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Para honrar a sua raiva

Embora seja instrumental para o nosso senso de valor e autoproteção, a raiva é uma das emoções mais incompreendidas. Crianças e mulheres, especialmente, são criticadas por possuírem-na e expressarem-na, como se a raiva nunca tivesse mérito ou aplicação na sua experiencia. É através desta emoção, contudo, que o corpo mobiliza a energia para reavermos a nossa autoestima, por exemplo, bem como respeitarmos os nossos limites ou nos defendermos, seja de forma física ou verbal. A raiva também ajuda a equilibrar a tristeza e o medo e a fazer com que reavemos o controle sobre uma situação ou até de nós mesmos. Um corpo humano, cuja raiva tenha sido condicionada a ser reprimida, torna-se vulnerável ao abuso, à negligência e a uma grande variedade de problemas de ordem física, psicológica/emocional e relacional. Apesar da conexão com a raiva ser tão fundamental para garantir o nosso bem-estar, a atitude de ignorância em relação a ela é tão grande que achei pertinente usar o meu blog para ajudar a esclarecer para desmitificá-la e humanizá-la. Este artigo, portanto, tem o intuito de honrar a sua raiva.

Para honrar a sua raiva
A conexão com a raiva é fundamental para garantir o nosso bem-estar

“Sentir raiva da mãe é feio”

Você não precisa ter uma mãe narcisista para ter ouvido esse comentário em sua infância. Se como a maioria de nós, tiver recebido uma educação rígida e que reflita uma atitude de imaturidade e negligência emocional, aprendeu, desde pequeno, a negligenciar as emoções negativas como propósito prático e, por isso, não devem ser toleradas. Também aprendeu que deve sentir-se envergonhado e culpado por possui-las, as quais só são válidas se justificadas por um argumento objetivo e se aprovadas por outras pessoas. A sua raiva, portanto, assim como tristeza, surpresa, medo, nojo e vergonha sentidos, deve ser racionalizada e aceita por terceiros para que tenha valor. Esta atitude errônea e inflexível de racionalização e consequente desumanização das emoções negativas, embora mantida por pais bem-intencionados, compromete a nossa integridade e habilidade de nos desenvolvermos de forma saudável e operarmos satisfatoriamente em todas as áreas de nossas vidas.  

“Quem expressa a raiva é fraco, descontrolado”

Embora sufocar a raiva, fazer um esforço tremendo para controlar as emoções negativas e negar a sua existência seja visto como um sinal de força e equilíbrio, negligenciar as próprias emoções é, na realidade, uma atitude imatura e impensada de quem não monitora a própria experiência, seja de forma interna ou externa, para compreender o efeito que os seus atos tem em si e nas outras pessoas. A raiva, mesmo quando reprimida pela cultura de excesso de racionalização, fica armazenada no corpo e extravasa, até de forma inconsciente, em contextos diversos. Por não ser respeitada e aceita socialmente, a raiva tende a ser a emoção negativa que sofre mais descolamento, ou seja, mecanismo de defesa que faz com que lidemos com emoções negativas através de uma pessoa ou circunstância menos ameaçadoras, ou que nos deixa mais à vontade para a sentirmos e a expressarmos. A tendência de descarregar a raiva nos filhos e agir de modo agressivo-passivo, ambos comportamentos típicos de genitores tóxicos, tais como da mãe narcisista, são exemplos clássicos de como o esforço para negá-la é infrutífero e desemboca em problemas sérios de relacionamento e, até, em abuso e trauma.

A raiva acumulada

Caso tenha sido vítima de abuso narcisista, a probabilidade que sofra de raiva acumulada é muito grande, já que se trata de um dos efeitos mais comuns do trauma do desenvolvimento. Quem sofre de raiva acumulada tende a apresentar, entre outros, os seguintes sintomas:

  • alta reatividade
  • irritabilidade, falta de paciência
  • hipervigilância
  • tristeza
  • sentir-se usado, desvalorizado, baixa autoestima
  • sarcasmo, desejo de criticar e ferir o outro com palavras, agressividade passiva
  • ver a vida como uma batalha, os outros como inimigos ou pessoas que querem se aproveitar de você ou humilhá-lo  
  • levar tudo para o lado pessoal
  • problemas do sono
  • armouring: rigidez nos músculos dos ombros, costas, pescoço e mandíbula
  • dores de cabeça
  • fadiga
  • aumento da pressão sanguínea
  • problemas gastrointestinais

Se se identifica com o dito acima, recomendo abordar o seu problema de raiva acumulada o quanto antes através de uma atitude proativa, consciente e responsável, já que tem o potencial de afetar a sua saúde, a qualidade de vida e relacionamentos de uma forma dramática. 

Você tem direito a sua raiva

Como ser humano, você tem total direito de sentir o que for. Ninguém tira este direito de você, independente do argumento (incluindo, “Mas ela é sua mãe”), já que a sua experiência subjetiva consiste em um direito universal seu. Assim como você não precisa justificar o seu valor para tê-lo, todas as suas emoções não precisam ser explicadas para que adquiram relevância e sejam honradas, basta existirem para que, automaticamente, sejam merecedoras de sua atenção. É claro que honrar a sua raiva não lhe dá permissão para abusar dos outros livremente. Se você só consegue expressar a raiva de forma polarizada e disfuncional, ou seja, reprimindo-a ou expressando-a de forma extrema, precisa reavaliar o seu estilo e aprender formas saudáveis de lidar com ela.  Aprender a comunicar a sua insatisfação de forma assertiva, não violenta e polida, revela-se essencial para quem deseja conectar-se com a raiva de maneira autêntica e produtiva.

Honrando a raiva do filho e filha de mãe narcisista

Passar anos sendo humilhado, rejeitado e ignorado por uma mãe narcisista, abusiva, egoísta e egocêntrica, enquanto se é negado o direito de sentir-se mal em relação a tudo isso, é enfurecedor. Tornar-se adulto e dar-se conta disso e, ainda, não ter o direito de validar essa raiva, mais ainda. Para encerrar com este ciclo de negligência e dependência emocional (para compreender o que é a dependência emocional e como superá-la, recomendo o meu curso online, “A dependência emocional”), é vital que comece a honrar a sua raiva neste momento e de forma autônoma, mesmo que ninguém a sua volta esteja disposto a fazê-lo. Só você tem o poder de transformar a sua vida e o relacionamento que tem com as emoções. Para beneficiar-se de uma conexão saudável com a raiva, faça dela a sua melhor amiga e aprenda a processá-la e observá-la, sem julgamento. Quando acolhe todas as partes de si, está praticando o amor-próprio de dentro para fora. Se necessita de ajuda para mudar o relacionamento com a raiva, recomendo o meu curso online “Como fazer o luto da mãe narcisista de forma orgânica”. Neste curso, você aprenderá a reconectar com o corpo e a processar a raiva resultante de seu trauma de forma saudável.   

One comment

  1. IC disse:

    Olá Querida Michele,
    Você acertou em cheio neste artigo sobre a raiva. O Brasil , católico em sua maioria, é muito hipócrita nos assuntos familiares. Cada família disfuncional tem uma ‘caixa preta’ a ser desvendada e curada.
    No meu caso, eu lidei com a raiva de vária formas. Na infância eu não questionava e era uma criança obediente a minha mãe narcisista E perversa. Eu era exigida para ser uma menininha doce e submissa aos caprichos e devaneios da mãe anormal. Ela me comparava com as outras crianças; não me elogiava NUNCA; e na frente dos outros ela posava de “super mãe”… e deu certo (para ela) : o pessoal ‘comprou’ essa imagem que ela ‘vendeu’, principalmente a “parentada” insuportável dela de S.J.C city.
    Quando cheguei aos meus 11/12 anos, eu sentia raiva dela e não confiava mais nela. Nesta fase, eu, uma vez, falei que era adotada e pedi a minha certidão de nascimento para ver se eu tinha o nome dela , ou ela era uma madrasta. (mulher má que casou com o meu pai , bom , que eu tinha enorme afinidade). Depois deste episódio, ela vivia relembrando isso e tentando me ‘culpar’ por pensar “uma coisa dessas” da sua própria mãe “! Logo ela , que ‘posava’ de “super mãe” !
    Acho que, o que me ajudou a ter boas lembranças destas fases, é que eu adotei a minha escola; as amizades e suas famílias como exemplos para mim. Acho que fiz isso, inconscientemente, e me ajudou muito a ‘compensar’ a frieza dentro da minha casa. E também, tinha a presença do meu pai, que apesar dos defeitos, ele foi um pai gentil, boa gente, trabalhador e extremamente infeliz no seu casamento. Ele foi um sofredor como eu. Ele não conseguiu lidar com a psicopatia dela. Nem o meu pai e nem eu sabíamos com que tipo de monstro manipulador estávamos lidando. A minha mãe narcisista perversa destruiu o meu pai. E me destruiu várias vezes, quando vandalizava algumas amizades minhas; quando falava nas minhas costas que queria um “marido milionário’ para mim; quando me comparava com outras pessoas; quando nunca me elogiava ; quando implicava e ofendia namorado (e também meu ex-marido) que ela não gostava …etc, etc,etc…
    E assim, nesta mistura de desconfiança, frieza e manipulação eu vivi . Mas, eu segui encontrando refúgios , alternativas e tinha um otimismo meio “Polianna” até. Eu estudava, nunca repeti de ano, entrei na faculdade que eu quis, nunca usei drogas nem álcool… Por isso, eu digo que eu não senti baixa auto estima… eu me ‘descolava ‘ dela em muitas situações. Acho que eu formei um mecanismo de defesa , que não me deixou sentir que eu era inferior com baixa auto estima. Eu sempre me achei e acho, completamente diferente dela. Água e óleo. É um sentimento presente comigo.
    Porém, a raiva acumulada por décadas, explodiu em novembro de 2017 através de uma terceira pessoa. Foi uma irmã da minha mãe narcisista, mais nova 11 anos que ela. Em um episódio triste, eu chamei aqui em casa, dois irmãos da minha mãe (de SJC city), para pedir ajuda e informar o que estava acontecendo (que era uma situação horrorosa e de intervenção) e eu estava um tanto ‘perdida’ com o que fazer. A tal irmã, me ofendeu, gritou, esbravejou e principalmente, demostrou que não queria nem ter vindo. Após este dia, esta mulher me causou danos psicológicos, porque eu fique com uma raiva astronômica da minha mãe e daqueles irmãos dela !! Fiquei deprimida, mas reagi. Pedi ajuda médica, e fui para uma terapia de grupo. Foi a melhor coisa que me aconteceu naquele momento! Eu extravasei tudo, contei tudo com raiva nos olhos…assumi a minha raiva dela (e de parentes inclusive) perante os outros ! Nos primeiros encontros semanais, eu voltava para casa super cansada. Mas nos poucos meses que o grupo durou, foi muito importante, eu ter conseguido aquela catarse perante pessoas desconhecidas ! Eu consegui expelir do fundo da minha alma toda a raiva acumulada! Fui me recuperando, a raiva foi diminuindo e assumi que eu não gosto da minha mãe (e nem dos irmãos dela). Eu não tive mais pesadelos de brigas e discussões (acordava com a sensação de garganta seca e de que parecia ter sido real) com parentes e com ela. Eu passei décadas tendo estes pesadelos (esporádicos) , após aquele rompimento tenebroso e traumático (que já mencionei aqui antes ) com o tal namorado E. de SJC city em 1985. Aquela breve terapia de grupo me auxiliou muito , juntamente com a leitura do seu blog e do seu livro. O seu blog e livro me deram a conscientização. E eu estou me libertando. Muito obrigada Michele ! Um grande abraço,

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