem que reconhece os seus efeitos não como produtos de simbolismo ou uma imaginação fértil, mas como manifestações reais de um problema de saúde mental que exerce um impacto negativo na sua qualidade de vida.

Se você é filha de mãe narcisista e está pensando em buscar um tratamento, escolher uma terapeuta sensível, que entenda e respeite você, a sua história e verdadeira dimensão do seu problema é fundamental. A terapia que ignora os fatores acima falha em reproduzi-los de forma satisfatória e, portanto, revela-se como uma perda de tempo e dinheiro. Além disso, uma “profissional” que está mais preocupada em provar uma teoria e proteger valores de família absolutos e obsoletos do que reconhecer a verdade de uma cliente traumatizada e vítima de abuso tem o potencial de aliená-la e até retraumatizá-la, prejudicando-a em vez de ajudá-la. Portanto, recomendo cautela.

Quando em terapia, reflita sobre as seguintes perguntas:

  • Eu me sinto compreendida e acolhida por esta terapeuta?
  • Ela parece possuir um conhecimento atualizado e apropriado sobre o meu tipo de problema?
  • Ela aborda o que passei sob a perspectiva do abuso e trauma?
  • Eu me sinto mais esclarecida com os comentários, esclarecimentos e as interpretações desta terapeuta?

Se a resposta for sim para todas essas perguntas, há uma grande probabilidade de que a terapia será produtiva.

2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista

Como se não bastasse ser vítima de abuso, a filha de mãe narcisista também tem de lidar com a indiferença daqueles que se recusam a reconhecer a legitimidade de seu sofrimento. Tentar fazer com que os outros entendam a gravidade de sua situação ou a intensidade do impacto que o comportamento irracional da mãe narcisista exerce em você e na sua família revela-se, muitas vezes, algo infrutífero. São raras as situações em que se sentem de fato compreendidas, pois a tendência quase universal é de que suas experiências sejam completamente invalidadas assim que são compartilhadas com uma ou demais pessoas.

Essa descrença não se deve somente à falta de conhecimento acerca dos transtornos de personalidade, mães e pais tóxicos e/ou famílias disfuncionais, como também corresponde a uma atitude intolerante regida por crenças rígidas, incoerentes, que falham significativamente em explicar o comportamento humano de maneira holística, realista e objetiva. A seguir 2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista para que você se proteja contra a ignorância alheia:

1- Coisas ruins acontecem a pessoas más

2 crenças que ajudam a invalidar o sofrimento da filha de mãe narcisista
O sofrimento da filha de mãe narcisista é raramente validado

A crença de que o mundo é justo, ou seja, de que coisas ruins só acontecem a pessoas más, é uma das mais simplistas, errôneas e infantis da cultura ocidental. A nossa inclinação natural é de acreditarmos cegamente na suposta bondade universal de todos os seres humanos, sobretudo quando têm trabalho, um nível educacional razoável e parecem cumprir fielmente com a lei. Surpreendemo-nos profundamente quando um vizinho de alto nível social é escoltado para dentro de um carro de polícia por ter tentado matar a mulher a pancadas na noite anterior. Mesmo em face da complexidade e irracionalidade humana, ainda tentamos encontrar justificativas para comportamentos impróprios a fim de que se encaixem na nossa visão fixa de realidade subjetiva (“este tipo de coisa não acontece no meu bairro”). Concluímos, então, que a suposta vítima deve ter contribuído, de alguma forma, para o seu infeliz destino; se esta interpretação se mostra improvável, passamos a questionar ou normalizar a extensão de seu sofrimento.

Da mesma forma, indagamos, “Como uma mãe que trabalha, paga as suas contas em dia e exibe tão boa aparência é capaz de tratar a filha de forma tão brutal?”. Se a filha de mãe narcisista é maltratada pela matriarca é porque fez algo para merecer tal tratamento ou está dramatizando a situação. Ou um ou outro para se encaixar perfeitamente na minha visão de mundo e não abalar os fundamentos da harmonia que me esforço tanto em manter entre a minha perspectiva e experiência. Alimentar a ilusão de que a vida é justa e recompensa o bom comportamento me permite me sentir seguro e bem a respeito de mim mesmo, além de dar significado a minha existência (“nada de ruim acontece/acontecerá comigo, pois sou uma boa pessoa”).

2- Os seres humanos são mestres de seus próprios destinos

Outra crença falsa que promove uma ideia utópica de que somos capazes de exercer total controle sobre nossas vidas. Além disso, ajuda a disseminar uma noção rígida e desumana de perfeição e equilíbrio em todos os contextos, excluindo vulnerabilidades como se não fizessem parte da nossa constituição ou contribuíssem para definir a nossa história.  Como resultado, vítimas de injustiça, assim como sofredores de abuso e trauma são rapidamente esquecidos, considerados incompetentes, fracos e/ou merecedores de seu destino, visto que, supostamente, falharam em influenciar os eventos de sua vida de maneira positiva.

A filha de mãe narcisista que dá voz a seu sofrimento tende a ser repreendida, excluída ou julgada negativamente por ser um inconveniente lembrete da fragilidade e maldade humana. Aceitar a realidade de milhões de crianças, homens e mulheres ao redor do mundo que são ou foram abusados psicológica, emocional e/ou fisicamente por sua própria mãe ou pai corrompe a nossa imagem e desestabiliza o nosso senso de falso equilíbrio e o controle sobre nós mesmos.

Questionar as crenças que suportam a ideia de que vivemos em um mundo justo e somos inerentemente bons e infalíveis significa aceitar as nossas vulnerabilidades e a incerteza contida na existência humana. Tal processo requer um nível de amor-próprio, honestidade e maturidade altos para se materializar. Na próxima vez em que alguém duvidar de seu sofrimento ou tentar invalidar a sua história, lembre-se disso e, ao invés de se sentir diminuída, cumprimente-se por ter a coragem e a força interior de enfrentar a sua angústia e seus medos, face a face.

É normal não amar a própria mãe?

Refletindo a respeito do narcisismo e do abuso sofrido, sentindo-se repleta de raiva de sua mãe, você conclui que o amor que, até então, nutria não existe mais. Sentindo-se inadequada e culpada pela escassez de afeto por quem a pôs no mundo, você se pergunta: “É normal não amar a própria mãe?

A resposta, decerto, é um grande e rotundo “SIM!”.

Quando bebê, você é programada para amar a mãe ou o adulto responsável por seus cuidados. Nos primeiros anos de vida, o amor que você sente por quem cuida é automático, pois consiste em um fator biológico. Este amor de natureza orgânica assegura o seu desenvolvimento e o sucesso de nossa espécie, já que nascemos totalmente frágeis e vulneráveis a um grande número de perigos e, precisamos, portanto, do cuidado e da proteção de um adulto.

Ao longo de nosso crescimento, passamos por vários estágios de desenvolvimento e aprendizado. Devido à influência de nossa cultura, religião e sabedoria popular, o significado do conceito “mãe”, como muitos outros, torna-se rígido. Você passa a acreditar que “mãe” significa “amor”.

Logo, na sua cabeça…

MÃE = AMOR

Esse conhecimento é adquirido e sedimentado de forma arbitrária. Questionar a validade desta crença em um país predominantemente católico como o Brasil, é como cuspir na cara da Virgem Maria. Mesmo que isto não reflita a sua realidade, você, no entanto, fica proibida de contrariar esta premissa, pois de uma mãe só se espera o bem. Toda mãe ama seus filhos, portanto, é seu dever honrá-la.

Crescer com esta falsa verdade tem um impacto de peso na saúde psicológica e emocional da filha de mãe narcisista. A contrariedade entre teoria e prática é tão grande, que acaba por se sentir como uma eterna farsa. Com a sua essência altamente abalada por não se encaixar no molde, a filha de mãe narcisista chega à idade adulta com um grande ponto de interrogação estampado na sua autoestima:

Por que a minha mãe não me ama?

O que há de errado comigo?

Por que ela me trata tão mal, me rejeita e me ataca verbalmente, quando tudo o que faço é amá-la e tratá-la bem?

O que eu fiz para merecer isso?

É normal não amar a própria mãe?
Não sentir amor por uma mãe narcisista e abusiva é perfeitamente normal

Estas e muitas outras perguntas nunca são respondidas e você amadurece sentindo-se insegura e perdida. Com o passar do tempo, a sua angústia se cristaliza transformando-se em uma permanente ansiedade que, por sua vez, torna-se uma característica fixa de sua personalidade.

Um belo dia você se dá de cara com a verdade narcisista. Você descobre que o problema da sua mãe tem nome: transtorno de personalidade narcisista. Tudo começa a fazer sentido e fica difícil de ignorar os fatos: não há nada de errado com você, mas há algo de muito errado com a sua mãe. A sua mãe é diferente.

No caso dela…

MÃE NARCISISTA ˃ AMOR

…ou seja, quanto mais narcisista menor a capacidade dela de nutrir amor genuíno por você.

Você se dá conta de que o suposto “amor” que até então mantinha vocês pretensamente unidas não passa de uma ilusão. Você compreende que este amor de mentira é como uma avenida de mão única na qual você passa a vida caminhando, sempre em frente na direção de sua mãe narcisista sem nunca alcançá-la.

Como você não é mais uma criança inexperiente e despreparada, enfim, compreende que alimentar este amor de mentira está lhe deixando doente. Por outro lado, você se sente forte e madura o suficiente para confrontar a noção de que laço sanguíneo se iguala a amor. Você entende que não é só porque ela a pôs no mundo que de fato a queira, respeite ou ame.

Pouco a pouco, você começa a restaurar a sua dignidade. Movida por uma intensa raiva de ter sido tão traída e injustiçada por tudo e por todos – tanto por quem a devia ter protegido, como por uma cultura absolutista e matriarcal que glorifica o papel da mãe enquanto negligencia o bem-estar da criança, promovendo a pressuposta superioridade da primeira, inadvertidamente e em todos os contextos familiares, criando as condições perfeitas para a prática e a manutenção do abuso.

Devido ao fato de você ter o mínimo de amor-próprio, você refuta a validade de uma dedicação cega. Das profundezas de uma autoestima destroçada, você se reergue. É neste preciso momento de reivindicação de sua própria alma que você reconhece que o “amor” antes sentido desvaneceu-se. “É normal não amar a própria mãe?”, você pergunta.

A resposta, é claro, é um grande, rotundo “SIM!”.

O verdadeiro significado do antagonismo da mãe narcisista

Denise[i], 20 anos, uma de minhas clientes e filha de mãe narcisista, conta como o ego incansável da mãe é fonte de eterna chateação:

“A minha está sempre me enchendo o saco para fazer coisas pra ela. Ela não me pede um favor como uma pessoa normal e de forma delicada, é sempre “Eu preciso que você faça isso pra mim”, como se eu fosse sua assistente de plantão. Nunca pede “Por favor” ou diz “Obrigada” de forma genuína, é como se fosse minha obrigação servi-la. Se eu digo “Não” pela razão que for, ela fica “p” da vida, faz o maior escândalo, fica braba pelo resto do dia e se recusa a falar comigo. A minha mãe tem um hábito superinfantil de se comportar como criança mimada cada vez que suas vontades não são atendidas.  

Até recentemente, custava-me recusar um “pedido” dela, sobretudo na frente dos outros. Mas algo mudou. Há dois dias atrás, eu e o Edu (namorado de Denise) estávamos comendo algo na cozinha quando ela já entrou dizendo, “Eu preciso que você fale com aquela sua amiga sobre o desconto que ela prometeu na estética do pai dela, pois precisando pintar e cortar o meu cabelo urgente”. Como eu já estava quase saindo e tinha planos para o resto do dia, falei pra ela que iria ligar pra minha amiga no outro dia à noite”. A minha mãe, indignada, disparou “Obrigada!” e saiu da cozinha toda apressada como se eu tivesse me recusado de salvá-la de um iminente enforcamento.

O verdadeiro significado do antagonismo da mãe narcisista
A intransigência da mãe narcisista é difícil de aturar

Em vez de ficar me sentindo culpada e mudar meus planos só para agradá-la, eu resisti. Não sei o que deu em mim e na frente do Edu eu respondi, mais “p” da vida do que ela, “Obrigada, por quê? Se você tem tanta urgência que não pode esperar um dia por um telefonema, pega o telefone e liga você!”, ela, então, rebateu com “ bem, já ouvi” (a minha mãe se comunica através de mensagens enigmáticas, se você não conhece o estilo narcisista, “ bem, já ouvi” quer dizer “ bem, insignificância, entendi que você está ‘tentando’ se autoafirmar”).

Eu achei o máximo o que eu fiz, fiquei tão orgulhosa! Pela primeira vez consegui mostrar pra ela que tenho coragem de dizer não também na frente dos outros. O Edu adorou o meu entusiasmo, pois conhece muito bem a sogra que tem!

No outro dia, eu liguei pra minha amiga e meio sem graça pedi aquele bendito desconto pra minha mãe (eu não gosto de pedir favores). Com o telefone na mão, fui atrás da minha mãe para, então, marcar um horário. A minha mãe me disse que não precisava mais, pois já tinha marcado horário com outro cabelereiro e, é claro, sem me avisar. Eu fiquei com a maior cara de idiota quando descobri e tive de inventar uma estória furada pra minha amiga pra justificar o porquê de ter ligado pra pedir algo de que não preciso. Como sempre, a minha mãe venceu, não somente me fez passar vergonha, mas também deixou bem claro que faz o que quer, na hora que quer.”

Conversando com a Denise a respeito do ocorrido em uma de nossas sessões de terapia, ela rapidamente reconheceu a extensão do papel que o antagonismo exerce na dinâmica de seu relacionamento com sua mãe narcisista. Denise compreendeu que a intransigência da mãe não se trata apenas de uma demonstração de poder (“Aqui quem manda não é você, sou eu. Se você não me obedecer, será punida”), como também um dos veículos narcisistas mais eficientes de invalidação da autonomia e dos limites pessoais de seus objetos de manipulação psicológica. Ao ignorar por completo o desejo da filha, a mãe narcisista ignora a pessoa inteira, fazendo com que esta se sinta destituída de sua própria individualidade, maturidade, identidade, livre-arbítrio e poder de decisão. O antagonismo da mãe narcisista é castrador. É usado, principalmente, para submeter a filha à tirania de seu ego, fazendo-a sentir-se impotente e como se estivesse perpetuamente subjugada a uma suposta força maior. Ver a filha perdida e com a autoconfiança destroçada, como foi o caso no relato de Denise, proporciona a mãe narcisista certa aura de superioridade, sentimento do qual depende para criar uma falsa ilusão de autoestima.

“O que fazer?”, pergunta a filha de mãe narcisista.

Se você convive cotidianamente com uma mãe narcisista e ainda não tem condições de alçar voo solo pela razão que for, passe a colocar o foco da sua atenção nela e não em você. Enquanto ela age de maneira inflexível e obstinada, analise seu comportamento mentalmente fazendo referência à longa lista de atitudes transtornadas narcisistas. Reafirme a sua posição e não ceda a chantagens emocionais, afinal, como dizem os norte-americanos: We don’t negotiate with terrorists (Nós não negociamos com terroristas). Aprenda a colocar os seus limites em prática dizendo “Não!” e reitere as suas vontades pelo número de vezes que se fizer necessário (para dicas de como dizer não a sua mãe narcisista, clique aqui). Embora a sua mãe não mude a tendência antagonista por sua causa, você se sentirá muito mais adulta, autoconfiante e livre.

[i] Nome fantasia para proteger o anonimato de minha cliente

15 mantras para reduzir o efeito da culpa

15 mantras para reduzir o efeito da culpa
Mantras podem ajudá-la a reduzir o efeito corrosivo da culpa

Toda filha de mãe narcisista eventualmente sente-se oprimida pela culpa. Isso se deve ao fato de que a mãe narcisista usa e abusa da culpa para manipular a filha, desde pequena até a idade adulta. Por ser um sentimento tão familiar e automático, a culpa acaba tornando-se um fardo que a filha de mãe narcisista carrega ao longo de seu desenvolvimento, limitando seu crescimento pessoal e a sua capacidade de sentir-se adulta, realizada e no controle de si mesma. A culpa não somente rouba a filha de mãe narcisista de sua autonomia, mas corrompe seus limites pessoais, fazendo-a sentir-se perdida e completamente a mercê do ego narcisista.

Por ser um sentimento extremamente tóxico e nocivo a sua autoestima, como filha de mãe narcisista faz-se vital monitorar e identificar a presença da culpa para então contextualiza-la na sua experiência com o narcisismo materno. Os “mantras” – ou palavras/frases usadas de forma repetitiva para induzir um estado de paz interior – são ferramentas cognitivas poderosas para ajudá-la a alcançar este objetivo, ou seja, a colocar a culpa “no seu lugar” e restringir o impacto danoso que provoca na sua autoestima.

Seguem 15 mantras para reduzir o efeito da culpa em você: 

“Este sentimento é uma herança do narcisismo, portanto, não é acurado”

“Eu priorizo o meu bem-estar emocional e não a culpa”

“Culpa em baixa, autoestima em alta”

“Quem manda aqui sou eu e não a culpa”

“Xô, culpa! Eu me amo!”

“Eu sei o que é melhor para mim, não a culpa”

“O passado pertence ao passado”

“Eu tenho direito a dizer não”

“Eu não respondo à chantagem emocional”

“A culpa não é benvinda”

“A culpa é um convite ao auto boicote”

“Eu não me permito ser manipulada pela culpa”

“Sai, culpa! Eu não saboto a minha felicidade”

“Quando a motivação é culpa o resultado é insatisfação”

“A culpa não me favorece”

Eu recomendo muito se você sofre com a culpa que se torne alerta de seu poder de destruição. Faça a sua prioridade aumentar a sua consciência do valor de seu diálogo interno e questione a “sabedoria” cega da culpa em toda e qualquer situação em que a mesma tentar influencia-la. Não se iluda, a culpa não é sua amiga tampouco a voz da verdade. Só porque você manteve um relacionamento de muitos anos com ela não significa que é um sentimento benéfico. Valorize o seu amor-próprio acima de tudo e busque na sua essência as respostas que está procurando.

Como dizer não a sua mãe narcisista

Como dizer não a sua mãe narcisista
Dizer não a uma mãe narcisista requer estâmina e determinação

Se você acha difícil dizer não a sua mãe narcisista, você não está sozinha. Narcisistas se recusam a respeitar os limites pessoais e acreditam que aqueles com quem convivem devem comportar-se como serviçais de seu ego gigantesco. Em vista disso, dizer não a uma narcisista requer estâmina e determinação. Como é imprescindível que você aprenda a dizer não para proteger seus limites pessoais assim como sua autoestima, individualidade e autonomia, seguem 6 estratégias para ajudá-la a dizer não a sua mãe narcisista.

Como dizer não a sua mãe narcisista:

1- Diga “não” de formas variadas

Negar uma oferta, convite ou pedido de ajuda, por exemplo, não precisa ser feito de maneira ríspida. Há várias formas de se recusar a fazer algo que não se deseja objetivamente e com polidez. Um tom centrado e imparcial comunica convicção e uma atitude adulta. Se você não sabe o que dizer quando pressionada por sua mãe narcisista e a se conformar com o que ela estiver propondo, as frases abaixo podem ajudá-la:

“Não estou com vontade”

“Não estou disposta”

“Isso não é o que planejei para mim”

“Isso não é o que eu quero”

“Não é isso que eu quero para mim”

“Prefiro seguir o/a(s) meu/minha(s) plano(s)/vontade(s)/sentimento(s)”

“Não é minha prioridade”

“Este não é o meu estilo”

“Não está nos meus planos”

“Este plano não fui eu quem fez”

“Este plano não é meu”

“Esta opção não me agrada”

“Não posso, preciso me concentrar nos meus afazeres/planos”

“Quero priorizar o que tenho para fazer”

2- Não peça desculpas

Quando você se des-culpa para uma mãe narcisista, você assume responsabilidade por problemas que não são seus. Vale reiterar que a sua mãe ou o que ela quer não é incumbência sua. Assim como você, ela já tem idade e experiência necessárias para responsabilizar-se por seu próprio bem-estar.

3- Repita a sua resposta

Uma das qualidades essenciais de um bom negociador é a resistência, ou seja, a capacidade de fazer valer a sua posição, independente dos humores ou interesses dos envolvidos na negociação. Como filha de uma narcisista, você tende a fazer o oposto disso, em vez de resistir às tentativas de sua mãe de manipulá-la, acaba cedendo. Para romper com este hábito, passe a reiterar sua posição repetindo sua resposta ou intercalando-a com as sugestões citadas, pelo tempo que for necessário.

4- Não se deixe levar por dramas

A mãe narcisista não perde a batalha sem uma luta sanguinária. Se ela quer algo de você, usará de toda arma possível para extrair uma resposta positiva: choramingo, chantagem emocional, acusações a sua pessoa etc. É neste instante que a dissociação torna-se a sua melhor amiga. Assim que a sua mãe narcisista começar a dramatizar, concentre-se em um ponto (objeto, cena, paisagem) e passe a analisá-lo detalhadamente em sua mente enquanto ela encena seu teatro, não reaja a provocações, agressividade passiva ou emoções antagônicas fortes. Quando ela terminar, repita a sua resposta de maneira calma e centrada.

5- Não dê explicação

Você tem todo o direito de dizer “não” a sua mãe narcisista ou a quem quer que seja. Você não deve explicação, pois é adulta o suficiente para saber o que é melhor para si. Justificativa é cortesia e não obrigação. Cada um é responsável por seus sentimentos, vontades e escolhas, por isso, não é seu dever sentir-se culpada pela frustação proveniente de ideias que não são suas. Você não veio ao mundo para servir aos interesses dos outros, seja pai, mãe, amigo(a), chefe, marido, filho(a) ou parente, mas para viver a vida de acordo com o seu pensamento. Só você se conhece bem o suficiente para saber a sua resposta certa, se é “não” é não. Ponto.

6- Mude de assunto

Se após repetir suas respostas intercalando-as com as opções mencionadas por um período prolongado e a sua mãe narcisista ainda estiver insistindo em convencê-la a fazer o que deseja, mude de assunto. Converse sobre algo totalmente diferente do que ela está falando, para tornar difícil o retorno ao tópico anterior. A intenção é passar a mensagem de que você não está disposta a concordar com ela – definitivamente – e que “a vida continua”, ou seja, há outros eventos acontecendo na sua e até na vida dela que também merecem atenção.

O diálogo a seguir contém as estratégias explicadas. Observe como elas são aplicadas na conversação entre uma mãe narcisista (MN) e sua filha (F):

(No telefone)

MN: Lembra da Juca?

F: Lembro.

MN: Hoje é aniversário dela. Eu queria muito ir, mas o meu carro na oficina. Ela gosta tanto de você… A gente poderia ir juntas no seu carro…

F: Não estou com vontade.

MN: Mas hoje é o aniversário dela e ela mora superlonge e eu não tenho como ir!

F: Não estou disposta.

MN: Que é isso minha filha!… Você doente?

F: Não. Não estou disposta.

MN: Se você não está doente, então, por que não pode me levar? Você não precisa ficar na festa, só me dar carona.

F: Não está nos meus planos.

MN: Mas você pode fazer o que quiser, só me deixa na casa da Juca e vai embora. Não estou pedindo muito! Você nunca faz nada pra mim…

F: Prefiro não ir.

MN: Que egoísmo! Você só pensa em si mesma, não é capaz de ajudar nem a própria mãe, quando tudo que eu faço… blá, blá, blá…

F: (Não entra no clima de drama da mãe e permanece em silêncio, enquanto remove casquinha de esmalte das unhas e faz planos para a próxima manicure).

MN: Alô?

F: Hum.

MN: Então, você vai me levar?

F: Não posso, preciso me concentrar nos meus afazeres.

MN: Que afazeres?

F: Prefiro cuidar dos meus planos (F mantém tom de voz calmo e centrado)

MN: Que planos? (Em tom sarcástico)

F: Meus planos, coisas que tenho para fazer (F mantém o mesmo tom de voz, calmo e centrado)

MN: Mas o que é tão importante que você não pode me ajudar? (Em tom de voz alto e irritadiço)

F: Meus planos, coisas que tenho para fazer (F mantém o mesmo tom de voz, calmo e centrado). Te contei que esta semana encontrei com a Lena, aquela amiga minha que se mudou para o Uruguai há dois anos? Ela…blá blá blá…

Dizer não a sua mãe narcisista exige dedicação e esforço de sua parte, mas é extremamente recompensador quando consegue. Nada lhe dará tamanha satisfação do que sentir-se em controle de si mesma e dona de sua própria vontade, e não como uma marionete à mercê dos interesses narcisistas. Se no princípio sentir-se insegura e culpada, em vez de se concentrar nestes sentimentos, congratule-se por sua coragem. A tendência é de que com o tempo dizer não a sua mãe narcisista se tornará um ato mais natural e automático. Para garantir seu sucesso, persistência, amor-próprio e complacência são essenciais. Não se recrimine quando não conseguir dizer não tampouco quando a culpa tentar minar o seu entusiasmo quando realizá-lo. Aja como sua melhor amiga consolando a si mesma e reconhecendo o valor de seu empenho.