Entenda a conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual

Entenda a conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual
A insatisfação sexual é uma questão que tende a afligir as vítimas de abuso narcisista

No artigo anterior deste blog, “Como regular as emoções negativas”, sugeri técnicas simples para a regulação emocional, algo que comumente revela-se como um desafio para as filhas de mães narcisistas. No presente artigo, exploraremos outra questão que tende a afligir as vítimas de abuso narcisista e que está intrinsicamente relacionada a sua história de trauma e dificuldade de regular as emoções: a insatisfação sexual.

Embora a conexão entre o abuso sexual e o desenvolvimento dos problemas desta ordem seja-nos fácil de ser concebida, associar o trauma causado pelos abusos de natureza psicológica/emocional e a falta de satisfação sexual da vítima não é algo que exploremos com a mesma naturalidade. Comumente se observa, inclusive no ambiente terapêutico, é que a vida sexual do(a) cliente – se lidada na sala de terapia – raramente é examinada sob a perspectiva do trauma, sobretudo quando não está relacionada, essencialmente, a um histórico de abuso sexual. Enquanto que compreendemos o impacto negativo que o estupro potencialmente cause nas relações sexuais após o evento, é difícil imaginar como ser humilhado e rejeitado por uma mãe tóxica ao longo do desenvolvimento influencia a capacidade de um indivíduo de ter uma vida sexual satisfatória na idade adulta.

A verdade, nua e crua, é que independente da natureza do trauma, todos têm o potencial de causar um grande impacto na qualidade de vida da vítima, inclusive sexual. Abaixo estudaremos os principais fatores que contribuem para este cenário e expõem a conexão entre o trauma, os problemas de controle emocional e a insatisfação sexual.

Alta reatividade

Se você é um leitor assíduo dos artigos publicados no blog do Filhas de Mães Narcisistas, já está ciente de que o cérebro humano, quando exposto a contínuo estresse tal como é característico ao se crescer sob a tirania de uma mãe narcisista, apresenta duas características centrais:

  1. Alta sensibilidade do sistema límbico ou região do medo
  2. Baixa atividade do córtex cerebral ou região do pensamento analítico e objetivo

Em vista disso, a carga emocional das vítimas do trauma do desenvolvimento tende a ser demasiado pesada, pois sofrem de estresse crônico e se abalam emocionalmente com facilidade, o que torna difícil levar a vida de forma leve. Portanto, sentir-se bem, relaxada e disposta para ter relações sexuais pode equivaler-se, literalmente, a um grande esforço. Um estudo com gêmeos realizado por Harris et al. (2008) confirmou esta tendência quando demonstrou que aqueles que se descreveram como ansiosos e emocionalmente instáveis, ansiosos, ou que se perturbam com facilidade, são menos propensos a atingir o orgasmo regularmente do que aqueles que se consideraram mais estáveis emocionalmente. De fato, faz sentido concordar com Barlow et al. (2002) ao afirmarem que a ansiedade e o alto nível de estresse impedem a excitação sexual, já que divergem o foco dos estímulos sexuais.

Estilo de apego inseguro

As filhas de mãe narcisistas apresentam um estilo de apego ou vínculo inseguro no contexto relacional, ou seja, nutrem um profundo medo de confiar nas outras pessoas e serem abusadas e rejeitadas novamente. Esta inclinação, por mais que seja automática e inconsciente, cria imensas barreiras à intimidade, à saúde de sua vida sexual e ao sucesso de relacionamentos, em especial os amorosos. Quem não se sente segura também dentro da própria pele nem possui as ferramentas saudáveis para lidar com a inadequação, acaba se distanciando das emoções e do próprio corpo como uma medida (falha) de “regulação emocional”. Quando você negligencia o corpo e as emoções, a sua autoestima vai para o fundo do poço.  Nestes contextos, você se esquiva de ter relações e concentra-se exclusivamente nas necessidades do(a) parceiro(a), o que reduz ainda mais a sua satisfação sexual não somente a curto, mas também a longo prazo.

A conexão entre o trauma, os problemas de equilíbrio emocional e a insatisfação sexual faz-se clara quando analisamos os efeitos no cérebro e corpo da vítima de forma holística. Se você está insatisfeita com a sua capacidade de regular as emoções e a qualidade da sua vida sexual, é vital que invista tempo e energia para curar as feridas do seu trauma e aprenda a controlar o estresse ativamente, já que nunca é tarde para se dedicar a medidas de melhoramento de qualidade de vida e dos relacionamentos.

Referências

Harris J.M., Cherkas L.F., Kato B.S., Heiman J.R. & Spector T.D. (2008). Normal variations in personality are associated with coital orgasmic infrequency in heterosexual women: A population-based study. Journal of Sexual Medicine, 5, 1177–1183.

Barlow, D. H., Wiegel, M. & Scepkowski, L. A. (2002). Cognitive-Affective Processes in Sexual Arousal and Sexual Dysfunction. Boston, MA: Markus and Boston University.

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão

Se você é filha de uma mãe narcisista/tóxica/abusiva, a seguinte questão já deve ter permeado a sua consciência, reiteradamente:

“Eu devo perdoar a minha mãe narcisista?”

Como qualquer decisão de peso, o perdão em relação a sua mãe narcisista precisa ser uma reflexão proveniente de sua essência e de seu momento e não uma obrigação, resultado de uma pressão sociocultural ou imposição de terceiros, é importante refletir detidamente sobre essa questão antes de tomar uma decisão precipitada. Como acredito no poder transformador do conhecimento e no livre-arbítrio, bem como da autoconsciência e do amor-próprio, este artigo é dedicado a oferecer-lhe uma nova perspectiva acerca do perdão, que valide a sua realidade de filha de mãe narcisista e história de abuso e trauma, pois o seu contexto pessoal é bem especial. Para alcançar este objetivo, abaixo seguem 5 mitos sobre o perdão:

1- “Você tem que perdoar”

Primeiramente, vale a pena enfatizar: o perdão não é uma obrigação, mas uma escolha. Ninguém é obrigado a perdoar ninguém, seja ou não parente. Perdoar (ou não perdoar) é uma experiência íntima que diz respeito somente a você. “Ter que” carrega uma obrigatoriedade que lhe rouba o direito de ser e agir de acordo com a sua essência, vontade e sentimentos. Ninguém sabe como é ser você tampouco vivencia a sua experiência, portanto, não se entregue à intimidação e ao bullying de quem não veste a sua pele. Você é livre.

2- “Perdoar é um ato que beneficia a todo mundo”

Para quem acredita neste mito, convido a fazer ao que me refiro como “o teste do perdão”. Ao terminar de ler este artigo, perdoe a sua mãe narcisista para si mesma da forma mais genuína que conseguir e registre o momento em um pedaço de papel ou em seu celular. A partir desta data, mantenha um diário por, no mínimo 30 dias, relatando como se sente. No final deste período, faça uma avaliação franca de si. Então, sente-se substancialmente renovada, aliviada, mais centrada e feliz após ter perdoado a sua mãe narcisista, ou exatamente da mesma maneira (ou pior) do que antes? Não há nada de errado com você se nada mudou, pois você não é “todo mundo”, mas um indivíduo de alta complexidade, com personalidade e sentimentos próprios.

3- “Perdoar fará com que se sinta melhor”

Eu devo perdoar a minha mãe narcisista? 5 mitos sobre o perdão
Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional

Devido ao fato de que somos únicos em nosso jeito de ser e sentir, o perdão não é para todos, pois nem todo mundo sente-se instantaneamente bem após perdoar alguém. Além disso, o perdão que faz alguém sentir-se melhor – de forma sólida e duradora – vem no momento certo, ou seja, depois do luto. Isso é porque o perdão consiste em um processo de aceitação não somente de natureza intelectual, mas, sobretudo, emocional. Quem perdoa com “a cabeça” (racionalmente) e não com “o coração” (emocionalmente) pratica o perdão rápido demais e negligencia os estágios do luto que precedem o final (negação e isolamento, raiva, negociação e depressão), a aceitação. O luto é uma necessidade para quem perdoa, pois é um processo fundamental pelo qual se compreende e se aceita uma realidade, tanto com o corpo como com a alma. Colocar o perdão na frente do luto, ou querer perdoar a mãe narcisista sem nunca se ter permitido processar as emoções antagônicas em relação a este relacionamento disfuncional tende a não produzir resultados positivos a longo prazo.

4- “Quando se perdoa alguém, o relacionamento sempre melhora”

Se você acredita nesse mito, recomendo-lhe, mais uma vez, a fazer o meu teste do perdão. No término desta leitura ou quando tiver tempo, perdoe a sua mãe narcisista interna ou diretamente na presença dela. Após fazê-lo, registre o ocorrido e verifique consigo mesma depois de trinta dias. Como foi? O relacionamento com ela melhorou, continua igual ou pior do que antes? No Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade para Filhas de Mães Narcisistas questiono o suposto poder transformador do perdão no contexto do narcisismo materno, já que, “Nas mãos da sua mãe narcisista, o perdão se torna mais um entre muitos dos instrumentos de manipulação emocional” (Prisioneiras…, p. 203). Tendo em vista a prática da mãe narcisista e demais indivíduos abusivos usarem a vergonha e a culpa que frequentemente acompanham o perdão para nunca reconhecerem o sofrimento de suas vítimas e perpetuarem o abuso que as infringe, a probabilidade de que o perdão, sozinho, desencadeie um processo transformador deste relacionamento é, virtualmente, nula.

5- “O perdão só funciona quando é pedido ou dito diretamente para a pessoa”

Quando o perdão é uma experiência orgânica e não uma obrigatoriedade ocorre no seu tempo e é sentido de dentro para fora. Assim como os sentimentos que se originam de um estado de profunda e sincera aceitação, o perdão, quando autêntico, é uma experiência sua. Desta forma e porque está ciente disso, você não “tem que” comunicar ninguém quando (e se) o perdão materializa-se – tampouco a sua mãe narcisista – pois é algo concernente apenas a si. O perdão alardeado de modo afetado e com superioridade não corresponde a um ato equilibrado, mas à insegurança pessoal e à necessidade de aprovação.

Para quem cresceu sob a tirania e atitude transtornada e abusiva de uma mãe narcisista, o perdão não é uma novidade, mas um exercício diário de tolerância, dependência emocional, codependência e, até, sobrevivência. Contudo, afirmar que – inquestionavelmente e em todas as circunstâncias – o ato de perdoar a mãe narcisista, em si, cura as feridas do seu trauma é uma afirmativa errônea, não reflete a realidade de um grande número de filhos e filhas de mães tóxicas. Embora o perdão possa ser uma experiência genuinamente benéfica para alguns, não se trata de uma regra para todos os seres humanos nem possui a mesma relevância prática, relacional, psicológica e emocional. Caso esteja se questionando se “deve” perdoar a mãe narcisista, verifique com o seu corpo, e não somente com o seu intelecto, se verdadeiramente deseja isso. Acima de tudo, respeite o seu ritmo e honre as emoções ou quem neste momento você é.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?

Como já ouvi muitos de meus clientes usando os termos “codependência” e “dependência emocional” como se possuíssem o mesmo significado e os afetassem da mesma maneira, achei pertinente usar este espaço para esclarecer a diferença entre os dois. Visto que ambos são conceitos relevantes no contexto de abuso narcisista, mães tóxicas e relacionamentos disfuncionais e abusivos, é necessário que você aprenda a distingui-los para compreender a forma como interferem em seu desenvolvimento, sua qualidade de vida e de relacionamentos. Começaremos, então, explorando a codependência.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?
A filha de mãe narcisista toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora para sentir-se “amada” por ela

A codependência

Um indivíduo codependente é aquele que usa a dependência que os outros têm nele para se sentir amado e seguro, tanto consigo como em um relacionamento.  Um exemplo clássico de codependência é o do marido ou esposa que ignora o alcoolismo do(a) parceiro(a) ou nega que seja um problema para contentá-lo(a) e garantir a “estabilidade” do relacionamento. Análogo à filha de mãe narcisista que toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora e de seu relacionamento com ela, culpando-se por problemas que não são seus para sentir-se “amada” e aceita por ela. Logo, a filha de mãe narcisista é codependente quando usa a dependência (emocional, psicológica, financeira etc.) da mãe em si para sentir-se valorizada e manter um relacionamento “harmonioso” com esta.  A codependência, portanto, é sempre disfuncional, pois direciona o foco do indivíduo para fora de si, assim como para as estratégias de enfrentamento de problemas mal-adaptativas, retardando o seu desenvolvimento. Além disso, a codependência, como um comportamento que corrobora e facilita as atitudes impróprias de terceiros, ajuda a perpetuar os problemas de saúde mental e relacionamento e, até, o abuso.

Por esta razão, a filha de mãe narcisista, quando age de forma codependente, confunde a dedicação à mãe com os comportamentos facilitadores do narcisismo materno, tornando-os a sua fonte central de autoengrandecimento, quando não passam de um falso impulsionador de autoestima. Está sempre pensando na mãe e priorizando as suas necessidades, opiniões, vontades e seus sentimentos motivada, na maioria das vezes, por sentimentos de inadequação como a culpa, vergonha e o medo e não por amor e respeito, mas para ter um senso interno de segurança. Esta tendência, contudo, compromete a sua capacidade não só de se equilibrar emocionalmente de modo independente, bem como criar uma identidade sólida e autônoma de sua genitora. Como consequência, a codependência, uma vez que firmemente estabelecida como um comportamento que a auxilia a lidar com o estresse e com um problema sem solução ou que está além de seus poderes, tal como o narcisismo, desencadeia um processo de dependência emocional que, com o passar do tempo, torna-se um traço de personalidade e o mecanismo pelo qual a filha consegue restaurar o seu “equilíbrio” emocional e amor-próprio (Eu sou amada/me sinto bem quando os outros precisam de mim/priorizo as necessidades dos outros).

A dependência emocional

Todos necessitamos de uma conexão emocional verdadeira com outro ser humano, sobretudo com os nossos pais, para nos sentirmos seguros, amados e aptos. A criança que desenvolve um apego seguro com a mãe – ou que confia nela e neste relacionamento como uma fonte sólida de amor, proteção e bem-estar emocional – torna-se um adulto autoconfiante, capaz e autônomo emocionalmente (Bowlby, 1988). É, através desta união, que se sente segura para explorar o mundo, receber o apoio emocional de que necessita e aprende a confiar nos relacionamentos humanos e a se beneficiar destes de uma forma saudável e sem medo. Isto favorece o seu crescimento e desenvolvimento, além de enriquecer a sua experiência e contribuir para o seu sucesso tanto nos campos pessoal como profissional. Neste contexto, a dependência emocional com a mãe permite que a criança concentre-se em si, além de prepará-la para operar de maneira funcional na área dos relacionamentos. Portanto, é benéfico e produtivo precisar de alguém quando esta dependência complementa o indivíduo e não o anula, liberta-o emocionalmente e não o oprime, fortalece a sua identidade e não a sufoca.

A dependência emocional é prejudicial quando motiva a criança – como a filha de mãe narcisista – a buscar este senso de segurança exclusivamente fora de si, já que não teve esta necessidade suprida pelo relacionamento com a genitora (precisamente, no período crítico de 0 a 2 anos[i]). Este tipo de dependência é exagerada e disfuncional, pois aponta o seu senso de direção para fora de si mesma e longe de sua própria essência, sentimentos, vontades, opiniões e interesses, além de mantê-la presa a uma visão de mundo e dos relacionamentos centrada na desconfiança, no sacrifício e sentimentos de culpa, medo, vergonha e insatisfação pessoal. Este tipo de dependência faz com que você…

  • Somente sinta-se amado quando recebe a aprovação de terceiros, corresponde às expectativas dos outros ou se torna quem querem que seja
  • Somente sinta-se feliz quando faz os outros se sentirem bem
  • Somente sinta-se calmo quando diz “sim” a tudo e a todos
  • Somente sinta-se completo quando está na companhia dos outros ou de quem é importante para si
  • Somente sinta-se valorizado quando alguém necessita ou precisa de você, quando o seu mérito é reconhecido ou se sente responsável pelo bem-estar dos envolvidos nos seus relacionamentos, bem como dos relacionamentos em si
  • Somente sinta-se centrado e disposto a concentrar-se na própria vida e nos próprios projetos quando os seus relacionamentos estão indo bem, ou quando consegue racionalizar os sentimentos de inadequação conectados a estes através da culpa (“estou me sentindo mal não porque a minha mãe não me ama, mas porque fiz algo de errado”).

A codependência e dependência emocional são usadas pela família tóxica como ferramentas de manipulação e abuso, ou armadilhas psicológicas que a mantém presa neste relacionamento. Enquanto que se revela impossível sentir-se genuinamente satisfeito sem nenhum tipo de conexão emocional com outro ser humano, é impraticável realizar-se tanto individualmente como nos relacionamentos quando se é escravo destes, tais como dos comportamentos codependentes que mantém para obter um senso de autoestima, identidade e equilíbrio emocional. A melhor forma de lidar tanto com a codependência como a dependência emocional é por meio de uma atitude autoafirmativa, confiante e autônoma, honrando as emoções e os limites pessoais e exercendo o seu direito à liberdade pessoal. Se este é o seu objetivo, recomendo a leitura de meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

Referência:

Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. New York, NY: Basic Books.

[i] Para mais informações sobre o processo de formação e estilo de apego e como influencia o desenvolvimento (“Teoria do Apego”), recomendo a leitura dos trabalhos de Jown Bowlby e Mary Ainsworth.

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

Para que você chegue à resposta desta pergunta de forma independente, adulta e respeitando a sua verdade, convido-a, primeiramente, a reflexionar sobre as seguintes questões:

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos?
Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia e outra no convívio com a família

1- Se você ou qualquer outra pessoa defender que a mãe narcisista não tem consciência dos seus atos, está afirmando que ela é insana, ou seja, não sabe distinguir entre a fantasia e a realidade. Se a mãe narcisista não conseguisse distinguir entre a fantasia e a realidade, não saberia como agir de forma tão calculada e dissimulada, tanto dentro quanto fora do ambiente familiar. Portanto, a sua aparente “doidice” ou comportamento incontrolável e impulsivo seriam óbvios para todos com quem tem contato. Esse tipo de comportamento, contudo, não corresponde ao da mãe narcisista, pois sabe como cultivar uma imagem de perfeição e viver de aparências. Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia (dedicada, educada e carinhosa) e outra no convívio com a família (negligente, abusiva e fria), o que denota possuir pleno controle das faculdades mentais e sabe com quem e onde pode se comportar de forma abusiva, sem nunca ser descoberta e considerada responsável por seu comportamento impróprio.

2- Para que a mãe narcisista consiga se sentir bem consigo mesma, precisa receber estímulo negativo daqueles com os quais se relaciona. Em outras palavras, precisa rebaixar os outros para se sentir superior (dinâmica a que me refiro como “o relacionamento gangorra” em meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura e que expõe o valor da filha como suprimento narcisista). Se a mãe narcisista não tivesse consciência de seus atos, ou de como magoa e faz a filha se sentir pequena e rejeitada, seria intelectualmente incapaz de se beneficiar destes sentimentos de inadequação ou de usar a filha ou qualquer outra pessoa como suprimento narcisista. Como resultado, os seus relacionamentos seriam funcionais e harmoniosos e não de extrema dependência emocional, como é o caso dos que mantém com todos a sua volta. Além disso, quando a filha de mãe narcisista se recusa a se submeter ao abuso com autoconfiança e cortando o contato, a matriarca narcisista sente-se desconsertada – mesmo não gostando da companhia da filha nem nutrindo nenhum amor genuíno ou respeito por ela. Diante disso, faz tudo para reaver o controle, provando, portanto, que entende a forma pela qual os seus comportamentos abusivos a conferem um senso de autoestima, identidade e “bem-estar” emocional.

3- Porque uma pessoa tem uma doença mental, tal como um transtorno de personalidade, não significa que seja abusiva. Por mais que haja um grande número de pessoas abusivas que possui uma doença mental, nem todo mundo que abusa é narcisista, por exemplo. Correlação não é causalidade. Uma doença mental ajuda a explicar o contexto do abuso, mas não o justifica. Assim como laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva, doença mental não serve de desculpa para se aproveitar do amor e da vulnerabilidade de uma criança ou adolescente, afetar o seu crescimento e desenvolvimento negativamente e comprometer, de forma irresponsável e inconsequente, com a sua qualidade de vida não apenas na infância, como também na idade adulta. Para a profissional de saúde mental que tem ampla experiência com os relacionamentos abusivos, seja de forma direta como sobrevivente ou indireta através dos relatos de suas clientes, ou uma mistura de ambos, afirmar que o abusador faz o que faz porque é, supostamente, doente mental, simplesmente “não cola”. Vale a pena lembrar que a esmagadora maioria das filhas de mães tóxicas nunca recebe a confirmação de que as suas genitoras são, de fato, narcisistas, ou que possuem qualquer outro tipo de doença mental. Por mais que o termo “narcisismo” seja elucidador, não exclui as características mais marcantes das mães abusivas/tóxicas/narcisistas: o pensamento rígido e a falta de empatia e respeito pelos limites, identidade e direito à individualidade de seus filhos.

4- Sob esta perspectiva, pode-se alegar que a mãe narcisista não sabe da extensão do mal que causa a seus filhos porque também foi abusada e maltratada pelos próprios pais e, portanto, julga a sua atitude imprópria como “normal”. Isso pode ser considerado como uma “meia verdade”, em virtude dos seguintes aspectos:

  • A mãe abusiva/tóxica/narcisista usa as mesmas táticas de negação de problemas da maioria dos indivíduos provenientes de famílias disfuncionais. Estas táticas, como escudar-se atrás de chavões do senso comum tais como “Mãe/família é tudo”, “Toda a mãe boa” e “Toda a família tem problema” invalida a realidade de abuso e a negligência de todos, inclusive a de si mesma. O trauma e o abuso são tabus não somente para quem é vítima, mas também para quem é testemunha (direta ou indireta) ou os tolera sem questionamento. Nos casos de quem foi ou é vítima de abuso e se torna, também, um abusador, o peso deste tabu aumenta e, com ele, a vergonha e a necessidade de negá-lo, até para si.
  • Nem todo mundo que é vítima de abuso, abusa. Eu conheço inúmeras vítimas sobreviventes que nunca cometeriam as atrocidades que sofreram e que se sentem extremamente abaladas e decepcionadas consigo quando agem de forma agressiva.
  • Mesmo quando a mãe abusiva/tóxica/narcisista torna-se ciente de quão nociva a sua atitude é para a autoestima e bem-estar psicológico e emocional dos filhos, continua a tratá-los de forma imprópria e a negar o impacto negativo que lhes causa, bem como qualquer tipo de responsabilidade nos problemas deste relacionamento.

É importante sabermos as razões que podem levar um ser humano a cometer atos de abuso, assim como definir o seu nível de consciência acerca destes, sobretudo quando são nossos genitores e tiveram uma influência direta em nosso desenvolvimento. A ciência acerca dos fatores que contribuem com tal crueldade e o sentimento de compreensão e empatia que seguem esta descoberta não diminuem a sua malignidade, contudo, tampouco isentam quem os comete de sua responsabilidade, ou nas sábias palavras da grande psicóloga e filosofa suíça Alice Miller (2002):

“Empathising with a child’s unhappy beginnings does not imply exoneration of the cruel acts he later commits”

(“Demostrar empatia pela infância triste de uma criança não implica a exoneração dos atos cruéis que depois comete”)

Então, no que você acredita?

 

Referência:

Miller, A. (2002). For your own good. Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence (4th ed.). New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1

Se você é filha ou filho de uma mãe narcisista, já deve ter formulado a seguinte suposição:

“Se eu aprender a lidar com a minha mãe, tornar-me mais fria e não me preocupar com o que ela diz ou faz, serei capaz de aguentá-la e não precisarei cortar o contato.”

No meu trabalho com filhas e filhos de mães narcisistas, é bastante comum encontrar clientes que mencionam isso como um de seus objetivos de terapia. Por ser uma noção tão comum e, ainda, tão errônea no contexto do relacionamento entre filhos e mães narcisistas/tóxicas, achei pertinente usar este espaço para esclarecer.

Então, vamos lá: é possível “treinar-se” para não se abalar emocionalmente com o comportamento abusivo e impróprio de uma mãe narcisista?

A resposta, na esmagadora maioria dos casos, é não. Isso se deve ao fato de que a sua mãe narcisista está no centro da sua história de trauma do desenvolvimento. Como a praticante de grande parte do abuso que você sofreu, a sua mãe narcisista é o seu gatilho número um. Para compreender a extensão do efeito que ela provoca sobre você, é vital entender o conceito de “gatilho”.

A mãe narcisista como um gatilho

A mãe narcisista como o seu gatilho número 1
Um “gatilho” é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático

No contexto de qualquer tipo de trauma, seja físico, psicológico/emocional, de uma ocorrência singular ou complexo (uma série de eventos adversos), um “gatilho” (trigger, em inglês) é uma experiência que faz com que a vítima relembre um evento traumático de seu passado. Para usar um exemplo bem estereotípico, o barulho de uma explosão pode tornar-se um gatilho para um soldado de guerra traumatizado. Toda a vez que houve um barulho semelhante, independente da origem e donde esteja, sente-se aterrorizado tal como quando se encontrava no campo de batalha. Este gatilho – o barulho de explosão – ativa a sua memória do trauma que, por sua vez, ativa as emoções antagônicas sentidas no momento em que ocorreu (por exemplo, medo), fazendo-o sentir-se vulnerável e indefeso, inclusive se estiver longe de qualquer perigo real.

É claro que há diferentes contextos de trauma, nos quais os gatilhos não são tão simples de serem identificados, tal como o do exemplo. No contexto de trauma complexo – a modalidade sofrida por vítimas de abuso narcisista – estes gatilhos podem ser pessoas e até emoções. A mãe narcisista, portanto, representa um supergatilho. Isso se deve ao fato de que tudo a respeito de sua pessoa, bem como o seu olhar, linguagem corporal, maneira etc. funcionam como gatilhos. Na presença de uma mãe narcisista, o filho ou filha sente-se, com grande frequência e quase automaticamente, como aquela criança vulnerável de muitos anos atrás. Portanto, todo aquele autocontrole, autoridade e autoconfiança de homem ou mulher adulto conquistado ao longo de sua experiência e longe de influência materna parece desvanecer-se na presença de sua mãe narcisista.

Este processo é tão rápido e sutil que escapa a sua consciência. Basta um comentário afetado ou uma crítica destrutiva para que as memórias e crenças do seu trauma sejam ativadas. Uma vez que você é transportada para o passado através destes gatilhos, o seu sistema límbico é ativado e as suas reações tornam-se rápidas, subjetivas, emocionais e até irracionais. Como esclareci no artigo anterior deste blog, esta área do seu cérebro, referido como o “cérebro emocional”, é onde são armazenadas as memórias do seu trauma e é, também, a região responsável por detectar ameaças e nos mobilizar para uma resposta: a fuga ou a luta. Portanto, as suas reações, quando na presença da sua mãe, serão, na maioria das vezes, motivadas por intensas emoções antagônicas, até mesmo nas circunstâncias em que ela não estiver apresentando um comportamento que, tecnicamente, justifique a amplitude da sua reação. Lembre-se de que o seu sistema límbico é hiperativo em consequência do trauma, a probabilidade de você não se sentir inadequada na presença da pessoa que a abusou por longos e sofridos anos é quase nula. Quando você se familiariza com os aspectos neurobiológicos e entende o conceito de gatilhos, insistir em manter este relacionamento tóxico corresponde a uma atitude ingênua e incoerente.

Honrar as suas emoções é honrar você

A reação normal de um ser humano constantemente atacado verbal e fisicamente e tem a autoconfiança sistematicamente destroçada é se sentir mal e inadequado. Ninguém deve se esforçar para tolerar o abuso, seja de quem ou da natureza que for. As suas emoções, mesmo quando exageradas, são fontes de grande sabedoria, pois lhe avisam ou relembram da ameaça ao seu bem-estar. No contexto de abuso, tentar “controlá-las”, reprimi-las, ignorá-las ou normalizar o seu significado só promove ainda mais o mal-estar emocional e até a ocorrência de problemas de saúde física e mental. Logo, a melhor maneira de lidar com as suas emoções é respeitá-las e aprender com elas. Mesmo que você faça terapia e certas pessoas insistam que você “tem que” ter um relacionamento com a sua mãe, ou que cabe a você “aprender” a relevar a sua atitude abusiva e transtornada, o seu corpo ou você inteira – da cabeça aos pés – permanece o seu guia mais inteligente e humano. Está na hora de honrar a si própria e dizer não ao abuso narcisista. Se precisar de ajuda para reduzir ou cortar o contato com uma mãe narcisista, recomendo os meus livros, Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas e Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

 

Tipos de abuso

Abuso é um comportamento cruel e violento intencionado a manter um indivíduo sob controle de, pelo menos, outra pessoa. Contrário ao que  se entende amplamente por abuso, compreende muito mais do que dano causado ao corpo por meio da violência física (ex. doméstica), mas inclui toda e qualquer conduta imprópria ou ato de violência que afeta os bem-estares físico, emocional, psicológico e/ou espiritual de outra pessoa. Na maioria dos casos de abuso – como o cometido por uma mãe tóxica/narcisista – o comportamento  abusivo não se limita a uma ocorrência, ocorre de forma repetitiva por um determinado período, podendo incluir grande parte ou toda a infância da vítima sobrevivente, assim como se estender à idade adulta. O abuso, no entanto, não ocorre somente no ambiente familiar, pode ser observado em todo e qualquer relacionamento. A seguir são elencados os tipos de abuso para que você entenda de que maneira acontece na prática e como pode afetá-la:

(A palavra “criança”, em muitos dos exemplos pode ser substituída por “pessoa”)

Abuso emocional/psicológico

Tipos de abuso
Culpar uma criança pelas próprias escolhas é abuso
  • Culpar a criança pelo que acontece consigo, inclusive pelas próprias escolhas
  • Provocar a criança ou fazê-la se sentir mal para servir a um fim, de forma consciente e premeditada
  • Usar o medo, a culpa e a vergonha para manipular a criança a fazer somente o que deseja através de chantagem emocional
  • Ameaçar abandonar a criança quando faz algo errado ou não se comporta como desejado
  • Travar o crescimento e desenvolvimento pessoal da criança rejeitando a sua identidade e autonomia de modo consistente e sistemático
  • Tratar a criança como um ser inferior, incompetente ou indigno de ser amado
  • Submeter a criança a grandes e constantes variações de humor, tal como testemunhar ataques de raiva frequentes
  • Ignorar, negar ou banalizar a existência de problemas de saúde mental na criança
  • Ignorar, negar ou rejeitar os limites pessoais da criança
  • Trivializar a natureza dos comportamentos abusivos, como ataques verbais e o uso indiscriminado de mentiras como se fossem aceitáveis, sem importância ou inconsequentes
  • Agir de forma passivo-agressiva fazendo a criança sentir-se inadequada de forma sofisticada e insidiosa para aliviar ou “lidar” com a própria raiva e insatisfação pessoal
  • Incesto emocional: tratar a criança como se fosse o adulto responsável pelos seus cuidados e bem-estares físico, psicológico e emocional. Buscar conselho ou compartilhar de problemas de ordem emocional com a criança, como se fosse adulta e com a incumbência de oferecer apoio emocional ao adulto.

Negligência emocional

  • Não reconhecer os sentimentos da criança, ignorá-los ou tratá-los como dispensáveis
  • Recusar-se a validar o efeito que as suas atitudes exercem no bem-estar emocional da criança
  • Não escutar a criança nem valorizar a sua expressão pessoal, assim como os sentimentos
  • Não expressar empatia pelo sofrimento ou desconforto emocional da criança
  • Incentivar, inclusive indiretamente, a repressão das emoções, sobretudo quando negativas
  • Manter-se emocionalmente distante e desinteressado dos sentimentos da criança
  • Rejeitar ou culpar a criança por sentimentos de natureza antagônica, tal como a raiva
  • Incentivar, através de exemplo de comportamento, a incongruência emocional, ou exigir que a criança pareça feliz quando se sente descontente

Negligência Física

  • Ignorar os problemas de saúde física da criança e não buscar assistência médica
  • Não fornecer abrigo ou ser capaz de manter a criança bem nutrida e/ou vestida de forma apropriada
  • Manter a criança sozinha e sem supervisão por períodos prolongados, principalmente quando ainda não tem a idade para cuidar de si
  • Tornar uma criança responsável pelos cuidados de outra(s) criança(s)
  • Forçar uma criança a prover ou contribuir financeiramente pelo seu próprio sustento (ou da família), seja através de trabalho, seja forçando-a roubar ou mendigar

Abuso Verbal

  • Intimidar e humilhar a criança com rótulos de conotação negativa, tal como “burro”, “estúpido”, “imbecil” etc.
  • Usar nomes de natureza chula e derrogatória para descrever a criança ou o seu comportamento
  • Provocar, rir ou zombar da criança
  • Ter o hábito de comparar a criança a outras pessoas
  • Ter o hábito de resmungar, importunar ou gritar com a criança

Abuso físico (violência doméstica)

  • Agredir uma criança fisicamente através de tapas, pancadas, chutes
  • Queimar ou agredir uma criança fisicamente por meio de um objeto, tal como um cinto
  • Sacudir ou empurrar a criança contra uma parede ou objeto
  • Forçar a criança a comer ou beber; ou se recusar a alimentá-la
  • Forçar a criança a se exercitar, fazer uma tarefa ou atividade física que supere a sua capacidade e disposição

Abuso sexual

  • Tocar ou acariciar as zonas erógenas e/ou órgão sexual da criança
  • Olhares impróprios, fazer “brincadeiras”, comentários ou insinuações maliciosas
  • Expor-se ou masturbar-se na frente da criança
  • Masturbação mútua com a criança
  • Ter relação sexual com a criança (vaginal, oral e/ou anal)
  • Penetrar uma criança com o uso de dedos ou objetos
  • Ejacular na criança
  • Forçar a criança a assistir filmes pornográficos, ou a fazer parte de um
  • Tirar fotos pornográficas de uma criança
  • Forçar uma criança a ter relações sexuais com outra, ou a assistir outros tendo relações sexuais
  • Forçar a criança a ter relações sexuais com animais
  • Forçar a criança a participar de jogos sexuais ou torturá-la sexualmente
  • Recusar-se a conversar com a criança a respeito de sexo, puberdade e menstruação, como se fosse algo sujo e impróprio

Abuso vicário

  • Expor a criança a abuso de qualquer natureza cometido a outrem, tal como membro da família

Abuso espiritual

  • Usar verdades espirituais, palavras ou textos religiosos para coagir, justificar comportamentos e atitudes impróprias, manipular ou cometer algum tipo de dano à criança, seja de ordem física, sexual, psicológica ou emocional
  • Conjurar uma autoridade divina ou usar da autoridade espiritual para endossar um comportamento impróprio ou forçar a criança para servir aos seus próprios interesses

O que esperar quando se corta o contato com a mãe narcisista

O que esperar quando se corta o contato com a mãe narcisista
Cortar o contato com a mãe narcisista, apesar de ser uma tarefa difícil, permanece como o único meio de libertar-se de sua influência tóxica

Cortar o contato com a mãe narcisista compreende uma decisão muito importante capaz de mudar radicalmente a qualidade de vida da filha de mãe narcisista. Embora soe como uma medida extrema, cortar o contato faz-se necessário nos casos de filhas de mãe narcisistas e tóxicas cujo abuso sofrido as impede de viverem a própria vida da maneira que desejam, encontrarem paz de espírito e se realizarem como mulheres adultas, autônomas e competentes. Manter o relacionamento com a mãe narcisista afeta a capacidade da filha de crescer e se desenvolver como pessoa, assim como lidar de uma vez por todas com os efeitos do trauma, tal como a ansiedade, culpa, raiva, baixa autoestima e incapacidade de sentir prazer na vida, entre outros (para uma lista completa dos efeitos do trauma psicológico e emocional, clique aqui).

Devido ao fato do transtorno de personalidade narcisista ser incurável e narcisistas nunca admitirem ter qualquer tipo de problema, o narcisismo raramente é diagnosticado, abordado de maneira responsável e com a ajuda de um profissional especializado. Portanto, quem se encontra envolvido diretamente com um/uma narcisista, como os filhos, filhas e parceiros amorosos, por exemplo, possui como única alternativa: cortar o contato definitivamente com a fonte de sua angústia. Se você está considerando esta possibilidade, mas não sabe o que esperar quando se corta contato com a mãe narcisista, é válido se preparar psicológica e emocionalmente para este grande feito, já que, como explico no meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, “narcisistas não gostam de ser rejeitados, muito menos esquecidos”.

1- Você será julgada

A nossa cultura (patriarcal, ocidental, católica) defende o respeito e dedicação cegos a pais e mães, assim como à família da qual descendemos. A sabedoria do senso comum é recheada de chavões que ilustram esta ideologia, tal como “Mãe/família é tudo”, “Mãe só tem uma” e “O sangue é mais denso que a água”. Quem ousa contestar estas “regras”, causa desconforto nos defensores do status quo, ou naqueles que organizam o seu senso de realidade ao redor de valores rígidos e absolutos que conferem um senso de controle sobre a sua vida e de outras pessoas. Tais indivíduos se sentirão não só incomodados pela sua atitude inovadora e independente, bem como pelas implicações da sua decisão. Quando você questiona tais crenças, abre o equivalente a uma “caixa de pandora”, pois inicia uma discussão – mesmo que sem intenção nenhuma – a respeito dessa veracidade e dos benefícios reais de segui-las fielmente. Como mudanças tendem a causar sentimentos de inadequação, sobretudo em pessoas inseguras e controladoras, você provavelmente será julgada de modo negativo por parentes e “amigos” com visão de mundo limitada e egoística.

2- Você terá duvidas

Como com toda decisão de peso, é perfeitamente normal sentir-se insegura após ter cortado o contato com a mãe narcisista. Lembre-se, você foi condicionada a acreditar que não é boa o suficiente para absolutamente nada e de que sem a sua mãe narcisista e a sua família disfuncional você é incapaz de conquistar algo positivo. Portanto, passará por um período de instabilidade emocional no qual se questionará se de fato tomou a decisão correta em cortar o contato com a matriarca transtornada. Este desconforto, embora difícil de tolerar, é uma reação típica de vítimas/sobreviventes de abuso pois tiveram a sua percepção corrompida ao longo de muitos anos de ataques verbais, manipulação psicológica e maltrato emocional. Nessas horas é vital relembrar-se do que motivou a sua decisão, e, se necessário, escrever uma lista contendo exemplos detalhados das inúmeras vezes em que foi torturada emocionalmente por uma mãe abusiva e negligente, assim como os efeitos físicos, psicológicos e emocionais resultantes deste relacionamento.

3- Você se sentirá acuada

A sua mãe narcisista embarcará em uma campanha difamatória contra a sua reputação assim que registrar a mensagem de que você está resoluta em cortar o contato definitivamente. Mobilizará parentes, conhecidos, amigos, ex-amigos, colegas, ex-colegas, namorado, ex-namorados, marido, ex-maridos e padres – basicamente qualquer contato disponível – como seus meninos de recados ou “macacos voadores” para persuadi-la de forma persistente e indireta a voltar atrás em sua decisão. Como nunca admite culpabilidade, pede desculpas ou perdão aberta e honestamente, usará de sua influência para denegri-la e acuá-la a se entregar ao seu controle novamente, pois perde grande parte de seu brilho sem o seu suprimento narcisista favorito. Diante de tamanha pressão, é normal que você se sinta acuada e até perseguida. Não desista. Lembre-se de que a sua saúde física, emocional e psicológica depende da sua determinação. Coragem! Com o tempo, a sua “rebeldia” se tornará história antiga ou até exemplo de sucesso pessoal.

4- Você se sentirá triste

Quando você corta o contato com a mãe narcisista dá início a um processo de luto pela mãe que nunca foi. Você finalmente registra, por meio de sua tristeza, que não tem nem nunca teve uma mãe de verdade. Essa verdade dói, e muito! Você se sentirá deprimida, sozinha e abandonada, como se fosse uma órfã. Novamente, conscientize-se de que este processo é normal e necessário para a recuperação da sua saúde física, psicológica e emocional. Embora seja um momento difícil, o período de luto não durará para sempre. Após uma média de três a seis meses sem contato com a mãe narcisista, a tendência é começar a curtir a independência e paz de espírito sem que se sinta cerceada pela culpa e vergonha. É claro que a sua vida não se tornará um mar de rosas automaticamente apenas por ter cortado contato, mas propiciará o espaço para se concentrar em si mesma e tratar os efeitos do trauma, medidas que a possibilitarão atingir um estado de congruência e contentamento pessoal até então nunca imaginado possível.

5- Você compreenderá a dimensão do problema

Sob a influência de uma mãe narcisista, a sua visão própria e de mundo se torna restrita ao seu comportamento transtornado e disfuncional. Você acredita ser seu dever de filha tolerar abuso, ser explorada e tratada como cidadã de terceira categoria, pois se vê forçada a se concentrar nos sentimentos dela, não somente por ter sido doutrinada a acreditar que são mais importantes, como também para proteger-se de sua ira. Quando se encontra finalmente sozinha e sem a sua interferência nefasta, passa a entender a extensão do prejuízo que a convivência com uma pessoa deste tipo lhe causou. Esta vítima/sobrevivente de abuso materno que possui a coragem de enfrentar a verdade narcisista, assumindo a sua realidade e cortando o contato com a origem, logo descobre a extensão do trauma que afetou a sua saúde psicológica e emocional. Quando se sente perdida, sem identidade e senso de direção, ou dominada por sentimentos antagônicos sem saber como controlá-los, percebe como grande parte da sua alma foi corrompida e o seu desenvolvimento foi retardado pelo relacionamento de dependência psicológica e emocional, forçada a manter com uma mãe egoísta e egocêntrica. Idealmente, quando este é o caso, eu recomendo a terapia como alternativa de apoio de primeira linha. Caso não disponha das condições financeiras para acessar este tipo de ajuda, é vital que invista em atitudes positivas com você mesma, como, por exemplo, buscar informação sobre o(s) seu(s) problema(s) e as maneiras saudáveis de abordá-lo(s) e resolvê-lo(s).

Cortar o contato com a mãe narcisista, apesar de ser uma tarefa difícil, permanece como o único meio de libertar-se de sua influência tóxica. Mesmo que não haja como evitar o já mencionado, tornar-se ciente dos problemas e desafios a serem enfrentados a ajudará a superar o seu desconforto emocional. Quando você entende ser normal sentir-se inadequada, insegura, triste e até impotente depois de cortar o contato com a mãe narcisista, fica mais fácil tolerar estas emoções antagônicas, já que fazem parte do repertório emocional e comportamental de filhas de mãe narcisista e demais vítimas/sobreviventes de abuso. Você não está sozinha, o que está acontecendo consigo é esperado em tais circunstâncias. Mantenha a sua cabeça erguida e fé em você mesma e no seu poder de decisão, pois é quem sabe o que é melhor para si.

A mãe narcisista e a síndrome de Peter Pan

Uma das características mais marcantes de uma mãe narcisista é não se desenvolver com o tempo. Embora seja considerada adulta o suficiente para ser mãe, exibe as mesmas crenças rígidas, incongruência emocional e comportamentos disfuncionais de quando adolescente. A imaturidade emocional e a falta de responsabilidade não são apenas características do narcisismo, como também de um “transtorno mental” chamado “síndrome de Peter Pan”. Apesar de não ser oficialmente reconhecida como tal, esta síndrome já se faz presente no vocabulário terapêutico há muitos anos, mesmo antes de ter sido popularizada pelo psicólogo Dan Kiley (1983) em seu livro The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up (A Síndrome de Peter Pan: Homens que Nunca Cresceram) e é amplamente usada para descrever o comportamento pueril e imprudente de adultos de ambos os sexos.

A mãe narcisista, assim como demais “sofredores” da síndrome de Peter Pan, recusa-se a crescer.  Apesar de não admitir, e nunca admitirá abertamente que este é o seu caso, pois na frente de plateia é o exemplo de mulher adulta e mãe experiente, comprometida e dedicada. No entanto, dentro de quatro paredes e no ambiente familiar comporta-se de forma infantil e inconsequente com os filhos e o marido/parceiro amoroso. A seguir uma lista das atitudes disfuncionais da síndrome de Peter Pan que condizem com o repertório comportamental da mãe narcisista:

Não assume responsabilidade pelos seus atos: assim como uma criança malcriada que, embora flagrada com a boca suja de chocolate, nega tê-lo comido, a mãe narcisista se isenta de toda e qualquer responsabilidade não somente de seus atos impróprios, bem como das consequências destes, mesmo quando todos têm plena ciência de que foram a principal causa do problema. Tem o hábito de mentir descadaramente e distorcer a verdade para proteger-se com tanta energia, talento artístico e falta de vergonha que acaba convencendo as pessoas. Se algo ruim acontece consigo ou com a família, “certamente” a culpa não é dela.

Não assume responsabilidades por suas obrigações de mãe: no ambiente familiar, a mãe narcisista comporta-se de forma distraída e desinteressada como se estivesse de passagem ou fosse uma visita, conhecida ou colega de quarto dos filhos e não o adulto responsável por seus cuidados. Desde os 4, 5 anos, quando já é capaz de caminhar, comunicar-se e alimentar-se sozinha, a filha de mãe narcisista aprende que não pode contar com o apoio da mãe, seja financeiro, emocional ou psicológico, ou simplesmente para ajudá-la a completar uma tarefa básica, como ajudar no dever de casa. Além disso, a mãe narcisista se aborrece profundamente quando requisitada, como se os filhos e suas necessidades fossem uma grande inconveniência ou se já fossem adultos o suficiente para viverem de modo independente. Na família regida pela tirania do ego narcisista, a regra é cada um por si e todos pela mãe narcisista.

A mãe narcisista e a síndrome de Peter Pan
A mãe narcisista, assim como demais “sofredores” da síndrome de Peter Pan, recusa-se a crescer

Não assume responsabilidades por seus próprios problemas: se tem problemas financeiros, emocionais ou de relacionamento, por exemplo, a culpa é sempre dos outros, principalmente dos filhos ou marido, como já sabemos. A mãe narcisista está sempre descontente, irritada e de mau humor não por ser incapaz de se equilibrar emocionalmente, mas porque alguém fez algo ou se comportou de determinada maneira que a magoou “profundamente”. Por ter sérios problemas de identidade e equilíbrio, precisa constantemente de atenção, apoio e consolo como uma adolescente inexperiente e perdida, agindo como a filha da própria filha e não como a sua mãe. A inversão de papeis entre filha e mãe narcisista evidencia a total incoerência da matriarca e o alto nível de toxicidade deste relacionamento disfuncional.

Ignora problemas: o escapismo é o hobby favorito da mãe narcisista, pois é deslumbrada e vive sonhando acordada com fantasias de grandiosidade. Além disso, é desinteressada e negligente com relação ao que acontece na vida dos filhos porque é egocêntrica e, portanto, valoriza apenas o que refere a si mesma. Não monitora as atividades destes ou procura saber o que estão fazendo ou como estão se sentindo por pura falta de curiosidade, entusiasmo e zelo. Quando aparecem com problemas na escola, de ordem emocional ou comportamental, por exemplo, não hesita em culpá-los por suas “falhas” de maneira cruel e abusiva, enquanto se isenta de qualquer responsabilidade em tudo relacionado ao desenvolvimento dos filhos.

Considera-se o centro do universo: dado que tudo o que concerne à mãe narcisista é mais relevante e especial, o mundo revolve ao redor de seu umbigo. É “dever” de todos entretê-la, agradá-la e apaziguá-la como se necessitasse de atenção e cuidados constantes. Como um bebê de 6 meses, tem ataques de raiva quando não consegue o que quer, ou se comporta como vítima através de muita chantagem emocional e drama. Aqueles que não priorizam os sentimentos da mãe narcisista são isolados ou punidos. Invariavelmente, os filhos crescem acreditando que é de fato a sua obrigação colocar as necessidades e vontades da mãe na frente das suas e, como consequência, tornam-se codependentes, têm dificuldade de autodefinir-se, além de não conseguirem dizer não a situações desagradáveis nem honrarem os seus limites pessoais.

É rebelde: o antagonismo da mãe narcisista é superentediante, cuja atitude de oposição assemelha-se a de um adolescente rebelde que, para confirmar a autonomia e chamar a atenção, posiciona-se de maneira contrária a dos pais. Tem o hábito de discordar do que está sendo proposto, de querer o indisponível ou manifestar gostos diferentes da maioria não por estar agindo de forma autêntica, mas por necessidade de se destacar, seja da maneira que for. Como precisa ser notada para se sentir valorizada, a sua atitude é impertinente e maçante, além de ser difícil de agradar.

Não cumpre com o que promete: lembra quando você tinha 8 anos de idade e prometia que não iria mais provocar a sua irmã só para que o seu pai parasse de castigá-la? A mãe narcisista usa a mesma tática para se esquivar de compromissos e responsabilidades, principalmente as de mãe. Concorda com tudo e promete o mundo, inclusive quando tem plena ciência de que não moverá um dedinho para que as suas promessas se materializem. Como é mentirosa e não tem escrúpulos quando o assunto é a autopreservação e o favorecimento de seus interesses, o que a mãe narcisista diz definitivamente não se escreve.

Preocupação excessiva com a aparência: a mãe narcisista é tão vaidosa, superficial e fútil como uma menina pedante e insegura de 14 anos. Enquanto possui o hábito de ignorar problemas ou descartar a importância do que acontece com os membros de sua própria família, não há nada capaz de tirar sua atenção obsessiva com a imagem. Tudo o que puder projetar uma imagem de sucesso pessoal e perfeição estética vem em primeiro lugar, como, por exemplo, seguir as tendências da moda e encontrar produtos/técnicas inovadoras para corrigir “imperfeições”. A sua atenção é facilmente atraída quando o assunto discorre sobre tais tópicos, mas logo se sente entediada com conversas que provoquem uma autorreflexão aprofundada.

Falta de autoconfiança: a mãe narcisista é viciada em aprovação e vive preocupada com que os outros pensam como uma criança que copia o estilo dos amiguinhos para sentir-se aceita pelo grupo. Como possui um grande problema de identidade e autoestima, nada a seu respeito é autêntico, por isso tudo que faz é cuidadosamente planejado para produzir uma reação positiva nos outros.  

Não tolera críticas: imagine uma menininha de 3 anos que quando alguém a chama de “feia” começa a chorar incontrolavelmente. A reação da mãe narcisista à crítica é bastante similar a este comportamento infantil. Dado que possui zero autoestima, é incrivelmente fácil magoá-la. Além disso, por ser perfeccionista, pensar em extremos e por se considerar o centro do universo, a mãe narcisista leva tudo para o nível pessoal. Assim sendo, é impraticável ter uma discussão adulta e equilibrada com uma mãe narcisista a respeito de seu comportamento sem que acabe em conflito e drama.

Referência:

Dan Kiley (1983). The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up. Ann Arbor, MI: Dodd and Mead.

O que é uma mãe abusiva?

mãe abusiva
É praticamente impossível manter um relacionamento harmonioso e funcional com uma mãe abusiva

Uma mãe abusiva é aquela que abusa da autoridade de mãe para subjugar os filhos. A mãe abusiva considera-se superior e acredita ter o direito de tratar os filhos de forma arbitrária por ser a mãe. É praticamente impossível manter um relacionamento harmonioso e funcional com uma mãe abusiva, pois não respeita nem reconhece o valor dos filhos, tal como a sua individualidade, estágio de desenvolvimento e autonomia. Se você desconfia que a sua mãe seja abusiva, seguem as características mais típicas de uma mãe abusiva para ajudá-la a identificar e desmascarar as suas atitudes impróprias:

Não respeita os limites pessoais de seus filhos: invade sua privacidade, apropria-se do que não é seu e não aceita não como resposta.

É egoísta: só pensa em si mesma e não respeita os sentimentos, interesses, opiniões e vontades dos filhos.

Agride os filhos fisicamente: sempre tem uma justificativa “plausível” para descontar a raiva por meio de violência física.

É incapaz de amar os filhos de forma genuína: o seu “amor” e afeto são inteiramente condicionais.

Agride os filhos verbalmente: possui o hábito de criticar e humilhar os filhos de maneira sórdida e cruel.

É emocionalmente negligente: ignora, invalida, banaliza e até descarta os sentimentos dos filhos.

É incongruente: comporta-se de forma inversa aos seus supostos valores e ao que afirma acreditar.

É antagonista: nunca está satisfeita. Faz questão de exibir opiniões contrárias as dos filhos, quer sempre o que não está disponível ou o inverso do que está sendo oferecido.

É manipulativa: usa de agressividade passiva, chantagem emocional, ameaças, culpa e vergonha para punir e persuadir a todos a fazerem somente o que deseja.

Domina as conversações: precisa ser o centro das atenções, não respeita a vez dos outros de falar ou expressar opiniões e tem sempre a última palavra.

Está sempre certa: nunca admite erros de atitude e comportamento e, por isso, usa os filhos como bodes expiatórios. A “verdade” é de acordo com o que acredita e não corresponde necessariamente aos fatos.

Não pede desculpas: embora comporte-se de maneira abusiva e imprópria, não assume responsabilidade por nada do que diz ou faz, tampouco pelas consequências de seus atos. É sempre vítima de uma grande injustiça.

Não confia nos próprios filhos: age de maneira estranha em relação as suas capacidades, sejam no ramo profissional ou pessoal.  Trata-os como se fossem crianças, inexperientes ou incapazes de formular um julgamento independente, adulto e centrado.

Mente descaradamente: não hesita em usar da mentira para compelir os filhos a fazerem o que deseja. Além disso, mente para se proteger e se ausentar das responsabilidades de seus atos.

Projeta as suas inseguranças e defeitos nos filhos: ataca e culpa os filhos pelas suas próprias falhas e vulnerabilidades, seja de caráter, atitude ou comportamento.

É controladora: tudo em relação à família revolve ao redor de seus interesses. Faz o que pode, direta ou indiretamente, e por meio de triangulação para restringir a autonomia e o poder de decisão dos outros envolvidos.

É hostil: tem o hábito de provocar brigas e desentendimentos através de sua atitude fria e antagonista. É muito difícil de lidar e aturar a longo prazo.

É exploradora: acredita que seja obrigação dos filhos sacrificarem-se pelo seu bem-estar. Está sempre tentando tirar proveito de uma situação.

Comporta-se de maneira infantil: exibe comportamentos equivalentes aos de uma criança como se fosse filha e não mãe dos próprios filhos.

Enquanto toda mãe narcisista é abusiva, nem toda mãe abusiva é narcisista. Se você desconfia que a sua mãe seja narcisista, mas ainda não se sente segura, verifique se os seus traços de personalidade se encaixam no perfil da mãe narcisista contido aqui. Também recomendo a leitura do meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas para um estudo longo e detalhado do narcisismo materno e seus efeitos.

5 atitudes típicas de pais facilitadores do narcisismo materno

Assim como “por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher”, por trás de uma mãe narcisista há sempre um pai facilitador do narcisismo materno. Mesmo que o relacionamento entre os pais já tenha acabado, a influência paterna representa um elemento essencial para a perpetuação do abuso narcisista que a mãe inflige ou infligiu aos filhos. Neste caso, o pai é considerado como “facilitador”, pois a dinâmica disfuncional de seu relacionamento com a mulher o impede de proteger os filhos contra essa influência nefasta. Isso se deve ao fato de que para criar um falso senso de harmonia com a esposa, o pai deve submeter-se completamente ao seu domínio. Como não corresponder às exigências do ego gigantesco narcisista tem grande potencial de colocar o seu relacionamento amoroso em risco, o pai acaba se tornando um agente coadjuvante do narcisismo materno, propiciando, ainda que indiretamente, que as vontades egoístas e a personalidade transtornada da esposa reinem absolutas no ambiente familiar.

Para ajudá-la a validar o seu sofrimento e identificar as maneiras com as quais o seu pai favorece ou favoreceu o narcisismo de sua mãe, seguem 5 atitudes típicas de pais facilitadores do narcisismo materno:

1- Venera a mãe narcisista

Ter um relacionamento com um narcisista só é possível por meio da anulação total da autonomia e individualidade, já que se equivale à pratica de um culto religioso. O marido aprende já no início do relacionamento que deve adorar e adular a parceira constantemente. É seu papel reverenciar as suas infinitas “qualidades” e relembrar a todos de seus “talentos” e “capacidades”.  A mãe narcisista, de acordo com a opinião do pai é, entre outros, inteligente, charmosa e merecedora de tratamento especial. Ao permitir-se convencer-se da suposta superioridade de sua parceira, o pai torna-se um dos aliados mais poderosos da matriarca ajudando-a a manipular a todos a acreditarem que é de fato seu dever servi-la.

2- Tem medo da mãe narcisista

pais facilitadores do narcisismo materno
A influência paterna representa um elemento essencial para a perpetuação do abuso narcisista

O pai facilitador está sempre pisando em ovos ao redor da mãe narcisista. Assim como a filha, vive com um receio profundo de contrariar a narcisista, pois o seu humor se altera radicalmente e com grande facilidade. Evita reconhecer as falhas e comportamentos impróprios da esposa para não desestabilizá-la emocionalmente, pois conhece o poder destruidor de sua ira. Além disso, recusa-se a reconhecer a existência de problemas familiares a fim de se autopreservar, já que tem plena ciência de onde se originam e das duras consequências de admiti-los abertamente.

3- Toma o lado da mãe narcisista

O pai facilitador – como todo acessório narcisista – é usado com sucesso no processo de triangulação. A mãe narcisista faz uso da chantagem emocional para manipular o marido a servir somente a seus interesses e costuma unir-se com ele contra o seu inimigo “em comum”, ou seja, os filhos que se opõem a segui-la. Por estar sempre carente da atenção e afeto da esposa, o pai facilitador se entrega ao charme narcisista para se sentir aceito e “amado” por ela, alimentando, como resultado, a desunião e a falta de funcionalidade familiar.

4-  Defende a mãe narcisista

Embora instintivamente saiba que o comportamento da esposa não é correto, o pai facilitador sempre tem uma justificativa para essa atitude transtornada. Sua preocupação central consiste não só em manter o relacionamento, bem como um falso senso de harmonia familiar e, por isso, protege a integridade da mãe narcisista colocando a culpa nos filhos. Como regra geral, se a mãe está de mau humor, irritada ou insatisfeita é porque os filhos fizeram algo de errado.

5- Minimiza o impacto negativo da mãe narcisista

O pai facilitador possui o hábito de se recusar a entender a gravidade da situação familiar até que algo muito ruim aconteça. Tende a normalizar o efeito nocivo da atitude narcisista da mãe no desenvolvimento e bem-estar psicológico e emocional de seus filhos com chavões do senso comum do tipo “ser mãe não é fácil”, diminuindo o valor de sua própria autoridade e aumentando o sentimento de impotência de todos. Acredita que quanto maior a sua capacidade de acobertar a irracionalidade da esposa com panos quentes, melhor será a sua chance de reduzir conflitos e garantir um mínimo de coesão entre os membros de sua família disfuncional.

Só há uma possibilidade do relacionamento entre o seu pai e a sua mãe narcisista não acabar em divórcio: o marido deve tornar-se escravo do ego gigantesco da esposa, funcionando como pai facilitador do narcisismo materno. Se o seu pai tem um problema de baixa autoestima – fato muito comum a parceiros e parceiras de narcisistas – há uma probabilidade muito grande de acreditar que não é digno de ser amado. Como não consegue amar-se incondicionalmente, nutre a crença negativa de que “para ter o direito” de ser amado pela mulher narcisista deve sacrificar-se de alguma forma. Essa dinâmica precede a sua existência de filha de mãe narcisista e pai facilitador, portanto, não cabe a você tentar resolver o problema deles, mas é vital que se concentre em seus próprios objetivos renunciando participar desta constelação narcisista e distanciando-se, definitivamente, dessa influência tóxica.