Culpa

culpa
A culpa é o sentimento mais tóxico do legado narcisista.

A culpa é o sentimento mais tóxico de todas as emoções de caráter antagônico. Além de ser a resposta mais comum e automática da filha de mãe narcisista em seu relacionamento com a mãe. Por quê?

Para entendermos porque a culpa é tão presente e causa tanto prejuízo em sua vida, é fundamental desconstruir e analisar minuciosamente a origem da culpa para que possamos iniciar o processo de libertação deste sentimento tão danoso.

Então, vamos lá.

A culpa, de acordo com o Dicionário Aurélio, significa:

  1. Ação negligente ou imprudente ou danosa a outrem
  2. Falta voluntária contra a moral, princípio ético, preceito religioso ou lei
  3. Responsabilidade por ação ou omissão prejudicial, reprovável ou criminosa, mas não intelectual
  4. Sentimento de pesar, angústia e, por vezes, vergonha de quem se sente culpado por algo ruim.

Veja como estes itens são contextualizados no desenvolvimento da filha de mãe narcisista e na criação e manutenção da dinâmica de seu relacionamento com a mãe:

  1. Ação negligente ou imprudente ou danosa a outrem

Quando eu me sinto culpada é porque acredito que falhei de alguma maneira por meio de um comportamento desleixado ou descuidado. Em outras palavras, sinto-me culpada, seja da maneira ou por causa do que for, quando meus atos não correspondem ao que se é esperado de mim em determinada situação.

Quando criança, a filha de mãe narcisista tem total fé no amor e no relacionamento com esta. Para ela, a mãe (e/ou pai ou adulto responsável) é fonte inquestionável de afeto e proteção. Precisa confiar neste conceito para se sentir segura e ter acesso a alimento e abrigo. Ir contra este princípio, quando inexperiente e indefesa, não é produtivo.

Que criança pequena sobrevive largada no mundo sem interferência alguma de um adulto? Isso quer dizer que confiar na mãe, assim como em sua capacidade de cuidar de seus interesses e bem-estar é a única alternativa que a filha de mãe narcisista tem de se manter viva. Portanto, eu preciso acreditar na bondade da mãe para ser beneficiada por ela. Culpar a mãe é quebrar o vínculo responsável pela minha sobrevivência.

A dinâmica do relacionamento entre filha e mãe narcisista fica, então, primordialmente definida por este princípio evolutivo mais básico. Se a minha mãe de fato me mantém segura (protegida do tempo e de estranhos, e nutrida) é por ser boa e justa. A filha acredita na mãe e na pureza desse relacionamento porque “faz sentido”. Pessoas más são aquelas que causam destruição e morte na vida dos outros, não as que os protegem. Por isso, devo confiar na mãe, cegamente, assim como confio no meu relacionamento com ela como garantia da minha sobrevivência. Na maioria dos casos, esta premissa funciona. Funciona até com filhas de mães narcisistas, pois conseguem crescer e se desenvolver mesmo sendo abusadas psicologicamente. Mas de que maneira?

Por confiar cegamente na mãe, a filha de mãe narcisista cresce internalizando tudo que acontece de ruim no relacionamento com a mãe na forma de culpa. Se sua mãe está sempre insatisfeita (seja com ela, consigo mesma ou com as outras pessoas) é porque a filha fez algo de errado. Vale lembrar que quando a mãe narcisista não contém a sua insatisfação na frente de seus filhos – algo costumeiro – estes são incapazes de distinguir a verdadeira origem de seu descontentamento sozinhos. A não ser que a mãe seja honesta e explique o porquê de sua frustração, são incapazes de compreender sua atitude sem ajuda. Se mamãe está chateada e me trata mal ou é indiferente comigo, é por minha causa. Novamente, mamãe é boa e justa: se fica braba, é com razão.

Por não ter a flexibilidade de pensamento e a sofisticação cognitiva característicos de um adulto, a filha de mãe narcisista, quando criança pequena e despreparada, não desconfia ou questiona a atitude da mãe, mas, automaticamente, direciona a culpa por seu comportamento hostil a si mesma. A criança precisa fazer sentido de sua experiência para sentir-se segura, pois a segurança a mantém viva e em relativa harmonia consigo mesma. Não saber em quem ou no que acreditar gera profunda ansiedade, para aliviá-la, precisa de ordem. Nessas horas, causa e efeito é a resposta mais rápida e eficiente para que a lógica tome o lugar do desconforto emocional em que se encontra.

Com o tempo, a culpa se torna uma resposta “produtiva” ao que não tem conserto (o transtorno psicológico e a atitude abusiva da mãe narcisista). Admitir culpabilidade pela depressão, ansiedade e insatisfação da mãe permite a filha de mãe narcisista preservar a dinâmica de seu relacionamento com ela, mantendo a simbiose e garantindo suas chances de sobrevivência, seja da maneira que for.

2- Falta voluntária contra a moral, princípio ético preceito religioso ou lei

Assim como confia na boa índole da mãe para sua experiência fazer sentido e garantir a sua sobrevivência, a filha de mãe narcisista usa de convenções socioculturais como referência de atitude e comportamento pelo mesmo motivo. É influenciada pelo que o grupo da qual faz parte acredita por certo e errado, seja em nível intelectual, espiritual ou legal. Quando aceita por este, aumenta ainda mais a probabilidade de prosperar através da criação e manutenção de conexões sociais.

Sua fé na mãe narcisista e no relacionamento com ela é reforçada também pelas seguintes regras:

Moral: é certo amar, acreditar e confiar em quem me ajuda. É errado morder a mão de quem me alimenta.

Princípio ético: eu ajo de maneira correta e até virtuosa quando reconheço e valorizo aquele(a) que me dá proteção e auxílio.

Preceito religioso: como filho(a), devo honrar pai e mãe. Mãe = Virgem Maria (sagrada)

Lei: meu pai e/ou minha mãe são responsáveis pelo meu cuidado quando menor de idade. Eles ditam o que é bom ou ruim para mim, o que é certo ou errado, não eu.

Portanto, não há comportamento mais “natural”, enraizado, endossado e aceito pelas instituições que compõem a nossa sociedade do que sentir-se culpada por não acreditar tanto nas boas intenções como no mérito das atitudes da mãe. A filha de mãe narcisista, se decide voluntariamente ir contra os referidos princípios, “deve” arcar com as consequências, ou seja, carregar o peso da culpa de seu comportamento devido a seu caráter “irregular” e porque vai de encontro ao que é considerado certo e justo, seja sob uma perspectiva moral, ética, religiosa ou legal.

3-  Responsabilidade por ação ou emissão prejudicial, reprovável ou criminosa, mas não intelectual

Não concordar e não defender a atitude, assim como rejeitar a culpabilidade da mãe quando no papel de alvo mais próximo de seu comportamento impróprio são atos que questionam a sabedoria do senso comum (“mãe está acima de tudo”, “mãe só tem uma”) e valores éticos e religiosos, mas que, sobretudo, vai contra ao que se entende como a dinâmica mais primordial e básica de todos os relacionamentos entre seres humanos: a presença e influência direta da mãe, pai ou adulto responsável garante a sobrevivência de crianças indefesas e o sucesso da espécie. Discordar ou questionar seu mérito, portanto, “equivale” a algo danoso e, por isso, repreensível.

4- Sentimento de pesar, angústia e, por vezes, vergonha de quem se sente culpado por algo ruim.

Não há nada pior do que a dor da rejeição da própria mãe. É tão intensa e desconcertante, que a filha de mãe narcisista faz tudo para evitá-la ou controlá-la, mesmo que signifique aceitar culpa pelo comportamento deplorável e abusivo de sua mãe narcisista e de problemas que não são seus, como sua recusa de admiti-los e a maneira desrespeitosa e transtornada com que se conduz.

Por depender dela para sua sobrevivência, a filha de mãe narcisista carrega o ônus da infelicidade e descontentamento da mãe para poupá-la de seu próprio sofrimento, a fim de que a faça sentir-se apta (ou criar uma ilusão de capacidade) e mais predisposta a protegê-la e garanti-lhe a segurança.

Conclusão

A culpa que a filha de mãe narcisista carrega desde a sua infância até a idade adulta, independentemente de ter contato direto com a mãe, é o sentimento mais tóxico daqueles que constituem seu legado narcisista. Quando no contexto deste relacionamento, é, na maioria das vezes, um sentimento irracional e injustificável quando avaliado sob uma perspectiva objetiva. Mesmo quando considerada “normal”, denota uma falta de autoentendimento e amor-próprio, enquanto reflete um processo de adestramento que se faz possível através da reunião dos seguintes fatores:

Comportamental: no período da infância ou de intenso aprendizado, comportamento aprovado pela mãe narcisista é reforçado até se tornar um hábito. A filha de mãe narcisista que admite culpa pela mãe, seja por suas falhas, fraquezas, perdas ou defeitos, aprende que o ato “favorece” seu relacionamento com ela, pois a satisfaz e a apazigua ao mesmo tempo. Como está sempre carente de afeto, usa da culpa como moeda para obter o “amor” da mãe narcisista.

Cognitivo: por estar em processo de desenvolvimento e não totalmente apta a julgar o comportamento humano com grande precisão e coerência, a filha de mãe narcisista acha lógico se sentir culpada pelo que acontece de errado na vida da mãe, ou seja, confia nela assim como em seus humores, pois a mãe (parece ser) é superior intelectualmente. Além de fazer sentido, é muito mais fácil acreditar que “não é boa o suficiente” como justificativa pela insatisfação da mãe, do que tentar desvendar suas verdadeiras motivações obscuras.

Evolutivo: como elaborado, aceitar a culpa pelo comportamento e vulnerabilidades da mãe, como sua incapacidade de resolver problemas e se autorregular emocionalmente de forma adulta e independente, permite que a filha de mãe narcisista garanta abrigo, proteção e alimento para assegurar sua sobrevivência.

Emocional: A culpa, por mais tóxica que seja, é bem mais suportável do que a rejeição materna narcisista. A culpa ajuda a filha de mãe narcisista a intelectualizar seu sofrimento (“a mamãe está braba/não me ama porque fiz algo de errado, se eu fizer tudo certo, não ficará mais braba/ me amará) e atenuá-lo, tornando a sua atenção a uma atitude de potencial mais “produtivo”.

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