A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos? Ela tem consciência do mal que faz aos filhos?

Para que você chegue à resposta desta pergunta de forma independente, adulta e respeitando a sua verdade, convido-a, primeiramente, a reflexionar sobre as seguintes questões:

A mãe narcisista tem consciência dos seus atos?
Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia e outra no convívio com a família

1- Se você ou qualquer outra pessoa defender que a mãe narcisista não tem consciência dos seus atos, está afirmando que ela é insana, ou seja, não sabe distinguir entre a fantasia e a realidade. Se a mãe narcisista não conseguisse distinguir entre a fantasia e a realidade, não saberia como agir de forma tão calculada e dissimulada, tanto dentro quanto fora do ambiente familiar. Portanto, a sua aparente “doidice” ou comportamento incontrolável e impulsivo seriam óbvios para todos com quem tem contato. Esse tipo de comportamento, contudo, não corresponde ao da mãe narcisista, pois sabe como cultivar uma imagem de perfeição e viver de aparências. Toda a filha de mãe narcisista reconhece que a genitora tem uma postura na frente de plateia (dedicada, educada e carinhosa) e outra no convívio com a família (negligente, abusiva e fria), o que denota possuir pleno controle das faculdades mentais e sabe com quem e onde pode se comportar de forma abusiva, sem nunca ser descoberta e considerada responsável por seu comportamento impróprio.

2- Para que a mãe narcisista consiga se sentir bem consigo mesma, precisa receber estímulo negativo daqueles com os quais se relaciona. Em outras palavras, precisa rebaixar os outros para se sentir superior (dinâmica a que me refiro como “o relacionamento gangorra” em meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura e que expõe o valor da filha como suprimento narcisista). Se a mãe narcisista não tivesse consciência de seus atos, ou de como magoa e faz a filha se sentir pequena e rejeitada, seria intelectualmente incapaz de se beneficiar destes sentimentos de inadequação ou de usar a filha ou qualquer outra pessoa como suprimento narcisista. Como resultado, os seus relacionamentos seriam funcionais e harmoniosos e não de extrema dependência emocional, como é o caso dos que mantém com todos a sua volta. Além disso, quando a filha de mãe narcisista se recusa a se submeter ao abuso com autoconfiança e cortando o contato, a matriarca narcisista sente-se desconsertada – mesmo não gostando da companhia da filha nem nutrindo nenhum amor genuíno ou respeito por ela. Diante disso, faz tudo para reaver o controle, provando, portanto, que entende a forma pela qual os seus comportamentos abusivos a conferem um senso de autoestima, identidade e “bem-estar” emocional.

3- Porque uma pessoa tem uma doença mental, tal como um transtorno de personalidade, não significa que seja abusiva. Por mais que haja um grande número de pessoas abusivas que possui uma doença mental, nem todo mundo que abusa é narcisista, por exemplo. Correlação não é causalidade. Uma doença mental ajuda a explicar o contexto do abuso, mas não o justifica. Assim como laço sanguíneo não equivale à licença para se comportar de maneira agressiva, doença mental não serve de desculpa para se aproveitar do amor e da vulnerabilidade de uma criança ou adolescente, afetar o seu crescimento e desenvolvimento negativamente e comprometer, de forma irresponsável e inconsequente, com a sua qualidade de vida não apenas na infância, como também na idade adulta. Para a profissional de saúde mental que tem ampla experiência com os relacionamentos abusivos, seja de forma direta como sobrevivente ou indireta através dos relatos de suas clientes, ou uma mistura de ambos, afirmar que o abusador faz o que faz porque é, supostamente, doente mental, simplesmente “não cola”. Vale a pena lembrar que a esmagadora maioria das filhas de mães tóxicas nunca recebe a confirmação de que as suas genitoras são, de fato, narcisistas, ou que possuem qualquer outro tipo de doença mental. Por mais que o termo “narcisismo” seja elucidador, não exclui as características mais marcantes das mães abusivas/tóxicas/narcisistas: o pensamento rígido e a falta de empatia e respeito pelos limites, identidade e direito à individualidade de seus filhos.

4- Sob esta perspectiva, pode-se alegar que a mãe narcisista não sabe da extensão do mal que causa a seus filhos porque também foi abusada e maltratada pelos próprios pais e, portanto, julga a sua atitude imprópria como “normal”. Isso pode ser considerado como uma “meia verdade”, em virtude dos seguintes aspectos:

  • A mãe abusiva/tóxica/narcisista usa as mesmas táticas de negação de problemas da maioria dos indivíduos provenientes de famílias disfuncionais. Estas táticas, como escudar-se atrás de chavões do senso comum tais como “Mãe/família é tudo”, “Toda a mãe boa” e “Toda a família tem problema” invalida a realidade de abuso e a negligência de todos, inclusive a de si mesma. O trauma e o abuso são tabus não somente para quem é vítima, mas também para quem é testemunha (direta ou indireta) ou os tolera sem questionamento. Nos casos de quem foi ou é vítima de abuso e se torna, também, um abusador, o peso deste tabu aumenta e, com ele, a vergonha e a necessidade de negá-lo, até para si.
  • Nem todo mundo que é vítima de abuso, abusa. Eu conheço inúmeras vítimas sobreviventes que nunca cometeriam as atrocidades que sofreram e que se sentem extremamente abaladas e decepcionadas consigo quando agem de forma agressiva.
  • Mesmo quando a mãe abusiva/tóxica/narcisista torna-se ciente de quão nociva a sua atitude é para a autoestima e bem-estar psicológico e emocional dos filhos, continua a tratá-los de forma imprópria e a negar o impacto negativo que lhes causa, bem como qualquer tipo de responsabilidade nos problemas deste relacionamento.

É importante sabermos as razões que podem levar um ser humano a cometer atos de abuso, assim como definir o seu nível de consciência acerca destes, sobretudo quando são nossos genitores e tiveram uma influência direta em nosso desenvolvimento. A ciência acerca dos fatores que contribuem com tal crueldade e o sentimento de compreensão e empatia que seguem esta descoberta não diminuem a sua malignidade, contudo, tampouco isentam quem os comete de sua responsabilidade, ou nas sábias palavras da grande psicóloga e filosofa suíça Alice Miller (2002):

“Empathising with a child’s unhappy beginnings does not imply exoneration of the cruel acts he later commits”

(“Demostrar empatia pela infância triste de uma criança não implica a exoneração dos atos cruéis que depois comete”)

Então, no que você acredita?

 

Referência:

Miller, A. (2002). For your own good. Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence (4th ed.). New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.