Eu fiz o melhor que eu pude

“Eu fiz o melhor que eu pude”, diz a mãe narcisista. Dá para acreditar?

Se você alguma vez tentou confrontar a sua mãe narcisista em relação à atitude abusiva dela, o chavão “eu fiz o melhor que eu pude” já é conhecido seu.

Confrontar uma mãe narcisista não é uma tarefa fácil, pois narcisistas não reconhecem seus erros. A sua mãe pode até compreender o mal que lhe causou, mas nunca admitirá para você ou para quem quer que seja que o comportamento dela não é nem nunca foi apropriado, tampouco condizente com o de uma mãe de verdade. Nada, nem mesmo o sofrimento e a agonia da própria filha, fica entre a sua mãe narcisista e a imagem de perfeição absoluta que ela se esforça tanto em projetar.

Como a sua mãe narcisista necessita fazer com que você se sinta pequena e insignificante para ficar bem consigo mesma, ela fará tudo ao seu alcance para perpetuar o desequilíbrio de forças entre vocês duas. Na companhia da sua mãe, cabe-lhe o papel de eterna criança incompetente. Quando a dinâmica familiar é regida pela tirania narcisista materna, somente quem pode brilhar é a sua mãe.

eu fiz o melhor que eu pude
Os chavões são usados pela mãe narcisista para manipular a filha psicologicamente

A verdade oscila conforme o desejado pela sua mãe narcisista, toda e qualquer tentativa sua de resgate de dignidade é rejeitada com grande destreza por ela. A ideia de enfrentá-la para tentar melhorar o relacionamento entre vocês duas pode até soar como um ato supermaduro em teoria, mas, na prática, revela-se como perda de tempo. Isso se deve ao fato de que a sua mãe narcisista usa de táticas as menos dignas para se autopreservar. De acordo com a mente infantil e transtornada dela, negar a responsabilidade da própria atitude é a maneira mais efetiva de manter o status quo, ou seja, de alimentar a ilusão de que é de fato superior e merecedora de tratamento especial.

Na prática, a tática da sua mãe narcisista é muito simples. Primeiramente, nega ter abusado de você psicologicamente, com a cara mais lavada do mundo. Como possui um talento nato para a dissimulação, faz tudo para lhe desmoralizar e acabar com a credibilidade de sua reivindicação. Quando você a confronta a respeito dos ataques verbais sofridos durante sua vida toda, ela a chama de “sensível”, “mentirosa” ou até mesmo “louca”. Segundo ela, nada do que você diz realmente aconteceu.

Se você mantém a sua opinião e insiste em provar o seu ponto, citando inúmeras ocasiões em que se sentiu completamente humilhada e rejeitada por ela, assim como as várias cicatrizes emocionais que ainda carrega na sua autoestima por ter sido tão maltratada, ela, então, sente- se pressionada a mudar de tática. Aí é quando a chantagem emocional entra em cena com força total.

Quando acuada, a sua mãe narcisista usa de seus dotes artísticos para virar a mesa do jogo e colocar-lhe de volta no seu lugar, ou seja, abaixo dela. Atuando no papel de mãe injustiçada, torna-se a “mãe-coitada” – a heroína das matriarcas incompreendidas que sofrem nas mãos de famílias exploradoras.

É neste momento que chavões da sabedoria do senso comum, como “eu fiz o melhor que eu pude”, “ser mãe não é fácil” ou “trabalho de mãe nunca é valorizado”, colorem o discurso da sua mãe narcisista. Após uma torrente de explicações falsas e repletas de autopiedade, ela conclui, profundamente “magoada”:

“Eu fiz o melhor que eu pude”

Normalmente, a conversa acaba por aqui e a vitória, é claro, é da sua mãe narcisista (como de costume). Como filha de mãe narcisista, você foi condicionada a se concentrar exclusivamente nos sentimentos e necessidades emocionais da sua mãe, a sua primeira reação ao vê-la em um estado de aparente sofrimento e dizendo “eu fiz o melhor que eu pude” é se concentrar em remediá-lo. Ao vê-la se afogando em uma piscina de autopiedade, o seu impulso natural é de estender a mão para resgatá-la.

Ser tratada como cidadã de segunda classe, desde a infância até a idade adulta, é exasperante. A indignação de nunca ser ouvida e de seus sentimentos permanecerem sem serem respeitados, converte-se em uma intensa raiva e amargura insuportáveis com o passar do tempo. Você merece ser ouvida. Chegou a hora de fazer jus ao seu sofrimento.

No meu livro Prisioneiras do Espelho, Um Guia de Liberdade Pessoal para Filhas de Mães Narcisistas, proponho técnicas terapêuticas para ajudar filhas de mães narcisistas a lidarem com sentimentos antagônicos. Um dos exercícios de que eu mais gosto é “A Carta”. No Prisioneiras… convido filhas de mães narcisistas a escreverem uma carta para suas mães narcisistas, relatando o porquê de terem decidido cortar o contato com elas. O intuito desta carta não é de ser enviada à destinatária, mas de servir como veículo de desabafo.

Para algumas filhas de mães narcisistas, contudo, faz-se necessário confrontar a mãe narcisista face a face, embora seja um ato que desencorajo no meu livro. Como narcisistas são incapazes de reconhecer de forma genuína o mal que causam as outras pessoas, esperar que a sua mãe se sinta culpada pelo que fez e melhore seu comportamento definitivamente é uma esperança irrealista. Entretanto, entendo que o desejo de colocar para fora a dor que você sente diretamente para a praticante do abuso, ou seja, a sua mãe narcisista é, muitas vezes, voraz.

Se você estiver decidida a confrontá-la, eis como fazê-lo: quando a sua mãe começar com a ladainha de mãe-coitada e usar o chavão “eu fiz o melhor que eu pude”, dirija-se a ela de maneira empática, mas categórica, e dispare: “Eu entendo que ser mãe não é fácil e ter um filho é uma grande responsabilidade, no entanto, o MEU sofrimento é real e deve ser reconhecido. Eu não pedi para nascer, tampouco de ser tratada com tanta indiferença e menosprezo pela minha própria mãe. Você, como pessoa adulta, teve a escolha de ter filhos, assim como os recursos necessários para lidar com os problemas inerentes a esta escolha de forma madura. Eu, como criança indefesa e dependente, não tive escolha de ser atacada verbalmente por você, tampouco conhecimento suficiente para entender a verdadeira natureza da sua frustação. Eu sou sua filha e não a responsável por como você se sente ou pelas suas escolhas.”

Eu fiz o melhor que eu pude? Lembre-se do que o “melhor” da sua mãe narcisista e perfeccionista representa, em realidade. Lembre-se do esmero e dedicação que ela aplica em tudo o que interessa a ela, como, por exemplo, quando o objetivo é projetar uma imagem de grandeza. Agora compare este melhor com o “melhor” que ela afirma ter empreendido em relação a você. Faz qualquer sentido?