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Quando o sucesso é gatilho: a síndrome do impostor

Recentemente, a atitude de um cliente, filho de pais narcisistas, relembrou-me de como a síndrome do impostor é debilitante. Robert*, britânico de 35 anos, iniciou a sessão de terapia relatando, de forma bastante animada, como havia se destacado em um curso de liderança, do qual participou com os colegas da empresa de consultoria em que trabalha. Com um supersorriso, começou a descrever como haviam comentado de que, até então, não tinham percebido o quão significantes eram o seu conhecimento e experiência e entusiasmado, finalizou com o comentário: “Até o meu chefe e dono da empresa ofereceu-me um cargo fixo de liderança após o curso, foi mesmo incrível”.  Quando comecei a parabenizá-lo pelo sucesso e compartilhar de seu entusiasmo com o que havia acontecido, reparei que a sua linguagem corporal começou a mudar, os ombros caíram, os olhos ficaram brilhantes como se estivessem com lágrimas e o tom de sua voz tornou-se mais baixo e lento. O meu corpo e as emoções que sinto são grandes ferramentas no trabalho que faço, perguntei se havia algo de errado, pois captara certo desconforto da parte dele. Com a postura, então, já bastante retraída, confessou que estava se sentindo inadequado por ter falado de si próprio de modo autoconfiante e tido a sua história de sucesso validada por mim.

Quando o sucesso é gatilho: a síndrome do impostor
A síndrome do impostor é a tendência de questionar o próprio mérito e duvidar das próprias habilidades

O ataque de vergonha do Robert é típico de quem possui a síndrome do impostor. Como explico em meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, é a tendência de questionar o próprio mérito e duvidar das próprias habilidades, resultado de anos de abuso verbal e manipulação emocional por um ou demais genitores tóxicos e/ou negligentes emocionalmente. O excesso de crítica, a inveja, o desdém e a falta de interesse da mãe narcisista, por exemplo, causam grande trauma no filho ou na filha, a ponto destes associarem as conquistas e os eventos positivos em suas vidas com algo ruim com o potencial de desembocar em sentimentos de inadequação e perda. Porque a mãe narcisista tem o hábito de demonstrar grande desgosto ou ignorar, conscientemente, a performance de excelência dos filhos, assim como questionar o mérito de suas habilidades, ficam condicionados por tais experiências traumáticas a conceberem o próprio sucesso como algo vergonhoso. Foi triste observar como o momento de triunfo e glória de Robert funcionou como um gatilho para o surgimento de seu trauma da infância e afetou a sua capacidade de se sentir orgulhoso e celebrar a sua vitória sem um medo irracional da sua suposta “incompetência” ser descoberta, como se não fosse digno tanto de suas próprias qualidades como do reconhecimento destas.

Se como o Robert sente-se “nervoso” (envergonhado/inadequado e com medo/ansioso) quando alguém reconhece uma qualidade sua, faz um elogio ou expressa qualquer tipo de interesse e até entusiasmo por você e suas capacidades, recomendo analisar o problema conscientemente, pois a síndrome do impostor pode influenciar, de forma bastante negativa, a sua habilidade de realizar o seu potencial. Quando demonstra uma linguagem corporal insegura, desconfortável ou receosa de ser visto como um indivíduo adulto e competente, a probabilidade de que os outros o vejam desta forma aumenta. Enquanto que não se faz necessário sentir-se 100% confiante por dentro para emanar uma energia de autoestima por fora, é vital que mude a mentalidade de perdedor e farsante para uma de credibilidade e assertividade caso tenha como objetivo crescer e desenvolver-se, seja na área pessoal, acadêmica ou profissional. Se for filho ou filha de pais tóxicos e necessita de ajuda para agir com amor-próprio e sentir-se com mais autonomia de dentro para fora, recomendo a leitura, em especial, do capítulo final de número quatro do meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura, “Os cinco ases de emancipação da filha de mãe narcisista”.

*Nome fantasia para proteger o anonimato de meu cliente

3 comments

  1. A. A. disse:

    Excelente!
    Passei por isso na minha vida em todos os âmbitos: estudantil, profissional, pessoal.
    Sempre no trabalho, por exemplo, me sinto incapaz, tenho vergonha quando superiores enaltecem minhas qualidades, me sinto meio que uma farsa…
    Minha mãe por exemplo, quando eu chegava com o boletim só com nota 10, olhava com desdém, assinava e falava: “não fez mais nada que a obrigação”; na época de prestar vestibular, eu era a “cdf”, ela fazia questão de aumentar o som no último para que eu não conseguisse estudar e falava: “fazer faculdade pra que? Será mais uma desempregada com diploma debaixo do braço”
    Triste!
    Levo isso comigo até hoje…

    1. E. disse:

      Nossa , me sinto compadecida cim sua dor.
      Minha mãe ja me disse uma vez, que pobre não faz faculdade. Eu fiz, então não sou pobre .. tenha sucesso

  2. I.C. disse:

    Querida Michele,
    Lendo sobre a história do Robert, eu me lembro de vários episódios da minha vida, em que fui desprezada e ignorada pela minha mãe narcisista perversa.
    Por exemplo, quando passei no vestibular para algumas boas faculdades, ela nem demonstrou alegria. Pasmem ! Ela ficou “triste e se solidarizou” com uma amiga do colégio que teve um ‘xilique’ porque não conseguiu passar no vestibular. Por causa da maldade da minha mãe eu não tive festa de comemoração pela minha conquista !
    Quando trabalhava em Banco, e era promovida a minha mãe perversa ignorava solenemente. Mas, eu já adulta, comemorava com as pessoas que eu gostava naquela época, com o namorado e os amigos(as).
    A convivência com uma mãe inconfiável, me fez (na idade adulta) esconder muitos assuntos particulares. Como eu não entendia o jeito dela, e comparava com as outras famílias que eu convivia , eu nem sabia o que sentir por ela. Passei a esconder meus assuntos , talvez porque tenha ‘captado’ uma inveja . Sim, a minha própria mãe é invejosa de mim e de quase todo mundo que ela conhece. E com o passar dos anos, ela ficou mais invejosa e raivosa. Uma vez, quando a irmã dela (em conversa via telefone), disse que viajaria para o exterior, a minha mãe sentiu tanta raiva, que começou a falar mal e até praguejar contra a mulher (depois de encerrar o telefonema). Claro, que somente eu presenciava estes monólogos dela. Ela me usava para ser sua ouvinte, onde ela falava mal das pessoas e do meu pai. E é óbvio que quem fala mal de outros (não presentes) para você, irá falar mal de você para os outros. É a manipulação que ela fez enquanto eu era criança e adolescente.
    Eu sentia que a minha mãe era uma megera, que havia algo errado. Mas, ninguém a enfrentava. Meu pai não conseguiu e foi destruído. Eu consegui a pouco tempo . Agora eu estou ciente da gravidade da psicopatia dela.
    Ela está sendo bem cuidada em uma casa de repouso. Eu reduzi o contato com ela e com os parentes tóxicos.
    Acho que eu ainda tenho medo dela. Do olhar que ela me dava desde criança. Um olhar estranho, mau. Ela usava aquele olhar para manipular, intimidar. Depois vinham as palavras e o discurso detonador. Entendo o Robert, ele deve ter sentido muito medo da mãe . Mas, ele vai conseguir. Eu estou conseguindo. um abração ,

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