Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?

Como já ouvi muitos de meus clientes usando os termos “codependência” e “dependência emocional” como se possuíssem o mesmo significado e os afetassem da mesma maneira, achei pertinente usar este espaço para esclarecer a diferença entre os dois. Visto que ambos são conceitos relevantes no contexto de abuso narcisista, mães tóxicas e relacionamentos disfuncionais e abusivos, é necessário que você aprenda a distingui-los para compreender a forma como interferem em seu desenvolvimento, sua qualidade de vida e de relacionamentos. Começaremos, então, explorando a codependência.

Qual é a diferença entre a codependência e a dependência emocional?
A filha de mãe narcisista toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora para sentir-se “amada” por ela

A codependência

Um indivíduo codependente é aquele que usa a dependência que os outros têm nele para se sentir amado e seguro, tanto consigo como em um relacionamento.  Um exemplo clássico de codependência é o do marido ou esposa que ignora o alcoolismo do(a) parceiro(a) ou nega que seja um problema para contentá-lo(a) e garantir a “estabilidade” do relacionamento. Análogo à filha de mãe narcisista que toma para si a responsabilidade do bem-estar da genitora e de seu relacionamento com ela, culpando-se por problemas que não são seus para sentir-se “amada” e aceita por ela. Logo, a filha de mãe narcisista é codependente quando usa a dependência (emocional, psicológica, financeira etc.) da mãe em si para sentir-se valorizada e manter um relacionamento “harmonioso” com esta.  A codependência, portanto, é sempre disfuncional, pois direciona o foco do indivíduo para fora de si, assim como para as estratégias de enfrentamento de problemas mal-adaptativas, retardando o seu desenvolvimento. Além disso, a codependência, como um comportamento que corrobora e facilita as atitudes impróprias de terceiros, ajuda a perpetuar os problemas de saúde mental e relacionamento e, até, o abuso.

Por esta razão, a filha de mãe narcisista, quando age de forma codependente, confunde a dedicação à mãe com os comportamentos facilitadores do narcisismo materno, tornando-os a sua fonte central de autoengrandecimento, quando não passam de um falso impulsionador de autoestima. Está sempre pensando na mãe e priorizando as suas necessidades, opiniões, vontades e seus sentimentos motivada, na maioria das vezes, por sentimentos de inadequação como a culpa, vergonha e o medo e não por amor e respeito, mas para ter um senso interno de segurança. Esta tendência, contudo, compromete a sua capacidade não só de se equilibrar emocionalmente de modo independente, bem como criar uma identidade sólida e autônoma de sua genitora. Como consequência, a codependência, uma vez que firmemente estabelecida como um comportamento que a auxilia a lidar com o estresse e com um problema sem solução ou que está além de seus poderes, tal como o narcisismo, desencadeia um processo de dependência emocional que, com o passar do tempo, torna-se um traço de personalidade e o mecanismo pelo qual a filha consegue restaurar o seu “equilíbrio” emocional e amor-próprio (Eu sou amada/me sinto bem quando os outros precisam de mim/priorizo as necessidades dos outros).

A dependência emocional

Todos necessitamos de uma conexão emocional verdadeira com outro ser humano, sobretudo com os nossos pais, para nos sentirmos seguros, amados e aptos. A criança que desenvolve um apego seguro com a mãe – ou que confia nela e neste relacionamento como uma fonte sólida de amor, proteção e bem-estar emocional – torna-se um adulto autoconfiante, capaz e autônomo emocionalmente (Bowlby, 1988). É, através desta união, que se sente segura para explorar o mundo, receber o apoio emocional de que necessita e aprende a confiar nos relacionamentos humanos e a se beneficiar destes de uma forma saudável e sem medo. Isto favorece o seu crescimento e desenvolvimento, além de enriquecer a sua experiência e contribuir para o seu sucesso tanto nos campos pessoal como profissional. Neste contexto, a dependência emocional com a mãe permite que a criança concentre-se em si, além de prepará-la para operar de maneira funcional na área dos relacionamentos. Portanto, é benéfico e produtivo precisar de alguém quando esta dependência complementa o indivíduo e não o anula, liberta-o emocionalmente e não o oprime, fortalece a sua identidade e não a sufoca.

A dependência emocional é prejudicial quando motiva a criança – como a filha de mãe narcisista – a buscar este senso de segurança exclusivamente fora de si, já que não teve esta necessidade suprida pelo relacionamento com a genitora (precisamente, no período crítico de 0 a 2 anos[i]). Este tipo de dependência é exagerada e disfuncional, pois aponta o seu senso de direção para fora de si mesma e longe de sua própria essência, sentimentos, vontades, opiniões e interesses, além de mantê-la presa a uma visão de mundo e dos relacionamentos centrada na desconfiança, no sacrifício e sentimentos de culpa, medo, vergonha e insatisfação pessoal. Este tipo de dependência faz com que você…

  • Somente sinta-se amado quando recebe a aprovação de terceiros, corresponde às expectativas dos outros ou se torna quem querem que seja
  • Somente sinta-se feliz quando faz os outros se sentirem bem
  • Somente sinta-se calmo quando diz “sim” a tudo e a todos
  • Somente sinta-se completo quando está na companhia dos outros ou de quem é importante para si
  • Somente sinta-se valorizado quando alguém necessita ou precisa de você, quando o seu mérito é reconhecido ou se sente responsável pelo bem-estar dos envolvidos nos seus relacionamentos, bem como dos relacionamentos em si
  • Somente sinta-se centrado e disposto a concentrar-se na própria vida e nos próprios projetos quando os seus relacionamentos estão indo bem, ou quando consegue racionalizar os sentimentos de inadequação conectados a estes através da culpa (“estou me sentindo mal não porque a minha mãe não me ama, mas porque fiz algo de errado”).

A codependência e dependência emocional são usadas pela família tóxica como ferramentas de manipulação e abuso, ou armadilhas psicológicas que a mantém presa neste relacionamento. Enquanto que se revela impossível sentir-se genuinamente satisfeito sem nenhum tipo de conexão emocional com outro ser humano, é impraticável realizar-se tanto individualmente como nos relacionamentos quando se é escravo destes, tais como dos comportamentos codependentes que mantém para obter um senso de autoestima, identidade e equilíbrio emocional. A melhor forma de lidar tanto com a codependência como a dependência emocional é por meio de uma atitude autoafirmativa, confiante e autônoma, honrando as emoções e os limites pessoais e exercendo o seu direito à liberdade pessoal. Se este é o seu objetivo, recomendo a leitura de meu segundo livro, Filhas de Mães Narcisistas, Conhecimento Cura.

Referência:

Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. New York, NY: Basic Books.

[i] Para mais informações sobre o processo de formação e estilo de apego e como influencia o desenvolvimento (“Teoria do Apego”), recomendo a leitura dos trabalhos de Jown Bowlby e Mary Ainsworth.