Como regular as emoções negativas

Uma das reclamações mais frequentes que recebo de minhas clientes é que têm dificuldade de regular as emoções antagônicas. Como cresceram em um ambiente de extrema negligência emocional, é compreensível que sejam deficientes nesta área, já que foram condicionadas, desde pequenas, a reprimirem e até a descartarem a própria inadequação para se concentrarem nas necessidades de suas mães narcisistas. Além disso, em função do seu desenvolvimento ter ocorrido em um ambiente de intenso estresse resultante do convívio com uma mãe abusiva, possuem uma alta sensibilidade do sistema límbico, o que aumenta a sua reatividade (para mais informações sobre o sistema límbico e como o trauma do desenvolvimento afeta o cérebro, clique aqui).  Em vista destes fatores, faz-se vital que aprendam como superar esta deficiência para aumentarem a sua qualidade de vida e dos relacionamentos.

Como regular as emoções negativas
As filhas de mães narcisistas têm dificuldade de regular as emoções antagônicas

Para ajudá-la a regular as emoções negativas, recomendo seguir os 5 passos abaixo descritos, na ordem sugerida:

1- Avalie o seu estado emocional e decida se precisa agir

Assim que perceber uma mudança em seu humor, aumente a consciência sobre o seu estado emocional registrando o momento mentalmente, ou seja, que não está bem. Validar a própria inadequação e atribuir-lhe a relevância que merece de forma consciente e autônoma facilita o desencadeamento do processo de regulação emocional. Logo que notar que não está se sentindo bem (estressada, com raiva etc.), pergunte-se: “Preciso fazer algo a respeito?”. O intuito desta simples pergunta é mobilizá-la para a ação, se julgar necessária. Se não sabe como avaliar se precisa tomar uma atitude, lembre-se do seguinte: a emoção negativa de maior duração é a tristeza, podendo durar até cinco dias, enquanto que a vergonha, a surpresa, o  medo, a repulsa e a irritação possuem duração menor (em média, 30 a 60 minutos (Verduyn & Lavrijsen, 2015)), portanto, se exceder esta média, provavelmente, merece a sua atenção.

2- Identifique as emoções, a primária e a secundária

Quando estudamos os processos de fluxo e regulação das emoções, percebemos que não são tão simples como parecem. A raiva ou culpa que você sente, por exemplo, pode não ser o sentimento que predomina na sua reação emocional. Segundo Lazarus (1991), o renomado psicólogo e teórico das emoções, o processo de regulação emocional é feito através de uma transição entre uma emoção primária (instantânea, desregulada) e secundária (reguladora), o que pode dificultar o nosso entendimento acerca do que estamos sentindo e porquê. Para entender este fenômeno, imagine que está dirigindo em alta velocidade, quando um motorista inconsequente corta a sua frente. Então, o que sente, raiva? Nestes casos, a raiva é a emoção secundária e não a primária, pois ocorre após o medo de perder o controle do carro e nos ajuda a regulá-lo. A raiva, neste contexto, contribui para reavermos a nossa autoestima e confiança em nós mesmos, bem como nossas habilidades. O conhecimento de que as emoções vêm em tais “ondas” pode direcioná-la de forma mais acurada para a raiz da sua inadequação, um processo que, por si só, diminuirá a sua intensidade.

3- Aja imediatamente

Quando dominada ou incomodada por uma emoção antagônica persistente, não perca tempo e faça algo a respeito, o quanto antes. Quanto mais cedo você lidar com a sua inadequação, menos prejuízo lhe causará. Há várias maneiras de lidar ativamente com as emoções antagônicas, como através de exercícios de respiração e relaxamento muscular progressivo de Jacobson. Eu sugiro muitíssimo ambos não somente como estratégias funcionais de regulação emocional, mas também como práticas regulares para o controle da hipervigilância (um dos principais sintomas do TEPT-C, Transtorno do Estresse Pós-traumático Complexo).

4- Exerça o controle cognitivo

Se deseja desenvolver a sua capacidade de autocontrole, é fundamental que trabalhe com o seu córtex pré-frontal, a região do cérebro responsável, entre outros, pela metacognição e regulação de comportamentos impulsivos, tais como aqueles altamente influenciados pela raiva. Abaixo são elencadas algumas técnicas cognitivas básicas que a ajudarão a ativar esta área altamente sofisticada do seu cérebro:

  1. Redobre o seu nível de autoconsciência. Monitore os seus pensamentos, comportamentos e emoções diariamente. Registre, seja mentalmente ou com a ajuda de um diário, a maneira como os seus pensamentos influenciam o seu estado emocional e comportamento e vice-versa. Identifique, sobretudo, o tom do seu diálogo interno e os tipos de pensamentos que funcionam como gatilhos para a sua inadequação e desembocam em comportamentos disfuncionais.
  2. Questione os pensamentos negativos com a ajuda de um Relatório Diário de Pensamentos Disfuncionais (RDPD). As filhas de mães narcisistas tendem a sofrer com a autocrítica e uma grande variedade de pensamentos improdutivos, como explico no meu livro Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura. Estes pensamentos disfuncionais estão no cerne de sua inadequação, já que é difícil sentir-se alegre e confiante quando se carrega uma mini mãe narcisista dento do próprio cérebro. Para calar a boca desta tirana interna e exercer mais controle sobre as emoções, recomendo completar um RDPD pelo período de no mínimo duas semanas, para aprender como questionar os pensamentos negativos que afetam o seu humor.
  3. Identifique as suas vulnerabilidades. Quando as minhas clientes não estão bem emocionalmente, os seus níveis de codependência, procrastinação e perfeccionismo, por exemplo, tendem a encontrarem-se altos. Isso se deve ao fato de que tais vulnerabilidades abrangem estratégias de enfrentamento disfuncionais para reavermos a nossa autoestima e regularmos a nossa inadequação. A questão é que não resolvem o problema a longo prazo, mas acabam por estendê-lo, portanto, ao se flagrar fazendo uso de tais táticas, abandone-as imediatamente e aplique as sugeridas neste artigo.

5- Pratique a autoaceitação

Sentir as emoções negativas faz parte de ser humano. Assim como nem toda a emoção negativa tem um propósito, é normal senti-las na grande diversidade de situações que compõe a existência. O seu sucesso em regular e até controlar as emoções também depende da sua capacidade de aceitá-las com tolerância e respeito. Mesmo quando parecer não fazerem sentido, aceite-as para que consiga aceitar a si mesmo. Indivíduos autoconfiantes, íntegros e centrados são aqueles que agem de forma emocionalmente congruente e madura e que se permitem honrar todas as emoções que constituem o repertório humano, sejam positivas ou não.

Referências

Lazarus, R. S. (1991). Progress on a cognitive-motivational-relational theory of emotion. American Psychologist, 46, 819-834.

Verduyn, P. & Lavrijsen, S. (2015). Which emotions last longest and why: The role of event importance and rumination. Motiv Emot, 39, 119–127. DOI 10.1007/s11031-014-9445-y